{"id":3916808533,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/9181-domingo-i-da-quaresma-no-deserto-a-ceu-aberto"},"modified":"2025-11-07T16:33:36","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:36","slug":"domingo-i-da-quaresma-no-deserto-a-ceu-aberto-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-i-da-quaresma-no-deserto-a-ceu-aberto-2\/","title":{"rendered":"Domingo I da Quaresma: \u00abNo deserto a C\u00e9u aberto\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p data-adtags-visited=\"true\">1. S\u00f3 secundariamente a Quaresma \u00abprepara\u00bb para a Ressur\u00adrei\u00e7\u00e3o do Senhor. Na verdade, todos os \u00abTempos\u00bb e todos os Domingos do Ano Lit\u00fargico, portanto, tamb\u00e9m a Quaresma e os seus Domingos, est\u00e3o\u00a0<em>depois<\/em>\u00a0da Ressurrei\u00e7\u00e3o e\u00a0<em>por causa<\/em>\u00a0da Ressurrei\u00e7\u00e3o. E \u00e9 s\u00f3 sob a intensa luz do Senhor Ressusci\u00adtado com o Esp\u00edrito Santo (Batismo consumado: Lucas 12,49?50) que a Igreja \u2013 e cada um de n\u00f3s \u2013 pode celebrar autenti\u00adcamente a sua f\u00e9, proceder \u00e0 correta \u00ableitura\u00bb das Escri\u00adturas e encetar a \u00abcaminhada\u00bb quaresmal. Neste sentido, todos os batizados s\u00e3o chamados a refazer com Cristo bati\u00adzado o seu programa batismal, cujo conte\u00fado e itiner\u00e1rio conhecemos: desde o Batismo no Jord\u00e3o, passando pela Trans\u00adfigura\u00e7\u00e3o \/ Confirma\u00e7\u00e3o no Tabor, at\u00e9 \u00e0 Cruz e \u00e0 Gl\u00f3ria da Ressurrei\u00e7\u00e3o (Batismo consumado!), escutando \/ anunciando sempre e cada vez mais intensamente o Evangelho do Reino e fazendo sempre e cada vez mais intensamente as \u00abobras\u00bb do Reino (Atos dos Ap\u00f3stolos 10,37-43: texto emblem\u00e1tico); os catec\u00famenos, acompanhados sempre pela Assembleia dos batizados, \u00abpre\u00adparam?se\u00bb intensamente para a Noite Pascal Batismal, in\u00edcio e meta da vida crist\u00e3.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">2. A Igreja Santa, toda Batizada e Crismada, sabe bem que \u00e9 dali, daquela Cruz Santa e Gloriosa, e da enxurrada de Vida Nova, Ressuscitada, da d\u00e1diva do Esp\u00edrito que dela jorra, que nos \u00e9 oferecida a \u00abconsuma\u00e7\u00e3o\u00bb (<em>tele\u00ed\u00f4sis<\/em>) (cf. Jo\u00e3o 19,28-30), o cumprimento, a chegada \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o da nossa vida, deste segmento de tempo que, por gra\u00e7a, nos \u00e9 dado viver.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">3. O Evangelho deste Domingo I da Quaresma oferece-nos o epis\u00f3dio das Tenta\u00e7\u00f5es de Jesus (Mateus 4,1-11). Batizado com o Esp\u00edrito Santo, e declarado por Deus publicamente: \u00abEste \u00e9 o Filho meu, o Amado, em quem me comprazo\u00bb (Mateus 3,16). Note-se bem que, em Mateus, o dizer do Pai \u00e9 para n\u00f3s, pois fala em 3.\u00aa pessoa: \u00ab<em>Este \u00e9<\/em>\u00a0o Filho meu, o Amado, em quem me comprazo\u00bb. De modo diferente, em Marcos e em Lucas, o dizer do Pai \u00e9 para Jesus, pois fala em 2.\u00aa pessoa: \u00ab<em>Tu \u00e9s<\/em>\u00a0o Filho meu, o Amado, em ti me comprazo\u00bb (Marcos 1,11; Lucas 3,22).<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">4. Jesus \u00e9 conduzido pelo Esp\u00edrito Santo para o deserto (Mateus 4,1). Note-se bem que este \u00abdeserto\u00bb b\u00edblico n\u00e3o se ajusta ao que dizem os dicion\u00e1rios ou enciclop\u00e9dias. At\u00e9 contradiz esses dizeres. Na verdade, n\u00e3o \u00e9 um lugar geogr\u00e1fico, mas teol\u00f3gico, pois \u00e9 apresentado com muita \u00e1gua (Jo\u00e3o 3,23) cumprindo Isa\u00edas 35,6-7, 41,18 e 43,19-20, com \u00e1rvores (canas) (Mateus 11,7; Lucas 7,24) e relva verde (Marcos 6,39) cumprindo Isa\u00edas 35,1 e 7 e 41,19. \u00c9 um lugar provis\u00f3rio e preliminar, preambular, longe do que \u00e9 nosso, onde se est\u00e1 \u00aba c\u00e9u aberto\u00bb com Deus, onde troar\u00e1 a voz do seu mensageiro (Isa\u00edas 