{"id":3633943256,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/12086-domingo-de-ramos-ver-a-esperanca-e-cumprir-se"},"modified":"2025-11-07T16:33:54","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:54","slug":"domingo-de-ramos-ver-a-esperanca-e-cumprir-se","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-de-ramos-ver-a-esperanca-e-cumprir-se\/","title":{"rendered":"Domingo de Ramos: \u00abVer a Esperan\u00e7a e cumprir-se\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p class=\"has-text-align-justify\">1. Batizado com o Esp\u00edrito Santo no Jord\u00e3o, confirmado com o Esp\u00edrito Santo no Tabor, Jesus realizou a sua miss\u00e3o filial batismal anunciando o Evangelho do Reino de Deus e fazendo as suas \u00abobras\u00bb. A sua \u00abviagem\u00bb chega agora ao fim, na Judeia, em Jerusal\u00e9m, onde o seu Batismo\u00a0<em>deve<\/em>\u00a0(plano divino)\u00a0<em>ser consumado<\/em>\u00a0(ainda Lucas 12,49-50) na sua Morte-Ressurrei\u00e7\u00e3o Gloriosa: \u00fanica Fonte do Esp\u00edrito Santo para n\u00f3s, porque \u00fanica Fonte da Vida Eterna verdadeiramente Dada (sempre Atos 2,32-33; Jo\u00e3o 19,30 e 34; 7,38-39), pois n\u00e3o se alcan\u00e7a atrav\u00e9s da nossa programa\u00e7\u00e3o ou planifica\u00e7\u00e3o. As coisas supremas n\u00e3o s\u00e3o planific\u00e1veis. J\u00e1 est\u00e3o prontas para receber. A miss\u00e3o filial batismal do Filho de Deus finalmente consumada! \u00c9 que fomos, de facto, batizados na sua Morte (Romanos 6,3-4), e, com Ele, fomos\u00a0<em>j\u00e1<\/em>, para usar a vigorosa linguagem paulina, \u00abcom-sepultados\u00bb, \u00abcom-ressuscitados\u00bb, \u00abcom-vivificados\u00bb e \u00abcom-sentados\u00bb na Gl\u00f3ria! (Ef\u00e9sios 2,5-6; Colossenses 2,12-13: tudo verbos cunhados por Paulo e postos em aoristo (passado) hist\u00f3rico!). Formamos, por isso, \u00aba Igreja que Ele amou\u00bb (Ef\u00e9sios 5,25). A este grande amor de Cristo pela Igreja chama Paulo \u00abo mist\u00e9rio grande\u00bb (Ef\u00e9sios 5,32). N\u00f3s, a Igreja do amor de Cristo, somos, portanto, a Esposa bela, a nova Jerusal\u00e9m (Apocalipse 19,7-9; 21,2.9-14) que, juntamente com o Esp\u00edrito, diz ao Senhor Jesus: Vem! (Apocalipse 22,17).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">2. Embora o Evangelho deste Domingo de Ramos seja a Paix\u00e3o segundo S. Mateus 26,14-27,66, o tom deste Domingo de Ramos \u00e9 dado pela bela p\u00e1gina de Mateus 21,1-11, que nos mostra o Rei messi\u00e2nico a tomar posse da sua Cidade, a \u00abCidade do Grande Rei\u00bb (Salmo 45,5; 47,2-3; Tobias 13,11; Mateus 5,35), a Esposa bela que nascer\u00e1 do seu Sangue: Esposa c\u00famplice da Morte do Esposo, e benefici\u00e1ria da Morte do Esposo! Esposa, portanto, e no entanto! Que ao encontro do Esposo desce em vestido de noiva, n\u00e3o de vi\u00fava! (Apocalipse 21,2).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">3. Come\u00e7amos ent\u00e3o por Mateus 21,1-11, que d\u00e1 o tom a este Domingo. O Rei messi\u00e2nico toma posse da sua Cidade, a Filha de Si\u00e3o, a Esposa, e f\u00e1-lo de forma invulgar e surpreendente. At\u00e9 aqui, Jesus andou sempre a p\u00e9 por toda a parte, ou de barco, quando atravessava o mar da Galileia. E foi tamb\u00e9m a p\u00e9 que fez o caminho da Galileia para Jerusal\u00e9m, como fazem habitualmente os peregrinos que para l\u00e1 se dirigem. Todavia, depois de ter subido