{"id":4027402041,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/44-destaques\/3794-forum-emrc-2014-cultura-escola-e-religiao"},"modified":"2025-11-07T16:26:39","modified_gmt":"2025-11-07T16:26:39","slug":"forum-emrc-2014-cultura-escola-e-religiao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/forum-emrc-2014-cultura-escola-e-religiao\/","title":{"rendered":"F\u00f3rum EMRC 2014: &#8220;Cultura, Escola e Religi\u00e3o&#8221;"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/img_1680_140125115440.jpg\"\/><\/p>\n<p><p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-family: Arial; font-size: small;\">Disponibilizamos a confer\u00eancia &#8220;Cultura, Escola e Religi\u00e3o&#8221; proferida hoje, durante o F\u00f3rum EMRC 2014, por D. Jos\u00e9 Policarpo, Cardeal-Patriarca Em\u00e9rito de lisboa.\u00a0<\/span><\/strong><\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\"><strong><\/strong>Siga-nos no\u00a0FACEBOOK [www.facebook.com\/educris.pt], no TWITTER [<span class=\"screen-name\"><s><span style=\"color: #66b5d2;\">@<\/span><\/s>EducrisSnec<\/span> ] e no printrest [www.pinterest.com\/EducrisSnec].<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\">\u201cCultura, escola e religi\u00e3o\u201d<\/h1>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p align=\"right\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p align=\"right\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Confer\u00eancia no F\u00f3rum EMRC,<\/em><\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p align=\"right\"><em>F\u00e1tima, 25 de Janeiro de 2014<\/em><\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 1. O tema que me foi proposto \u00e9 vasto e abrangente e permitiria v\u00e1rios enfoques: poder\u00edamos considerar a escola como enfoque enquanto estrutura principal ao servi\u00e7o da educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as, adolescentes e jovens, em que se entrecruzam os contributos de institui\u00e7\u00f5es diversas, como a fam\u00edlia, a sociedade, o Estado, a Igreja. Nessa perspectiva ter\u00edamos de considerar as exig\u00eancias que a nossa cultura coloca \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e \u00e0s estruturas educativas. O quadro da educa\u00e7\u00e3o \u00e9 a cultura, n\u00e3o uma cultura qualquer \u00e0 medida da considera\u00e7\u00e3o de cada interveniente, mas a cultura de um povo, a compreens\u00e3o da pessoa, da vida e da hist\u00f3ria, caldeada ao longo do tempo.<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Mas tamb\u00e9m poder\u00edamos considerar, como enfoque principal, a cultura como dinamismo envolvente, que desabrocha numa sabedoria, que define e burila a identidade espiritual e moral de uma comunidade. Tratando-se de um povo cat\u00f3lico, desde h\u00e1 s\u00e9culos e na sua maioria, ter\u00edamos necessariamente de considerar a influ\u00eancia da f\u00e9 religiosa na cultura de um povo, sem nunca esquecer todos os outros elementos que influenciaram essa cultura. Esta \u00e9 sempre a converg\u00eancia unificadora das express\u00f5es da liberdade, da busca da verdade, da beleza da vida, n\u00e3o apenas das pessoas individuais, mas enquanto membros de uma comunidade. Optando por este enfoque, teremos de olhar para a nossa cultura, para a influ\u00eancia que o cristianismo teve nela, para a sua evolu\u00e7\u00e3o din\u00e2mica, ao ritmo das muta\u00e7\u00f5es culturais. Teremos de perguntar se os nossos sistemas educativos, com relev\u00e2ncia para as nossas escolas, respiram e promovem a nossa cultura. A escola nunca pode ser um elemento culturalmente neutro. \u00c9 uma gota de \u00e1gua numa vasta corrente que engrossou e adquiriu identidade ao longo do tempo, numa hist\u00f3ria que reconhecemos como a nossa hist\u00f3ria e que corre para um futuro que nunca pode separar-se da mem\u00f3ria do seu percurso. Eu escolhi este segundo enfoque para o nosso tema.