{"id":3696976562,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/10798-domingo-xxvii-do-tempo-comum-a-doenca-do-coracao-de-pedra"},"modified":"2025-11-07T16:33:48","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:48","slug":"domingo-xxvii-do-tempo-comum-a-doenca-do-coracao-de-pedra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-xxvii-do-tempo-comum-a-doenca-do-coracao-de-pedra\/","title":{"rendered":"Domingo XXVII do Tempo Comum: \u00abA Doen\u00e7a do Cora\u00e7\u00e3o de Pedra\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">1. Al\u00e9m dos quatro epis\u00f3dios que decorrem fora das fronteiras de Israel (tr\u00eas na Dec\u00e1pole, a oriente do Mar da Galileia, e um na regi\u00e3o de Tiro, a noroeste de Israel) (ver Domingo XXIII), a a\u00e7\u00e3o de Jesus decorre quase toda na Galileia (Marcos 1-9) e em Jerusal\u00e9m (Marcos 11-16), tendo pelo meio a viagem da Galileia para Jerusal\u00e9m (Marcos 10): em Marcos 10,1, Jesus sai de Cafarnaum, onde esteve em Marcos 9,33-50; em Marcos 10,46, chega a Jeric\u00f3; em Marcos 11,1, est\u00e1 nas imedia\u00e7\u00f5es de Jerusal\u00e9m. Serve este levantamento topogr\u00e1fico para situar o epis\u00f3dio do Evangelho deste Domingo XXVII (Marcos 10,2-16) ap\u00f3s a sa\u00edda de Cafarnaum, a caminho da Judeia e de Jerusal\u00e9m, viagem feita, n\u00e3o pela Samaria, mas descendo pela margem oriental do Jord\u00e3o, talvez na Pereia, onde a comunidade judaica era consider\u00e1vel (Marcos 10,1a). O narrador ainda nos informa que as multid\u00f5es (<em>\u00f3chloi<\/em>), \u00fanica vez no plural em Marcos, vieram ter com Ele, que, como de costume (<em>h\u00f4s ei\u00f4thei<\/em>), express\u00e3o s\u00f3 aqui usada em Marcos, os ensinava (Marcos 10,1b).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">2. \u00c9 tamb\u00e9m aqui que os fariseus, mais uma vez \u00abpara p\u00f4r Jesus \u00e0 prova\u00bb (<em>peir\u00e1z\u00f4<\/em>) (cf. 8,11; 12,15), lhe perguntam \u00abse \u00e9 l\u00edcito (<em>\u00e9xestin<\/em>) ao homem repudiar (<em>apol\u00fd\u00f4<\/em>) a sua mulher\u00bb (Marcos 10,2). A pergunta \u00e9 uma armadilha, por mais de uma raz\u00e3o. Primeiro, porque este modo de fazer era j\u00e1 usual entre os judeus. Se Jesus desse uma resposta negativa, corria o risco de provocar um alvoro\u00e7o entre os homens que o ouviam. Segundo, porque podia acentuar o conflito com Herodes Antipas, que j\u00e1 tinha feito prender Jo\u00e3o Batista, por este ter protestado contra a sua rela\u00e7\u00e3o irregular com Herod\u00edades (Marcos 6,18). Terceiro, porque se desse uma resposta positiva, corria o risco de entrar numa discuss\u00e3o acad\u00e9mica intermin\u00e1vel e in\u00fatil, pois eram conhecidas interpreta\u00e7\u00f5es diversas, entre o rigorismo e o laxismo. Por exemplo, a escola rigorista de Shammai era de opini\u00e3o que a separa\u00e7\u00e3o s\u00f3 devia ser permitida em caso de adult\u00e9rio, enquanto que a escola liberal de Hillel achava que a separa\u00e7\u00e3o era permitida por tudo e por nada.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">3. Portanto, Jesus n\u00e3o se deixa apanhar na armadilha, e pergunta por sua vez aos fariseus: \u00abO que \u00e9 que vos ordenou (<em>ent\u00e9llomai<\/em>) Mois\u00e9s?