40,3), de Jo\u00e3o Batista (Mateus 3,1-3), do pr\u00f3prio Messias segundo uma tradi\u00e7\u00e3o judaica recolhida em Mateus 24,26. O deserto \u00e9 o lugar onde se pode come\u00e7ar a ver a \u00abobra\u00bb nova de Deus (Isa\u00edas 43,19). Mas \u00e9 um lugar provis\u00f3rio, onde estamos de passagem, e n\u00e3o definitivo, para se habitar l\u00e1 (\u00e0 maneira dos Ess\u00e9nios). Sendo um lugar provis\u00f3rio e de passagem, aponta para o definitivo, que \u00e9 a Terra Prometida, onde Deus far\u00e1 habitar e descansar o seu povo fiel. Este deserto \u00e9 uma met\u00e1fora da nossa vida, onde sabemos que estamos de passagem. O deserto \u00e9 todo igual: n\u00e3o tem pontos de refer\u00eancia nem marcos de sinaliza\u00e7\u00e3o. Quer dizer que s\u00f3 podemos prosseguir rumo \u00e0 Terra Prometida e \u00e0 Vida verdadeira, se tivermos um bom guia. A\u00ed est\u00e1 o deserto como lugar onde temos de saber escutar a \u00abVoz do fino sil\u00eancio\u00bb de Deus e ler o mapa da sua Palavra.<\/p>\n<p class=\"inline-ad-slot\" data-adtags-visited=\"true\" data-adtags-width=\"450\" id=\"inline-ad-0\">5. Por 40 dias e 40 noites Jesus jejuou (Mateus 4,2). 40 \u00e9 simbolicamente o tempo de uma gera\u00e7\u00e3o, de uma vida. Jesus jejuou, portanto, a vida toda. Modelo para n\u00f3s. E o que \u00e9 que significa jejuar? Jejuar \u00e9 fazer pausa e p\u00f4r bemol na nossa maneira habitual de viver, at\u00e9 compreender que tudo o que est\u00e1 na minha mesa, m\u00e3os, p\u00e9s, intelig\u00eancia, entranhas, cora\u00e7\u00e3o, \u00e9 dom de Deus, n\u00e3o apenas para mim, mas para n\u00f3s, todos filhos de Deus e, portanto, todos irm\u00e3os. A alegria da partilha. Os dons s\u00e3o para partilhar, n\u00e3o para usurpar.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">6. \u00c9 assim que as tenta\u00e7\u00f5es diab\u00f3licas pretendem atingir Jesus na sua condi\u00e7\u00e3o filial batismal, separando-o de Deus e dos irm\u00e3os, n\u00e3o fosse o diabo,\u00a0<em>di\u00e1-bolos<\/em>, o m\u00e1ximo \u00abdivisor\u00bb ou \u00abseparador\u00bb comum. \u00c9, portanto, na sua\u00a0<em>condi\u00e7\u00e3o de batizado<\/em>, isto \u00e9, de\u00a0<em>Filho de Deus<\/em>, que Jesus \u00e9 tentado. Na verdade, toda a tenta\u00e7\u00e3o, a de Jesus Cristo como a nossa, come\u00e7a sempre da mesma maneira: \u00abSe \u00e9s o Filho de Deus\u2026\u00bb. Atente-se em como se repete nos mesmos termos sob a Cruz (Mateus 27,39-44), tamb\u00e9m por tr\u00eas vezes, em tr\u00eas vagas, sendo aqui os tentadores os transeuntes, os chefes dos sacerdotes e os ladr\u00f5es. Portanto, sempre. Do Batismo at\u00e9 \u00e0 Morte, a tenta\u00e7\u00e3o visa afastar-nos de Deus e dos seus dons, e p\u00f4r-nos ao servi\u00e7o do \u00abdeus deste mundo\u00bb (2 Cor\u00edntios 4,4; cf. Jo\u00e3o 12,31). Veja-se a \u00faltima oferta do Tentador do Evangelho de hoje: \u00abtodos os reinos deste mundo\u00bb em troca do afastamento de Deus (Mateus 4,8-9). E a resposta decidida de Jesus: \u00abVai-te, Satan\u00e1s!\u00bb (Mateus 4,10).<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">7. Leem-se tamb\u00e9m hoje dois bocadinhos do Livro do G\u00e9nesis 2,7-9 e 3,1-7. O homem de todos os tempos e de todos os lugares, n\u00f3s tamb\u00e9m, modelado pelas m\u00e3os puras de Deus e acariciado com um \u00abbeijo de Deus\u00bb \u2013 \u00e9 assim que os rabinos interpretam aquele sopro de Deus no rosto do homem (G\u00e9nesis 2,7) \u2013, cedeu \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o, afastando-se do Bom Deus Criador e aderindo aos \u00abdeuses deste mundo\u00bb, aqui simbolizados na cobra, animal que anda rente ou por dentro da terra, a grande deusa-m\u00e3e, comungando da sua vitalidade, e tornando-se, por isso, em s\u00edmbolo do culto da fertilidade, fecundidade e vitalidade em todo o M\u00e9dio Oriente Antigo e ainda hoje no nosso mundo: vejam-se os pain\u00e9is que assinalam as portas das farm\u00e1cias, ostentando uma cobra enrolada numa \u00e1rvore verde! Est\u00e1 diante de n\u00f3s o orgulho do homem de todos os tempos, que n\u00e3o quer ser dependente e contingente, que \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o da criatura boa que se recebe sempre do Deus Criador, mas quer ser aut\u00f3nomo e independente, senhor tir\u00e2nico e prepotente, como os deuses dos mitos mesopot\u00e2micos ou gregos. Admir\u00e1vel contraponto do Evangelho de hoje.