<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <strong>A cultura exprime e define a identidade de um povo<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 2. S\u00f3 a cultura permite \u00e0 pessoa humana, na sua caminhada pessoal de liberdade, assumir-se em tudo como membro de uma comunidade. Uma compreens\u00e3o individualista da vida \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o da cultura. O Conc\u00edlio Vaticano II afirma que s\u00f3 pela cultura o homem acede verdadeira e plenamente \u00e0 sua humanidade. S\u00f3 a cultura integra na unidade a natureza\u00a0 a hist\u00f3ria, o que recebemos do Criador e as marcas que a nossa ac\u00e7\u00e3o criativa lhe imprimiram. A verdade da natureza \u00e9 um elemento decisivo da verdade da cultura. O Conc\u00edlio afirma-o: \u201cSempre que se trata da vida humana, natureza e cultura est\u00e3o t\u00e3o estreitamente ligadas quanto poss\u00edvel\u201d (GS. n\u00ba 53).<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A cultura integra numa unidade, que se exprime ao longo do tempo, toda a riqueza da natureza e as express\u00f5es da liberdade das pessoas e das comunidades. O conceito de cultura \u00e9 necessariamente abrangente. Citemos de novo a <strong>Gaudium et Spes<\/strong>: \u201cA palavra cultura designa tudo o que \u00e9 express\u00e3o humana, aquilo em que o homem afina e desenvolve as capacidades do seu esp\u00edrito e do seu corpo; se esfor\u00e7a por submeter o universo pelo conhecimento e pelo trabalho; humaniza a vida social, tanto a vida familiar, como o conjunto da vida civil, gra\u00e7as ao progresso dos costumes e das institui\u00e7\u00f5es; em suma, a maneira como traduz, comunica e conserva nas suas obras, ao longo do tempo, as grandes experi\u00eancias espirituais e as grandes aspira\u00e7\u00f5es do homem, para que estejam ao servi\u00e7o do progresso de um grande n\u00famero e mesmo de todo o g\u00e9nero humano\u201d<a href=\"#_ftn1\" title=\"\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Uma comunidade, quer seja a Igreja, quer seja a Na\u00e7\u00e3o, burila a sua identidade cultural ao longo do tempo. \u201cA evolu\u00e7\u00e3o cultural tem mais o ritmo da hist\u00f3ria do que do presente, do momento que passa. S\u00f3 ao longo do tempo cada comunidade humana vai afinando o seu patrim\u00f3nio cultural. Vai-se definindo um meio determinado e hist\u00f3rico no qual cada homem se insere, independentemente da na\u00e7\u00e3o ou do s\u00e9culo, ao qual vai beber os valores que lhe permitem promover a civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 a este patrim\u00f3nio, definido ao longo do tempo, que se pode chamar \u201cmatriz cultural\u201d de um povo, a qual deve ser salvaguardada em toda a evolu\u00e7\u00e3o cultural e em toda a evolu\u00e7\u00e3o da sociedade. Quando a evolu\u00e7\u00e3o das sociedades se decide ao ritmo do presente ef\u00e9mero, afasta-se da matriz cultural e deixa de promover e enquadrar o aut\u00eantico progresso da pessoa e da sociedade humanas\u201d<a href=\"#_ftn2\" title=\"\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <strong>Cultura e sabedoria<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 3. Da harmonia da cultura brota a sabedoria. Esta \u00e9 uma compreens\u00e3o profunda da exist\u00eancia humana, donde brota a dimens\u00e3o \u00e9tica, e da hist\u00f3ria. A sabedoria tem a sua fonte na mem\u00f3ria de uma comunidade e exprime-se no presente, inspirando a liberdade e abre-se \u00e0 esperan\u00e7a, rasgando caminhos de futuro.<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Temos um exemplo claro no Antigo Testamento. A f\u00e9 do Povo de Israel no Deus da Alian\u00e7a e da sua interven\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria, gerou indubitavelmente uma cultura. Nos grandes profetas de Israel esta cultura gera uma sabedoria, uma compreens\u00e3o global da hist\u00f3ria daquele povo. Mas por influ\u00eancia de grupos e correntes de opini\u00e3o, sobretudo dos fariseus, essa cultura exprimiu-se num n\u00famero infind\u00e1vel de preceitos legais. E quando isso acontece corre-se o risco de abafar a sabedoria. A partir do s\u00e9c. III A.C., devido ao contacto mais estreito com a cultura hel\u00e9nica e o grande apre\u00e7o que tinham pela sabedoria, surge em Israel a corrente sapiencial (livro da Sabedoria, Ouelet, Eclesi\u00e1stico) que prepara aquele povo para a mensagem crist\u00e3. A corrente sapiencial entra facilmente em conflito com o legalismo farisaico.<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A prega\u00e7\u00e3o de Jesus, condenando o farisa\u00edsmo, d\u00e1 prioridade total \u00e0 sabedoria, baseada na dignidade do homem, sublinhando essa dignidade nos mais pobres e desprezados, apresentando a Lei de Deus como a manifesta\u00e7\u00e3o do amor misericordioso.