{"id":4197550737,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/11594-xviii-domingo-do-tempo-comum-a-ganancia-asfixia-e-mata"},"modified":"2025-11-07T16:33:52","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:52","slug":"xviii-domingo-do-tempo-comum-a-ganancia-asfixia-e-mata","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/xviii-domingo-do-tempo-comum-a-ganancia-asfixia-e-mata\/","title":{"rendered":"XVIII Domingo do Tempo Comum: \u00abA Gan\u00e2ncia asfixia e mata\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p data-adtags-visited=\"true\">Qo 1,2; 2,21-23; Sl 90; Cl 3,1-5.9-11; Lc 12,13-21<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">1. Diz o Tratado\u00a0<em>Pirq\u00ea \u2019Ab\u00f4t<\/em>\u00a02,9, da Mishna judaica, que \u00abo caminho mau de que o homem se deve afastar \u00e9 pedir emprestado e n\u00e3o restituir\u00bb, acrescentando logo que \u00ab\u00e9 a mesma coisa receber emprestado de um homem ou de Deus\u00bb. Comentando este dito da sabedoria judaica, afirma, de forma contundente, o grande fil\u00f3sofo hebreu Abraham Joshua Heschel: \u00abTalvez esteja aqui o n\u00facleo da mis\u00e9ria humana: quando nos esquecemos de que a vida \u00e9 um dom e tamb\u00e9m um empr\u00e9stimo\u00bb.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">2. Servem estes ditos rab\u00ednicos para nos conduzir ao extraordin\u00e1rio DIZER e MOSTRAR de Jesus no Evangelho deste XVIII Domingo do Tempo Comum (Lucas 12,13-21): \u00abVede bem e guardai-vos de toda a GAN\u00c2NCIA (<em>pleonex\u00eda<\/em>)\u00bb (Lucas 12,15). \u00c9 f\u00e1cil de entender o termo grego usado pelo narrador:\u00a0<em>pleonex\u00eda<\/em>, que aqui traduzimos por\u00a0<em>gan\u00e2ncia<\/em>. Deriva de\u00a0<em>pl\u00e9on<\/em>\u00a0[= mais] +\u00a0<em>\u00e9ch\u00f4<\/em>\u00a0[= ter], e passa, portanto, a ideia clara de desejarmos TER MAIS poder, posse, dinheiro, sucesso, etc\u2026 Esta raiz daninha pode tomar de tal modo conta de n\u00f3s que acaba por minar e envenenar todos os nossos comportamentos. S\u00e3o Paulo chama, com toda a raz\u00e3o, a este v\u00edcio da \u00abgan\u00e2ncia\u00bb ou \u00abavareza\u00bb, \u00abidolatria\u00bb (Colossenses 3,5). \u00c9 o feiti\u00e7o ou o fetiche do poder, da posse, da riqueza, do dinheiro, do sucesso, diante dos quais nos prostramos, seguran\u00e7as enganadoras, falsos suced\u00e2neos de Deus, a que o Evangelho chama MAMONA (<em>mam\u00f4n\u00e3<\/em>) (Lucas 16,13; cf. Mateus 6,24). De notar que o termo grego\u00a0<em>mam\u00f4n\u00e3s<\/em>\u00a0[= dinheiro, riqueza] deriva, atrav\u00e9s do aramaico\u00a0<em>mam\u00f4n<\/em>, da raiz hebraica\u00a0<em>\u2019mn<\/em>, que serve tamb\u00e9m para dizer a f\u00e9 (<em>?emunah<\/em>) e a confian\u00e7a em Deus. \u00c9 como quem diz que nos podemos equivocar radicalmente, deixando de p\u00f4r a nossa f\u00e9 e confian\u00e7a no Deus vivo, para nos agarrarmos aos \u00eddolos mortos e vazios, uma esp\u00e9cie de \u00abespantalhos num campo de pepinos!\u00bb (Jeremias 10,5). \u00c9 assim que ca\u00edmos no terreno vazio e oco da idolatria, que sou eu ao mesmo tempo dono e escravo de mim mesmo, curvado sobre mim mesmo, adorando-me a mim mesmo!<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">3. E, para que tudo fique mais claro, a\u00ed vem mais uma hist\u00f3ria arrasadora de Jesus. \u00abA terra de um HOMEM RICO produziu muito\u00bb (Lucas 12,16). E eis o HOMEM RICO, sintomaticamente apresentado em cena SEMPRE S\u00d3, voltado unicamente para si mesmo, entretido com a sua autorreferencialidade, a cogitar CONSIGO MESMO, e a falar apenas CONSIGO MESMO (Lucas 12,17-19).