{"id":3841257532,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/12254-solenidade-do-santissimo-corpo-e-sangue-de-jesus-o-pao-vivo-descido-do-ceu"},"modified":"2025-11-07T16:33:55","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:55","slug":"solenidade-do-santissimo-corpo-e-sangue-de-jesus-o-pao-vivo-descido-do-ceu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/solenidade-do-santissimo-corpo-e-sangue-de-jesus-o-pao-vivo-descido-do-ceu\/","title":{"rendered":"Solenidade do Sant\u00edssimo Corpo e Sangue de Jesus: \u00abO P\u00e3o vivo descido do C\u00e9u\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p data-adtags-visited=\"true\">Dt 8,2-3.14b-16a; Sl 148; 1 Cor10,16-17; Jo 6,51-58<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">1. O imenso texto que forma o Cap\u00edtulo 6 do Evangelho de Jo\u00e3o, pode dividir-se em seis Partes: a primeira Parte, que funciona como Introdu\u00e7\u00e3o ou prepara\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio, engloba os v. 1-4 e apresenta as personagens (Jesus, uma grande multid\u00e3o, os disc\u00edpulos), o lugar (na \u00aboutra margem do mar da Galileia\u00bb, na \u00abmontanha\u00bb) e o tempo (\u00abestava pr\u00f3xima a P\u00e1scoa dos judeus\u00bb); a segunda Parte, que se estende pelos v. 5-15, abre com uma pergunta pedag\u00f3gica de Jesus dirigida a Filipe (\u00abFilipe, onde compraremos p\u00e3o para que eles comam?\u00bb), n\u00e3o corretamente respondida por Filipe e Andr\u00e9, mas resolvida por Jesus; a terceira Parte, que compreende os v. 16-21, mostra-nos os disc\u00edpulos a atravessar, no escuro, o mar encapelado, e Jesus vindo ao seu encontro caminhando sobre o mar; a quarta Parte, entre os v. 22-24, apresenta-nos um novo come\u00e7o, \u00abno dia seguinte\u00bb, mostrando-nos a multid\u00e3o que nota a aus\u00eancia de Jesus e parte \u00e0 sua procura para Cafarnaum (mudan\u00e7a de lugar); a quinta Parte, que compreende a longa extens\u00e3o de texto entre os v. 25-59, traz para a cena a importante discuss\u00e3o, travada entre Jesus e a multid\u00e3o ou os judeus, sobre o p\u00e3o vindo do c\u00e9u; a sexta Parte, que contempla os \u00faltimos vers\u00edculos (v. 60-71), estende a discuss\u00e3o aos disc\u00edpulos, mostrando a deser\u00e7\u00e3o de muitos (v. 60-66), em contraponto com a confiss\u00e3o de f\u00e9 de Pedro (v. 67-71).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">2. A passagem do Evangelho que temos a gra\u00e7a de escutar neste Dia Grande do Sant\u00edssimo Corpo e Sangue de Cristo \u00e9 Jo\u00e3o 6,51-58. Como se v\u00ea, esta passagem integra a longa quinta Parte de Jo\u00e3o 6, que se estende pelos v. 25-59. Mostramos agora, para efeitos de clareza e melhor compreens\u00e3o, como se apresenta estruturada esta quinta Parte (Jo\u00e3o 6,25-59), para nos ocuparmos depois, mais de perto, do texto de hoje (Jo\u00e3o 6,51-58). Jo\u00e3o 6,25-59 apresenta-se ritmado pelo esquema \u00abpergunta-resposta\u00bb. As perguntas saem da boca de uma \u00abmultid\u00e3o\u00bb n\u00e3o identificada ou dos \u00abjudeus\u00bb, a que se seguem as respostas de Jesus. Seguindo este ritmo, o texto de Jo\u00e3o 6,25-59 mostra-se organizado em cinco sec\u00e7\u00f5es: Jo\u00e3o 6,25-29 (a), Jo\u00e3o 6,30-33 (b), Jo\u00e3o 6,34-40 (c), Jo\u00e3o 6,41-51 (d) e Jo\u00e3o 6,52-59 (e).