<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O actual Papa, ao sublinhar que o an\u00fancio do Evangelho pela Igreja, n\u00e3o \u00e9 o enunciado claro e defesa racional de um edif\u00edcio de leis morais, mas o an\u00fancio do amor, desafia a Igreja a privilegiar o caminho da sabedoria.<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A cultura n\u00e3o \u00e9 uma soma de saberes racionais e l\u00f3gicos; ou desabrocha na sabedoria ou se nega como cultura. S\u00f3 na sabedoria a cultura se torna a fonte do sentido aut\u00eantico da exist\u00eancia humana.<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 4. No caso da cultura crist\u00e3, encontramos na piedade popular este desabrochar da cultura em sabedoria. De facto as suas express\u00f5es revelam uma m\u00edstica da vida crist\u00e3, expressa mais por via simb\u00f3lica do que racional. \u201cN\u00e3o \u00e9 vazia de conte\u00fados, mas descobre-os e exprime-os mais pela via simb\u00f3lica do que pelo uso da raz\u00e3o instrumental (\u2026). \u00c9 uma maneira leg\u00edtima de viver a f\u00e9, um modo de se sentir parte da Igreja e uma forma de ser mission\u00e1rio\u201d<a href=\"#_ftn3\" title=\"\">[3]<\/a>. Uma das suas express\u00f5es principais, a peregrina\u00e7\u00e3o, encerra toda uma compreens\u00e3o do caminho crist\u00e3o, que vai da convers\u00e3o, \u00e0 alegria de caminhar com os outros, ao ardor mission\u00e1rio. Ela ajuda a centrar toda a vida crist\u00e3 no amor. \u201cS\u00f3 a partir da conaturalidade afectiva que d\u00e1 o amor \u00e9 que podemos apreciar a vida teologal presente na piedade dos povos crist\u00e3os, especialmente nos pobres\u201d<a href=\"#_ftn4\" title=\"\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Paulo VI afirmou que \u201ca piedade popular traduz em si uma certa sede de Deus que somente os pobres e os simples podem experimentar, torna as pessoas capazes de terem rasgos de generosidade e predisp\u00f5e-nas para o sacrif\u00edcio at\u00e9 ao hero\u00edsmo quando se trata de manifestar a f\u00e9\u201d. Bento XVI chamou-lhe \u201cum precioso tesouro da Igreja Cat\u00f3lica\u201d<a href=\"#_ftn5\" title=\"\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <strong>O cristianismo e a cultura<\/strong><a href=\"#_ftn6\" title=\"\">[6]<\/a><\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>5. Todas as religi\u00f5es influenciam as culturas; o mesmo se pode dizer do ate\u00edsmo e do agnosticismo. Quando o Evangelho \u00e9 vivido e anunciado em contextos culturais ainda n\u00e3o marcados pelo Evangelho, a evangeliza\u00e7\u00e3o introduz em todas as culturas a dimens\u00e3o da sabedora crist\u00e3. Evangelizar \u00e9 intervir na cultura. Nas diversas civiliza\u00e7\u00f5es a f\u00e9 religiosa \u00e9 elemento importante no formar de uma cultura, tende mesmo a ser o ponto unificador da variedade de elementos que entram no caldear de uma nova cultura, pois essa tem de ser sempre um espelho da liberdade e da criatividade humanas na variedade das suas express\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A f\u00e9 crist\u00e3 transforma-se, espontaneamente, em cultura, pela interpela\u00e7\u00e3o \u00e0 liberdade, pelos valores de civiliza\u00e7\u00e3o que comunica, pela solidez de uma tradi\u00e7\u00e3o de que \u00e9 factor decisivo. Ao influir na cultura, d\u00e1-se o fen\u00f3meno da incultura\u00e7\u00e3o da f\u00e9, isto \u00e9, as marcas da cultura que se evangeliza na pr\u00f3pria express\u00e3o cultural do Evangelho. Um texto recente do Papa Francisco, exprime bem este di\u00e1logo do Evangelho com as culturas dos povos a evangelizar: \u201cpodemos pensar que os diferentes povos, nos quais foi inculturado o Evangelho, s\u00e3o sujeitos colectivos activos, agentes da evangeliza\u00e7\u00e3o. Assim \u00e9, porque cada povo \u00e9 o criador da sua cultura e o protagonista da sua hist\u00f3ria. A cultura \u00e9 algo de din\u00e2mico, que um povo recria constantemente, e cada gera\u00e7\u00e3o transmite \u00e0 seguinte um conjunto de atitudes relativas \u00e0s diversas situa\u00e7\u00f5es existenciais, que esta nova gera\u00e7\u00e3o deve reelaborar face aos pr\u00f3prios desafios. O