{"id":3817142420,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/11637-domingo-xxiv-do-tempo-comum-esta-parabola-da-misericordia"},"modified":"2025-11-07T16:33:52","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:52","slug":"domingo-xxiv-do-tempo-comum-esta-parabola-da-misericordia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-xxiv-do-tempo-comum-esta-parabola-da-misericordia\/","title":{"rendered":"Domingo XXIV do Tempo Comum: \u00abEsta par\u00e1bola da Miseric\u00f3rdia\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p data-adtags-visited=\"true\">Ex 32,7-11.13-14; Sl 51; 1 Tm 1,12-17; Lc 15,1-32<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">1. Este Domingo XXIV do Tempo Comum oferece-nos a proclama\u00e7\u00e3o e audi\u00e7\u00e3o integral, assim vivamente o espero, da grande par\u00e1bola guardada em Lucas 15,1-32. A p\u00e1gina lucana tem lugar garantido em qualquer antologia dos mais belos textos de todos os tempos.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">2. \u00c9 a hist\u00f3ria dos pecadores e dos publicanos, dos escribas e dos fariseus, n\u00e3o esquecendo nunca o Te\u00f3filo, a quem Lucas endere\u00e7a o seu Evangelho (Lucas 1,3), que est\u00e1 sempre no fundo da cena, de todas as cenas, e que sabe que tem um irm\u00e3o mais velho. De uns, de outros e do outro, todos temos um pouco. Todos se aproximam de Jesus: os primeiros para o escutar com alegria; os segundos para o recriminar com azedume pelo facto de ele receber os primeiros e comer com eles. O terceiro, porque sabe que a m\u00e3o de Deus est\u00e1 sobre ele e se sente entusiasmado com Jesus e com o Evangelho. H\u00e1, portanto, aqui um comportamento novo, misericordioso, inclusivo e acolhedor por parte de Jesus. Os pecadores compreendem que Jesus traz um Evangelho, uma Not\u00edcia Boa e Feliz. Os escribas e os fariseus, por\u00e9m, n\u00e3o consideram a Not\u00edcia suficientemente Boa. O Te\u00f3filo sente que Deus o chama e o ama. Por isso, de Jesus se aproximam os pecadores, at\u00e9 ent\u00e3o marginalizados e hostilizados pela tradi\u00e7\u00e3o religiosa vigente; por isso, o recriminam os fariseus e os escribas, os garantes da velha tradi\u00e7\u00e3o religiosa, rigorista, classista e exclusivista. Por isso, e sem preconceitos, anda por ali tamb\u00e9m Te\u00f3filo.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">3. Aos fariseus e escribas conta Jesus uma par\u00e1bola. Note-se bem: uma par\u00e1bola, \u00abesta par\u00e1bola\u00bb (<em>ta\u00fat\u00ean parabol\u00ean<\/em>) (v. 3), no singular, e n\u00e3o tr\u00eas par\u00e1bolas, como \u00e9 usual dizer-se. Note-se tamb\u00e9m que, para escutarmos corretamente \u00abesta par\u00e1bola\u00bb de Jesus, \u00e9 do lado dos fariseus e dos escribas que nos devemos postar, dado que \u00e9 para eles que Jesus conta diretamente a par\u00e1bola. O Te\u00f3filo, esse, est\u00e1 sempre atento a tudo. \u00abEsta par\u00e1bola\u00bb \u00e9, portanto, em primeiro lugar, para eles e para o nosso lado orgulhoso, farisaico, classista e exclusivista, para \u00abo nosso como eles\u00bb. \u00c9 not\u00f3rio que, dado o desenrolar da hist\u00f3ria contada por Jesus, gostemos mais de nos rever na ovelha perdida e encontrada do que nos noventa e nove fariseus cumpridores de ordens e que, por isso, se julgam piedosos e justos com direitos e cr\u00e9ditos sobre Deus, como tamb\u00e9m nos revemos habitualmente naquele filho que sai de casa e que acaba por voltar mais tarde, sendo recebido por um Pai carinhoso que o espera de bra\u00e7os abertos. Mas, para que a hist\u00f3ria contada por Jesus nos caia em cima, como um rel\u00e2mpago, \u00e9 mesmo do outro lado de n\u00f3s que nos devemos colocar. Sem esquecer que Te\u00f3filo est\u00e1 l\u00e1 sempre.