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">3. \u00c9 agora f\u00e1cil verificar que a passagem do Evangelho de hoje (Jo\u00e3o 6,51-58) cai, quase por inteiro, na quinta sec\u00e7\u00e3o (v. 52-59) da quinta Parte. Dizemos quase por inteiro, porque o v. 51, que abre o Evangelho de hoje, faz parte da quarta sec\u00e7\u00e3o (Jo\u00e3o 6,41-51), constituindo mesmo o seu encerramento natural. Na verdade, \u00e0 pergunta dos judeus: \u00abN\u00e3o \u00e9 este, Jesus, o filho de Jos\u00e9, de quem conhecemos o pai e a m\u00e3e? Como \u00e9 que diz agora: \u201cEu desci do c\u00e9u\u201d?\u00bb (Jo\u00e3o 6,42), que abria a quarta sec\u00e7\u00e3o (Jo\u00e3o 6,41-51), responde Jesus, afirmando a sua verdadeira identidade: \u00abEu sou o p\u00e3o vivo que desceu do c\u00e9u (\u2026), p\u00e3o que \u00e9 a minha carne, que Eu darei para a vida do mundo\u00bb (Jo\u00e3o 6,51). Na fin\u00edssima rede do texto, o v. 51 constitui o fecho natural da quarta sec\u00e7\u00e3o. Um pequeno reparo: como este v. 51 aparece a abrir o Evangelho de hoje, anote-se ent\u00e3o que Jesus n\u00e3o est\u00e1 a responder \u00e0 \u00abmultid\u00e3o\u00bb, como nos faz ler a vers\u00e3o oficial do texto que vai ser proclamado, mas aos \u00abjudeus\u00bb, que entram em cena em Jo\u00e3o 6,41, e formulam a pergunta que se ouve em Jo\u00e3o 6,42.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">4. A afirma\u00e7\u00e3o de Jesus em Jo\u00e3o 6,51 tamb\u00e9m \u00e9 importante hoje, pois cont\u00e9m todos os elementos que importa considerar: \u00abEu sou o p\u00e3o vivo (<em>ho z\u00f4n<\/em>) que desceu do c\u00e9u\u00bb, \u00abesse p\u00e3o \u00e9 a minha carne\u00bb, e \u00abd\u00e1 a vida (<em>z\u00f4\u00ea<\/em>)\u00bb. De qualquer modo, a abrir a quinta sec\u00e7\u00e3o, l\u00e1 est\u00e1 outra pergunta que sai tamb\u00e9m da boca dos judeus, e que vem na continuidade da resposta acima referida de Jesus. A nova pergunta soa assim: \u00abComo pode este dar-nos a sua carne (<em>s\u00e1rx<\/em>) a comer?\u00bb (Jo\u00e3o 6,52).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">5. Na sua resposta, que preenche o resto do texto de hoje (Jo\u00e3o 6,53-58), Jesus fala de vida nova, e, por isso, tamb\u00e9m de alimento novo, consent\u00e2neo com essa vida nova. Esclarecedor, nesse sentido, \u00e9 que o verbo \u00abcomer\u00bb apare\u00e7a conjugado com \u00abcarne\u00bb (<em>s\u00e1rx<\/em>) (Jo\u00e3o 6,52.53.54.56), com \u00abp\u00e3o\u00bb (<em>\u00e1rtos<\/em>) (Jo\u00e3o 6,51.58) e \u00abcomigo\u00bb (<em>me<\/em>) [\u00abo que\u00a0<em>me<\/em>\u00a0come\u00bb] (Jo\u00e3o 6,57). Fica claro que \u00abcomer o p\u00e3o descido do c\u00e9u\u00bb \u00e9 \u00abcomer a carne do Filho do Homem\u00bb, e que as duas express\u00f5es s\u00e3o equivalentes de \u00abcomer a pessoa\u00bb de Jesus, a sua identidade, o seu modo de viver. S\u00f3 assim, a vida verdadeira, a vida eterna (<em>z\u00f4\u00ea ai\u00f4nios<\/em>), entra em n\u00f3s e transforma a nossa vida, configurando-a com a de Jesus. Uma nova possibilidade entra na hist\u00f3ria humana. Tudo o que fica