{"id":4110002127,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/9284-tempos-de-apocalipse-padre-antonio-martins-"},"modified":"2025-11-07T16:33:37","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:37","slug":"tempos-de-apocalipse-padre-antonio-martins","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/tempos-de-apocalipse-padre-antonio-martins\/","title":{"rendered":"\u00abTempos de Apocalipse\u00bb, padre Ant\u00f3nio Martins"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/janela_agua_200331035612.jfif\"\/><\/p>\n<p><p>Seguimos todos, apreensivos e preocupados, o evoluir entre n\u00f3s e no mundo inteiro da pandemia. Os n\u00fameros de v\u00edtimas mortais e de infetados sobem. Mas esses n\u00fameros, a inspirar belos gr\u00e1ficos interativos, n\u00e3o s\u00e3o apenas estat\u00edsticas; s\u00e3o hist\u00f3ria de vidas dram\u00e1ticas, muitas acabaram no mais profundo desamparo e solid\u00e3o, sem uma palavra ou um gesto de consolo. Em cada n\u00famero h\u00e1 um drama pessoal que n\u00e3o \u00e9 not\u00edcia, h\u00e1 um rosto com nome, uma hist\u00f3ria \u00fanica.\u00a0<\/p>\n<div class=\"gs\">\n<div class=\"ii gt\" id=\":7zk\">\n<div class=\"a3s aXjCH\" id=\":7zj\">\n<h3><span style=\"background-color: #ffffff; color: #000080;\">Vivemos todos no imprevisto, improvisando a cada momento. Reinventamos a vida e a n\u00f3s mesmos, caminhando no inseguro, sem regras definidas nem certezas de nada. O futuro pr\u00f3ximo \u00e9 incerto e desconhecido. Precisamos todos de estar unidos, em fam\u00edlia e na sociedade, para atravessar a urg\u00eancia dos tempos presentes. Somos todos devolvidos ao realismo da nossa fragilidade humana, sem m\u00e1scaras nem ilus\u00f5es. Cada dia \u00e9 uma vit\u00f3ria sobre o medo, da vida sobre a morte, da solidariedade sobre o ego\u00edsmo. Em cada dia reinventamos a esperan\u00e7a, crescemos em compaix\u00e3o. Com Sophia podemos dizer: \u00abEm cada gesto ponho solenidade e risco\u00bb.\u00a0<\/span><\/h3>\n<p><img decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"175\" src=\"https:\/\/images.unsplash.com\/photo-1559690748-9a3547ed7d5c?ixlib=rb-1.2.1&amp;ixid=eyJhcHBfaWQiOjEyMDd9&amp;auto=format&amp;fit=crop&amp;w=667&amp;q=80\" style=\"float: left;\" width=\"233\">Em tempo de quarentena, a nossa Quaresma avan\u00e7a para a P\u00e1scoa. Celebraremos este ano uma p\u00e1scoa ins\u00f3lita em nossas vidas, sem celebra\u00e7\u00f5es solenes comunit\u00e1rias, sem sinais exteriores, totalmente despojada e silenciosa. Vimos na sexta-feira as impressionantes imagens do Santo Padre, s\u00f3, na Pra\u00e7a de S. Pedro vazia, ao entardecer. Liturgia bela mas austera, sem massas nem festa, despojada, intensa. Assim ser\u00e1 a nossa p\u00e1scoa. Ser\u00e1 para todos n\u00f3s uma p\u00e1scoa \u00fanica e inesquec\u00edvel. Na aus\u00eancia de celebra\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias, de gestos solenes, ser\u00e1 uma p\u00e1scoa existencial. Talvez mais aut\u00eantica e mais intensa. Na paix\u00e3o do mundo, das fam\u00edlias, de cada um de n\u00f3s celebramos, na pr\u00f3pria carne, a paix\u00e3o de Cristo. A nossa P\u00e1scoa desloca-se do rito para o concreto da vida, do templo para os hospitais, para os lares, para as nossas casas. Desloca-se ou sempre a\u00ed esteve, e distra\u00eddos n\u00e3o er\u00e1mos capazes de a identificar?&#8230; A solenidade do templo, agora silenciada, d\u00e1 lugar \u00e0 solenidade dos gestos arriscados e salvadores do humano. Somos desafiados a viver a laicidade entranhada e quotidiana da condi\u00e7\u00e3o crist\u00e3. A\u00ed onde estamos, em casa, nos hospitais, nos servi\u00e7os p\u00fablicos, no voluntariado que realizamos por imperativo de responsabilidade e de consci\u00eancia. A Igreja reinventa-se no testemunho dom\u00e9stico, corajoso e humilde, sem triunfalismos, dos seus leigos e leigas, dos seus pastores, dos seus religiosos e das suas religiosas.