{"id":4136978629,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/10472-domingo-vi-da-pascoa-como-eu-vos-amei"},"modified":"2025-11-07T16:33:46","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:46","slug":"domingo-vi-da-pascoa-como-eu-vos-amei-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-vi-da-pascoa-como-eu-vos-amei-2\/","title":{"rendered":"Domingo VI da P\u00e1scoa: \u00abComo eu vos amei\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">1. Sendo o Evangelho deste Domingo VI da P\u00e1scoa (Jo\u00e3o 15,9-17) a continua\u00e7\u00e3o imediata do Evangelho do Domingo V (Jo\u00e3o 15,1-8), e porque a sua rede terminol\u00f3gica continua a ser fin\u00edssima, vamos come\u00e7ar tamb\u00e9m por observar atentamente a sua paisagem textual:<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">\u00abComo me amou (<em>agap\u00e1\u00f4<\/em>) o Pai, tamb\u00e9m eu vos amei. Permanecei no meu amor (<em>ag\u00e1p\u00ea<\/em>). Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permane\u00e7o no seu amor. Falei-vos (<em>lal\u00e9\u00f4<\/em>) estas coisas, para que a minha alegria esteja em v\u00f3s, e a vossa alegria seja plenificada (<em>pl\u00ear\u00f3\u00f4<\/em>).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">\u00c9 este o meu mandamento (<em>entol\u00ea<\/em>): que vos ameis uns aos outros como eu vos amei. Ningu\u00e9m tem maior amor do que aquele que d\u00e1 (<em>t\u00edth\u00eami<\/em>) a sua vida (<em>t\u00ean psych\u00ean auto\u00fb<\/em>) pelos seus amigos (<em>ph\u00edloi<\/em>). V\u00f3s sois meus amigos, se fizerdes as coisas que eu vos mando (<em>ent\u00e9llomai<\/em>). N\u00e3o mais vos chamo servos, porque o servo n\u00e3o sabe o que faz o seu senhor, mas chamei-vos amigos, porque todas as coisas que ouvi do meu Pai vo-las dei a conhecer (<em>gn\u00f4r\u00edz\u00f4<\/em>). N\u00e3o fostes v\u00f3s que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi e vos constitu\u00ed para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permane\u00e7a, para que tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, ele vos d\u00ea. Isto vos mando: que vos ameis uns aos outros\u00bb (Jo\u00e3o 15,9-17).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">2. As notas mais vezes ouvidas nesta melodia s\u00e3o: \u00abAmar\/Amor\u00bb (9 vezes), \u00abmandar\/mandamento\u00bb (5 vezes), \u00abPai\u00bb (4 vezes), \u00abpermanecer\u00bb (4 vezes), \u00abamigos\u00bb (3 vezes), \u00abalegria\u00bb (2 vezes), \u00abfruto\u00bb (2 vezes). Mas a raiz, o tronco e a seiva do texto, isto \u00e9, a sua verdadeira linha mel\u00f3dica, reside na rede exposta do amor: a fonte do amor \u00e9 o Pai, que o comunica ao Filho, o qual, por sua vez, o comunica aos seus disc\u00edpulos e amigos (Jo\u00e3o 15,9-10), para que estes o vivam e, por cont\u00e1gio, a outros o comuniquem, fazendo-o frutificar (Jo\u00e3o 15,16). O modo \u00e9 sempre o mesmo e \u00fanico: guardar os mandamentos. Jesus guarda os mandamentos do Pai (Jo\u00e3o 15,10), e entrega o seu mandamento aos seus disc\u00edpulos fi\u00e9is: \u00abAmai-vos uns aos outros como Eu vos amei\u00bb (Jo\u00e3o 15,12; cf. 13,34), para que estes o guardem tamb\u00e9m (Jo\u00e3o 15,10.14).