{"id":3978651205,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/9358-ainda-noite-e-ja-madrugada-padre-antonio-martins"},"modified":"2025-11-07T16:33:37","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:37","slug":"ainda-noite-e-ja-madrugada-padre-antonio-martins","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/ainda-noite-e-ja-madrugada-padre-antonio-martins\/","title":{"rendered":"\u00abAinda noite e j\u00e1 madrugada\u00bb, padre Ant\u00f3nio Martins"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/daybreak_200413012939.jfif\" \/><\/p>\n<p><p>Aleluia!, porque Cristo venceu a morte e ei-lo Vivente, a abrir-nos as portas da morte.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Aleluia!, porque a esperan\u00e7a vence o medo e nos coloca corajosos em novos e inesperados caminhos de vida e de futuro.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Aleluia!, porque no meio do inferno do sofrimento e da morte, do distanciamento social, da solid\u00e3o, vemos t\u00e3o eloquentes e comovedores sinais e testemunhos de vida, de compaix\u00e3o, de entrega generosa.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O Aleluia que cantamos este ano brota mais intenso e mais aut\u00eantico. Ainda que limitados \u00e0 estreiteza de nossa casas, vivemos e atravessamos uma p\u00e1scoa no concreto, com o cora\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os, de carne viva, em risco. Gritamos Aleluia n\u00e3o rendidos ao pavor do medo e da morte, ainda que tenhamos, com Cristo, atravessados esse inferno.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Tenho meditado no sentido crente que as atuais circunst\u00e2ncias nos desafiam. A dimens\u00e3o visceral, entranhada, concreta da condi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 torna-se-me mais evidente, numa evid\u00eancia irrecus\u00e1vel. V\u00ea-se mais claro esta coincid\u00eancia entre a paix\u00e3o de Cristo e a paix\u00e3o da humanidade numa \u00fanica paix\u00e3o, numa \u00fanica p\u00e1scoa. A f\u00e9 pascal n\u00e3o \u00e9 ideologia, nem teoria, \u00e9 vida em drama, exposta ao risco, mas n\u00e3o rendida \u00e0 fatalidade. \u00c9 vida que recome\u00e7a, que se sabe, continuamente, regenerada, pelo Esp\u00edrito que ressuscitou Jesus de entre os mortos e faz novas todas as coisas.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O despojamento e a pobreza lit\u00fargicas destes dias devolvem, com mais evid\u00eancia, a beleza escondida da vida quotidiana, a solenidade dos gestos ousados de tantas pessoas de vida entregue, esgotadas \u00abat\u00e9 ao fim\u00bb, na sua entrega profissional. Nunca a P\u00e1scoa nos pareceu t\u00e3o verdadeira, em sua express\u00e3o t\u00e3o pobre e t\u00e3o nua. Somos testemunhas dessa coincid\u00eancia entre o celebramos na liturgia e a vida concreta. Na paix\u00e3o, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo interpreta-se a paix\u00e3o de toda a humanidade nos dias de hoje, mas tamb\u00e9m a sua ressurrei\u00e7\u00e3o, a esperan\u00e7a de um futuro regenerador, o voltar a uma normalidade que j\u00e1 n\u00e3o ser\u00e1 a mesma. A ferida do presente ser\u00e1 portadora de uma fecundidade no futuro. Atrevemo-nos a esperar uma humanidade nova, renascida do presente inferno.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Por isso a palavras de uma antiga homilia do s\u00e9culo IV s\u00e3o hoje t\u00e3o atuais; s\u00e3o palavras para n\u00f3s: \u00abLevanta-te de entre os mortos; Eu sou a vida dos mortos; levanta-te minha imagem e semelhan\u00e7a; levanta-te, sa\u00edmos daqui; Tu em Mim e Eu em ti; somos um s\u00f3\u00bb. Do inferno dos hospitais, dos cemit\u00e9rios, dos lares de idosos, das fam\u00edlias em luto, de tantas pessoas em solid\u00e3o, pinta-se, hoje, pela a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito que faz novas todas as coisas o \u00edcone da ressurrei\u00e7\u00e3o: \u00abN\u00e3o temas! Eu sou o Primeiro e o \u00daltimo, o Vivente, estive morto, mas eis que estou vivo pelos s\u00e9culos dos s\u00e9culos, e tenho as chaves da morte e dos infernos\u00bb (Ap 1,17-18).<\/p>\n<p>\u00c9 sinal de ressurrei\u00e7\u00e3o aquela cadeia de hot\u00e9is que j\u00e1 antecipou o pagamento do subs\u00eddio de Natal, evitando riscos maiores para os seus colaboradores; \u00e9 sinal de ressurrei\u00e7\u00e3o as centenas de volunt\u00e1rios que est\u00e3o no terreno, cuidando, tratando e servindo. Tantos, tantos sinais pascais. Sinal do tempo presente de ressurrei\u00e7\u00e3o aquele editorial de um jornal laico ao escrever: \u00abSendo o leitor crente ou n\u00e3o o sendo, esta pode ser uma \u00e9poca de esperan\u00e7a e de supera\u00e7\u00e3o das dificuldades e prova\u00e7\u00f5es\u00bb (Expresso, 10.04.2020, 34).<\/p>\n<p>O evangelho narra-nos os primeiros raios da madrugada da P\u00e1scoa. Jo\u00e3o coloca em cena uma madrugadora, Maria Madalena, uma daquelas mulheres que esteve junto de Cristo na cruz, inteira. Ela \u00e9 agora a primeira a rasgar a aurora enquanto era ainda escuro: \u00abNo primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manha?zinha, ainda escuro, ao sepulcro\u00bb. A narrativa parece contradit\u00f3ria: afinal era de manh\u00e3zinha ou ainda escuro? Talvez, numa verdade existencial, as duas dimens\u00f5es sejam simult\u00e2neas.