\u00a0<\/img><\/p>\n<p>Compreendemos melhor, em nossos dias, as palavras que as irm\u00e3s de L\u00e1zaro mandaram dizer a Jesus: \u00abSenhor, o teu amigo est\u00e1 doente\u00bb. Tantos s\u00e3o os doentes que aumentam no curso dos dias pela propaga\u00e7\u00e3o da pandemia, e correm aos hospitais ou permanecem em suas casas<br \/>\nLidos e acolhidos \u00e0 luz do tempo presente as leituras b\u00edblicas da Quaresmo adquirem novos sentidos. O salmo 129 d\u00e1-nos as palavras certas para uma ora\u00e7\u00e3o justa e digna, aut\u00eantica e sincera, a partir da dura realidade que todos estamos a viver. Com o Salmo de hoje podemos rezar, gritando, os nossos medos, a nossa ang\u00fastia e a nossa esperan\u00e7a: \u00abDo profundo abismo chamo por v\u00f3s, Senhor. Senhor, escutai a minha voz\u00bb. \u00abDo profundo\/<em>de profundis\u00a0<\/em>abismo\u00bb \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o em que nos encontramos, uns mais que outros. O profundo abismos dos solit\u00e1rios, dos doentes, dos moribundos, dos sem-abrigo, dos cuidadores, exaustos e tantas vezes impotentes. A ora\u00e7\u00e3o do Salmo d\u00e1-nos voz; as suas palavras d\u00e3o sentido \u00e0 nossa dor. Atrever-se a gritar a Deus, do profundo do seu abismo, \u00e9 uma n\u00e3o rendi\u00e7\u00e3o ao vazio do desespero. Porque esse grito, do profundo abismo, \u00e9 tamb\u00e9m um grito de esperan\u00e7a: \u00abA minha alma espera pelo Senhor mais do que as sentinelas pela aurora\u00bb. A que ousadia e atrevimento nos leva a f\u00e9 e a ora\u00e7\u00e3o!\u00a0<\/p>\n<p>Compreendemos melhor, em nossos dias, as palavras que as irm\u00e3s de L\u00e1zaro mandaram dizer a Jesus: \u00abSenhor, o teu amigo est\u00e1 doente\u00bb (cf. Jo\u00e3o 11,1.45). Tantos s\u00e3o os doentes que aumentam no curso dos dias pela propaga\u00e7\u00e3o da pandemia, e correm aos hospitais ou permanecem em suas casas. Vejamos os dramas em tantos lares de idosos, ou nas pris\u00f5es, lugares prop\u00edcios a uma maior propaga\u00e7\u00e3o. Com as palavras do evangelho, todos n\u00f3s gritamos: \u00abSenhor os teus amigos est\u00e3o doentes\u00bb. Desconcerta-nos a resposta do Senhor; temos dificuldade em compreend\u00ea-la, pois o seu sentido mais profundo escapa-nos no imediato: \u00abEssa doen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 mortal, mas \u00e9 para a gl\u00f3ria de Deus, para que por ela seja glorificado o Filho do homem\u00bb. Mas a contamina\u00e7\u00e3o do v\u00edrus pode ser mortal, sobretudo naqueles que t\u00eam as defesas imunit\u00e1rias mais vulner\u00e1veis. Neste jogo de palavras e sentidos, tipicamente joanino, Jesus quer levar-nos mais longe: a doen\u00e7a mais mortal \u00e9 a falta de esperan\u00e7a, o des\u00e2nimo, a falta de confian\u00e7a. A doen\u00e7a mortal \u00e9 n\u00e3o ser capaz tornar fecunda a pr\u00f3pria vida em situa\u00e7\u00f5es de morte.\u00a0<\/p>\n<h4><span style=\"color: #800000;\">Os tempos presentes tiram todas as m\u00e1scaras com que nos ocultamos e devolvem o verdadeiro rosto do humano, de cada um de n\u00f3s. Estes nossos tempos convocam-nos \u00e0 decis\u00e3o, \u00e0 a\u00e7\u00e3o, ao testemunho, \u00e0 uma (re)inven\u00e7\u00e3o pessoal, familiar, comunit\u00e1ria.<\/span><\/h4>\n<p><img decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"171\" src=\"https:\/\/images.unsplash.com\/photo-1477030099494-2b4bf2699242?ixlib=rb-1.2.1&amp;ixid=eyJhcHBfaWQiOjEyMDd9&amp;auto=format&amp;fit=crop&amp;w=750&amp;q=80\" style=\"float: right;\" width=\"256\"\/>No luto e no pranto das irm\u00e3s de L\u00e1zaro, Marta e Maria, vemos o luto e o pranto, sem consolo, de todas as fam\u00edlias enlutadas. Aquelas duas irm\u00e3s podem chorar a morte de seu irm\u00e3o, sem a companhia de Jesus, mas com a companhia de amigos, do povo onde moravam. Nas v\u00edtimas do v\u00edrus n\u00e3o h\u00e1 vel\u00f3rios. Os