{"id":3535095318,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/12958-domingo-iii-da-pascoa-o-corpo-de-jesus-envolvido-no-corpo-da-escritura"},"modified":"2025-11-07T16:34:00","modified_gmt":"2025-11-07T16:34:00","slug":"domingo-iii-da-pascoa-o-corpo-de-jesus-envolvido-no-corpo-da-escritura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-iii-da-pascoa-o-corpo-de-jesus-envolvido-no-corpo-da-escritura\/","title":{"rendered":"Domingo III da P\u00e1scoa: \u00abO Corpo de Jesus envolvido no corpo da Escritura\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031_160503044443.jpg\" \/><\/p>\n<p><p data-adtags-visited=\"true\">At 3,13-15.17-19; Sl 4; 1 Jo 2,1-5a; Lc 24,35-48<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">1. \u00c9-nos dada hoje, Domingo III da P\u00e1scoa, a gra\u00e7a de escutar a p\u00e1gina sublime do Evangelho de Lucas 24,35-48, em que Jesus Ressuscitado se faz ver aos seus disc\u00edpulos reunidos, que n\u00e3o s\u00e3o apenas os Onze, mas \u00abos Onze e os outros com eles\u00bb (v. 33). Jesus Ressuscitado apresenta-se no MEIO deles, e sa\u00fada-os com a Paz (<em>eir\u00ean\u00ea<\/em>) (v. 36), tema que este Evangelho privilegia, usando o termo por 13 vezes [Mt 4x; Mc 1x; Jo 6x; At 7x], uma esp\u00e9cie de\u00a0<em>rio de paz<\/em>\u00a0que percorre o Evangelho de Lucas desde o coro ang\u00e9lico de 2,14, aquando do nascimento de Jesus, at\u00e9 ao fim. A p\u00e1gina de Lucas hoje proclamada, e que pretende mostrar-nos a evid\u00eancia da Ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus, n\u00e3o convence os seus disc\u00edpulos e produz mesmo o efeito contr\u00e1rio, pois \u00e9-nos dito pelo narrador que os disc\u00edpulos ficam assustados (<em>pto\u00eathentes<\/em>) e amedrontados (<em>\u00e9mphoboi<\/em>), n\u00e3o por saberem que ali estava Deus, mas por julgarem estar a ver um esp\u00edrito ou um fantasma (<em>pne\u00fbma<\/em>) (v. 37). Jesus questiona a incapacidade destes disc\u00edpulos e o ceticismo (<em>dialogism\u00f3s<\/em>) que os envolve (v. 38), avan\u00e7a ainda novos dados, mas a\u00a0<em>incredulidade<\/em>\u00a0(<em>apist\u00eda<\/em>) permanece, n\u00e3o obstante uns laivos de alegria: duvidam ao mesmo tempo que se alegram, alegram-se com facilidade, acreditam com dificuldade (v. 41), um pouco \u00e0 semelhan\u00e7a de quanto dito no Evangelho de Mateus que refere com mais racionalidade que \u00abuns adoram e outros duvidam\u00bb (Mt 28,17). O leitor que se debru\u00e7a sobre esta p\u00e1gina pode ser assaltado por quest\u00f5es como estas: a) o que ter\u00e1 acontecido \u00e0queles disc\u00edpulos depois da morte de Jesus?; b) como chegaram ao ponto de afirmar a sua ressurrei\u00e7\u00e3o?; c) ter\u00e3o sido v\u00edtimas de alguma desmedida ilus\u00e3o?; d) autoconvenceram-se de que a obra de Jesus n\u00e3o podia terminar com aquela morte?; e) \u00e9 a partir de si mesmos que chegam \u00e0 f\u00e9 na ressurrei\u00e7\u00e3o, e que come\u00e7am a anunciar convictamente que Jesus est\u00e1 vivo? A p\u00e1gina do Evangelho de hoje ajuda-nos a compreender melhor os acontecimentos. Mas fica desde j\u00e1 claro que a Ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus n\u00e3o pode ser inven\u00e7\u00e3o das mentes desiludidas, e sem r\u00e9stia de esperan\u00e7a, dos disc\u00edpulos (cf. Lc 24,20-21). S\u00f3 o Ressuscitado pode tomar a iniciativa de p\u00f4r outra vez a arder o cora\u00e7\u00e3o em cinzas dos disc\u00edpulos, recorrendo \u00e0s Escrituras (v. 32).