ser humano \u00ab\u00e9 simultaneamente filho e pai da cultura onde est\u00e1 inserido\u00bb. Quando o Evangelho se inculturou num povo, no seu processo de transmiss\u00e3o cultural tamb\u00e9m transmite a f\u00e9 de maneira sempre nova; da\u00ed a import\u00e2ncia da evangeliza\u00e7\u00e3o entendida como incultura\u00e7\u00e3o. Cada por\u00e7\u00e3o do povo de Deus, ao traduzir na vida o dom de Deus segundo a sua \u00edndole pr\u00f3pria, d\u00e1 testemunho da f\u00e9 recebida e enriquece-a com novas express\u00f5es que falam por si. Pode dizer-se que \u00abo povo se evangeliza continuamente a si mesmo\u201d<a href=\"#_ftn7\" title=\"\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A incultura\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria para que os povos a evangelizar possam captar e interiorizar a mensagem desde que se garanta o car\u00e1cter sobrenatural da mensagem da f\u00e9 da Igreja, recebida dos Ap\u00f3stolos de Jesus. A incultura\u00e7\u00e3o \u00e9 mais aut\u00eantica quando o que entra em di\u00e1logo com as culturas a evangelizar, \u00e9 a cultura transformada j\u00e1 em sabedoria, comunicando, mais pelo testemunho do que pelo discurso, os grandes valores evang\u00e9licos que se tornam as bases de uma nova civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Para podermos considerar a rela\u00e7\u00e3o entre escola e todo o sistema educativo com a cultura, no nosso caso uma cultura de matriz crist\u00e3, vamos considerar alguns elementos decisivos para vermos claro a abrang\u00eancia cultural das realidades presentes da Igreja e da sociedade. Privilegiarei nesta considera\u00e7\u00e3o a import\u00e2ncia da mem\u00f3ria na compreens\u00e3o das exig\u00eancias da realidade presente, e alguns elementos decisivos na muta\u00e7\u00e3o cultural.<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <strong>Mem\u00f3ria e liberdade<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 6. A mem\u00f3ria \u00e9 a marca deixada no cora\u00e7\u00e3o por uma experi\u00eancia de amor. Isto acontece na vida de cada pessoa, sempre que se sentir amada. Mas h\u00e1 uma mem\u00f3ria colectiva da Igreja, Povo do Senhor, amada por Deus, em Jesus Cristo. No Antigo Testamento a f\u00e9 de Israel \u00e9 a mem\u00f3ria da experi\u00eancia de ser salvo por Deus, de sentir Deus no meio do seu Povo. A ora\u00e7\u00e3o de Israel \u00e9 uma evoca\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria do amor de Deus. A Igreja vive da mem\u00f3ria de Jesus, da sua Palavra, do seu dom de amor. A sua P\u00e1scoa \u00e9 um dom que abra\u00e7a o tempo e a hist\u00f3ria; na Eucaristia pediu-nos para a celebrar em sua mem\u00f3ria.<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Esta mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 uma simples evoca\u00e7\u00e3o do passado. Esta mem\u00f3ria vive-se no presente, a realidade que a fundou torna-se presente, empenha a nossa liberdade. Nada \u00e9 mais actual do que a Eucaristia, a empenhar a nossa liberdade em todas as realidades da nossa vida. E no entanto ela \u00e9 uma mem\u00f3ria.<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A nossa mem\u00f3ria pessoal tem de ser a mem\u00f3ria da Igreja. Essa mem\u00f3ria da Igreja, inspira a nossa liberdade, exige que a nossa f\u00e9 seja a f\u00e9 da Igreja. Bento XVI, na homilia do funeral de uma das colaboradoras da Casa Pontif\u00edcia, exprime maravilhosamente este dinamismo da mem\u00f3ria: \u201cS\u00e3o Boaventura diz que na profundidade do nosso ser est\u00e1 inscrita a mem\u00f3ria do Criador. E precisamente porque esta mem\u00f3ria est\u00e1 inscrita no nosso ser, podemos reconhecer o Criador na sua cria\u00e7\u00e3o, recordar-nos, ver as suas pegadas neste cosmos criado por Ele. S\u00e3o Boaventura diz ainda que esta mem\u00f3ria do Criador n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 mem\u00f3ria de um passado, porque a origem est\u00e1 presente, \u00e9 mem\u00f3ria da presen\u00e7a do Senhor; \u00e9 tamb\u00e9m mem\u00f3ria do futuro, porque decerto provimos da bondade de Deus e somos chamados a voltar para ela. Portanto, nesta mem\u00f3ria est\u00e1 presente o elemento da alegria, a nossa origem na alegria que \u00e9 Deus e a nossa chamada para chegar \u00e0 grande alegria. Sabemos que Manuela era uma pessoa interiormente permeada pela alegria que deriva da mem\u00f3ria de Deus\u201d.