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">3. Ainda se define claramente em que consiste este amor: amar assim \u00e9 dar a pr\u00f3pria vida (<em>t\u00ean psych\u00ean auto\u00fb<\/em>) (Jo\u00e3o 15,13). Este \u00abdar\u00bb aparece no texto grego expresso com o verbo\u00a0<em>t\u00edth\u00eami<\/em>, \u00abp\u00f4r\u00bb, \u00abapostar\u00bb a vida. Tudo fica ainda mais claro se lermos com aten\u00e7\u00e3o o grande dito de Jesus no contexto do Bom e Belo Pastor: \u00abPor isto o Pai me ama: porque Eu ponho (<em>t\u00edth\u00eami<\/em>) a minha vida, para de novo a receber (<em>lamb\u00e1n\u00f4<\/em>). Ningu\u00e9m ma retira (<em>a\u00edr\u00f4<\/em>) de mim; sou Eu que a ponho (<em>t\u00edth\u00eami<\/em>) por mim mesmo. Tenho autoridade de a p\u00f4r (<em>t\u00edth\u00eami<\/em>), e tenho autoridade de a receber (<em>lamb\u00e1n\u00f4<\/em>) de novo. Este foi o mandamento (<em>entol\u00ea<\/em>) que recebi (<em>lamb\u00e1n\u00f4<\/em>) do meu Pai\u00bb (Jo\u00e3o 10,17-18). Sem qualquer equ\u00edvoco agora: amar \u00e9 dar a pr\u00f3pria vida. E este amor novo, que consiste em dar a pr\u00f3pria vida, \u00e9 tudo o que o Pai manda fazer.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">4. Pode parecer estranho, \u00e0 primeira vista, que o Amor seja objeto de um mandamento. Mas prestando um pouco mais de aten\u00e7\u00e3o, acabamos por perceber que amar n\u00e3o \u00e9 estar apaixonado. E estar apaixonado n\u00e3o significa necessariamente amar. Estar apaixonado \u00e9 um estado; amar \u00e9 um ato. Sofre-se um estado; decide-se um ato. \u00c9, por isso, que o Deus da Escritura manda amar. Se amar fosse simplesmente apaixonar-se, tal mandamento seria um absurdo, pois ningu\u00e9m pode exigir a algu\u00e9m que se apaixone. Amar \u00e9 uma sucess\u00e3o de atos em cadeia: uma guerra, portanto. N\u00e3o \u00e9 por acaso que\u00a0<em>ag\u00e1p\u00ea<\/em>\u00a0(amor) e\u00a0<em>ag\u00f4n<\/em>\u00a0(luta) t\u00eam a mesma etimologia. Paradoxo do amor, que \u00e9 uma luta, a luta do amor (<em>ag\u00f4n t\u00eas \u00e1gap\u00eas<\/em>), do amor novo, que n\u00e3o \u00e9 contra algu\u00e9m, mas a favor de todos: o amor faz-te feliz, matando-te! Quanto mais amas, lutas, e te matas a amar, mais te encontras: \u00abQuem quiser salvar a sua vida, perd\u00ea-la-\u00e1; ao contr\u00e1rio, quem perder a sua vida por causa de mim, salv\u00e1-la-\u00e1\u00bb (Lucas 9,24). Neste sentido, o amor (<em>ag\u00e1p\u00ea<\/em>) verdadeiro \u00e9 ag\u00f3nico. Implica luta (<em>ag\u00f4n<\/em>), porque implica decis\u00f5es a todo o momento. Quando o amor n\u00e3o \u00e9 ag\u00f3nico, ent\u00e3o \u00e9 ego\u00edsta. No mundo b\u00edblico, a nascente do mal n\u00e3o reside na paix\u00e3o, no cora\u00e7\u00e3o que bate forte; est\u00e1, antes, no cora\u00e7\u00e3o duro, empedernido, empedrado, esclerosado, um \u00abcora\u00e7\u00e3o de pedra\u00bb (<em>leb ha?eben<\/em>), ox\u00edmoro vertiginoso que o profeta Ezequiel usou para classificar o cora\u00e7\u00e3o empedernido e embotado de Israel (Ezequiel 36,26).\u00a0<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">5. \u00c9, portanto, tudo o que Jesus, o Filho, faz por n\u00f3s. E nos manda fazer tamb\u00e9m, dado que nos manda amar\u00a0<em>como Ele nos amou<\/em>\u00a0(Jo\u00e3o 13,34; 15,12), nova e paradoxal, desmesurada medida do amor, que plenifica e subverte a antiga equa\u00e7\u00e3o nivelada: \u00abAma o teu pr\u00f3ximo\u00a0<em>como a ti mesmo<\/em>\u00bb (Lev\u00edtico 19,18). Para tanto, d\u00e1-nos a conhecer, por gra\u00e7a, tudo o que ouviu do Pai (Jo\u00e3o 15,15), o divino col\u00f3quio, habilitando-nos assim a rezar ao Pai (Jo\u00e3o 15,16).