o\u00a0<em>Wadi el-Kelt<\/em>, vinte e sete quil\u00f3metros de \u00edngreme e dif\u00edcil subida, que ligam o o\u00e1sis de Jeric\u00f3 a Jerusal\u00e9m, ao chegar perto da aldeiazinha de Betfag\u00e9, Jesus faz uma paragem e d\u00e1 a dois dos seus disc\u00edpulos indica\u00e7\u00f5es muito precisas para irem \u00e0 povoa\u00e7\u00e3o em frente, onde encontrar\u00e3o logo uma jumenta presa e, com ela, um jumentinho. Jesus ordena que lhos tragam. E adianta que, se algu\u00e9m disser alguma coisa, responder\u00e3o que o Senhor precisa deles, mas que logo os devolver\u00e1 (cf. Mateus 21,2-3). Neste ponto da narrativa, o narrador refere, em parte em prolepse, que \u00abisto aconteceu para se cumprir o que foi dito pelo profeta: dizei \u00e0 Filha de Si\u00e3o: eis que o teu rei vem a ti, humilde, montado numa jumenta, num jumentinho, filho de uma jumenta\u00bb (Mateus 21,4-5). O profeta referido \u00e9 Zacarias 9,9-10 (ver abaixo). E \u00e9 dito, depois deste importante par\u00eantesis, que os disc\u00edpulos fizeram como o Senhor lhes ordenara, e trouxeram a jumenta e o jumentinho, e ainda que puseram sobre eles os seus mantos, tendo-se Jesus sentado sobre eles. \u00c9 dito tamb\u00e9m que a numerosa multid\u00e3o estendia os seus mantos no caminho, e outros cortavam ramos de \u00e1rvores e espalhavam-nos no caminho (Mateus 21,6-8), procedimento usual quando um novo rei subia ao trono (cf. 2 Reis 9,13). Enquanto isso, a multid\u00e3o que acompanhava Jesus gritava: \u00abHossana, Filho de David! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hossana no mais alto dos c\u00e9us!\u00bb (Mateus 21,9). \u00abHossana\u00bb \u00e9 um grito de j\u00fabilo, que significa \u00abSalva, por favor!\u00bb (Salmo 118,5), usado para saudar o Rei-que-Vem, \u00abAquele-que-Vem\u00bb (t\u00edtulo divino) (Salmo 118,26), com o Reino de David, o novo David, que vem no Nome do senhor! Foi assim que Jesus fez o caminho de Betfag\u00e9 at\u00e9 Jerusal\u00e9m, descendo o Monte das Oliveiras. Ao entrar em Jerusal\u00e9m, somos ainda informados que a cidade inteira se agitou e perguntava: \u00abQuem \u00e9 este?\u00bb, ao que a multid\u00e3o respondia: \u00abEste \u00e9 o profeta Jesus, de Nazar\u00e9 da Galileia\u00bb (Mateus 21,10-11).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">4. Deduz-se dos preciosismos da descri\u00e7\u00e3o dos acontecimentos e da sua realiza\u00e7\u00e3o como cumprimento de um dizer prof\u00e9tico, que o que est\u00e1 a acontecer n\u00e3o \u00e9 por mero acaso, mas obedece \u00e0 vontade de Deus, expressa na Escritura Santa. Tamb\u00e9m por isso, Jesus n\u00e3o vai dizer mais nada. Ter\u00e3o de ser os acontecimentos, iluminados pela Escritura, a falar por si. E v\u00ea-se logo que Jesus n\u00e3o vai entrar em Jerusal\u00e9m como um vulgar peregrino nem como tem feito at\u00e9 aqui calcorreando os caminhos da Galileia. Jesus vai entrar em Jerusal\u00e9m como um rei, no dia em que solenemente entra na sua capital e \u00e9 entronizado. Mas salta tamb\u00e9m \u00e0 vista que, ao fazer como faz, Jesus se apresenta como rei de um modo singular e \u00fanico, novo, totalmente diferente dos reis terrenos at\u00e9 ent\u00e3o conhecidos. Jesus vem montado num jumentinho, criteriosamente selecionado (Mateus 21,2), e n\u00e3o sobre cavalos de guerra, como era usual. Al\u00e9m disso, tudo aqui \u00e9 provis\u00f3rio e pobre: o jumento nem sequer