{"id":3790359349,"date":"2023-04-02T00:00:00","date_gmt":"2023-04-02T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/326-vaticano\/12087-homilia-do-papa-francisco-no-domingo-de-ramos"},"modified":"2023-04-02T00:00:00","modified_gmt":"2023-04-02T00:00:00","slug":"homilia-do-papa-francisco-no-domingo-de-ramos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/homilia-do-papa-francisco-no-domingo-de-ramos\/","title":{"rendered":"Homilia do Papa Francisco no Domingo de Ramos"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/papa_ramos_vatican_va_210331123234.jpeg\"\/><\/p>\n<p><p>\u00abMeu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?\u00bb (<em>Mt<\/em>\u00a027, 46): \u00e9 a invoca\u00e7\u00e3o que a Liturgia nos fez repetir hoje no Salmo Responsorial (cf.\u00a0<em>Sal<\/em>\u00a022\/21, 2), sendo tamb\u00e9m \u2013 no Evangelho que ouvimos \u2013 a \u00fanica pronunciada na cruz por Jesus. Representam, pois, as palavras que nos conduzem ao cora\u00e7\u00e3o da paix\u00e3o de Cristo, ao ponto culminante dos sofrimentos que padeceu para nos salvar. \u00abPorque Me abandonaste?\u00bb.<\/p>\n<p>Muitos foram os sofrimentos de Jesus e, sempre que ouvimos a narra\u00e7\u00e3o da paix\u00e3o, penetram-nos na alma. Foram sofrimentos\u00a0<em>do corpo<\/em>: pensemos nas bofetadas, nas pancadas, na flagela\u00e7\u00e3o, na coroa de espinhos, na tortura da cruz. Foram sofrimentos\u00a0<em>da alma<\/em>: a trai\u00e7\u00e3o de Judas, as nega\u00e7\u00f5es de Pedro, as condena\u00e7\u00f5es religiosa e civil, a zombaria dos guardas, os insultos ao p\u00e9 da cruz, a rejei\u00e7\u00e3o de tantos, a fal\u00eancia de tudo, o abandono dos disc\u00edpulos. E contudo, no meio de todo este sofrimento, restava a Jesus uma certeza: a proximidade do Pai. Mas agora acontece o impens\u00e1vel; antes de morrer, clama: \u00ab<em>Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste<\/em>?\u00bb O abandono de Jesus.<\/p>\n<p>Estamos perante o sofrimento mais dilacerante, que \u00e9 o sofrimento\u00a0<em>do esp\u00edrito<\/em>: na hora mais tr\u00e1gica, Jesus experimenta o abandono por parte de Deus. Antes disto, nunca chamara o Pai pelo nome gen\u00e9rico de Deus. Para nos fazer sentir a intensidade daquele momento, o Evangelho apresenta a frase tamb\u00e9m em aramaico; dentre as palavras pronunciadas por Jesus na cruz, esta \u00e9 a \u00fanica que nos chega na l\u00edngua original. O acontecimento real \u00e9 o abaixamento extremo, ou seja, o abandono de seu Pai, o abandono de Deus. Aquilo que o Senhor chega a sofrer por nosso amor, at\u00e9 temos dificuldade de o entender. V\u00ea o c\u00e9u fechado, experimenta o viver no seu amargo limite, o naufr\u00e1gio da exist\u00eancia, o colapso de toda a certeza: grita \u00abo porqu\u00ea dos porqu\u00eas\u00bb. \u00abTu, \u00f3 Deus, porqu\u00ea?\u00bb<\/p>\n<p>\u00ab<em>Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste<\/em>?\u00bb Na B\u00edblia, o verbo \u00ababandonar\u00bb \u00e9 forte; aparece em momentos de dor extrema: em amores fracassados, rejeitados e tra\u00eddos; em filhos enjeitados e abortados; em situa\u00e7\u00f5es de rep\u00fadio, viuvez e orfandade; em casamentos gorados, em exclus\u00f5es que privam dos la\u00e7os sociais, na opress\u00e3o da injusti\u00e7a e na solid\u00e3o da doen\u00e7a. Em suma, nas mais dr\u00e1sticas dilacera\u00e7\u00f5es dos v\u00ednculos, aplica-se esta palavra: \u00ababandono\u00bb. Cristo levou tudo isto para a cruz, ao carregar sobre Si o pecado do mundo. E, no auge, Ele \u2013 Filho unig\u00e9nito e predileto \u2013 experimentou a situa\u00e7\u00e3o mais estranha no seu caso: o abandono, a dist\u00e2ncia de Deus.