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">4. A eles e a n\u00f3s mostra Jesus a aten\u00e7\u00e3o extremosa do pastor que corre, ainda que tenha de ser a vida inteira, \u00e0 procura da sua ovelha perdida. E mostra depois a alegria incontida que sente quando a encontra, e em que quer fazer participar os seus amigos e vizinhos. A mesma cuidadosa aten\u00e7\u00e3o e alegria toma conta da mulher que procura e encontra a moedinha que perdeu no ch\u00e3o de terra e basalto negro da sua humilde casa da Galileia.<\/p>\n<p class=\"inline-ad-slot\" data-adtags-visited=\"true\" data-adtags-width=\"450\" id=\"inline-ad-0\">5. Mas j\u00e1 Jesus traz para a cena, sem deixar a audi\u00eancia respirar, um Pai excecionalmente maravilhoso e bom, em quem pulsa um imenso cora\u00e7\u00e3o e vibram entranhas de miseric\u00f3rdia. Tem dois filhos, que nos representam a todos: um claramente pecador, que opta por sair de casa, depois de ter pedido ao pai a sua parte da heran\u00e7a. E Te\u00f3filo ali a ouvir. Note-se que todo o pai d\u00e1 tr\u00eas coisas aos seus filhos: o p\u00e3o, todos os dias; roupas novas, nos tempos festivos; a heran\u00e7a, uma \u00fanica vez na vida, pouco antes de morrer. O Livro de Ben Sira tira-nos todas as d\u00favidas, ao deixar escrito: \u00abNo \u00faltimo dia dos dias da tua vida, na hora da tua morte, distribui a tua heran\u00e7a\u00bb (33,24). O pedido deste filho de receber a heran\u00e7a assume, portanto, um imenso dramatismo. Fazendo o pedido que faz, este filho como que mata o pai, ao mesmo tempo que morre como filho! N\u00e3o quer mesmo mais ser filho nem depender de nenhum pai.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">6. Parte para longe, gasta tudo, torna-se um assalariado desamparado, guarda porcos, vive abaixo de porco (nem sequer lhe \u00e9 sequer permitido comer com os porcos, como os porcos!). \u00c9 o seu ponto mais baixo. Pensa ent\u00e3o em voltar para casa, mas como assalariado, n\u00e3o como filho. Prestemos aten\u00e7\u00e3o ao discurso em tr\u00eas pontos que prepara: 1) \u00abPai, pequei contra o c\u00e9u e contra ti; 2) n\u00e3o sou mais digno de ser chamado\u00a0<em>teu filho<\/em>; 3) trata-me como\u00a0<em>um dos teus assalariados<\/em>\u00bb (Lucas 15,18-19).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">7. Ei-lo, portanto, que regressa. Mas j\u00e1 o Pai est\u00e1 \u00e0 espera dele com um imenso abra\u00e7o de alma a alma. Mas o filho tinha preparado o seu discurso em tr\u00eas pontos, e ei-lo que come\u00e7a a debit\u00e1-lo: 1) \u00abPai, pequei contra o c\u00e9u e contra ti; 2) n\u00e3o sou mais digno de ser chamado\u00a0<em>teu filho<\/em>\u00bb (Lucas 15,21). Como se compreende, o terceiro ponto do discurso que tinha preparado era fatal, e o filho j\u00e1 n\u00e3o o diz. N\u00e3o porque n\u00e3o quisesse, mas porque o Pai energicamente o interrompe, dizendo aos criados: \u00ab<em>Depressa<\/em>\u2026\u00bb (Lucas 15,22).