tem uma sela; Jesus senta-se sobre os mantos dos seus disc\u00edpulos. O jumento n\u00e3o \u00e9 perten\u00e7a de Jesus; \u00e9 emprestado com a promessa de ser rapidamente restitu\u00eddo, o que quer dizer que Jesus voltar\u00e1 em breve a andar a p\u00e9. Al\u00e9m disso, nesta sua entrada em Jerusal\u00e9m s\u00f3 Jesus vai montado, ainda que num jumento. A multid\u00e3o que o acompanha vai a p\u00e9. N\u00e3o h\u00e1 nenhum cortejo ou guarda de honra de soldados montados a cavalo e carros de combate devidamente engalanados. Jerusal\u00e9m \u00e9 a cidade de David, e para l\u00e1 convergem todos os olhares e todas as esperan\u00e7as. Sendo os acontecimentos apresentados como realiza\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica, temos de reparar ent\u00e3o na forma criteriosa como o jumento \u00e9 escolhido. E repararemos ent\u00e3o que, quer no caso do jumento, quer em tudo o que Jesus faz e no modo como o faz, \u00e9 realizada \u00e0 letra a profecia de Zacarias 9,9-10, que aqui deixo referida na \u00edntegra: \u00abExulta muito, filha de Si\u00e3o! Grita de alegria, filha de Jerusal\u00e9m! Eis que o teu rei vem a ti: ele \u00e9 justo e vitorioso, humilde, montado sobre um jumento, sobre um jumentinho, filho de uma jumenta. Ele eliminar\u00e1 os carros de Efraim e os cavalos de Jerusal\u00e9m. O arco de guerra ser\u00e1 eliminado. Ele anunciar\u00e1 a paz \u00e0s na\u00e7\u00f5es. O seu dom\u00ednio ir\u00e1 de mar a mar, e do Rio \u00e0s extremidades da terra\u00bb. O profeta Zacarias p\u00f4de ver, no \u00faltimo ter\u00e7o do s\u00e9culo IV a.C., o imponente espet\u00e1culo militar do grande Alexandre Magno, talvez o maior imperador que a hist\u00f3ria conheceu, descendo a costa palestinense para conquistar o Egito. Gravou-se certamente no seu esp\u00edrito prof\u00e9tico esse cen\u00e1rio majestoso, e Zacarias ter\u00e1 vislumbrado ent\u00e3o, em claro contraponto, esta deslumbrante imagem messi\u00e2nica de um Rei diferente, pobre, manso e humilde, n\u00e3o como senhor da guerra, mas como Senhor da Paz!<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">5. Ainda hoje, no domingo de Ramos, n\u00e3o obstante o ambiente abertamente hostil aos crist\u00e3os que se respira, \u00e9 costume fazer-se, desde Betfag\u00e9 [= \u00abCasa dos figos\u00bb], hoje uma pequena aldeia totalmente mu\u00e7ulmana com um pequeno santu\u00e1rio \u00e0 guarda dos Franciscanos, uma impressionante prociss\u00e3o e manifesta\u00e7\u00e3o de f\u00e9 que, descendo o Monte das Oliveiras, termina na Igreja de Santa Ana, junto da porta de Santo Est\u00eav\u00e3o (ou dos Le\u00f5es), onde se faz a celebra\u00e7\u00e3o alusiva ao Dia.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">6. Como j\u00e1 deix\u00e1mos escrito logo no princ\u00edpio, o Evangelho que enche este Domingo de Ramos na Paix\u00e3o do Senhor \u00e9 o imenso e impressionante relato da Paix\u00e3o de Mateus 26,14-27,66, que marca o ritmo celebrativo da nossa \u00abSemana Santa\u00bb, que as Igrejas Orientais chamam \u00abSemana Grande\u00bb, e que o antigo rito da Igreja de Mil\u00e3o conhecia por \u00abSemana Aut\u00eantica\u00bb. Somos n\u00f3s, portanto, carregando os nossos \u00f3dios, raivas, mentiras, invejas e viol\u00eancias, seguindo a par e passo o Rei manso e obediente que a n\u00f3s e por n\u00f3s se entrega por amor, absorvendo, absolvendo e dissolvendo assim o nosso lado sombrio e pecaminoso. O rei assume, no seu perfil, duas val\u00eancias fundamentais: 1) p\u00f4r-se totalmente nas m\u00e3os de Deus, escutando diariamente a sua Palavra e cumprindo-a; 2) p\u00f4r-se totalmente ao servi\u00e7o do seu povo, a quem deve fazer chegar a prosperidade e o bem-estar, a plenitude dos bens espirituais e materiais.