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">2. Voltemos, ent\u00e3o, ao princ\u00edpio. Ainda os dois disc\u00edpulos de Ema\u00fas faziam exegese demorada (<em>exego\u00fbnto<\/em>: impf. de\u00a0<em>ex\u00eag\u00e9omai<\/em>) das coisas acontecidas no caminho e de como Jesus se deu a conhecer (<em>egn\u00f4sth\u00ea<\/em>: aor. pass. de\u00a0<em>gin\u00f4sk\u00f4<\/em>) a eles (<em>auto\u00ees<\/em>), dativo do benefici\u00e1rio, no partir do p\u00e3o (<em>en t\u00ea kl\u00e1sei to\u00fb \u00e1rtou<\/em>) (v. 35), quando o pr\u00f3prio Ressuscitado irrompeu e ficou de p\u00e9 no MEIO deles (o lugar da presid\u00eancia), e saudou-os, dizendo: \u00abA Paz convosco!\u00bb (v. 36). O leitor estaria talvez \u00e0 espera de uma rece\u00e7\u00e3o apote\u00f3tica, do rebentamento de recalcadas emo\u00e7\u00f5es, de incontidos gritos de j\u00fabilo e de alegria. E, em vez disso, assistimos ao extravasar de medos, perturba\u00e7\u00e3o e d\u00favidas, o que mostra e real\u00e7a outra vez a sua desilus\u00e3o sem sa\u00edda, pois o que pensavam estar a ver diante deles, no MEIO deles, era um esp\u00edrito, um fantasma (<em>pne\u00fbma<\/em>)! (vv. 37 e 39).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">3. Digamo-lo outra vez: esta rea\u00e7\u00e3o \u00e9 importante, e manifesta que estes disc\u00edpulos de Jesus, ap\u00f3s aquela morte de Jesus, j\u00e1 tinham desistido de Jesus e nada mais esperavam dele (v. 21). Qualquer novo in\u00edcio s\u00f3 poderia vir de fora, s\u00f3 poderia vir de Deus. Naqueles disc\u00edpulos n\u00e3o se vislumbrava nenhuma r\u00e9stia de esperan\u00e7a, nenhuma acha ainda fumegava. Tudo cinza do mais cinzento que h\u00e1. \u00c9 a maneira de a B\u00edblia inteira real\u00e7ar as interven\u00e7\u00f5es de Deus. Deus n\u00e3o interv\u00e9m como consequ\u00eancia de um pedido ou desejo nosso, para satisfazer os nossos anseios ou proje\u00e7\u00f5es mais insistentes. \u00c9 sempre pura iniciativa sua, do nosso lado, impens\u00e1vel, imprevis\u00edvel e incontrol\u00e1vel. Ao mostrar as coisas desta maneira, a B\u00edblia, toda a B\u00edblia, antecipa-se em muitos s\u00e9culos aos \u00abmestres da suspeita\u00bb (Feuerbach, Marx, Nietzsche e Freud) e dissolve\u00a0<em>avant la lettre<\/em>\u00a0a sua den\u00fancia de um Deus produzido ou projetado pelos nossos anseios e desejos. \u00c9, portanto, de assinalar que estes disc\u00edpulos de Jesus deem o \u201cdossier Jesus\u201d, que os encantou, por encerrado, e comecem \u00e0s apalpadelas a planear \u00e0 sua maneira o \u201cp\u00f3s-Jesus\u201d. Como se Jesus n\u00e3o estivesse aqui, no MEIO de n\u00f3s! E como se n\u00e3o houvesse mais nenhuma surpresa para engolir! N\u00e3o nos esque\u00e7amos da verdade escondida aos olhos dos dois disc\u00edpulos de Ema\u00fas: \u00abTu \u00e9s o\u00a0<em>\u00fanico<\/em>\u00a0(<em>m\u00f3nos<\/em>) que n\u00e3o sabe as coisas que aconteceram em Jerusal\u00e9m nestes dias?\u00bb (v. 18). Sim, Ele \u00e9 o\u00a0<em>\u00fanico<\/em>\u00a0que n\u00e3o sabe aquelas coisas, estas coisas, como n\u00f3s as sabemos! Sabe-as de outra maneira, da maneira certa!