\u00bb (Marcos 10,3). Eles tiveram de responder: \u00abMois\u00e9s permitiu (<em>epitr\u00e9p\u00f4<\/em>) escrever uma ata de div\u00f3rcio e repudiar\u00bb (Marcos 10,4). Os fariseus est\u00e3o a citar o Livro do Deuteron\u00f3mio 24,1, e v\u00ea-se que interpretavam esta prescri\u00e7\u00e3o de Mois\u00e9s como permiss\u00e3o do div\u00f3rcio. De onde se deduzia que os homens (s\u00f3 os homens) t\u00eam o direito de repudiar as suas mulheres, direito a que as mulheres n\u00e3o tinham direito, pois n\u00e3o podiam separar-se dos seus maridos. Ouvida esta resposta, Jesus entra ent\u00e3o na argumenta\u00e7\u00e3o a s\u00e9rio, referindo que Mois\u00e9s n\u00e3o permitiu o div\u00f3rcio, mas apenas quis p\u00f4r ordem e humanidade numa situa\u00e7\u00e3o que os homens tinham criado, e que gerava muitas complica\u00e7\u00f5es. Na verdade, a mulher repudiada, se o div\u00f3rcio n\u00e3o fosse devidamente documentado, continuava ligada ao seu anterior marido, e n\u00e3o ficava livre para se voltar a casar; podia ser vista como uma mulher casada em fuga, e, caso se viesse a ligar a outro homem, podia ser acusada de adult\u00e9rio e ser condenada \u00e0 morte por lapida\u00e7\u00e3o (cf. Deuteron\u00f3mio 22,22).\u00a0<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">4. Tirado isto a limpo, Jesus declara ent\u00e3o que esta prescri\u00e7\u00e3o de Mois\u00e9s n\u00e3o se destina a permitir o div\u00f3rcio, mas a p\u00f4r os necess\u00e1rios limites \u00e0 \u00abdureza do cora\u00e7\u00e3o\u00bb ou \u00abesclerose do cora\u00e7\u00e3o\u00bb, a famosa\u00a0<em>skl\u00earokard\u00eda<\/em>\u00a0dos homens, a verdadeira respons\u00e1vel pelo div\u00f3rcio (Marcos 10,5). Esclarecido ent\u00e3o o alcance da prescri\u00e7\u00e3o de Mois\u00e9s, meramente corretiva de uma situa\u00e7\u00e3o que a \u00abesclerose do cora\u00e7\u00e3o\u00bb dos homens criou, e que, lendo bem o Livro do Deuteron\u00f3mio 10,12-22, significa o fechamento do homem a Deus, \u00e0 sua bondade, \u00e0 sua grandeza e \u00e0 sua vontade (ver a express\u00e3o em Deuteron\u00f3mio 10,16 e Jeremias 4,4), Jesus passa logo a expor (Marcos 10,6-8) a vontade de Deus sobre o casal humano, como se pode ver lendo os relatos da cria\u00e7\u00e3o: \u00abDeus os fez homem e mulher\u00bb (G\u00e9nesis 1,27); \u00abo homem deixar\u00e1 o seu pai e a sua m\u00e3e e se unir\u00e1 \u00e0 sua mulher, e os dois ser\u00e3o uma s\u00f3 carne\u00bb (G\u00e9nesis 2,24). E conclui: \u00abN\u00e3o separe o homem o que Deus uniu\u00bb (Marcos 10,9).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">5. Depois, em casa (Marcos 10,10), lugar da intimidade, Jesus explica aos seus disc\u00edpulos que tanto incorre em adult\u00e9rio o homem como a mulher que abandonam os respetivos c\u00f4njuges e casam com outros (Marcos 10,11-12). Com este dizer, alargado \u00e0 mulher, Jesus estende o bisturi tamb\u00e9m \u00e0 nossa\u00a0<em>skl\u00earokard\u00eda<\/em>. De facto, aos fariseus Jesus apenas falou do homem que repudia a sua mulher e casa com outra, porque, em mundo judaico, n\u00e3o era permitido \u00e0 mulher repudiar o marido, para casar com outro. Era, por\u00e9m, permitido em mundo grego. E \u00e9 sabido que os destinat\u00e1rios diretos do Evangelho de Marcos vivem no mundo greco-romano.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">6. E Jesus mostra de novo aos seus disc\u00edpulos que \u00e9 necess\u00e1rio romper a crosta da nossa import\u00e2ncia, que nos separa de Deus e dos pequeninos (Marcos 10,13-16). Tamb\u00e9m aqui se trata de\u00a0<em>skl\u00earokard\u00eda<\/em>. Em boa verdade, envoltos na crosta da nossa import\u00e2ncia, j\u00e1 n\u00e3o sabemos receber. E o reino de Deus n\u00e3o \u00e9 para comprar ou conquistar, mas unicamente para receber. Da\u00ed a import\u00e2ncia das crian\u00e7as para Jesus. N\u00e3o \u00e9 a sua inoc\u00eancia e candura que aqui \u00e9 salientada, mas o facto de serem dependentes e confiantes.