{"id":4248272119,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/326-vaticano\/11586-canada-estou-aqui-para-pedir-perdao-afirma-o-papa"},"modified":"2025-11-07T16:34:43","modified_gmt":"2025-11-07T16:34:43","slug":"canada-estou-aqui-para-pedir-perdao-afirma-o-papa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/canada-estou-aqui-para-pedir-perdao-afirma-o-papa\/","title":{"rendered":"Canad\u00e1: \u00abEstou aqui para pedir perd\u00e3o\u00bb, afirma o Papa"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/papa_candaa_220725102736.jpg\" \/><\/p>\n<p><p><em>Muita emo\u00e7\u00e3o no primeiro encontro do Papa com as tribos ind\u00edgenas do Canad\u00e1. Francisco afirmou-se \u201cindignado\u201d, com o modo como foram tratados os ind\u00edgenas, e lembrou a import\u00e2ncia de \u201cfazer mem\u00f3ria\u201d porque \u201co contr\u00e1rio do amor \u00e9 a indiferen\u00e7a\u201d<\/em><\/p>\n<p>Leia, na \u00edntegra, o discurso do Santo Padre<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Senhora Governadora Geral,<\/p>\n<p>Senhor Primeiro-Ministro,<\/p>\n<p>queridos povos ind\u00edgenas de Maskwacis e desta terra canadiana,<\/p>\n<p>Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s:<\/p>\n<p>Esperava fortemente por este momento convosco. Daqui, deste lugar tristemente evocativo, gostaria de come\u00e7ar o que desejo no meu interior: uma peregrina\u00e7\u00e3o, uma peregrina\u00e7\u00e3o penitencial. Venho \u00e0 vossa terra natal para vos dizer pessoalmente que estou magoado, para implorar o perd\u00e3o, a cura e a reconcilia\u00e7\u00e3o de Deus, para vos mostrar a minha proximidade, para rezar convosco e por v\u00f3s.<\/p>\n<p>Lembro-me das reuni\u00f5es que tivemos em Roma h\u00e1 quatro meses. Naquele momento recebi como prenda, dois pares de mocassins, um sinal do sofrimento das crian\u00e7as ind\u00edgenas, principalmente daquelas que infelizmente nunca voltaram a casa a partir das escolas residenciais. Pediram-me para devolver os mocassins quando chegasse ao Canad\u00e1; Trouxe-os e vou faz\u00ea-lo no final destas palavras. Gostaria de me inspirar precisamente neste s\u00edmbolo que, nos \u00faltimos meses, reacendeu em mim a dor, a indigna\u00e7\u00e3o e a vergonha. A mem\u00f3ria dessas crian\u00e7as provoca afli\u00e7\u00e3o e exige a\u00e7\u00e3o para que todas as crian\u00e7as sejam tratadas com amor, honra e respeito. Mas estes mocassins tamb\u00e9m nos falam de um caminho, de uma jornada que queremos fazer juntos. Caminhar juntos, rezar juntos, trabalhar juntos, para que os sofrimentos do passado deem lugar a um futuro de justi\u00e7a, cura e reconcilia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a raz\u00e3o pela qual a primeira etapa da minha peregrina\u00e7\u00e3o entre v\u00f3s acontece nesta regi\u00e3o que viu, desde tempos imemoriais, a presen\u00e7a dos povos ind\u00edgenas. \u00c9 um territ\u00f3rio que nos fala, que nos permite fazer mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Fazer mem\u00f3ria. Irm\u00e3os e irm\u00e3s, v\u00f3s viveis nesta terra h\u00e1 milhares de anos com estilos de vida que respeitam a pr\u00f3pria terra, herdados de gera\u00e7\u00f5es passadas e protegidos para as futuras. Trataram a terra como um presente do Criador para partilhar com os outros e amar em harmonia com tudo o que existe, numa interconex\u00e3o viva entre todos os seres vivos. Assim aprenderam a nutrir um sentido de fam\u00edlia e comunidade, e desenvolveram fortes la\u00e7os entre gera\u00e7\u00f5es, honrando os idosos e cuidando dos jovens. Quantas boas tradi\u00e7\u00f5es e ensinamentos baseados na aten\u00e7\u00e3o aos outros e no amor \u00e0 verdade, na coragem e no respeito, na humildade, na honestidade, na sabedoria da vida!