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">4. Diz ele: deitarei abaixo os meus celeiros pequenos, construirei novas infraestruturas, grandes celeiros, e recolherei l\u00e1 todo o meu trigo e os meus bens. Depois, direi para MIM MESMO: tens muitos bens acumulados\u00a0<em>para muitos anos<\/em>; descansa, come, bebe, regala-te! (Lucas 12,18-19). Assim falou o HOMEM RICO a s\u00f3s CONSIGO MESMO. Mas agora \u00e9 a vez de Deus, que lhe diz: \u00abMentecapto (<em>\u00e1phr\u00f4n<\/em>),\u00a0<em>precisamente esta noite<\/em>\u00a0morrer\u00e1s, e as coisas que acumulaste para quem ser\u00e3o?\u00bb (Lucas 12,20). E o narrador conclui: \u00abAssim acontece \u00e0quele que acumula PARA SI MESMO e n\u00e3o PARA DEUS\u00bb (Lucas 12,21). Note-se o vivo contraste entre aquele\u00a0<em>para muitos anos<\/em>, projetado pelo homem rico, e a l\u00e2mina impiedosa daquele\u00a0<em>precisamente esta noite<\/em>, pronunciado por Deus e que deita a perder a rima de projetos que elabor\u00e1mos! Note-se tamb\u00e9m o vivo contraste das duas formas de viver que o texto assinala:\u00a0<em>para si mesmo<\/em>\u00a0(<em>heaut\u00f4<\/em>) e\u00a0<em>para Deus<\/em>\u00a0(<em>eis the\u00f3n<\/em>). Viver\u00a0<em>para si mesmo<\/em>\u00a0(<em>heaut\u00f4<\/em>) \u00e9 a autorreferencialidade que estiola a vida, de que n\u00e3o se cansa de falar o Papa Francisco.\u00a0<em>Para Deus<\/em>\u00a0(<em>eis the\u00f3n<\/em>) imp\u00f5e uma dire\u00e7\u00e3o da nossa vida para fora de n\u00f3s,\u00a0<em>para Deus<\/em>, bem assinalado no texto grego com a express\u00e3o\u00a0<em>eis the\u00f3n<\/em>\u00a0(Lucas 12,21), que implica movimento para Deus. S\u00e3o Paulo admoesta o seu disc\u00edpulo e cooperador Tim\u00f3teo a viver como \u00abamigo de Deus\u00bb (<em>phil\u00f3theos<\/em>), e n\u00e3o como \u00abamigo de si mesmo\u00bb (<em>ph\u00edlautos<\/em>) (2 Tim\u00f3teo 3,2 e 4). Na li\u00e7\u00e3o do Evangelho do pr\u00f3ximo Domingo (XIX), Jesus ensinar-nos-\u00e1 que este\u00a0<em>para Deus<\/em>\u00a0se verifica no\u00a0<em>para os outros<\/em>: \u00abVendei os vossos bens, e dai em esmola\u00bb (Lucas 12,33).\u00a0<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">5. N\u00e3o \u00e9 suficiente traduzir o termo grego\u00a0<em>\u00e1phr\u00f4n<\/em>\u00a0por \u00abinsensato\u00bb ou \u00abest\u00fapido\u00bb.\u00a0<em>\u00c1phr\u00f4n<\/em>\u00a0resulta de\u00a0<em>phr\u00ean<\/em>\u00a0[= mente] a que se antep\u00f5e o\u00a0<em>a-<\/em>\u00a0(alfa) privativo, pelo que\u00a0<em>\u00e1phr\u00f4n<\/em>\u00a0indica a falta total de intelig\u00eancia, um mentecapto, desmiolado, sem-mente.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">6. Olhando atentamente \u00e0 nossa volta, neste mundo em crise acentuada e \u00e0 deriva, veremos depressa (e n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 no futebol) tantos \u00abricos mentecaptos\u00bb, que passeiam e planeiam, falam e gastam sozinhos. Onde est\u00e3o na nossa n\u00e3o-mente os irm\u00e3os a quem devemos fazer participar com alegria da nossa riqueza? E, em \u00faltima an\u00e1lise, a orienta\u00e7\u00e3o da nossa vida \u00e9 PARA N\u00d3S MESMOS ou PARA DEUS? Recebemos a vida, os outros, a riqueza como um DOM e um EMPR\u00c9STIMO, de que devemos responder a cada momento, ou pensamos que somos DONOS de todos e de tudo, registando logo todos e tudo em nosso nome, nossa propriedade para nosso uso, consumo e satisfa\u00e7\u00e3o exclusivos? A par\u00e1bola do rico mentecapto, que acab\u00e1mos de seguir em Lucas, e que constitui um importante ensinamento de Jesus no caminho, pode muito bem ser vista como o desenvolvimento do g\u00e9rmen sapiencial j\u00e1 registado no Livro de Ben Sira 11,18-19: \u00abH\u00e1 quem enrique\u00e7a por GAN\u00c2NCIA, e ser\u00e1 esta a sua recompensa: quando ele disser: \u201cagora encontrei descanso, agora comerei dos meus bens\u201d, ele n\u00e3o sabe quando vir\u00e1 o dia em que deixar\u00e1 tudo a outros e morrer\u00e1\u00bb.