{"id":4101335873,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/8024-ix-domingo-do-tempo-comum-e-permitido-ao-sabado-fazer-o-bem-ou-fazer-o-mal"},"modified":"2025-11-07T16:33:15","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:15","slug":"ix-domingo-do-tempo-comum-e-permitido-ao-sabado-fazer-o-bem-ou-fazer-o-mal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/ix-domingo-do-tempo-comum-e-permitido-ao-sabado-fazer-o-bem-ou-fazer-o-mal\/","title":{"rendered":"IX Domingo do Tempo Comum: \u00ab\u00c9 permitido ao s\u00e1bado fazer o bem ou fazer o mal?\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p>1. O Evangelho deste Domingo IX do Tempo Comum faz-nos escutar as \u00faltimas duas (Marcos 2,23-3,6) das cinco controv\u00e9rsias reunidas em Marcos 2,1-3,6. Depois do jejum e do Esposo (Marcos 2,18-22), que ocupa o centro da estrutura, e que s\u00e3o escutadas no Domingo VIII, eis-nos agora perante dois epis\u00f3dios que nos mostram Jesus como Senhor do s\u00e1bado e sob o olhar acusador de fariseus e herodianos, que come\u00e7am a tramar a forma como o h\u00e3o de matar (Marcos 3,6).<\/p>\n<p>2. O primeiro epis\u00f3dio (Marcos 2,23-28) mostra Jesus e os seus disc\u00edpulos, em dia de s\u00e1bado, a atravessar os campos. E dos disc\u00edpulos de Jesus, diz-nos o narrador, que, atravessando os campos, colhiam espigas (Marcos 2,23), sob o olhar judicioso e acusador dos fariseus, que interrogam Jesus acerca deste incumprimento da Lei por parte dos seus disc\u00edpulos (Marcos 2,24). Colher espigas em dia de s\u00e1bado, naturalmente com o intuito de comerem os gr\u00e3os, eis o que n\u00e3o era permitido fazer. Duplo, ou mesmo triplo, incumprimento da Lei. Ao s\u00e1bado era proibido colher fosse o que fosse (\u00caxodo 34,21), bem como preparar qualquer tipo de refei\u00e7\u00e3o. E era apenas permitido percorrer, entre ida e volta 1892 metros. Dado que andavam pelos campos, \u00e9 prov\u00e1vel que tamb\u00e9m este \u00faltimo preceito estivesse a ser violado.<\/p>\n<p>3. Jesus responde chamando a aten\u00e7\u00e3o dos fariseus para o epis\u00f3dio narrado no Primeiro Livro de Samuel 21,2-7. A\u00ed, David, que andava fugido de Saul, que o perseguia, dirigiu-se a Aquimelec, sacerdote do santu\u00e1rio de Nob, e pediu-lhe cinco p\u00e3es para si e para os combatentes que o acompanhavam. Aquimelec apenas disp\u00f5e dos chamados \u00abP\u00e3es do Rosto\u00bb (<em>lehem pan\u00eem<\/em>), que s\u00e3o colocados, de s\u00e1bado a s\u00e1bado, diante do Rosto de Deus, em n\u00famero de Doze, tantos quantas as tribos de Israel, dispostos em duas filas de seis sobre uma mesa revestida de ouro colocada diante do Santo dos Santos. Trata-se de p\u00e3o consagrado a Deus, renovado todos os s\u00e1bados. Ao s\u00e1bado, colocavam-se sobre a mesa doze p\u00e3es novos, e os doze p\u00e3es antigos eram comidos ou consumidos apenas pelos sacerdotes e dentro do santu\u00e1rio. A mais ningu\u00e9m era permitido comer aqueles p\u00e3es (Lev\u00edtico 24,5-9; cf. \u00caxodo 25,23-30). Todavia, dadas as condi\u00e7\u00f5es de mis\u00e9ria e de fome de David e dos seus companheiros, Aquimelec d\u00e1-lhes para comer os p\u00e3es consagrados. Esta remiss\u00e3o para a Escritura, este \u00abNunca lestes\u2026\u00bb, serve a Jesus para mostrar aos fariseus que o seu rigor est\u00e1 em contradi\u00e7\u00e3o com as pr\u00f3prias Escrituras que querem citar a seu favor.