<\/p>\n<p>Mas, se estes foram os primeiros passos dados nestes territ\u00f3rios, a mem\u00f3ria, infelizmente, leva-nos aos que se seguiram. O lugar onde nos encontramos faz ressoar em mim um grito de dor, um grito sufocado que me acompanhou durante estes meses. Penso no drama sofrido por tantos de v\u00f3s, pelas vossas fam\u00edlias, pelas vossas comunidades, no que compartilhastes comigo sobre o sofrimento sofrido nas escolas residenciais. S\u00e3o traumas que, de certa forma, reviveis cada vez que s\u00e3o lembrados e estou consciente de que o nosso encontro de hoje tamb\u00e9m pode despertar lembran\u00e7as e feridas, e que muitos de v\u00f3s podeis sentir-vos mal enquanto falo. Mas \u00e9 justo lembrar, porque o esquecimento leva \u00e0 indiferen\u00e7a e, como j\u00e1 foi dito, \u00abo contr\u00e1rio do amor n\u00e3o \u00e9 o \u00f3dio, \u00e9 a indiferen\u00e7a&#8230; o contr\u00e1rio da vida n\u00e3o \u00e9 a morte, \u00e9 a indiferen\u00e7a \u00e0 vida ou \u00e0 morte\u00bb (E. Wiesel). Relembrar as experi\u00eancias devastadoras que ocorreram nas escolas residenciais atinge-nos, irrita-nos, entristece-nos, mas \u00e9 necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso lembrar como as pol\u00edticas de assimila\u00e7\u00e3o e desvincula\u00e7\u00e3o, que inclu\u00edam tamb\u00e9m o sistema de ensino residencial, foram desastrosas para as pessoas destas terras. Quando os colonizadores europeus chegaram aqui, houve uma grande oportunidade para desenvolver um encontro frut\u00edfero entre culturas, tradi\u00e7\u00f5es e espiritualidade. Mas na maior parte isso n\u00e3o aconteceu. E volta \u00e0 minha mente o que me contastes acerca das pol\u00edticas de assimila\u00e7\u00e3o e como estas acabaram por marginalizar sistematicamente os povos ind\u00edgenas; como, tamb\u00e9m atrav\u00e9s do sistema escolar residencial, as vossas l\u00ednguas, as vossas culturas foram denegridas e suprimidas; e como as crian\u00e7as sofreram abusos f\u00edsicos e verbais, psicol\u00f3gicos e espirituais; como elas foram retiradas das suas casas, quando eram pequenas e como isso marcou indelevelmente a rela\u00e7\u00e3o entre pais e filhos, entre av\u00f3s e netos.<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o-vos por terdes feito isto tudo entrar no meu cora\u00e7\u00e3o, por terdes expressado o peso que levais dentro, por terdes compartilhado comigo esta mem\u00f3ria sangrenta. Hoje estou aqui, nesta terra que, junto com uma mem\u00f3ria antiga, guarda as cicatrizes de feridas ainda abertas. Estou entre v\u00f3s porque o primeiro passo desta peregrina\u00e7\u00e3o penitencial \u00e9 renovar o meu pedido de perd\u00e3o e dizer-vos, de todo o cora\u00e7\u00e3o, que estou profundamente magoado: pe\u00e7o desculpa pela forma como, infelizmente, muitos crist\u00e3os adotaram a mentalidade colonialista dos poderes que oprimiam os povos ind\u00edgenas. Estou ferido. Pe\u00e7o desculpas, em particular, pela maneira como muitos membros da Igreja e comunidades religiosas cooperaram, tamb\u00e9m com a indiferen\u00e7a, naqueles projetos de destrui\u00e7\u00e3o cultural e assimila\u00e7\u00e3o for\u00e7ada dos governos da \u00e9poca, que terminaram no sistema de escolas residenciais.<\/p>\n<p>Embora a caridade crist\u00e3 esteja presente e n\u00e3o haja poucos exemplares de entrega para com as crian\u00e7as, as consequ\u00eancias globais das pol\u00edticas ligadas \u00e0s escolas residenciais foram catastr\u00f3ficas. O que a f\u00e9 crist\u00e3 nos diz \u00e9 que foi um erro devastador, incompat\u00edvel com o Evangelho de Jesus Cristo. D\u00f3i saber que este terreno compacto de valores, l\u00edngua e cultura, que deu aos vossos povos um genu\u00edno sentido de identidade, d\u00f3i saber que se foi erodindo e que hoje continuais a pagar as suas consequ\u00eancias. Perante este mal ultrajante, a Igreja ajoelha-se diante de Deus e implora o perd\u00e3o dos pecados dos seus filhos (cf. S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, Bula Incarnationis mysterium [29 de Novembro de 1998], 11: AAS 91 [1999], 140 ). Gostaria de repetir com vergonha e clareza: pe\u00e7o humildemente perd\u00e3o pelo mal que tantos crist\u00e3os cometeram contra os