<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Esta mem\u00f3ria de Deus \u00e9 a nossa mem\u00f3ria: \u201cnas v\u00e9speras da sua paix\u00e3o, Cristo renovou, ali\u00e1s, elevou a nossa mem\u00f3ria. \u00abFazei isto em mem\u00f3ria de Mim\u00bb disse, e assim nos deu a mem\u00f3ria da sua presen\u00e7a, a mem\u00f3ria do dom de si, do dom do seu Corpo e do seu Sangue, e neste dom do seu Corpo e Sangue, nesta d\u00e1diva do seu amor infinito, com a nossa mem\u00f3ria tocamos de novo a presen\u00e7a mais forte de Deus, o seu dom de si\u201d. O pr\u00f3prio conhecimento que temos de Deus enra\u00edza nessa mem\u00f3ria. Bento XVI continua: \u201cNa controv\u00e9rsia com os Saduceus acerca da ressurrei\u00e7\u00e3o, o Senhor diz-lhes, a eles que n\u00e3o cr\u00eaem nela: mas Deus chamou-se \u00abDeus de Abra\u00e3o, de Isaac, de Jacob\u00bb. Os tr\u00eas fazem parte do nome de Deus, est\u00e3o inscritos no nome de Deus, est\u00e3o no nome de Deus, na mem\u00f3ria de Deus, e assim o Senhor diz: Deus n\u00e3o \u00e9 um Deus dos mortos, mas um Deus dos vivos, e quem faz parte do nome de Deus, quem est\u00e1 na mem\u00f3ria de Deus, est\u00e1 vivo. Infelizmente, n\u00f3s homens, com a nossa mem\u00f3ria, s\u00f3 podemos conservar uma sombra das pessoas que am\u00e1mos. Mas a mem\u00f3ria de Deus n\u00e3o conserva apenas sombras, \u00e9 origem de vida: nela vivem os mortos, na sua vida e com a sua vida entraram na mem\u00f3ria de Deus, que \u00e9 vida. Hoje o Senhor diz-nos: Tu est\u00e1s inscrito no nome de Deus, tu vives em Deus com a vida verdadeira, vives na fonte aut\u00eantica da vida\u201d<a href=\"#_ftn8\" title=\"\">[8]<\/a>.<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 7. A mem\u00f3ria que se torna presente, mostra-nos a import\u00e2ncia do tempo na ac\u00e7\u00e3o salv\u00edfica de Deus. N\u00e3o pode haver uma f\u00e9 individual desligada da f\u00e9 da Igreja. S\u00f3 esta garante a converg\u00eancia entre a mem\u00f3ria e a liberdade, sublinhando a dimens\u00e3o presente de toda a ac\u00e7\u00e3o salv\u00edfica de Deus. Leiamos um texto do Papa Francisco na sua Enc\u00edclica \u201cLuz da F\u00e9\u201d: \u201cA transmiss\u00e3o da f\u00e9, que brilha para as pessoas de todos os lugares, passa tamb\u00e9m atrav\u00e9s do eixo do tempo, de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. Dado que a f\u00e9 nasce de um encontro que acontece na hist\u00f3ria e ilumina o nosso caminho no tempo, a mesma deve ser transmitida ao longo dos s\u00e9culos. \u00c9 atrav\u00e9s de uma cadeia ininterrupta de testemunhos que nos chega o rosto de Jesus\u201d. E mais adiante continua: \u201cA pr\u00f3pria linguagem, as palavras com que interpretamos a nossa vida e a realidade inteira chegam-nos atrav\u00e9s dos outros, conservadas na mem\u00f3ria viva de outros; o conhecimento de n\u00f3s mesmos s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel quando participamos duma mem\u00f3ria mais ampla. O mesmo acontece com a f\u00e9, que leva \u00e0 plenitude o modo humano de entender: o passado da f\u00e9, aquele acto de amor de Jesus que gerou no mundo uma vida nova, chega at\u00e9 n\u00f3s na mem\u00f3ria de outros, das testemunhas, guardado vivo naquele sujeito \u00fanico de mem\u00f3ria que \u00e9 a Igreja; esta \u00e9 uma M\u00e3e que nos ensina a falar a linguagem da f\u00e9. S\u00e3o Jo\u00e3o insistiu sobre este aspecto no seu Evangelho, unindo conjuntamente f\u00e9 e mem\u00f3ria e associando as duas \u00e0 ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo que, como diz Jesus, \u00abh\u00e1-de recordar-vos tudo\u00bb (<em>Jo <\/em>14, 26). O Amor, que \u00e9 o Esp\u00edrito e que habita na Igreja, mant\u00e9m unidos entre si todos os tempos e faz-nos contempor\u00e2neos de Jesus, tornando-Se assim o guia do nosso caminho na f\u00e9\u201d<a href=\"#_ftn9\" title=\"\">[9]<\/a>.