<\/p>\n<p>E porque foi t\u00e3o longe?\u00a0<em>Por n\u00f3s<\/em>; n\u00e3o h\u00e1 outra resposta. Por n\u00f3s. Irm\u00e3os e irm\u00e3s, isto hoje n\u00e3o \u00e9 um espet\u00e1culo. Cada um de n\u00f3s, ouvindo referir o abandono sofrido por Jesus, diga para si mesmo:\u00a0<em>por mim<\/em>. Este abandono \u00e9 o pre\u00e7o que pagou por mim. Fez-Se solid\u00e1rio com cada um de n\u00f3s at\u00e9 ao ponto extremo, para estar connosco\u00a0<em>at\u00e9 ao fim<\/em>. Experimentou o abandono para n\u00e3o nos deixar ref\u00e9ns da desola\u00e7\u00e3o e permanecer ao nosso lado para sempre. F\u00ea-lo por mim, por ti, para que, quando eu, tu ou qualquer outro se vir encurralado \u00e0 parede, perdido num beco sem sa\u00edda, precipitado no abismo do abandono, sorvido no redemoinho de tantos \u00abporqu\u00eas\u00bb sem resposta, saibamos que h\u00e1 uma esperan\u00e7a: Ele, uma esperan\u00e7a para ti, para mim. N\u00e3o \u00e9 o fim, porque Jesus esteve ali e agora est\u00e1 contigo: Ele que sofreu a dist\u00e2ncia causada pelo abandono para acolher no seu amor todas as nossas dist\u00e2ncias. A fim de que possa cada um de n\u00f3s dizer: nas minhas quedas (cada um de n\u00f3s caiu tantas vezes!), na minha desola\u00e7\u00e3o, quando me sinto tra\u00eddo ou tra\u00ed os outros, quando me sinto descartado ou descarto os outros, quando me sinto abandonado ou abandonei os outros, pensemos que Ele foi abandonado, tra\u00eddo, descartado. Nisto encontramo-Lo a Ele. Quando me sinto transviado e perdido, quando n\u00e3o aguento mais, Ele est\u00e1 comigo; nos meus tantos porqu\u00eas sem resposta, Ele est\u00e1 neles.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que o Senhor nos salva: a partir de dentro dos nossos \u00abporqu\u00eas\u00bb. De l\u00e1, descerra\u00a0<em>a esperan\u00e7a\u00a0<\/em>que n\u00e3o desilude. De facto, na cruz, enquanto experimenta o abandono extremo, n\u00e3o Se deixa cair no desespero \u2013 este \u00e9 o limite \u2013, mas reza e entrega-Se: grita o seu \u00abporqu\u00ea\u00bb com as palavras de um Salmo (22\/21, 2) e entrega-Se nas m\u00e3os do Pai, embora O sinta distante (cf.\u00a0<em>Lc<\/em>\u00a023, 46) ou nem O sinta sequer, porque Se encontra abandonado. No abandono, entrega-Se. No abandono, continua a amar os Seus que O deixaram sozinho. No abandono, perdoa aos que O crucificaram (cf.\u00a0<em>Lc<\/em>\u00a023, 34). E assim o abismo\u00a0<em>dos nossos in\u00fameros males<\/em>\u00a0\u00e9 imerso num amor maior, de tal modo que cada uma das nossas separa\u00e7\u00f5es se transforma em comunh\u00e3o.<\/p>\n<p>Irm\u00e3os e irm\u00e3s, um amor assim como o de Jesus, que d\u00e1 tudo por n\u00f3s, at\u00e9 ao fim, \u00e9 capaz de transformar os nossos cora\u00e7\u00f5es de pedra em cora\u00e7\u00f5es de carne. \u00c9 um amor de piedade, ternura e compaix\u00e3o. Este \u00e9 o estilo de Deus: proximidade, compaix\u00e3o e ternura. Deus \u00e9 assim. Cristo, abandonado, impele-nos a procur\u00e1-Lo e a am\u00e1-Lo nos abandonados. Porque neles, n\u00e3o temos apenas necessitados, mas temo-Lo a Ele, Jesus Abandonado, Aquele que nos salvou descendo at\u00e9 ao fundo da nossa condi\u00e7\u00e3o humana. Ele est\u00e1 com cada um deles, abandonados at\u00e9 \u00e0 morte&#8230; Penso naquele homem dito \u00abvadio por estrada\u00bb, alem\u00e3o, que morreu sob a colunata, sozinho, abandonado. \u00c9 