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">7. O que esta Semana Santa nos oferece s\u00e3o, pois, momentos e tonalidades intensos e decisivos, em que a Esposa bela, tornada bela, segue o Rei-Esposo passo a passo, gesto a gesto: a un\u00e7\u00e3o para a sepultura em Bet\u00e2nia, a venda de Jesus por Judas, como se de um objeto se tratasse, a Ceia Primeira (e n\u00e3o \u00faltima!) na mesa da intimidade, que deixa ver melhor as trai\u00e7\u00f5es e as nega\u00e7\u00f5es que j\u00e1 se desenham no horizonte, a afirma\u00e7\u00e3o solene de Pedro e de todos os disc\u00edpulos de que est\u00e3o dispostos a morrer por Jesus, mas nunca a neg\u00e1-lo, o abismo do Gets\u00e9mani, onde Cristo, sendo embora o Filho de Deus, Deus Ele mesmo, treme perante a morte, mas aceita-a, submetendo a sua vontade humana \u00e0 sua Vontade divina, que \u00e9 a mesma Vontade do Pai e do Filho e do Esp\u00edrito Santo, a ora\u00e7\u00e3o de Jesus e o sono pesado dos disc\u00edpulos (uma, duas, tr\u00eas vezes!), Judas que vem prender Jesus com um beijo (a trai\u00e7\u00e3o num gesto de intimidade!), acompanhado de outros que trazem espadas e varapaus, mas \u00e9 um dos que est\u00e3o com Jesus que puxa da espada e a usa (!), a pris\u00e3o de Jesus \u00absegundo as Escrituras\u00bb (Mateus 26,54 e 56), altura em que todos o abandonam e fogem (Mateus 26,56), deixando Jesus sozinho como verdadeiro \u00abResto de Israel!\u00bb, os processos e a condena\u00e7\u00e3o [Jesus afirma-se como \u00abo Cristo\u00bb, \u00abo Filho de Deus\u00bb, \u00abo Filho do Homem-que-Vem-na-sua-Gl\u00f3ria\u00bb, \u00abo Rei\u00bb], Pilatos que \u00ablava as m\u00e3os\u00bb como quem nada quer ter a ver com o assunto (Mateus 27,24), gesto que s\u00f3 Mateus relata, a entrega \u00e0 morte de cruz por Pilatos (Mateus 27,26) e por Judas (Mateus 26,15-16.21-25; 27,3), mas na verdade por Deus (1 Cor\u00edntios 11,23:\u00a0<em>pared\u00eddeto<\/em>: passivo divino ou teol\u00f3gico!), a coroa de espinhos, Pedro disposto a morrer com Jesus (Mateus 26,35), mas negando-O logo de seguida com aquele triplo \u00abn\u00e3o sei!\u00bb (Mateus 26,70.72.74), a Cruz Santa e Gloriosa, as tr\u00eas tenta\u00e7\u00f5es por parte dos transeuntes, dos chefes dos sacerdotes juntamente com os escribas e os anci\u00e3os, dos ladr\u00f5es: \u00absalva-te a ti mesmo\u00bb, \u00abdesce da cruz\u00bb (Mateus 27,39-44), a ora\u00e7\u00e3o do Salmo 22 (todo): come\u00e7a \u00abMeu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?\u00bb, e termina \u00abEsta \u00e9 a obra do Senhor!\u00bb, a agonia e a Morte precedida do \u00abgrande grito\u00bb (Mateus 27,46 e 49), que indica que Jesus continua a ser o sujeito ativo de todos os seus atos, mas indica tamb\u00e9m a Vit\u00f3ria de Deus\u2026 Proclama\u00e7\u00e3o da m\u00e1xima Obra de Deus no mundo, a indiz\u00edvel Economia divina na vida terrena do Filho de Deus! Segue-se a sepultura num t\u00famulo novo (Mateus 27,60), como conv\u00e9m ao Rei, sempre o primeiro em tudo, as mulheres \u00e0 dist\u00e2ncia do recolhimento, observando tudo