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">7. A\u00ed est\u00e1, ent\u00e3o, o ch\u00e3o do Evangelho de hoje, a vontade de Deus expressa na Cria\u00e7\u00e3o, a que Jesus faz refer\u00eancia (G\u00e9nesis 2,18-24). A extraordin\u00e1ria narrativa abre com a constata\u00e7\u00e3o enf\u00e1tica por parte de Deus de um problema grav\u00edssimo que pode acarretar a morte do homem. Este problema chama-se \u00absolid\u00e3o\u00bb. Deus \u00e9 levado a afirmar: \u00abN\u00e3o \u00e9, de facto, bom (<em>lo\u2019-t\u00f4b<\/em>) que o HOMEM (<em>ha\u2019adam<\/em>) esteja s\u00f3 (<em>l<sup>e<\/sup>badd\u00f4<\/em>)\u00bb (G\u00e9nesis 2,18a). Note-se que este enf\u00e1tico \u00abn\u00e3o-bom\u00bb colide com o \u00absete vezes bom\u00bb e o \u00abSIM\u00bb que enchia G\u00e9nesis 1,1-2,4a, ao todo 452 palavras em que n\u00e3o soa um \u00fanico \u00abn\u00e3o\u00bb, e o \u00abbom\u00bb se faz ouvir por sete vezes.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">8. Tendo constatado o o grave perigo que amea\u00e7a o homem, Deus trata logo de remediar a situa\u00e7\u00e3o, propondo-se \u00abfazer (<em>\u2018asah<\/em>) um aux\u00edlio (<em>\u2018ezer<\/em>) a ele correspondente (<em>k<sup>e<\/sup>negd\u00f4<\/em>)\u00bb (G\u00e9nesis 2,18b). Note-se outra vez o uso do masculino\u00a0<em>\u2018ezer<\/em>, e n\u00e3o do feminino\u00a0<em>\u2018ezrah<\/em>. Neste contexto, em que\u00a0<em>\u2018ezer<\/em>\u00a0designar\u00e1 a mulher, mas n\u00e3o s\u00f3, o uso do masculino \u00e9 fruto com certeza de uma escolha premeditada, sendo, por isso, de lhe atribuir especial import\u00e2ncia. Na verdade, a exegese moderna mostrou que o t\u00edtulo \u00abaux\u00edlio\u00bb (<em>\u2018ezer<\/em>), que aparece no Antigo Testamento por 21 vezes [= G\u00e9nesis 2,18.20; \u00caxodo 18,4; Deuteron\u00f3mio 33;7.26.29; Salmo 20,3; 33,20; 70,6; 89,20; 115,9.10.11; 121,1.2; 124,8; 146,5; Isa\u00edas 30,5; Ezequiel 12,14; Os 13,9; Daniel 11,34], \u00e9, na maioria dos casos, excetuadas as duas men\u00e7\u00f5es do G\u00e9nesis, um t\u00edtulo dado direta ou indiretamente a Deus, que \u00e9 o verdadeiro \u00abaux\u00edlio\u00bb do homem. Trata-se, em todos os casos, de um aux\u00edlio pessoal, e n\u00e3o instrumental, sendo mesmo um aux\u00edlio indispens\u00e1vel em situa\u00e7\u00f5es de extremo perigo, n\u00e3o longe da fronteira que separa a vida e a morte. Qual \u00e9 ent\u00e3o o perigo que amea\u00e7a o homem em Gn 2,18? \u00c9 certamente a solid\u00e3o. E a verdadeira solid\u00e3o chama-se coisifica\u00e7\u00e3o. Sim, o homem pode perder-se no meio de objetos, coisificando tamb\u00e9m Deus e os outros. \u00c9 Deus normalmente o aux\u00edlio do homem. A mulher surge na mente de Deus com o t\u00edtulo grande de \u00abaux\u00edlio\u00bb do var\u00e3o, assim como o var\u00e3o \u00e9 o \u00abaux\u00edlio\u00bb da mulher, e qualquer ser humano deve ser o \u00abaux\u00edlio\u00bb de outro ser humano. Est\u00e1 assim desvendado o estranho uso, neste contexto, do masculino\u00a0<em>\u2018ezer<\/em>.