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">8. \u00c9 ent\u00e3o que a surpresa enche outra vez a cena. Quando n\u00f3s regressamos a casa, a Deus, nunca encontraremos um Pai distra\u00eddo, ou que mudou de resid\u00eancia, ou que responde de forma brusca, distante e fria. Est\u00e1 l\u00e1 sempre \u00e0 nossa espera, na soleira da porta ou \u00e0 janela, verdadeiramente comovido, a transbordar de miseric\u00f3rdia desde as entranhas (<em>splagchn\u00edzomai<\/em>) (Lucas 15,20), de bra\u00e7os abertos, precede-nos, recebe-nos, reabilita-nos como filhos fazendo-nos vestir \u00abo primeiro vestido\u00bb (<em>stol\u00ea t\u00ea pr\u00f4t\u00ea<\/em>) (Lucas 15,22), isto \u00e9, o que vest\u00edamos antes e abandon\u00e1mos, portanto, o de\u00a0<em>filhos<\/em>, quando n\u00f3s queremos \u00e9 ser apenas\u00a0<em>assalariados<\/em>. Depois, faz uma festa, mata o vitelo gordo, prepara um banquete de arromba (<em>euphra\u00edn\u00f4<\/em>), vai mesmo at\u00e9 ao ponto de chamar uma orquestra (<em>symph\u00f4n\u00eda<\/em>)! Alegria excessiva deste Pai pr\u00f3digo de amor e miseric\u00f3rdia! E Te\u00f3filo sempre por ali.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">9. \u00c9 aqui que surge em cena o outro filho, que estava no campo (Lucas 15,25). Esta nota do \u00abcampo\u00bb serve s\u00f3 para nos dizer que \u00e9 um dia de semana, e que o Pai desta hist\u00f3ria faz festa em qualquer dia, sem ficar \u00e0 espera pelo fim-de-semana! Este filho mais velho \u00e9 retratado como um bom cumpridor de ordens, um \u00abjusto\u00bb e zeloso fariseu, igualzinho aos fariseus \u00abjustos\u00bb e zelosos que tinham aparecido no in\u00edcio da hist\u00f3ria. Tal como estes, tamb\u00e9m este filho se acha com direitos e cr\u00e9ditos sobre Deus. Em Deus n\u00e3o v\u00ea um Pai, mas um patr\u00e3o que tem de lhe pagar, pois \u00abnunca transgrediu uma ordem dele\u00bb (Lucas 15,29). Sempre igualzinho aos fariseus que no in\u00edcio da hist\u00f3ria recriminavam Jesus porque acolhia e comia com os pecadores, tamb\u00e9m este filho recrimina o seu pai por acolher e ter tudo preparado para comer com um pecador! O Pai implora-lhe que entre para o banquete da alegria. Mas a hist\u00f3ria termina sem nos dizer se este filho, que somos tamb\u00e9m n\u00f3s, entra ou n\u00e3o entra na sala do banquete. Final estrat\u00e9gico. Afinal a hist\u00f3ria de Jesus foi contada para os fariseus, e n\u00f3s devemos ter compreendido que devemos tomar lugar ao lado deles, pois tamb\u00e9m n\u00f3s temos uma boa parte de fariseus, para sermos atingidos em cheio pela hist\u00f3ria contada por Jesus. A hist\u00f3ria termina sem nos dizer se aquele filho, fariseu, entrou ou n\u00e3o entrou na sala da alegria. Hist\u00f3ria deixada propositadamente em aberto pelo narrador. Esta t\u00e3o vincada retic\u00eancia narrativa n\u00e3o est\u00e1 privada de efeitos: obriga-nos a pensar! N\u00e3o nos esque\u00e7amos que a hist\u00f3ria foi contada para n\u00f3s. \u00c9 ent\u00e3o a n\u00f3s que cabe tomar a decis\u00e3o! Entramos ou n\u00e3o entramos na sala do banquete? Como vemos Deus? Como um Pai ou como um patr\u00e3o? E os nossos irm\u00e3os s\u00e3o para nos alegrarmos com eles ou para os insultarmos e denegrirmos?<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">10. \u00c9 tamb\u00e9m interessante notar que os dois filhos desta hist\u00f3ria falam ao Pai, ao seu Pai comum, como fazem os crist\u00e3os. Como fazemos n\u00f3s. Mas em nenhum momento da hist\u00f3ria se falam um ao outro. Se calhar, tamb\u00e9m como n\u00f3s. S\u00f3 sabemos falar por tr\u00e1s, entre raivas acumuladas, insultos e desprezo. Parece que tamb\u00e9m neste aspeto a hist\u00f3ria de Jesus p\u00f5e a nossa vida a descoberto!