<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"203\" src=\"https:\/\/parabolaorg-4jzhg7c.stackpathdns.com\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Sin-Bourgeault3.jpg\" style=\"float: left\" width=\"277\">Maria Madalena guarda a fidelidade de um amor inteiro, \u00e9 a amada fiel. Em seu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 j\u00e1 madrugada, porque nunca houve noite. Ela \u00e9 guiada, como a Amada do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos, pela intensidade do amor que a leva a procurar de noite o amado: \u00ab&#8230; pela noite, procurei o amado do meu cora\u00e7\u00e3o\u00bb (Ct 31,1). Mas \u00e9 ainda de noite, pois sente a dor da perda e vai ao sepulcro para fazer luto. Esta simbologia do contraste entre o \u00abj\u00e1\u00bb da madrugada e o \u00abainda\u00bb da noite diz bem a situa\u00e7\u00e3o em que nos encontramos. No \u00abainda\u00bb do isolamento social precisamos de colocar \u00abj\u00e1\u00bb o desejo e a vontade do reencontro e do recome\u00e7o, de nos abra\u00e7armos uns aos outros.<\/img><\/p>\n<p>Um pormenor que surpreende no texto: o disc\u00edpulo jovem, \u00abaquele que Jesus amava\u00bb, quando chega a sepulcro, n\u00e3o entra logo, espera que Pedro chegue e d\u00e1-lhe a honra de entrar primeiro. Que sentido retirar disto? \u00abO disc\u00edpulo amado\u00bb \u00e9 a figura do disc\u00edpulo fiel, que est\u00e1 ali at\u00e9 ao fim junto de Jesus na cruz; \u00e9 a figura a que cada um de n\u00f3s e chamado. Pedro \u00e9 o disc\u00edpulo que traiu e abandonou Jesus. Fugiu da cruz com medo. A coragem e o medo, a fidelidade e a trai\u00e7\u00e3o, juntas \u00e0 porta do sepulcro. J\u00e1 estamos perante um milagre da ressurrei\u00e7\u00e3o: a reconcilia\u00e7\u00e3o entre os dois disc\u00edpulos.<\/p>\n<p>Poderia ter havida, da parte do \u00abdisc\u00edpulo que Jesus amava\u00bb, uma acusa\u00e7\u00e3o, um feroz julgamento de Pedro, um rep\u00fadio&#8230; mas n\u00e3o. Com esse disc\u00edpulo todos n\u00f3s aprendemos a conter a tenta\u00e7\u00e3o da acusa\u00e7\u00e3o, do julgamento imediato do outro, a n\u00e3o apresentar uma superioridade moral. No atual clima de confinamento, as nossas casas podem ser lugar de explos\u00e3o de conflitos e de acusa\u00e7\u00f5es reciprocas. A atitude do disc\u00edpulo que Jesus amava para com Pedro indica um caminho de ressurrei\u00e7\u00e3o permanente no quotidiano das nossas rela\u00e7\u00f5es: o perd\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o somos ing\u00e9nuos nem ligeiros: \u00e0 f\u00e9 na ressurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o se chega facilmente. Todas as evid\u00eancias imediatas de morte, de medo, de destrui\u00e7\u00e3o nos falam da finitude das coisas e da vida humana. Para os disc\u00edpulos acreditar que o Senhor estava vivo, no meio deles, a ressuscitar as suas consci\u00eancias, as suas rela\u00e7\u00f5es, a sua interioridade ferida levou tempo, muito tempo. Ainda hoje temos resist\u00eancia em acreditar na ressurrei\u00e7\u00e3o Levamos tempo a entender, como os disc\u00edpulos: \u00abainda n\u00e3o tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos\u00bb. Com que paci\u00eancia espera o Senhor a nossa decis\u00e3o de f\u00e9, como esperou pelos disc\u00edpulos!<\/p>\n<p>O disc\u00edpulo amado viu os sinais da morte (o sud\u00e1rio enrolado a um canto) e acreditou: \u00abviu e acreditou\u00bb. Viu para al\u00e9m do vis\u00edvel. Este \u00e9 o olhar a que a f\u00e9 no Ressuscitado no desafia. Um olhar portador de esperan\u00e7a e de futuro.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<address style=\"text-align: right\">Padre Ant\u00f3nio Martins<\/address>\n<address style=\"text-align: right\">Capela do Rato<\/address>\n<address style=\"text-align: right\"><span>professor na Faculdade de Teologia|Lisboa<\/span><\/address><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aleluia!, porque Cristo venceu a morte e ei-lo Vivente, a abrir-nos as portas da morte. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Aleluia!, porque a esperan\u00e7a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1796330642,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[70],"class_list":["post-3978651205","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-liturgia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3978651205","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3978651205"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3978651205\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4294994709,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3978651205\/revisions\/4294994709"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3978651205"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3978651205"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3978651205"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}