<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">4. \u00c9 assim que Jesus vem sem ser esperado e sem se fazer anunciar. E porque n\u00e3o era poss\u00edvel, da nossa parte, acreditar que fosse Ele, Ele tem mesmo de se identificar, coisa estranha, como se o dono da casa \u2013 e Ele \u00e9 o dono da casa: \u00abSou eu pr\u00f3prio\u00bb (<em>eg\u00f4 eimi aut\u00f3s<\/em>) (v. 39) \u2013, para entrar na sua pr\u00f3pria casa, fosse obrigado a identificar-se. Temos, ent\u00e3o, por um lado, o desnorte dos disc\u00edpulos, e, por outro, Jesus que quer ser por eles reconhecido como o Ressuscitado. Para esse reconhecimento, Jesus vai fazer uso de todos os seus trunfos, mas n\u00e3o exibe qualquer fotografia ou documento. Reprova o ceticismo (<em>dialogism\u00f3s<\/em>) que habita o nosso cora\u00e7\u00e3o (v. 38), mostra as m\u00e3os e os p\u00e9s, como em Jo\u00e3o 20,20 e 27 mostra as m\u00e3os e o lado, que levam a reconhecer o Ressuscitado como o Crucificado, sendo as m\u00e3os e os p\u00e9s, como as m\u00e3os e o lado, as marcas da sua vida dada at\u00e9 ao fim (Jo 13,1). No texto que estamos a ler, sujeita-se mesmo a deixar-se apalpar, para dissipar a ideia do fantasma que os seus disc\u00edpulos t\u00eam na cabe\u00e7a e que, ao contr\u00e1rio de Jesus, n\u00e3o tem carne nem ossos (v. 39-40). Para afastar em definitivo a ideia do fantasma, Jesus come diante deles uma posta de peixe assado (v. 42-43). Note-se uma vez mais que n\u00e3o \u00e9 pelo rosto que identificamos Jesus Ressuscitado. Se assim fosse, e se Jesus mostrasse o rosto, aqueles disc\u00edpulos, que com Ele tinham convivido de perto, t\u00ea-lo-iam identificado sem demora. Mas n\u00e3o \u00e9 pelo rosto que Jesus se identifica. \u00c9 a sua maneira de ser que diz Quem Ele \u00e9. E a sua maneira de ser \u00e9 dar a vida at\u00e9 ao fim. Maneira de ser e de estar connosco. No meio de n\u00f3s (v. 36), \u00e0 nossa frente (v. 43), presidindo-nos e precedendo-nos e surpreendendo-nos. Como a Escritura aberta e interpretada.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">5. Sintom\u00e1tico que aqueles disc\u00edpulos, vendo o que veem, nada digam. Permanecem mudos e incr\u00e9dulos! (v. 41). Eles que antes tinham a boca cheia de palavras e o cora\u00e7\u00e3o de f\u00e9 (vv. 34-35)! Mas Jesus continua a ser, \u00e9 sempre, n\u00e3o o simples orador \u00e0 maneira dos escribas, mas Aquele que\u00a0<em>fala<\/em>\u00a0com autoridade (Mc 1,22). Ele \u00e9 a Palavra criadora de mundos novos e de cora\u00e7\u00f5es novos (Jo 1,3). Quando Ele surge, um mundo novo come\u00e7a a acontecer. Dentro e fora de n\u00f3s. E como \u00e9 que n\u00f3s podemos falar, se ainda agora estamos a nascer?! Portanto, Ele\u00a0<em>fala<\/em>\u00a0(<em>lal\u00e9\u00f4<\/em>)\u00a0<em>como fala a Escritura<\/em>: \u00ab<em>\u00c9 necess\u00e1rio<\/em>\u00a0(<em>de\u00ee<\/em>) que\u00a0<em>sejam cumpridas<\/em>\u00a0(<em>pl\u00ear\u00f4th\u00eanai<\/em>: inf. aor. pass. de\u00a0<em>pl\u00ear\u00f3\u00f4<\/em>)\u00a0<em>todas<\/em>\u00a0(<em>p\u00e1nta<\/em>) as coisas\u00a0<em>escritas<\/em>\u00a0(<em>gegramm\u00e9na<\/em>: part. perf. pass. de\u00a0<em>gr\u00e1ph\u00f4<\/em>) na Lei de Mois\u00e9se nos Profetas e nos Salmos\u00a0<em>acerca de mim<\/em>\u00a0(<em>per\u00ec emo\u00fb<\/em>). [\u2026] Assim\u00a0<em>foi escrito<\/em>\u00a0(<em>g\u00e9graptai<\/em>: perf. pass. de\u00a0<em>gr\u00e1ph\u00f4<\/em>) que o Cristo havia de sofrer (1) e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia (2) e de ser\u00a0<em>anunciada<\/em>\u00a0(<em>k\u00ear\u00fdss\u00f4<\/em>) (3) no seu nome a convers\u00e3o para a remiss\u00e3o dos pecados a todas as na\u00e7\u00f5es\u00bb (vv. 44-47). E acrescenta com autoridade: \u00abV\u00f3s sois\u00a0<em>testemunhas<\/em>\u00a0(<em>m\u00e1rtyres<\/em>) destas