<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 8. A f\u00e9 vive-se no presente. Mas o tempo que vivemos faz uma unidade misteriosa com o tempo j\u00e1 vivido. Se a nossa f\u00e9 n\u00e3o for desenraizada do tempo que passa, ela encontra na mem\u00f3ria a for\u00e7a de uma op\u00e7\u00e3o da liberdade. A vida da f\u00e9 e o seu an\u00fancio nunca \u00e9 desenraizamento do tempo e esquecimento da hist\u00f3ria. Sem essa dimens\u00e3o o presente \u00e9 vol\u00favel e incerto. Ou\u00e7amos, mais uma vez, o Santo Padre, na \u201cAlegria do Evangelho: \u201cA mem\u00f3ria \u00e9 uma dimens\u00e3o da nossa f\u00e9, que, por analogia com a mem\u00f3ria de Israel, poder\u00edamos chamar \u00abdeuteron\u00f3mica\u00bb. Jesus deixa-nos a Eucaristia como mem\u00f3ria quotidiana da Igreja, que nos introduz cada vez mais na P\u00e1scoa (cf. <em>Lc<\/em> 22, 19). A alegria evangelizadora refulge sempre sobre o horizonte da mem\u00f3ria agradecida: \u00e9 uma gra\u00e7a que precisamos de pedir. Os Ap\u00f3stolos nunca mais esqueceram o momento em que Jesus lhes tocou o cora\u00e7\u00e3o: \u00abEram as quatro horas da tarde\u00bb (<em>Jo<\/em> 1, 39). A mem\u00f3ria faz-nos presente, juntamente com Jesus, uma verdadeira \u00abnuvem de testemunhas\u00bb (<em>Heb<\/em> 12, 1). De entre elas, distinguem-se algumas pessoas que incidiram de maneira especial para fazer germinar a nossa alegria crente: \u00abRecordai-vos dos vossos guias, que vos pregaram a palavra de Deus\u00bb (<em>Heb<\/em> 13, 7). \u00c0s vezes, trata-se de pessoas simples e pr\u00f3ximas de n\u00f3s, que nos iniciaram na vida da f\u00e9: \u00abTrago \u00e0 mem\u00f3ria a tua f\u00e9 sem fingimento, que se encontrava j\u00e1 na tua av\u00f3 L\u00f3ide e na tua m\u00e3e Eunice\u00bb (<em>2 Tm<\/em> 1, 5). O crente \u00e9, fundamentalmente, \u00abuma pessoa que faz mem\u00f3ria\u00bb\u201d<a href=\"#_ftn10\" title=\"\">[10]<\/a>.<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Desligar a f\u00e9 da mem\u00f3ria, \u00e9 comprometer o caminho da verdade em que acreditamos, cair no individualismo da f\u00e9. A prop\u00f3sito da f\u00e9 como caminho para a verdade, o Papa Francisco afirmou: \u201cA este respeito, pode-se falar de uma grande obnubila\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria no nosso mundo contempor\u00e2neo; de facto, a busca da verdade \u00e9 uma quest\u00e3o de mem\u00f3ria, de mem\u00f3ria profunda, porque visa algo que nos precede e, desta forma, pode conseguir unir-nos para al\u00e9m do nosso \u00abeu\u00bb pequeno e limitado; \u00e9 uma quest\u00e3o relativa \u00e0 origem de tudo, a cuja luz se pode ver a meta e tamb\u00e9m o sentido da estrada comum\u201d<a href=\"#_ftn11\" title=\"\">[11]<\/a>.<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Esta converg\u00eancia entre mem\u00f3ria e liberdade n\u00e3o \u00e9 exclusiva da f\u00e9, \u00e9 elemento constitutivo da cultura. Tem de inspirar necessariamente a educa\u00e7\u00e3o, se quisermos que esta seja a forma\u00e7\u00e3o para a liberdade dos novos membros de um povo ou de uma comunidade nacional.<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <strong>A cultura \u00e9 um dinamismo do presente: muta\u00e7\u00f5es culturais<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 9. A import\u00e2ncia da mem\u00f3ria na cultura, n\u00e3o tira a esta o dinamismo e a responsabilidade do presente. Ali\u00e1s a mem\u00f3ria s\u00f3 se integra positivamente na cultura quando incentiva e inspira o presente. O processo cultural \u00e9 din\u00e2mico, admite varia\u00e7\u00f5es sugeridas por realidades novas. No nosso tempo, isto \u00e9, no momento presente da nossa hist\u00f3ria, estas transforma\u00e7\u00f5es culturais s\u00e3o profundas. \u00c9 preciso agir e reagir de modo a que elas n\u00e3o alterem o essencial do dinamismo cultural, o inserir-se harmonicamente no processo do tempo, ao ritmo da tradi\u00e7\u00e3o. Sem isso \u00e9 a pr\u00f3pria comunidade humana que corre o risco de ir perdendo a sua identidade. A pr\u00f3pria Igreja n\u00e3o est\u00e1 isenta desse perigo. Referirei aqui apenas um dos mais importantes desafios que hoje se apresentam \u00e0 harmonia cultural: a transforma\u00e7\u00e3o provocada pelas novas linguagens.