<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">11. Por \u00faltimo, a hist\u00f3ria que ouvimos mostra-nos e adverte-nos que tanto nos podemos perder l\u00e1 longe, no deserto, como a ovelha e o filho mais novo, como nos podemos perder em casa, como a moeda e o segundo filho. Aten\u00e7\u00e3o, portanto: podemos andar perdidos em casa, numa casa fria, sem Pai e sem irm\u00e3os, sem lareira, sem mesa e sem alegria! S\u00f3 com patr\u00e3o e assalariados! E, ainda por cima, podemos pensar que somos zelosos e at\u00e9 beatos (!), muito melhores do que os outros. Todos os cuidados, portanto!<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">12. Faz sintonia com o quadro impressionante do Evangelho de hoje a p\u00e1gina igualmente fascinante do Livro do \u00caxodo 32,7-14. \u00c9 sabido que o texto assinalado segue imediatamente o epis\u00f3dio do bezerro de ouro, que encontramos em \u00caxodo 32,1-6, e que constitui como que uma par\u00f3dia, rutura e pervers\u00e3o do assentimento do povo em \u00caxodo 19,8 e 24,3.7, em que o povo afirmou: \u00ab<em>Faremos<\/em>\u00a0todas as palavras que o Senhor falou\u00bb. \u00caxodo 32,1-6 mostra que o povo\u00a0<em>faz<\/em>, n\u00e3o a Palavra de Deus, mas um bezerro! A p\u00e1gina de hoje recupera o epis\u00f3dio do bezerro, pondo o povo a ador\u00e1-lo, a oferecer-lhe sacrif\u00edcios, e a confessar diante dele: \u00abEste \u00e9 o teu deus, \u00f3 Israel, que te fez subir da terra do Egito\u00bb (v. 8). Posto isto, o caudal do texto de hoje atinge-nos em duas vagas: a primeira, expressa nos v. 7-10, mostra-nos Deus a falar com Mois\u00e9s acerca de um Israel desviado de Deus e obstinado, e que Deus pretende destruir, para come\u00e7ar tudo de novo s\u00f3 com Mois\u00e9s; a segunda, expressa nos v. 11-13, mostra-nos Mois\u00e9s no papel de intercessor, como que dizendo a Deus: \u00abN\u00e3o fa\u00e7as isso!\u00bb, terminando, no v. 14, com Deus a atender a s\u00faplica de Mois\u00e9s e a desistir do seu projeto de destrui\u00e7\u00e3o do povo.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">13. A primeira vaga abre com Deus a dizer para Mois\u00e9s: \u00abVai, desce, que o\u00a0<em>teu<\/em>\u00a0povo, que\u00a0<em>tu<\/em>\u00a0fizeste subir da terra do Egito, corrompeu-se\u00bb (v. 7), e a repeti-lo em \u00caxodo 33,1. Convenhamos que um tal dizer de Deus \u00e9 estranho e traduz bem a corrup\u00e7\u00e3o do povo e a consequente rutura da Alian\u00e7a. Dizendo o que diz e como o diz, Deus como que est\u00e1, de certa maneira, a fazer recair sobre Mois\u00e9s a responsabilidade da condu\u00e7\u00e3o e do comportamento do povo (\u00abo\u00a0<em>teu<\/em>\u00a0povo, que\u00a0<em>tu<\/em>\u00a0fizeste subir da terra do Egito\u00bb); por outro lado, ao dizer o que diz e como o diz, Deus est\u00e1 a abrir a Mois\u00e9s a porta para repor a verdade dos factos e assumir o papel de mediador-intercessor, em ordem a poder transformar em perd\u00e3o o seu projeto destruidor. Este convite \u00e0 intercess\u00e3o de Mois\u00e9s parece mesmo impor-se a partir da afirma\u00e7\u00e3o do v. 10, em que Deus avan\u00e7a a disjun\u00e7\u00e3o entre Mois\u00e9s e o povo, e se prop\u00f5e destruir o povo e come\u00e7ar tudo de novo s\u00f3 com Mois\u00e9s: \u00abE agora deixa-me a s\u00f3s comigo mesmo, e arder\u00e1 a minha c\u00f3lera contra eles e os devorar\u00e1, e de ti farei um grande povo\u00bb. Eis como a porta fica entreaberta: se Deus decidiu mesmo destruir Israel, por que raz\u00e3o diz que o vai fazer antes de o fazer?