<\/p>\n<p class=\"inline-ad-slot\" data-adtags-visited=\"true\" data-adtags-width=\"450\" id=\"inline-ad-1\">9. Por sua vez, a express\u00e3o\u00a0<em>k<sup>e<\/sup>negd\u00f4<\/em>\u00a0assenta na preposi\u00e7\u00e3o\u00a0<em>neged<\/em>\u00a0[= ao lado de, diante de, contra], mas remete ainda para o hiphil\u00a0<em>higg\u00eed<\/em>\u00a0[= narrar], e, portanto, para um sujeito de palavra, deixando entrever que o \u00abaux\u00edlio\u00bb que Deus se prop\u00f5e fazer seja algu\u00e9m que saiba estar \u00abao lado de\u00bb algu\u00e9m, n\u00e3o de forma tir\u00e2nica e prepotente, mas apto para a do\u00e7ura da palavra.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">10. \u00c9 ent\u00e3o que, de um lado (<em>tsela\u2018<\/em>) do ser humano, Deus \u00abconstr\u00f3i\u00bb (<em>banah<\/em>) a mulher (<em>\u2019ishshah<\/em>) (G\u00e9nesis 2,22). O texto diz tudo. Sendo um lado, fica logo dito que a mulher e o homem, juntos, s\u00e3o dois lados, que formam uma unidade, como os dois lados de uma porta ou de uma janela. N\u00e3o se pode destruir um sem destruir tamb\u00e9m o outro. Por outro lado, ao usar o verbo \u00abconstruir\u00bb (<em>banah<\/em>) para a mulher, fica j\u00e1 igualmente dito, por asson\u00e2ncia, o mundo da mulher: \u00abfilhos\u00bb (<em>ban\u00eem<\/em>), \u00abcasa\u00bb (<em>b\u00eat<\/em>). Quanto a\u00a0<em>\u2019ishshah<\/em>, \u00e9 simplesmente o feminino de\u00a0<em>\u2019\u00eesh<\/em>.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">11. Ainda que n\u00e3o tenhamos reparado nisso, tivemos de esperar at\u00e9 agora, para ouvirmos pela primeira vez a voz humana a ecoar no cen\u00e1rio da cria\u00e7\u00e3o. E \u00e9 significativo que tal suceda para o homem expressar o seu alvoro\u00e7o de noivo, saudando extasiado a mulher-noiva com a express\u00e3o familiar \u00abosso dos meus ossos e carne da minha carne\u00bb (G\u00e9nesis 2,23), primeiro canto de amor e ao amor que se encontra nas p\u00e1ginas da B\u00edblia. O relato da apari\u00e7\u00e3o da mulher n\u00e3o deve fazer esquecer que \u00e9 relatada, em estreito paralelismo, a apari\u00e7\u00e3o da linguagem.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">12. E porque s\u00e3o o aux\u00edlio um do outro, o lado um do outro, identificando-se um pelo outro (veja-se o jogo de\u00a0<em>\u2019\u00eesh\u00a0<\/em>e<em>\u00a0\u2019ishshah<\/em>), \u00abo homem (<em>\u2019\u00eesh<\/em>) deixar\u00e1 o seu pai e a sua m\u00e3e, e se unir\u00e1 amorosamente \u00e0 sua mulher (<em>\u2019ishshah<\/em>), e ser\u00e3o [os dois] uma s\u00f3 carne\u00bb (G\u00e9nesis 2,24). Convenhamos que a express\u00e3o \u00e9 ins\u00f3lita! No sistema patriarcal, \u00e9 a mulher, e n\u00e3o o homem, que deixa a sua fam\u00edlia para se unir ao seu marido. Mas o ins\u00f3lito serve aqui talvez para real\u00e7ar a grande for\u00e7a do amor, e para mostrar que \u00e9 s\u00f3 outro amor, e s\u00f3 ele, que pode separar do primeiro amor, o amor dos pais. De resto, o texto n\u00e3o pretende, com certeza, fazer qualquer refer\u00eancia a um sentido matriarcal, mas quer sobretudo acentuar que s\u00e3o os dois a deixar um amor anterior, porque encontraram um amor mais forte. \u00abForte como a morte o amor\u00bb! (C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos 8,6). Inegoci\u00e1vel o amor. N\u00e3o separe o homem o que Deus uniu.