funerais s\u00e3o feitos \u00e0 pressa no cemit\u00e9rio por raz\u00f5es sanit\u00e1rias, com a presen\u00e7a de familiares reduzida ao m\u00ednimo e longe, sem a consola\u00e7\u00e3o da comunidade e os afetos dos amigos. Sem afetos, sem gestos, sem rituais de adeus, a perda torna-se insuport\u00e1vel e o luto duro e lento caminho. \u00a0Na querida It\u00e1lia, tanto pastores e como fi\u00e9is foram enterrados sem funerais e sem celebra\u00e7\u00e3o da eucaristia. Estranha comunh\u00e3o de destino. Custa e choca uma morte despersonalizada, assim, sem afetos, em total isolamento. \u00c9 uma morte desumana, indigna e injusta. Muitas fam\u00edlias, pelo mundo inteiro, atravessam o luto num profundo desamparo e solid\u00e3o. A diocese de Bergamo, do norte de It\u00e1lia, j\u00e1 perdeu&#8230; sacerdotes. \u00c9 f\u00e1cil, nestas circunst\u00e2ncias, entrarmos numa l\u00f3gica de culpabiliza\u00e7\u00e3o e de acusa\u00e7\u00e3o, como Marta o faz em rela\u00e7\u00e3o a Jesus: \u00abSenhor, se tivesses estado aqui, meu irm\u00e3o n\u00e3o teria morrido\u00bb. Possam estas palavras dizer a dor de tantas fam\u00edlias enlutadas, com agressividade, diante de Jesus.\u00a0<\/p>\n<p>Perante a morte de L\u00e1zaro, Jesus \u00abcomoveu-se profundamente e perturbou-se\u00bb. Aproximando-se da sua sepultura \u00abchorou\u00bb. O Senhor chora hoje a perda de cada um dos seus amigos e dos seus irm\u00e3os. O Senhor chora hoje a morte de todos os L\u00e1zaros contempor\u00e2neos, chora com toda a humanidade, com todas as fam\u00edlias que est\u00e3o em luto, como o fez com Marta e Maria. Contemplamos, a partir do relato do evangelho de Jo\u00e3o, Cristo em l\u00e1grimas que connosco e por n\u00f3s chora, nesta hora contempor\u00e2nea de dor e de urg\u00eancia. Nas l\u00e1grimas de Jesus s\u00e3o recolhidas e santificadas as l\u00e1grimas da humanidade inteira. O Senhor est\u00e1 connosco, silenciosamente. Ele \u00e9 o Deus que vive connosco e para n\u00f3s, que morre connosco em nossa morte e morre para n\u00f3s, para podermos ressuscitarmos com Ele e vivermos uma vida plena. No meio da dor do luto e da morte, que alguns atravessam no sil\u00eancio e na solid\u00e3o, conforta-nos as palavras que o Senhor hoje, de modo direto, nos diz: \u00abEu sou a ressurrei\u00e7\u00e3o e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viver\u00e1; e todo aquele que vive e acredita em Mim nunca morrer\u00e1\u00bb.\u00a0<\/p>\n<p>Os tempos presentes s\u00e3o, verdadeiramente, apocal\u00edticos. \u00abApocal\u00edticos\u00bb num rigoroso sentido b\u00edblico, que significa reveladores. S\u00e3o tempos reveladores da grandeza e da mis\u00e9ria de cada um de n\u00f3s, das nossas fam\u00edlias, das comunidades crist\u00e3s, das na\u00e7\u00f5es, e de toda a humanidade. Tempos reveladores da capacidade solid\u00e1ria e fraterna ou do ego\u00edsmo individualista. Os tempos presentes tiram todas as m\u00e1scaras com que nos ocultamos e devolvem o verdadeiro rosto do humano, de cada um de n\u00f3s. Estes nossos tempos convocam-nos \u00e0 decis\u00e3o, \u00e0 a\u00e7\u00e3o, ao testemunho, \u00e0 uma (re)inven\u00e7\u00e3o pessoal, familiar, comunit\u00e1ria. Deus fala-nos atrav\u00e9s dos sinais destes nossos tempos.<\/p>\n<p>A cada um de n\u00f3s, a cada fam\u00edlia, a toda a Igreja o Senhor brada com voz forte: \u00abL\u00e1zaro vem para fora\u00bb.<\/p>\n<div style=\"text-align: right;\">\u00a0<\/p>\n<div style=\"text-align: right;\">Padre Ant\u00f3nio Martins\u00a0<\/p>\n<div style=\"text-align: right;\">Capel\u00e3o da Capela do Rato, Lisboa\u00a0<\/p>\n<div class=\"yj6qo\">\u00a0<\/p>\n<div class=\"adL\">\u00a0<\/p>\n<div class=\"adL\">\u00a0<\/p>\n<div class=\"hi\">\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Seguimos todos, apreensivos e preocupados, o evoluir entre n\u00f3s e no mundo inteiro da pandemia. 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