<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O Papa Francisco aponta este problema ao comparar a evangeliza\u00e7\u00e3o e novas linguagens: \u201cNo mundo actual, com a velocidade das comunica\u00e7\u00f5es e a selec\u00e7\u00e3o interessada dos conte\u00fados feita pelos <em>mass-media<\/em>, a mensagem que anunciamos corre mais do que nunca o risco de aparecer mutilada e reduzida a alguns dos seus aspectos secund\u00e1rios. Consequentemente, algumas quest\u00f5es que fazem parte da doutrina moral da Igreja ficam fora do contexto que lhes d\u00e1 sentido. O problema maior ocorre quando a mensagem que anunciamos parece ent\u00e3o identificada com tais aspectos secund\u00e1rios, que, apesar de serem relevantes, por si sozinhos n\u00e3o manifestam o cora\u00e7\u00e3o da mensagem de Jesus Cristo. Portanto, conv\u00e9m ser realistas e n\u00e3o dar por suposto que os nossos interlocutores conhecem o horizonte completo daquilo que dizemos ou que eles podem relacionar o nosso discurso com o n\u00facleo essencial do Evangelho que lhe confere sentido, beleza e fasc\u00ednio\u201d<a href=\"#_ftn12\" title=\"\">[12]<\/a>.<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Esta transforma\u00e7\u00e3o cultural \u00e9 particularmente importante na miss\u00e3o evangelizadora da Igreja; mas tamb\u00e9m o \u00e9 na afirma\u00e7\u00e3o cultural da identidade de toda e qualquer comunidade humana. A harmonia entre mem\u00f3ria e liberdade mostra-se, ent\u00e3o, decisiva. Escutemos mais um texto da Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica \u201cA Alegria do Evangelho\u201d: \u201cAo mesmo tempo, as enormes e r\u00e1pidas mudan\u00e7as culturais exigem que prestemos constante aten\u00e7\u00e3o ao tentar exprimir as verdades de sempre numa linguagem que permita reconhecer a sua permanente novidade; \u00e9 que, no dep\u00f3sito da doutrina crist\u00e3, \u00abuma coisa \u00e9 a subst\u00e2ncia (&#8230;) e outra \u00e9 a formula\u00e7\u00e3o que a reveste\u00bb. Por vezes, mesmo ouvindo uma linguagem totalmente ortodoxa, aquilo que os fi\u00e9is recebem, devido \u00e0 linguagem que eles mesmos utilizam e compreendem, \u00e9 algo que n\u00e3o corresponde ao verdadeiro Evangelho de Jesus Cristo. Com a santa inten\u00e7\u00e3o de lhes comunicar a verdade sobre Deus e o ser humano, nalgumas ocasi\u00f5es, damos-lhes um falso deus ou um ideal humano que n\u00e3o \u00e9 verdadeiramente crist\u00e3o. Deste modo, somos fi\u00e9is a uma formula\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o transmitimos a subst\u00e2ncia. Este \u00e9 o risco mais grave. Lembremo-nos de que \u00aba express\u00e3o da verdade pode ser multiforme. E a renova\u00e7\u00e3o das formas de express\u00e3o torna-se necess\u00e1ria para transmitir ao homem de hoje a mensagem evang\u00e9lica no seu significado imut\u00e1vel\u00bb\u201d<a href=\"#_ftn13\" title=\"\">[13]<\/a>.<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <strong>A era digital<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 10. O impacto cultural das novas linguagens sente-se com intensidade perante a influ\u00eancia da linguagem digital, que tem como principal instrumento a \u201cinternet\u201d. O fen\u00f3meno est\u00e1 a ser estudado, com m\u00e9todos cient\u00edficos e h\u00e1 j\u00e1, em v\u00e1rios pa\u00edses, um n\u00famero not\u00e1vel de peritos analistas do fen\u00f3meno. Distinguem na humanidade actual dois grupos: um, a que pertencemos todos n\u00f3s, a que chamam gera\u00e7\u00e3o \u201cpr\u00e9-digital\u201d, que j\u00e1 usam os instrumentos, sem sofrerem a transforma\u00e7\u00e3o que prev\u00eaem para a \u201cgera\u00e7\u00e3o digital\u201d, a que pertencem j\u00e1 as nossas crian\u00e7as e jovens, para os quais a \u201cinternet\u201d n\u00e3o \u00e9 um instrumento de trabalho ou de divers\u00e3o, mas se torna uma caracter\u00edstica de uma nova identidade pessoal. Fala-se de altera\u00e7\u00f5es do c\u00e9rebro, adaptando-se a essa nova maneira de ser e tornando-se menos sens\u00edvel \u00e0s categorias que conhecemos de cultura, de valores. Fala-se de uma nova antropologia, isto \u00e9, uma nova identidade humana, \u201cum homem novo\u201d algu\u00e9m lhe chamou, esquecendo-se que a express\u00e3o est\u00e1 ocupada e significa a nova identidade do homem em Cristo.