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">13. Mas h\u00e1, porventura, outra tem\u00e1tica que se insinua em filigrana nesta express\u00e3o: a tem\u00e1tica do \u00fanico eleito, aben\u00e7oado e portador de b\u00ean\u00e7\u00e3o para todos os povos, peregrino da liberdade, chamado a deixar-se transformar em \u00aboutro homem\u00bb. De facto, o relato de Abra\u00e3o abre com a interpela\u00e7\u00e3o do Senhor para uma viagem transitiva e intransitiva (<em>lek-l<sup>e<\/sup>ka<\/em>), para deixar a sua terra e a sua parentela e ir\u2026 (G\u00e9nesis 12,1-3). \u00c9 paradigm\u00e1tico que Abra\u00e3o deixe a casa paterna. \u00c9 nessa estrada que \u00e9 colocado\u00a0<em>Adam<\/em>, o pai da humanidade, e a inteira humanidade consigo. Mas tamb\u00e9m os primeiros reis pisam essa estrada. \u00c9 assim que Saul vai da casa do seu pai \u00e0 procura das jumentas perdidas (1 Samuel 9,3), e acaba por ser ungido rei (1 Samuel 10,1), sendo transformado em um \u00abhomem outro\u00bb (<em>\u2019\u00eesh \u2019aher<\/em>) (1 Samuel 10,6), com um \u00abcora\u00e7\u00e3o outro\u00bb (<em>leb \u2019aher<\/em>) (1 Samuel 10,9). E tamb\u00e9m David anda fora de casa, quando Samuel o procura para o ungir como rei (1 Samuel 16,11-13). E tamb\u00e9m a amada do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos, s\u00edmbolo de Israel e da inteira humanidade amada e desposada por Deus, \u00e9 mandada entrar na estrada de Abra\u00e3o, mediante aquele \u00abVai para ti\u00bb (<em>l<sup>e<\/sup>k\u00ee-lak<\/em>) (C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos 2,10). Em jogo est\u00e1 a verdadeira voca\u00e7\u00e3o-miss\u00e3o de alteridade, sendo que a alteridade bem compreendida implica outra maneira de compreender, outro cora\u00e7\u00e3o portanto. Esta \u00e9 certamente a grande tem\u00e1tica j\u00e1 instalada no texto fundacional de G\u00e9nesis 2,24. A n\u00e3o ser assim, nem o texto faz sentido, pois n\u00e3o se v\u00ea bem como \u00e9 que este primeiro homem, modelado da terra, possa deixar o seu pai e a sua m\u00e3e!\u00a0<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">14. Sim, as 45 palavras hebraicas do salmo 128 enchem-nos de paz, luz, serenidade. Respira-se tamb\u00e9m a fragr\u00e2ncia da videira e a juventude da oliveira. Mas a fam\u00edlia cantada neste Salmo n\u00e3o est\u00e1 fechada sobre si mesma, mas aberta \u00e0 comunidade por Deus aben\u00e7oada. Portanto, do per\u00edmetro da casa e da mesa em que vivem e se sentam pais e filhos, avista-se e sente-se a paz da Cidade Santa, Jerusal\u00e9m. N\u00e3o \u00e9 de admirar que a tradi\u00e7\u00e3o judaica tenha sabido extrair deste Salmo as \u00absete b\u00ean\u00e7\u00e3os para as n\u00fapcias\u00bb. Saboreemos o perfume deste extrato: \u00abBendito, \u00f3 Senhor, que concedeste ao esposo e \u00e0 esposa j\u00fabilo, canto, gozo, alegria, amor, paz, fraternidade e amizade. Possam depressa e para sempre, \u00f3 Senhor, ressoar gritos de gozo em Jerusal\u00e9m, cidade santa. Possa levantar-se, cheia, a voz jubilosa do esposo e da esposa e os coros gozosos de quem os acompanha na sua alegria. Bendito \u00e9s tu, Senhor, que alegras o esposo com a sua esposa!\u00bb.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">15. E assim tamb\u00e9m com aquele que incarnou no nosso mundo, que deu a sua vida por n\u00f3s, e sacerdotalmente nos santifica, e n\u00e3o se envergonha de nos chamar seus irm\u00e3os. \u00c9 assim a homilia da Carta aos Hebreus que hoje iniciamos (2,9-11).<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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