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">8. No grande texto da Carta aos Romanos 5,12-19, S. Paulo repete que somos pecadores, pois todos nos podemos ver em Ad\u00e3o como em um espelho. Mas agora, insiste Paulo, \u00e9 tempo de vermos a nossa vida \u00e0 luz de Cristo, com Cristo, em Cristo, para Cristo. Fixamente, para n\u00e3o nos perdermos no caminho filial, fraternal, batismal. Onde abundou o pecado, superabundou a gra\u00e7a. \u00c9 esta a Sabedoria que Paulo nos transmite.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">9. Cantamos hoje o Salmo 51, a s\u00faplica penitencial por excel\u00eancia, que constitui a ossatura espiritual de Agostinho, de Charles de Foucauld, de Joana D\u2019Arc, que inspirou a pena de muit\u00edssimos Padres da Igreja, e ecoa na m\u00fasica de Bach, Lulli, Donizetti, Honegger\u2026 Hoje \u00e9 a nossa vez de nos sentarmos um pouco a trautear a m\u00fasica que nos atravessa e nos p\u00f5e de p\u00e9. Est\u00e1 aqui a letra e a m\u00fasica do homem, de qualquer homem, de qualquer tempo, seja ele quem for, de que ra\u00e7a for, de que religi\u00e3o for. Deixo aqui, a fechar, as palavras alt\u00edssimas da grande m\u00edstica mu\u00e7ulmana do s\u00e9culo VIII, Rabi?a, de seu nome: \u00abUm homem disse a Rabi?a: \u201cCometi muitos pecados e muitas transgress\u00f5es; se me arrepender, Deus perdoar-me-\u00e1?\u201d. Disse Rabi?a: \u201cN\u00e3o. Tu arrepender-te-\u00e1s, se Ele te perdoar\u201d\u00bb (<em>I detti di Rabi?a<\/em>, XII, 2).<\/p>\n<p class=\"inline-ad-slot\" data-adtags-visited=\"true\" data-adtags-width=\"450\" id=\"inline-ad-1\">\u00a0<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ao entrarmos no tempo santo da Quaresma,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Devemos ter a coragem de atravessar a poeira dos caminhos<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Intransitivos do nosso cora\u00e7\u00e3o,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Isto \u00e9, de limpar as mentiras, \u00f3dios, raivas, viol\u00eancias, banalidades,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Que tantas vezes preenchem os nossos dias.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">A Quaresma \u00e9 tempo de nos expormos<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ao vendaval criador e purificador do Esp\u00edrito,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Sem termos a pretens\u00e3o de o querer transformar em ar condicionado.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00a0<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Toma em tuas m\u00e3os, Senhor,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">A nossa terra ardida.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Beija-a.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Sopra nela outra vez o teu alento,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">A tua aragem,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">E veremos nela outra vez impressa a tua imagem.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00a0<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Tu sabes bem, Senhor, que somos fr\u00e1geis.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Mas contigo por perto,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Seremos fortes e \u00e1geis,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Capazes de abrir estradas no deserto,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">A c\u00e9u aberto.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00a0<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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