<\/p>\n<p>4. Mas h\u00e1 mais. Depois de referir aos fariseus este epis\u00f3dio (Marcos 2,25-26), Jesus d\u00e1 por subentendido, tendo em conta a conhecida argumenta\u00e7\u00e3o rab\u00ednica \u00abdo menor para o maior\u00bb, que, se foi permitido a David e aos seus companheiros comer os p\u00e3es consagrados, por causa da fome, quanto mais \u00e9 permitido ao Filho de David e aos seus companheiros arrancar e comer espigas profanas. E quanto ao facto de as espigas terem sido colhidas em dia de s\u00e1bado, Jesus aproveita a embalagem da subentendida argumenta\u00e7\u00e3o rab\u00ednica, para declarar logo ali que \u00abo s\u00e1bado foi feito para o homem, e n\u00e3o o homem para o s\u00e1bado\u00bb, e que, \u00abportanto, o Filho do Homem \u00e9 Senhor tamb\u00e9m do s\u00e1bado\u00bb (Marcos 2,27-28).<\/p>\n<p>5. Com estas declara\u00e7\u00f5es conclusivas, fica claro que Jesus tem do s\u00e1bado uma no\u00e7\u00e3o bem diferente da que t\u00eam os fariseus. Estes tamb\u00e9m admitiam algumas exce\u00e7\u00f5es no que se refere \u00e0 pr\u00e1tica das prescri\u00e7\u00f5es sab\u00e1ticas. Por exemplo, era permitido fugir para salvar a vida, ajudar uma pessoa em perigo de vida, ajudar uma mulher com dores de parto, ajudar a apagar um inc\u00eandio, e coisas semelhantes. Mas eram sempre vistas como exce\u00e7\u00f5es \u00e0 regra. Em rela\u00e7\u00e3o ao entendimento dos fariseus, Jesus n\u00e3o \u00e9 apenas mais liberal, alargando, por assim dizer, o leque das exce\u00e7\u00f5es \u00e0 regra. N\u00e3o. Jesus muda pr\u00f3pria a regra, apresentando uma diferente conce\u00e7\u00e3o de Deus e da rever\u00eancia que lhe \u00e9 devida. A diferen\u00e7a reside sobretudo nisto: o amor devido a Deus n\u00e3o colide com o bem do homem. Deus est\u00e1 do lado do homem. E n\u00e3o h\u00e1 mais um peda\u00e7o de tempo para dedicar a Deus e outro peda\u00e7o para dedicar ao homem. Agora, o tempo \u00e9 todo de Deus, e \u00e9 por ser todo de Deus, que \u00e9 tamb\u00e9m todo para o homem.<\/p>\n<p>6. A controv\u00e9rsia sobre o s\u00e1bado continua no segundo epis\u00f3dio do Evangelho de hoje (Marcos 3,1-6), em que Jesus assume todo o protagonismo. Entra na sinagoga, em dia de s\u00e1bado. N\u00e3o nos \u00e9 dito de que sinagoga se trate: se da de Cafarnaum (cf. 1,21-28) ou de alguma das sinagogas da Galileia (cf. 1,39). Mas \u00e9-nos dito que na sinagoga em que Jesus entra est\u00e1 um homem (<em>\u00e1nthr\u00f4pos<\/em>) com uma m\u00e3o paralisada (Marcos 3,1). E \u00e9-nos dito igualmente que est\u00e3o l\u00e1 outros a ver se Jesus o curaria em dia de s\u00e1bado, para o poderem acusar (Marcos 3,2). Se o homem aparece apenas com a determina\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica de \u00abser humano\u00bb (<em>\u00e1ntr\u00f4pos<\/em>), os outros n\u00e3o passam de \u00abeles\u00bb, que est\u00e3o l\u00e1 apenas como observadores que desejam poder transformar-se em acusadores. S\u00f3 Jesus tem nome. S\u00f3 Jesus entra. O homem e \u00abeles\u00bb j\u00e1 l\u00e1 est\u00e3o. O homem n\u00e3o pede nada; \u00abeles\u00bb n\u00e3o perguntam nada. S\u00f3 Jesus tem nome, s\u00f3 Jesus fala, s\u00f3 Jesus age. Ele \u00e9 verdadeiramente o Senhor do S\u00e1bado.<\/p>\n<p>7. Desenhado e preenchido o cen\u00e1rio, Jesus diz (<em>l\u00e9gei<\/em>), no presente, ao homem: \u00abLevanta-te (<em>ege\u00edr\u00f4<\/em>), e vem para o meio!\u00bb (Marcos 3,3). E diz (<em>l\u00e9gei<\/em>), no presente, para \u00abeles\u00bb: \u00ab\u00c9 permitido, ao s\u00e1bado, fazer o bem ou fazer o mal, salvar uma vida ou mat\u00e1-la?\u00bb (Marcos 3,4a). N\u00e3o \u00e9 dito, no texto, que o homem se tenha movimentado, mas \u00e9 dito que \u00abeles\u00bb se calavam (<em>esi\u00f4p\u00f4n<\/em>: imperfeito de dura\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>si\u00f4p\u00e1\u00f4<\/em>) (Marcos 3,4b).