\u00a0<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">14. Na verdade, dizendo o que diz, quando o diz, a quem o diz, como o diz, Deus como que for\u00e7a Mois\u00e9s a \u00abficar de p\u00e9, sobre a fresta (<em>baperets<\/em>), diante d\u2019Ele\u00bb, extraordin\u00e1ria express\u00e3o do Salmo 106,23, posi\u00e7\u00e3o inc\u00f3moda e dif\u00edcil de quem deve assumir a vigil\u00e2ncia e intercess\u00e3o, paradoxalmente n\u00e3o sobre o povo, mas sobre Deus, \u00abpara fazer voltar atr\u00e1s a sua c\u00f3lera de destrui\u00e7\u00e3o\u00bb. Percebe-se aqui alguma coisa do mist\u00e9rio deste Deus que n\u00e3o se comporta em rela\u00e7\u00e3o aos homens como um homem ou como um princ\u00edpio abstrato. De facto, no v. 11, in\u00edcio da segunda vaga, o narrador p\u00f5e logo Mois\u00e9s no papel de mediador-intercessor, apelando a Deus, e repondo a verdade do credo: \u00abMas Mois\u00e9s implorou face ao Senhor, seu Deus, e disse: \u201cPorqu\u00ea, Senhor, arder\u00e1 a tua c\u00f3lera contra o\u00a0<em>Teu<\/em>\u00a0povo, que\u00a0<em>Tu<\/em>\u00a0fizeste sair da terra do Egito?\u201d\u00bb. Como se v\u00ea, a pronominalidade (<em>tu<\/em>,\u00a0<em>teu<\/em>) muda de Deus para Mois\u00e9s (v. 7), e de novo de Mois\u00e9s para Deus (v. 11). \u00c9 o povo pecador a passar de m\u00e3o em m\u00e3o, para ficar finalmente em boas m\u00e3os, nas m\u00e3os de Deus. Valeu a intercess\u00e3o vigilante de Mois\u00e9s, que \u00abpermaneceu de p\u00e9, sobre a fresta, diante dele, para fazer regredir a sua c\u00f3lera de destrui\u00e7\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">15. Na li\u00e7\u00e3o da 1 Carta a Tim\u00f3teo 1,12-17, hoje tamb\u00e9m lida, vemos S\u00e3o Paulo em a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as a Jesus Cristo, Senhor Nosso, porque sendo blasfemo, perseguidor e insolente, foi objeto da gra\u00e7a e da miseric\u00f3rdia superabundantes que h\u00e1 em Cristo Jesus. E afirma com f\u00e9 esclarecida e verificada que Jesus Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores, de que ele \u00e9 o primeiro. Assim, pode Paulo apresentar-se como exemplo para aqueles que h\u00e3o de acreditar. Fecha a per\u00edcope uma extraordin\u00e1ria doxologia: \u00abAo Rei dos s\u00e9culos, ao Deus incorrupt\u00edvel, invis\u00edvel e \u00fanico, honra e gl\u00f3ria, pelos s\u00e9culos dos s\u00e9culos. \u00c1men\u00bb (v. 17).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">16. Cantamos hoje, em perfeita conson\u00e2ncia com toda a liturgia deste Domingo, alguns acordes do Salmo 51, a s\u00faplica penitencial por excel\u00eancia, que constitui a ossatura espiritual de Agostinho, de Charles de Foucauld, de Joana D\u2019Arc, que inspirou a pena de muit\u00edssimos Padres da Igreja, e ecoa na m\u00fasica de Bach, Lulli, Donizetti, Honegger\u2026 Hoje \u00e9 a nossa vez de nos sentarmos um pouco a trautear a m\u00fasica que nos atravessa e nos p\u00f5e de p\u00e9. Est\u00e1 aqui a letra e a m\u00fasica do homem, de qualquer homem, seja ele quem for, de que ra\u00e7a for, de que religi\u00e3o for. Enxerto aqui, em tradu\u00e7\u00e3o segura e literal, as palavras preciosas que constituem a introdu\u00e7\u00e3o: \u00ab<em>Faz-me gra\u00e7a<\/em>\u00a0(<em>hannen\u00ee<\/em>), \u00f3 Deus, segundo o Teu\u00a0<em>amor<\/em>\u00a0(<em>hesed<\/em>)! Segundo a multid\u00e3o das Tuas\u00a0<em>miseric\u00f3rdias<\/em>\u00a0(<em>rah<sup>a<\/sup>m\u00eem<\/em>), apaga as\u00a0<em>minhas transgress\u00f5es<\/em>\u00a0(<em>pesha?