coisas\u00bb (v. 48). Ou seja: de nada vale a insist\u00eancia sobre a materialidade do seu corpo enquanto n\u00e3o formos levados a v\u00ea-lo integrado no corpo da Escritura. N\u00e3o \u00e9 a evid\u00eancia incontest\u00e1vel da exist\u00eancia corp\u00f3rea de Jesus que produz a f\u00e9, e \u00e9 tamb\u00e9m verdade que a Ressurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa simplesmente voltar da morte a esta vida terrena. Os factos, em si, s\u00e3o mudos e amb\u00edguos, e reclamam um crit\u00e9rio de\u00a0<em>interpreta\u00e7\u00e3o<\/em>. Esse crit\u00e9rio \u00e9 a\u00a0<em>Escritura<\/em>. \u00c9, portanto, necess\u00e1rio que Jesus nos abra \u00aba mente (<em>no\u00fbs<\/em>) para compreendermos as Escrituras\u00bb (v. 45). Sim, \u00e9 s\u00f3 com o seu\u00a0<em>falar de revela\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0(<em>lal\u00e9\u00f4<\/em>) com\u00a0<em>autoridade<\/em>\u00a0(<em>exous\u00eda<\/em>) e com as Escrituras abertas, a transbordar, que Ele dissipa as nossas d\u00favidas e medos, ao mesmo tempo que nos indica o rumo da Escritura, que abre diante dos nossos olhos a compreens\u00e3o do Ressuscitado e o sentido obrigat\u00f3rio da miss\u00e3o. E tamb\u00e9m s\u00f3 agora, com a luz que brota da interpreta\u00e7\u00e3o das Escrituras, os disc\u00edpulos experimentam, n\u00e3o uns laivos de alegria, mas a \u00abalegria grande\u00bb (<em>char\u00e1 meg\u00e1l\u00ea<\/em>) (v. 52).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">6. O que nos \u00e9 dado compreender \u00e9 que a morte e a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus fazem parte dos des\u00edgnios de Deus, o que implica compreender que a hist\u00f3ria pessoal de Jesus, enquanto hist\u00f3ria do Messias sofredor e glorioso, est\u00e1 inscrita dentro da hist\u00f3ria mais ampla narrada na Escritura, e \u00e9 por isso que \u00e9 necess\u00e1rio que a nossa mente seja por Ele aberta para podermos compreender a Escritura. E j\u00e1 agora, porque o texto tamb\u00e9m o diz, a hist\u00f3ria da Igreja nascente s\u00f3 pode ser entendida dentro da hist\u00f3ria de Jesus e dentro do andamento da Escritura. \u00c9 s\u00f3 neste horizonte de compreens\u00e3o que se pode entender que a Miss\u00e3o do an\u00fancio do Evangelho n\u00e3o \u00e9 facultativa, mas se insere na\u00a0<em>necessidade<\/em>\u00a0do plano de Deus, ao mesmo n\u00edvel da morte e da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus. De forma clara, o crist\u00e3o \u00e9 batizado na morte de Cristo e vive a vida nova da Ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, mas tem de viver tamb\u00e9m do\/e para o an\u00fancio do Evangelho. \u00c9 este o \u00fanico lugar do Novo Testamento que guarda esta tripla\u00a0<em>necessidade<\/em>: sofrimento e morte de Jesus (1), ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus (2), an\u00fancio do Evangelho a todas as na\u00e7\u00f5es (3). Nos outros lugares do Novo Testamento, esta\u00a0<em>necessidade<\/em>\u00a0afeta apenas as duas primeiras realidades.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">7. Esta\u00a0<em>necessidade<\/em>\u00a0divina ou teol\u00f3gica fica registada no uso do verbo grego\u00a0<em>de\u00ee<\/em>\u00a0e das coisas para sempre\u00a0<em>escritas<\/em>\u00a0em todas as Escrituras. O para sempre\u00a0<em>escritas<\/em>\u00a0fica gravado no uso dos dois perfeitos (<em>gegramm\u00e9na<\/em>\u00a0e\u00a0<em>g\u00e9graptai<\/em>, respetivamente partic\u00edpio perfeito passivo e perfeito passivo do verbo\u00a0<em>gr\u00e1ph\u00f4<\/em>). Se o uso do perfeito indica o \u00abpara sempre\u00bb, o uso da forma passiva aponta para Deus, tratando-se, como \u00e9 usual classificar-se, de um passivo divino ou teol\u00f3gico.