Jesus para cada um de n\u00f3s. Muitos precisam da nossa proximidade, tantos abandonados. Tamb\u00e9m eu preciso que Jesus me acaricie e Se aproxime de mim, e, para isso, vou encontr\u00e1-Lo nos abandonados, nas pessoas sozinhas. Ele deseja que cuidemos dos irm\u00e3os e irm\u00e3s que mais se parecem com Ele, com Ele no ato extremo do sofrimento e da solid\u00e3o. Hoje, queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s, h\u00e1 tantos \u00abcristos abandonados\u00bb. H\u00e1 povos inteiros explorados e deixados \u00e0 pr\u00f3pria sorte; h\u00e1 pobres que vivem nas encruzilhadas das nossas estradas e cujo olhar n\u00e3o temos a coragem de fixar; h\u00e1 migrantes, que j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o rostos, mas n\u00fameros; h\u00e1 reclusos rejeitados, pessoas catalogadas como problema. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m muitos cristos abandonados invis\u00edveis, escondidos, que s\u00e3o descartados de forma \u00abelegante\u00bb: crian\u00e7as nascituras, idosos deixados sozinhos \u2013 podem porventura ser o teu pai, a tua m\u00e3e, o av\u00f4, a av\u00f3, abandonados nos lares de terceira idade \u2013, doentes n\u00e3o visitados, pessoas portadoras de defici\u00eancia ignoradas, jovens que sentem dentro um grande vazio sem que ningu\u00e9m escute verdadeiramente o seu grito de dor. E n\u00e3o encontram outra estrada sen\u00e3o o suic\u00eddio. Os abandonados de hoje. Os cristos de hoje.<\/p>\n<p>Jesus abandonado pede-nos para termos olhos e cora\u00e7\u00e3o para os abandonados. Para n\u00f3s, disc\u00edpulos do Abandonado, ningu\u00e9m pode ser marginalizado, ningu\u00e9m pode ser deixado a si mesmo; porque \u2013 recordemo-lo \u2013 as pessoas rejeitadas e exclu\u00eddas s\u00e3o \u00edcones vivos de Cristo, recordam-nos o seu amor louco, o seu abandono que nos salva de toda a solid\u00e3o e desola\u00e7\u00e3o. Irm\u00e3os e irm\u00e3s, pe\u00e7amos hoje esta gra\u00e7a: saber amar Jesus abandonado e saber amar Jesus em cada abandonado, em cada abandonada. Pe\u00e7amos a gra\u00e7a de saber ver, saber reconhecer o Senhor que continua a clamar neles. N\u00e3o permitamos que a sua voz se perca no sil\u00eancio ensurdecedor da indiferen\u00e7a. N\u00e3o fomos deixados sozinhos por Deus; cuidemos de quem \u00e9 deixado s\u00f3. Ent\u00e3o, s\u00f3 ent\u00e3o, faremos nossos os desejos e os sentimentos d\u2019Aquele que por n\u00f3s \u00abSe esvaziou a Si mesmo\u00bb (<em>Flp<\/em>\u00a02, 7).<\/p>\n<p>Esvaziou-se totalmente por n\u00f3s.<\/p>\n<p>Imagem: Arquivo| Vatican Media<\/p>\n<p>Educris|02.04.2023<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abMeu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?\u00bb (Mt\u00a027, 46): \u00e9 a invoca\u00e7\u00e3o que a Liturgia nos fez repetir hoje no [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3239118932,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[64],"class_list":["post-3790359349","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-vaticano"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3790359349","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3790359349"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3790359349\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3239118932"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3790359349"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3790359349"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3790359349"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}