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">7. Temos hoje a \u00e1cida e l\u00facida companhia de Qohelet (1,2; 2,21-23), esse intrigante pregador que nos segue por toda a parte e n\u00e3o cessa de nos ir lembrando que tudo o que fazemos pode afinal n\u00e3o passar de um sopro, fuma\u00e7a, um vento que passa, um \u00f3cio oco e v\u00e3o, uma soneira. E logo com tanto irm\u00e3o \u00e0 nossa beira!<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">8. S\u00e3o Paulo regressa ao essencial nesta bela p\u00e1gina da Carta aos Colossenses (3,1-5.9-11), pondo em destaque a nossa condi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 assente no batismo, isto \u00e9, na enxertia da nossa vida em Cristo. \u00abSe, portanto, ressuscitastes com Cristo, com ressuscitastes (<em>syn\u00eag\u00e9rth\u00eate<\/em>: aor. pass. de\u00a0<em>synege\u00edr\u00f4<\/em>), procurai as coisas do alto\u00bb (v. 1). A Igreja antiga retirou daqui o\u00a0<em>t\u00e0 \u00e1n\u00f4 z\u00eate\u00edte<\/em>, sucessivamente traduzido com\u00a0<em>sursum corda<\/em>,\u00a0<em>cora\u00e7\u00f5es ao alto<\/em>, que se usa no di\u00e1logo inicial da Prece Eucar\u00edstica em todas as liturgias. A vida nova, batismal, em Cristo, requer de n\u00f3s vestidos novos (v. 10), com o consequente abandono dos velhos v\u00edcios que nos prendem \u00e0 terra. N\u00e3o se trata, obviamente, de um convite ao desprezo das coisas terrenas, dando corpo, por assim dizer, a uma religi\u00e3o de evas\u00e3o e aliena\u00e7\u00e3o. Trata-se, antes, de n\u00e3o nos encerrarmos nas coisas deste mundo, \u00e0 maneira do rico da par\u00e1bola de hoje, a quem encaixa bem a lista de v\u00edcios do v. 5, em que sobressai \u00aba gan\u00e2ncia insaci\u00e1vel (<em>pleonex\u00eda<\/em>), que \u00e9 idolatria\u00bb. N\u00f3s, batizados em Cristo, procuramos aquele tesouro escondido no campo, pelo qual vale a pena vender tudo (Mateus 13,44).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">9. O Salmo 90 p\u00f5e em cena a eternidade e a solidez de Deus em confronto com a fragilidade e o sabor ef\u00e9mero da vida humana, sempre vista no microsc\u00f3pio de Deus. Este confronto \u00e9 cantado na elegia sapiencial dos v. 1-10, sendo de s\u00faplica os v. 11-17. O primeiro movimento pode resumir-se na afirma\u00e7\u00e3o do v. 4: \u00abMil anos aos teus olhos s\u00e3o o dia de ontem que passou, como uma vig\u00edlia da noite\u00bb. E o segundo movimento tem o seu ponto alto no v. 12: \u00abEnsina-nos a bem contar os nossos anos, para chegarmos \u00e0 sabedoria do cora\u00e7\u00e3o\u00bb. Estar de passagem e sermos t\u00e3o fr\u00e1geis como a flor da erva (v. 5-6), n\u00e3o nos leva para o pessimismo, mas para viver intensamente a vida que Deus nos d\u00e1, Ele que \u00e9 e permanece o nosso ref\u00fagio de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o (v. 1). O grande estudioso dos Salmos, Artur Weiser (1893-1978), alem\u00e3o, de tradi\u00e7\u00e3o Evang\u00e9lica, expressa bem esta realidade: \u00abNa luz da gra\u00e7a de Deus, um reflexo de eternidade cai tamb\u00e9m sobre a vida e sobre a obra do homem. Da parte de Deus, a fragilidade recebe subsist\u00eancia, a mis\u00e9ria torna-se gl\u00f3ria, aquilo que parecia sem sentido, alcan\u00e7a significado\u2026 \u00c9 como se a estrela de outro mundo viesse fazer luz sobre o fluir dos nossos dias\u00bb.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00a0<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Qo 1,2; 2,21-23; Sl 90; Cl 3,1-5.9-11; Lc 12,13-21 1. 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