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">8. Importa ainda precisar que este\u00a0<em>necess\u00e1rio<\/em>\u00a0an\u00fancio do Evangelho n\u00e3o afeta apenas os Onze, mas \u00abos Onze e os outros com eles\u00bb (v. 33), entenda-se, todos os disc\u00edpulos de Jesus, pois \u00e9 perante todos [\u00abos Onze e os outros com eles\u00bb] \u2013 n\u00e3o h\u00e1 mudan\u00e7a de cen\u00e1rio \u2013 que Jesus pronuncia o luminoso\u00a0<em>falar de revela\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0(vv. 44-47). Sem equ\u00edvocos ent\u00e3o: esta miss\u00e3o afeta-nos a todos, todos os disc\u00edpulos de Jesus de todos os tempos. Fica ainda claro que o\u00a0<em>an\u00fancio<\/em>\u00a0(<em>k\u00earygma<\/em>) do Evangelho n\u00e3o decorre por conta e risco do\u00a0<em>anunciador<\/em>\u00a0(<em>k\u00earyx<\/em>), que n\u00e3o o faz em seu pr\u00f3prio nome; antes, apresenta-se sempre vinculado a Jesus Cristo, pois o\u00a0<em>an\u00fancio<\/em>\u00a0\u00e9 feito \u00abem seu nome\u00bb (v. 47), \u00e9 Ele que envia o\u00a0<em>anunciador<\/em>. E este\u00a0<em>an\u00fancio<\/em>\u00a0do Evangelho n\u00e3o fica circunscrito a um horizonte limitado, paroquial, diocesano, nacional, continental, pois o seu verdadeiro horizonte s\u00e3o \u00abtodas as na\u00e7\u00f5es\u00bb (v. 47), \u00abtodos os lugares\u00bb, todos os cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">9. Imp\u00f5e-se ainda uma anota\u00e7\u00e3o sobre aquela importante afirma\u00e7\u00e3o final de Jesus, que nos designa como\u00a0<em>testemunhas<\/em>\u00a0(<em>m\u00e1rtyres<\/em>). \u00c9 a primeira vez que os disc\u00edpulos s\u00e3o designados como\u00a0<em>testemunhas<\/em>. No mundo de hoje, tal como o conhecemos, falar de\u00a0<em>testemunhas<\/em>\u00a0\u00e9 falar de algu\u00e9m que, tendo presenciado um acidente ou um crime, se compromete depois, no tribunal, a apresentar o seu ponto de vista sobre o sucedido. Algu\u00e9m, portanto, que \u00e9 chamado a comprometer-se com uma hist\u00f3ria que n\u00e3o \u00e9 dele. Para evitar inc\u00f3modos e chatices, acabamos muitas vezes por dizer logo \u00e0 partida que n\u00e3o vimos nada. Mas, aqui, \u00e9 Jesus que nos designa como\u00a0<em>testemunhas<\/em>. Convenhamos que esta designa\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os como\u00a0<em>testemunhas<\/em>\u00a0n\u00e3o tem sido nem \u00e9 habitual. A linguagem corrente cataloga-nos mais depressa como \u00abpraticantes\u00bb ou \u00abn\u00e3o-praticantes\u00bb. Mas aqui somos designados como \u00ab<em>testemunhas<\/em>\u00bb dos acontecimentos de Jesus Cristo. Aquando da necess\u00e1ria substitui\u00e7\u00e3o de Judas no col\u00e9gio apost\u00f3lico, Pedro tra\u00e7a assim os requisitos necess\u00e1rios que devem presidir \u00e0 escolha do novo membro que venha a entrar no grupo dos Doze: \u00ab\u00c9 necess\u00e1rio (<em>de\u00ee<\/em>), pois, que, dos homens que vieram connosco (<em>syn\u00e9rchomai<\/em>) durante todo o tempo em que entrou e saiu \u00e0 nossa frente o Senhor Jesus, tendo come\u00e7ado desde o Batismo de Jo\u00e3o at\u00e9 ao dia em que Ele foi arrebatado (<em>anel\u00eamphth\u00ea<\/em>) diante de n\u00f3s, um destes se torne connosco\u00a0<em>testemunha<\/em>\u00a0(<em>m\u00e1rtys<\/em>) da sua Ressurrei\u00e7\u00e3o\u00bb (At 1,21-22). Somos, portanto, chamados a envolver-nos de tal modo na hist\u00f3ria e na vida de Jesus, a ponto de a fazermos nossa, para a transmitir aos outros, n\u00e3o com discursos inflamados ou esgotados, mas com a vida! Sim, aquela hist\u00f3ria e aquela vida s\u00e3o a nossa hist\u00f3ria e a nossa vida. A\u00ed est\u00e1 o estilo da testemunha e do evangelizador.