povos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s, muitos de v\u00f3s e vossos representantes afirmaram que as desculpas n\u00e3o s\u00e3o um ponto de chegada. Eu concordo perfeitamente. Elas s\u00e3o apenas o primeiro passo, o ponto de partida. Tamb\u00e9m estou ciente de que &#8220;olhando para o passado, o que se faz para pedir perd\u00e3o e procurar reparar os danos causados nunca ser\u00e1 suficiente&#8221; e &#8220;olhando para o futuro, tudo o que se faz para gerar uma cultura capaz de prevenir que estas situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o se repetem, como n\u00e3o encontram espa\u00e7os\u00bb (Carta ao Povo de Deus, 20 de agosto de 2018). Uma parte importante deste processo \u00e9 fazer uma busca s\u00e9ria pela verdade sobre o passado e ajudar os sobreviventes das escolas residenciais a que se curem dos traumas que sofreram.<\/p>\n<p>Rezo e espero que os crist\u00e3os e a sociedade desta terra cres\u00e7am na capacidade de acolher e respeitar a identidade e a experi\u00eancia dos povos ind\u00edgenas. Espero que se encontrem caminhos concretos para os conhecer e valorizar, aprendendo a caminhar todos juntos. Da minha parte, continuarei a encorajar o compromisso de todos os cat\u00f3licos com os povos ind\u00edgenas. Fiz isto noutras ocasi\u00f5es e em v\u00e1rios lugares, atrav\u00e9s de encontros e apelos, e tamb\u00e9m por meio de uma Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica. Sei que tudo isto requer tempo e paci\u00eancia, tratam-se de processos que devem entrar nos cora\u00e7\u00f5es, e a minha presen\u00e7a aqui e o empenho dos bispos canadianos s\u00e3o testemunho da vontade de avan\u00e7ar neste caminho.<\/p>\n<p>Queridos amigos, esta peregrina\u00e7\u00e3o estende-se por alguns dias e chegar\u00e1 a lugares distantes, no entanto, n\u00e3o me permitir\u00e1 responder a muitos convites e visitar centros como Kamloops, Winnipeg, v\u00e1rios lugares em Saskatchewan, no Yukon e nos Territ\u00f3rios do Noroeste. Embora isto n\u00e3o seja poss\u00edvel, saibam que todos v\u00f3s estais na minha mem\u00f3ria e na minha ora\u00e7\u00e3o. Sabei que conhe\u00e7o os sofrimentos, traumas e desafios dos povos ind\u00edgenas em todas as regi\u00f5es deste pa\u00eds. As palavras que pronunciarei ao longo deste caminho penitencial s\u00e3o dirigidas a todas as comunidades e aos ind\u00edgenas, que abra\u00e7o de todo o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesta primeira etapa quis dar espa\u00e7o \u00e0 mem\u00f3ria. Hoje estou aqui para recordar o passado, para chorar convosco, para olhar a terra em sil\u00eancio, para rezar junto dos t\u00famulos. Deixemos o sil\u00eancio ajudar-nos a interiorizar a dor. Sil\u00eancio e ora\u00e7\u00e3o. Diante do mal, oremos ao Senhor do bem; ante a morte, oremos ao Deus da vida. Nosso Senhor Jesus Cristo fez do sepulcro &#8211; a \u00faltima esta\u00e7\u00e3o de esperan\u00e7a diante da qual todos os sonhos haviam desaparecido e apenas o choro, a dor e a resigna\u00e7\u00e3o permaneceram &#8211; fez do sepulcro o lugar do renascimento, da ressurrei\u00e7\u00e3o, a partir de onde come\u00e7ou uma hist\u00f3ria de vida nova e a reconcilia\u00e7\u00e3o universal. N\u00e3o bastam os nossos esfor\u00e7os para curar e reconciliar, \u00e9 precisa a Sua gra\u00e7a, a sabedoria af\u00e1vel e forte do Esp\u00edrito, a ternura do Consolador. Que Ele preencha as esperan\u00e7as dos cora\u00e7\u00f5es. Que Ele nos leve pela m\u00e3o. Que Ele nos fa\u00e7a caminhar juntos.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o Educris a partir do original em <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/es\/speeches\/2022\/july\/documents\/20220725-popolazioniindigene-canada.html\" target=\"_blank\">Espanhol<\/a><\/p>\n<p>Imagem: Youtube Vatican<\/p>\n<p>25.07.2022<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muita emo\u00e7\u00e3o no primeiro encontro do Papa com as tribos ind\u00edgenas do Canad\u00e1. 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