para tr\u00e1s, toda a hist\u00f3ria humana passada, pode resumir-se no man\u00e1, \u00abque os vossos pais comeram, e morreram\u00bb (Jo\u00e3o 6,49.58a). Sim, o man\u00e1 aparece em refer\u00eancia apenas com a vida terrena, e n\u00e3o tem nenhuma efic\u00e1cia para al\u00e9m da morte. Ao contr\u00e1rio, o p\u00e3o que Jesus \u00e9 e d\u00e1 n\u00e3o serve de sustento \u00e0 vida terrena, e t\u00e3o-pouco livra da morte terrena: tamb\u00e9m o pr\u00f3prio Jesus morreu! Mas o p\u00e3o que Jesus \u00e9 d\u00e1 a vida eterna (<em>z\u00f4\u00ea ai\u00f4nios<\/em>) (Jo\u00e3o 6,58b). Emerge ainda o tema grande da perten\u00e7a m\u00fatua e permanente: \u00abQuem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em Mim e Eu nele\u00bb (Jo\u00e3o 6,56). \u00c9 a melhor e a mais realista tradu\u00e7\u00e3o da nossa comunh\u00e3o eucar\u00edstica. At\u00e9 o verbo \u00abcomer\u00bb ganha nesta sec\u00e7\u00e3o particular sabor e realismo. De facto, habitualmente, para dizer \u00abcomer\u00bb, \u00e9 usado o verbo grego\u00a0<em>esth\u00ed\u00f4<\/em>. Todavia, em Jo\u00e3o 6,54.56.57.58, \u00e9 usado um verbo \u00abcomer\u00bb muito mais forte, o verbo\u00a0<em>tr\u00f4g\u00f4<\/em>\u00a0[= trincar, mastigar]. De forma significativa, este verbo s\u00f3 \u00e9 usado nas passagens atr\u00e1s assinaladas e em Jo\u00e3o 13,18, no contexto da ceia da P\u00e1scoa. Vida nova e eterna, ressuscitada. Comunh\u00e3o e intimidade entre Deus e a Humanidade. Por isso e para isso, Jesus se fez um de n\u00f3s, descendo ao nosso mundo, e dando-se completamente a n\u00f3s, dando por n\u00f3s a sua vida (<em>psych\u00ea<\/em>) e dando-nos tamb\u00e9m a vida eterna (<em>z\u00f4\u00ea ai\u00f4nios<\/em>).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">6. \u00abInterroga a velha terra: responder-te-\u00e1 sempre com o p\u00e3o e o vinho\u00bb. Estas palavras de Paul Claudel traduzem bem a nossa Eucaristia. Os sinais do p\u00e3o e do vinho n\u00e3o mostram apenas o alimento f\u00edsico, importante e indispens\u00e1vel, mas tamb\u00e9m est\u00e3o presentes quando queremos manifestar a nossa comunh\u00e3o na alegria (dias festivos) e na dor (veja-se a sua partilha em rituais f\u00fanebres). Este segundo aspeto presente nos sinais do p\u00e3o e do vinho \u00e9 tamb\u00e9m um importante alimento da nossa vida. \u00c9 o que Mois\u00e9s diz com energia ao povo de Israel reunido na plan\u00edcie de Moab: \u00abNem s\u00f3 de p\u00e3o vive o homem, mas de toda a Palavra que sai da boca de Deus\u00bb (Deuteron\u00f3mio 8,3). Palavra, comunica\u00e7\u00e3o, comunh\u00e3o, intimidade.\u00a0<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">7. A\u00ed est\u00e1 tamb\u00e9m hoje o grande texto de Paulo aos Cor\u00edntios 10,16-17, porventura a mais antiga e singela evoca\u00e7\u00e3o da Eucaristia, que ent\u00e3o se chamaria\u00a0<em>eulog\u00eda<\/em>, isto \u00e9, \u00abB\u00ean\u00e7\u00e3o\u00bb. \u00abO c\u00e1lice da B\u00ean\u00e7\u00e3o (<em>t\u00f2 pot\u00earion t\u00eas eulog\u00edas<\/em>) que Bendizemos (<em>eulogo\u00fbmen<\/em>) n\u00e3o \u00e9 comunh\u00e3o (<em>koin\u00f4n\u00eda<\/em>) no sangue de Cristo? O p\u00e3o que partimos (<em>kl\u00e1\u00f4<\/em>) n\u00e3o \u00e9 comunh\u00e3o no corpo de Cristo?