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">6. O Ap\u00f3stolo refor\u00e7a, na sua Primeira Carta (1 Jo\u00e3o 4,7-10), a insist\u00eancia no horizonte novo do amor, repetindo que \u00abquem ama, nasceu de Deus, e conhece-o (<em>gin\u00f4sk\u00f4<\/em>) (1 Jo\u00e3o 4,7), ao contr\u00e1rio de quem n\u00e3o ama, que n\u00e3o conhece Deus (1 Jo\u00e3o 4,8). Se Deus \u00e9 amor (1 Jo\u00e3o 4,8 e 16), e se \u00abs\u00f3 o semelhante conhece o semelhante\u00bb, \u00e9 decisivo que este amor chegue at\u00e9 n\u00f3s, para que, sendo feitos por amor semelhantes a Deus, possamos tamb\u00e9m conhecer Deus. E exp\u00f5e de novo a rede do amor, desde a sua fonte, que \u00e9 o Pai, que nos amou e enviou o seu Filho Unig\u00e9nito para nos dar a vida mediante a oferta propiciat\u00f3ria (<em>hilasm\u00f3s<\/em>) da sua vida pelos nossos pecados, que Ele absorve e absolve (1 Jo\u00e3o 4,9-10).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">7. Aten\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, que o amor de Deus n\u00e3o \u00e9 um patrim\u00f3nio restrito e limitado, um exclusivo s\u00f3 acess\u00edvel a alguns privilegiados, mediante inscri\u00e7\u00f5es, quotas pagas, registos, determinadas ra\u00e7as ou grupos. Chega a todos aqueles que o acolhem. Tamb\u00e9m esses nascem de Deus. O amor \u00e9 de Deus; n\u00e3o \u00e9 sequer prerrogativa dos disc\u00edpulos de Jesus. Se quem ama nasceu de Deus, foi gerado por Deus (<em>genn\u00e1\u00f4<\/em>), ent\u00e3o o amor n\u00e3o \u00e9 nosso; \u00e9 de Deus. Esta imensa afirma\u00e7\u00e3o implica que nunca nos podemos julgar donos do amor, pois n\u00e3o \u00e9 nossa a patente do amor. Tem outro registo. Apenas nos \u00e9 dado humildemente reconhecer que \u00ab\u00e9 gerado por Deus\u00bb quem j\u00e1 vive no amor. A\u00ed est\u00e1, a prov\u00e1-lo, na leitura de hoje do Livro dos Atos dos Ap\u00f3stolos 10,25-48, o pag\u00e3o Corn\u00e9lio a entrar de pleno direito na comunidade dos filhos de Deus, perante o espanto dos judeo-crist\u00e3os de Jerusal\u00e9m, que julgavam que Deus e o Amor de Deus eram s\u00f3 para eles!<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">8. \u00c9 sempre importante que tomemos consci\u00eancia de que temos o dever de entregar este amor a outros, e n\u00e3o de nos fecharmos dentro de uma cerca, ainda que de rosas seja a cerca! Escreveu bem e rezou bem, em \u00ab<em>As idades da vida espiritual<\/em>\u00bb, o conhecido te\u00f3logo ortodoxo russo Pavel Evdokimov (1901-1970): \u00abN\u00e3o permitas, Senhor, que o teu Amor e a tua Palavra sejam na minha vida como um santu\u00e1rio, que uma veda\u00e7\u00e3o separa da casa e da estrada\u00bb. Um tal fechamento seria pecar contra o Amor.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">9. Levantar-se-\u00e1 sempre, desde o santu\u00e1rio do nosso cora\u00e7\u00e3o emocionado, o hino coral e universal, que \u00e9 o Salmo 98. Tudo e todos s\u00e3o chamados a formar uma bela orquestra, que nunca deixe de cantar os louvores de Deus. Desde o Templo (harpa, c\u00edtara,\u00a0<em>sh\u00f4phar<\/em>) at\u00e9 \u00e0 inteira cria\u00e7\u00e3o: mar e terra, rios (que s\u00e3o os bra\u00e7os e as m\u00e3os do mar, e, por isso, batem palmas), montes e colinas.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00a0<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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