\u00eem<\/em>)! Lava-me e relava-me da\u00a0<em>minha iniquidade<\/em>\u00a0(<em>?<sup>a<\/sup>wah<\/em>), e do\u00a0<em>meu pecado<\/em>\u00a0(<em>hatha?<\/em>) purifica-me!\u00bb (v. 3-4). Quem \u00e9 Deus? Gra\u00e7a, amor, miseric\u00f3rdias. Quem sou eu? Transgress\u00f5es, iniquidade, pecado. Ser\u00e1 Deus o vencedor ou serei eu? Claro que \u00e9 Deus. Deixo aqui, a fechar, as palavras alt\u00edssimas da grande m\u00edstica mu\u00e7ulmana do s\u00e9culo VIII, Rabi?a, de seu nome: \u00abUm homem disse a Rabi?a: \u201cCometi muitos pecados e muitas transgress\u00f5es; se eu me arrepender, Deus perdoar-me-\u00e1?\u201d. Disse Rabi?a: \u201cN\u00e3o. Tu arrepender-te-\u00e1s, se Ele te perdoar\u201d\u00bb (<em>I detti di Rabi?a<\/em>, XII, 2).<\/p>\n<p class=\"inline-ad-slot\" data-adtags-visited=\"true\" data-adtags-width=\"450\" id=\"inline-ad-3\">\u00a0\u2026..<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ainda agora abri a p\u00e1gina em branco do deve-e-haver<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Deste tempo que me \u00e9 dado viver.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">N\u00e3o sei ainda os registos que nela se far\u00e3o,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Mas j\u00e1 sei que, ao terminar o dia,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">A p\u00e1gina agora aberta transbordar\u00e1 de perd\u00e3o e de alegria.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u2026..<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00c9 essa a li\u00e7\u00e3o que se recebe do grande Salmo deste dia:<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00abFaz-me\u00a0<em>gra\u00e7a<\/em>, \u00f3 Deus, segundo o teu\u00a0<em>amor<\/em>,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Segundo a multid\u00e3o das tuas\u00a0<em>miseric\u00f3rdias<\/em>!<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Apaga as minhas\u00a0<em>transgress\u00f5es<\/em>,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Lava-me e relava-me da minha\u00a0<em>iniquidade<\/em>,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">E do meu\u00a0<em>pecado<\/em>\u00a0purifica-me!\u00bb.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u2026..<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\"><em>Gra\u00e7a, amor, miseric\u00f3rdias<\/em>:<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00c9 a tua bondade aqui tr\u00eas vezes dita.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\"><em>Transgress\u00f5es<\/em>,\u00a0<em>iniquidade<\/em>,\u00a0<em>pecado<\/em>:<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00c9 a minha maldade aqui tamb\u00e9m tr\u00eas vezes repetida.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u2026..<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Tu e eu sempre frente-a-frente,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Sempre lado-a-lado:<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Teu \u00e9 o amor, meu \u00e9 o pecado.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Mas v\u00ea-se bem que esta luta tem um vencedor antecipado:<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Sim, o teu amor acaba sempre por vencer o meu pecado!<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u2026..<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ex 32,7-11.13-14; Sl 51; 1 Tm 1,12-17; Lc 15,1-32 1. 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