\u00bb (1 Cor\u00edntios 10,16). O texto \u00e9 singelo, condensado, fort\u00edssimo. A b\u00ean\u00e7\u00e3o, hebraico\u00a0<em>b<sup>e<\/sup>rakah<\/em>, \u00e9 unitiva. Une, re\u00fane, p\u00f5e em comunh\u00e3o. Se parte de Deus, recai sobre o homem, e volta a Deus, unindo Deus e o homem num c\u00edrculo inquebr\u00e1vel. Se parte do homem, recai sobre Deus, e volta ao homem, unindo-os igualmente num c\u00edrculo inquebr\u00e1vel. Pode tamb\u00e9m recair sobre outra pessoa ou outras pessoas, unindo sempre as duas partes num c\u00edrculo inquebr\u00e1vel. Por aqui se v\u00ea bem a energia nova e irreprim\u00edvel que \u00abbendizer\u00bb, \u00abdizer bem\u00bb, comporta. A Eucaristia \u00e9, na verdade, esta uni\u00e3o ou comunh\u00e3o entre Deus e o Homem, e de todos os membros da Assembleia crist\u00e3 e orante entre si. O contr\u00e1rio de \u00abbendizer\u00bb \u00e9 \u00abmaldizer\u00bb, \u00abdizer mal\u00bb. Bendizer une. Maldizer divide. Celebrar a Eucaristia significa e implica, para quem nela participa, dizer bem, pensar bem, querer bem, fazer bem. Um novo e belo programa de vida.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">8. \u00abComo \u00e9 bom, como \u00e9 belo, viverem unidos os irm\u00e3os\u00bb (Salmo 133,1). Saboreemos esta Alegria, o P\u00e3o e o Vinho da Alegria, nesta celebra\u00e7\u00e3o da Solenidade do Sant\u00edssimo Corpo e Sangue de Cristo, bem unidos e reunidos \u00e0 volta do \u00fanico Senhor da nossa vida, Jesus Cristo. Tradicionalmente, neste Dia, o Senhor da nossa vida presidir\u00e1 e aben\u00e7oar\u00e1 com a sua Presen\u00e7a, caminhando connosco, no meio de n\u00f3s, em solene prociss\u00e3o, os caminhos das nossas aldeias e cidades. Quer isto dizer que o p\u00e1lio (<em>pallium<\/em>) de Deus atravessar\u00e1 as nossas aldeias e cidades. O p\u00e1lio de Deus \u00e9 o manto (<em>pallium<\/em>) de Deus, os bra\u00e7os carinhosos com que nos abra\u00e7a e nos envolve, e nos pede para fazermos outro tanto, enchendo de gra\u00e7a e de esperan\u00e7a todos os nossos irm\u00e3os. Verdadeiramente, num mundo em profunda crise como este em que vamos, parece que voltamos a viver, como dizia S. Paulo aos Ef\u00e9sios, \u00absem esperan\u00e7a e sem Deus no mundo\u00bb (Ef\u00e9sios 2,12). Entenda-se: sem esperan\u00e7a, porque sem Deus no mundo, connosco, no meio de n\u00f3s.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">9. Jesus Cristo \u00e9 Deus presente no nosso mundo todos os dias. E o p\u00e1lio \u00e9 o manto, o abra\u00e7o, com que nos acarinha e envolve. De p\u00e1lio (<em>pallium<\/em>) v\u00eam os cuidados paliativos, que n\u00e3o s\u00e3o apenas os cuidados m\u00e9dicos que s\u00e3o prestados aos nossos doentes terminais; s\u00e3o sobretudo a express\u00e3o de um amor maior, de um manto maior e mais quente, que nos envolve e nos salva em todas as situa\u00e7\u00f5es (Gianluigi Peruggia,\u00a0<em>L\u2019abbraccio del mantello<\/em>, Saronno, Monti, 2004).<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00a0<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dt 8,2-3.14b-16a; Sl 148; 1 Cor10,16-17; Jo 6,51-58 1. 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