com aten\u00e7\u00e3o (verbo grego\u00a0<em>the\u00f4r\u00e9\u00f4<\/em>) (Mateus 27,55), como far\u00e3o depois na sua visita ao t\u00famulo (Mateus 28,1), os \u00fanicos dois lugares em que Mateus usa o verbo grego\u00a0<em>the\u00f4r\u00e9\u00f4<\/em>, que n\u00e3o consiste num simples \u00abver\u00bb, mas num \u00abver que d\u00e1 que pensar\u00bb. Depois de morto, ainda \u00e9 tratado por \u00abimpostor\u00bb por ter dito que, tr\u00eas dias depois de morto, ressuscitaria, o que, segundo os judeus, poderia levar os seus disc\u00edpulos a virem de noite roubar o seu corpo, para depois, com uma nova impostura, virem dizer que tinha ressuscitado (Mateus 27,63-64). Esta lenda do roubo do seu corpo pelos disc\u00edpulos (s\u00f3 lembrada por Mateus) leva \u00e0 guarda do t\u00famulo reclamada pelos judeus, e pode costurar-se ainda com as p\u00e1ginas iniciais do G\u00e9nesis, que relatam a hist\u00f3ria de um fruto e a lenda de um furto (cf. G\u00e9nesis 1,29 vs. 3,1-6). A proclama\u00e7\u00e3o deste imenso texto deve seguir-se com a convers\u00e3o no cora\u00e7\u00e3o, e, sobretudo, com o louvor no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">8. Para quem queira seguir mais de perto os passos de Jesus, deixo aqui registadas, segundo a agenda de Marcos, as suas \u00faltimas e decisivas vinte e quatro horas, desde as 15h00 de Quinta-Feira Santa at\u00e9 perto das 18h00 de Sexta-Feira Santa: 15h00 = Prepara\u00e7\u00e3o da Ceia; 18h00 = Ceia Primeira; 21h00 = Gets\u00e9mani; 24h00 = Pris\u00e3o de Jesus; 03h00 = Pedro nega e o galo canta; 06h00 = Jesus diante de Pilatos; 09h00 = Crucifix\u00e3o de Jesus; 12h00 = As trevas em vez da Luz; 15h00 = Morte de Jesus; 17h00 = Sepultamento de Jesus.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">9. Note-se que, na cronologia dos Evangelhos Sin\u00f3ticos (Mateus, Marcos e Lucas), esta Quinta-Feira \u00e9 o dia da Prepara\u00e7\u00e3o da P\u00e1scoa, comendo-se a Ceia Pascal logo ap\u00f3s o p\u00f4r-do-sol (no calend\u00e1rio religioso hebraico j\u00e1 \u00e9 Sexta-Feira, dado que o dia come\u00e7a com o p\u00f4r-do-sol). Como se constata, esta cronologia v\u00ea na Ceia de Jesus com os seus Disc\u00edpulos uma Ceia Pascal. Tamb\u00e9m de acordo com esta cronologia, Jesus seria preso, julgado, condenado, crucificado, morto e sepultado em Sexta-Feira, Dia da P\u00e1scoa dos judeus, o que seria muito estranho! O Evangelho de S. Jo\u00e3o apresenta outra cronologia, hoje defendida pela maioria dos estudiosos, segundo a qual Jesus ter\u00e1 comido uma Ceia, a sua Ceia Primeira em Quinta-Feira, mas n\u00e3o a Ceia ritual da P\u00e1scoa dos judeus, e foi preso, julgado, condenado, crucificado, morto e sepultado no dia da Prepara\u00e7\u00e3o da P\u00e1scoa (Jo\u00e3o 18,28; 19,14.31.42), antes da Ceia ritual da P\u00e1scoa dos judeus. Jo\u00e3o informa que os judeus n\u00e3o entram no pret\u00f3rio de Pilatos, terra pag\u00e3, para n\u00e3o se contaminarem e poderem comer a P\u00e1scoa (Jo\u00e3o 18,28). No seu \u00daltimo Livro sobre Jesus de Nazar\u00e9, Bento XVI defende tamb\u00e9m esta cronologia joanina. As Igrejas do Ocidente seguem a cronologia dos Sin\u00f3ticos: por isso, a nossa Eucaristia \u00e9 com p\u00e3o \u00c1zimo, derivado do ritual da Ceia da P\u00e1scoa dos judeus. Por seu lado, as Igrejas do Oriente seguem a cronologia joanina, sendo a sua Eucaristia com p\u00e3o comum, dado n\u00e3o derivar do ritual da P\u00e1scoa dos judeus.