<\/p>\n<p>8. Note-se bem a voz de Jesus a ecoar no presente e no sil\u00eancio. Note-se tamb\u00e9m a for\u00e7a da pergunta que formula, e que tem resposta demasiado \u00f3bvia. Na verdade, o bem deve fazer-se sempre, n\u00e3o apenas ao s\u00e1bado, mas em todos os dias da semana! E o mal nunca se deve fazer, nem ao s\u00e1bado nem em dia nenhum da semana! Quanto a matar, \u00e9 proibido pela Lei sem mais detalhes (\u00caxodo 20,13). E, portanto, n\u00e3o salvar uma vida \u00e9 violar a Lei, pois \u00e9 demasiado \u00f3bvio que matamos sempre que n\u00e3o salvamos algu\u00e9m da morte. Neste momento, o narrador mostra-nos um dos gestos mais fortes de Jesus: olha ao redor (<em>peribl\u00e9p\u00f4<\/em>) para \u00abeles\u00bb, com ira e tristeza, por causa da dureza do cora\u00e7\u00e3o \u00abdeles\u00bb (Marcos 3,5a). E diz (<em>l\u00e9gei<\/em>), no presente, para o homem: \u00abEstende a m\u00e3o!\u00bb. \u00abEstendeu-a, e ficou restabelecida a sua m\u00e3o\u00bb (Marcos 3,5b).<\/p>\n<p>9. Esta \u00e9, nos Evangelhos, a \u00fanica vez que Jesus opera uma cura por sua pr\u00f3pria iniciativa. Note-se, por\u00e9m, que \u00abaqueles\u00bb que estavam l\u00e1 para verificar se Jesus curaria ao s\u00e1bado, ficaram sem nenhum registo no bloco-notas. Na verdade, Jesus nada fez que se visse no que \u00e0 a\u00e7\u00e3o de curar diz respeito. Mas note-se agora tamb\u00e9m que Jesus tudo fez para que \u00abeles\u00bb pudessem ver bem a sua soberania. Ao fazer vir o homem para o meio, deixou-o claramente \u00e0 vista de todos. N\u00e3o o tomou \u00e0 parte, como referem outros relatos (cf. Marcos 7,33; 8,23). Ao dirigir-se ao homem por duas vezes (Marcos 3,3 e 5), Jesus quer que todos vejam que ele se interessa pessoalmente por aquele homem. Sim, Jesus \u00e9 a transpar\u00eancia de Deus-Pai, que n\u00e3o quer nunca ficar confinado na lonjura e impessoalidade.<\/p>\n<p>10. O texto do Deuteron\u00f3mio 5,12-15, que hoje fica a retinir nos nossos ouvidos, constitui o contraponto ideal de quanto vimos e ouvimos no Evangelho. O s\u00e1bado transporta consigo a mem\u00f3ria da liberdade. N\u00e3o para alguns, mas para todos: para ti, para os teus filhos e as tuas filhas, para o teu escravo e a tua escrava, para o teu boi, para o teu jumento, para todos os teus animais, para o estrangeiro que reside no teu meio. Extraordin\u00e1ria li\u00e7\u00e3o de liberdade! O grande fil\u00f3sofo e m\u00edstico hebreu, Abraham Joshua Heschel (1907-1972), via o S\u00e1bado como uma p\u00e9rola de Israel oferecida a toda a humanidade, um Templo de tempo, e n\u00e3o de espa\u00e7o. Israel constr\u00f3i o tempo onde outros povos constroem o espa\u00e7o. Novidade arquitet\u00f3nica de Israel. Por isso, n\u00e3o se pode reduzir o s\u00e1bado a um preceito. Digamos n\u00f3s: o nosso Domingo n\u00e3o pode reduzir-se a um preceito sob pena de pecado.<\/p>\n<p>11. E S. Paulo, na li\u00e7\u00e3o cont\u00ednua da Segunda Carta aos Cor\u00edntios (4,6-11), diz, com finura e verdade, que levamos este tesouro em vasos de barro. Ele \u00e9 a Luz, faz luzir a luz, tudo alumia. A nossa luz \u00e9 reflexa, e reside a\u00ed a sua beleza. Assim, n\u00e3o h\u00e1 motivo para vangl\u00f3rias, mas fica claro que somos apenas (e tanto!) pura transpar\u00eancia de Cristo, deixando que se manifeste no nosso corpo a sua vida. Noutro lugar dir\u00e1: \u00abLevo no meu corpo os estigmas de Jesus\u00bb (G\u00e1latas 6,17). Belo programa de vida.<\/p>\n<p>12. Entretanto, e sempre, ressoa no nosso pobre cora\u00e7\u00e3o comovido e agradecido, o belo canto do Salmo 81. Sim, Deus colocou-se ao lado de Israel e ao nosso lado para nos aliviar das cargas pesadas que nos oprimem, desde o Egito at\u00e9 aos nossos dias.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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