<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Entre os dados identificadores dessa nova maneira de ser homem, aponta-se a velocidade que tende a reduzir toda a realidade ao momento que passa, relativizando o tempo, a sua import\u00e2ncia no exerc\u00edcio da liberdade. Relativizando a import\u00e2ncia do tempo, relativiza-se a mem\u00f3ria, perde-se a dimens\u00e3o comunit\u00e1ria da liberdade, o \u201cn\u00f3s\u201d de um povo que est\u00e1 na base de toda a tradi\u00e7\u00e3o. As op\u00e7\u00f5es da liberdade que dizem respeito ao tempo da nossa vida, inserido na hist\u00f3ria de um povo, j\u00e1 n\u00e3o reconhecem o \u201cpara sempre\u201d. Na cultura actual a dura\u00e7\u00e3o temporal d\u00e1 densidade e grandeza \u00e0 liberdade. Os analistas mais pessimistas pensam que nessa nova antropologia haver\u00e1 pouco espa\u00e7o para a doutrina e para a f\u00e9 da Igreja, fidelidades para toda a ida, rela\u00e7\u00e3o do tempo com a eternidade, perten\u00e7a a uma mesma comunidade que \u00e9 a mesma hoje e h\u00e1 dois mil anos. Se esta vis\u00e3o pessimista se confirmasse, eu diria que talvez fosse a isso que Jesus se referia quando afirmou: \u201cQuando o Filho do Homem vier, ainda encontrar\u00e1 a f\u00e9 na terra?\u201d.<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 11. Pessoalmente n\u00e3o partilho desse pessimismo. Seria ver esta transforma\u00e7\u00e3o cultural como um determinismo. Mas toda a transforma\u00e7\u00e3o cultural \u00e9 sempre um caminho para liberdade; se n\u00e3o for, a cultura nega-se a si mesma. Mas o momento \u00e9 preocupante e exige de todas as pessoas e estrutura de educa\u00e7\u00e3o um esfor\u00e7o acrescido. A escola actual est\u00e1 no centro do furac\u00e3o. \u00c9 preciso valorizar a dimens\u00e3o comunit\u00e1ria do ser humano, que encontra no amor a principal express\u00e3o da liberdade. A escola tem de ser feita com amor e educar para o amor, definindo-se, assim, como colabora\u00e7\u00e3o com a fam\u00edlia.<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u2020 Jos\u00e9 <em>Cardeal<\/em> da Cruz Policarpo<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">Patriarca Em\u00e9rito de Lisboa<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\"><br clear=\"all\"\/><\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\"\/>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" title=\"\">[1]<\/a> Ver o tratamento deste tema num outro texto meu \u201c<strong>A Evolu\u00e7\u00e3o cultural e a evolu\u00e7\u00e3o da sociedade portuguesa<\/strong>\u201d, in <strong>Obras Escolhidas<\/strong>, vol. 15, pg. 357-365<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" title=\"\">[2]<\/a> <strong>Ibidem<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" title=\"\">[3]<\/a> Papa Francisco, in <strong>A Alegria do Evangelho<\/strong>, n\u00ba 124<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" title=\"\">[4]<\/a> <strong>Ibidem<\/strong>, n\u00ba 125<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" title=\"\">[5]<\/a> <strong>Ibidem<\/strong>, n\u00ba 123. O Papa Francisco cita a \u201cEvangelii Nuntiandi\u201d, n\u00ba 38, do Papa Paulo VI, e uma confer\u00eancia de Bento XVI ao Episcopado da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" title=\"\">[6]<\/a> Conferir um texto meu, \u201c<strong>Anunciar o Evangelho \u00e9 intervir na Cultura<\/strong>\u201d, in <strong>Obras Escolhidas<\/strong>, vol. 15, pp. 101 e ss<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" title=\"\">[7]<\/a> Papa Francisco, \u201c<strong>A Alegria do Evangelho<\/strong>\u201d, n\u00ba 122<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" title=\"\">[8]<\/a> Homilia de Bento XVI no funeral de Manuela Camagni, colaboradora da Casa Pontif\u00edcia, 2 de Dezembro de 2010<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" title=\"\">[9]<\/a> Papa Francisco, Enc\u00edclica \u201cLuz da F\u00e9\u201d, n\u00ba 38<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" title=\"\">[10]<\/a> Ibidem, \u201c<strong>A alegria do Evangelho<\/strong>\u201d, n\u00ba 13<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" title=\"\">[11]<\/a> Ibidem, \u201c<strong>A Luz da F\u00e9<\/strong>\u201d, n\u00ba 25<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" title=\"\">[12]<\/a> Ibidem, \u201c<strong>A Alegria do Evangelho<\/strong>\u201d, n\u00ba 34<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" title=\"\">[13]<\/a> Ibidem, n\u00ba 41<\/p>\n<p align=\"center\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 Disponibilizamos a confer\u00eancia &#8220;Cultura, Escola e Religi\u00e3o&#8221; proferida hoje, durante o F\u00f3rum EMRC 2014, por D. 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