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">10. \u00c9 neste ponto preciso e nesta\u00a0<em>necessidade<\/em>, que se refere aos des\u00edgnios de Deus, que S. Paulo, \u00abo maior mission\u00e1rio de todos os tempos\u00bb (Bento XVI) e \u00abmodelo de cada evangelizador\u00bb (S. Paulo VI), enxerta a sua vida e se entende a si mesmo, pois confessa: \u00abEvangelizar n\u00e3o \u00e9 para mim um t\u00edtulo de gl\u00f3ria, mas uma\u00a0<em>necessidade<\/em>\u00a0que se me imp\u00f5e\u00a0<em>desde fora<\/em>\u00a0(<em>ep\u00edkeitai<\/em>). Ai de mim se n\u00e3o Evangelizar!\u00bb (1 Cor 9,16).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">11. A\u00ed est\u00e1, ent\u00e3o, o importante acerto com a narrativa do Livro dos Atos dos Ap\u00f3stolos (3,13-19), que nos mostra Pedro no papel de\u00a0<em>testemunha<\/em>\u00a0(<em>m\u00e1rtys<\/em>) (v. 15) envolvendo-se e envolvendo outros na hist\u00f3ria \u00abdeste Jesus, que v\u00f3s entregastes\u00bb (v. 13), \u00abmas que Deus ressuscitou dos mortos\u00bb (v. 15). E a Primeira Carta de S. Jo\u00e3o (1,1-5) mostra-nos Jesus Cristo como nosso Advogado (<em>par\u00e1kl\u00eatos<\/em>) e v\u00edtima de expia\u00e7\u00e3o (<em>hilasm\u00f3s<\/em>) pelos pecados de todos.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">12. O canto sereno, \u00e0 serena luz da vela, do Salmo 4, que \u00e9 um canto noturno, enche-nos de paz e de confian\u00e7a e ensina-nos a viver serenamente, dia e noite, na companhia daquele Deus que se envolveu e envolve na nossa hist\u00f3ria e na nossa vida, realizando prod\u00edgios e reduzindo a fumo os \u00eddolos e as insensatas e orgulhosas manobras humanas. O poeta franc\u00eas Paul Claudel, que muitas vezes passeava pela B\u00edblia, parafraseou assim: \u00abH\u00e1 em mim esta paz que me leva ao sono. H\u00e1 em mim este tesouro da esperan\u00e7a que me deste\u00bb.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00a0<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>At 3,13-15.17-19; Sl 4; 1 Jo 2,1-5a; Lc 24,35-48 1. \u00c9-nos dada hoje, Domingo III da P\u00e1scoa, a gra\u00e7a de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2378586270,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[70],"class_list":["post-3535095318","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-liturgia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3535095318","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3535095318"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3535095318\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4294994951,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3535095318\/revisions\/4294994951"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2378586270"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3535095318"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3535095318"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3535095318"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}