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">10. O Antigo Testamento serve-nos hoje o chamado \u00abterceiro canto do Servo\u00bb (Isa\u00edas 50,4-7). Gerado na dor de Israel como verdadeiro filho do milagre (Isa\u00edas 49,21), ergue-se esta singular figura de \u00abServo\u00bb (<em>\u2018ebed<\/em>), totalmente nas m\u00e3os de Deus, desde a sua predestina\u00e7\u00e3o desde o seio materno (Isa\u00edas 49,1 e 5), passando pela sua entrega \u00e0 morte (Isa\u00edas 53,12), at\u00e9 \u00e0 sua exalta\u00e7\u00e3o e glorifica\u00e7\u00e3o (Isa\u00edas 52,13), de tal modo que Deus o pode chamar \u00abmeu Servo\u00bb (<em>\u2018abd\u00ee<\/em>). Na li\u00e7\u00e3o de hoje, o \u00abServo\u00bb \u00e9 um Disc\u00edpulo a quem Deus abre os ouvidos at\u00e9 ao cora\u00e7\u00e3o, para ouvir bem a m\u00fasica de Deus, e poder levar uma palavra de consolo aos dela necessitados. \u00abTornando o seu rosto duro como uma pedra\u00bb (Isa\u00edas 50,7), apresenta-se como um Servo, n\u00e3o insens\u00edvel e indiferente, mas decidido a levar at\u00e9 ao fim a miss\u00e3o que lhe \u00e9 confiada. A mesma express\u00e3o ser\u00e1 dita acerca de Jesus em Lucas 9,51. O Novo Testamento passa por aqui!<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">11. Em claro paralelismo com o \u00abServo\u00bb, cantado por Isa\u00edas, a\u00ed est\u00e1 Jesus apresentado por Paulo aos Filipenses (2,6-11). Mas aqui, o \u00abServo\u00bb tem um Rosto e um Nome: Jesus recebeu, na sua Humanidade, o Nome divino (ver tamb\u00e9m Hebreus 1,1-4), Nome incompar\u00e1vel (Filipenses 2,9). Por isso, agora, todos os seres criados adoram o Nome-Jesus (Filipenses 2,10), e \u00abtoda a l\u00edngua\u00bb, isto \u00e9, todo o ser humano racional, professa: \u00abSenhor \u00e9 Jesus Cristo!\u00bb (<em>K\u00fdrios I\u00easo\u00fbs Christ\u00f3s<\/em>). Notar a ordem dos tr\u00eas termos, errada nas vers\u00f5es modernas: Senhor, isto \u00e9, Deus eterno, \u00e9 o Homem-Jesus Cristo. O sujeito \u00e9 o que n\u00e3o se conhece; o predicado \u00e9 o que se conhece. O acento cai, pois, sobre Senhor. O fim em vista: a Gl\u00f3ria do Pai com o Esp\u00edrito (Filipenses 2,11). \u00c9 quanto Deus operou na Cruz e semeou no nosso cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">12. Voltamos \u00e0 m\u00fasica do Salmo 22, uma ora\u00e7\u00e3o que nasce na Paix\u00e3o e termina na P\u00e1scoa! \u00c9 belo tomarmos consci\u00eancia de que Jesus nos pediu estas palavras emprestadas, para no-las devolver a transbordar de sentido. J\u00e1 se sabe que aquele \u00abMeu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?\u00bb, que Jesus reza na Cruz, e que s\u00e3o as primeiras palavras do Salmo, implica, segundo a praxe judaica, a recita\u00e7\u00e3o do Salmo inteiro, que tem uma primeira parte de fort\u00edssima lamenta\u00e7\u00e3o (v. 2-22), passando logo para uma segunda parte que expressa consola\u00e7\u00e3o por ver Deus ao nosso lado, t\u00e3o pr\u00f3ximo de n\u00f3s (v. 23-27), e terminando em verdadeira exulta\u00e7\u00e3o (v. 28-32). O grande pregador franc\u00eas Jacques Bossuet (1627-1704) declarava bem-aventurados aqueles que, recitando este Salmo, se encontram com Jesus, t\u00e3o santamente tristes e t\u00e3o divinamente felizes!<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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