{"id":4258364057,"date":"2021-12-05T00:00:00","date_gmt":"2021-12-05T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/326-vaticano\/11014-em-lesbos-papa-pede-que-se-pare-o-naufragio-da-civilizacao"},"modified":"2021-12-05T00:00:00","modified_gmt":"2021-12-05T00:00:00","slug":"em-lesbos-papa-pede-que-se-pare-o-naufragio-da-civilizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/em-lesbos-papa-pede-que-se-pare-o-naufragio-da-civilizacao\/","title":{"rendered":"Em Lesbos Papa pede que se pare o \u00abnaufr\u00e1gio da civiliza\u00e7\u00e3o\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/papa_lesbos__211206094424.jpeg\"\/><\/p>\n<p><p>No segundo dia da sua visita \u00e0 Gr\u00e9cia o Papa Francisco visitou, cinco anos depois, a ilha de Lesbos. No encontro que manteve com os refugiados Francisco sustentou a necessidade de perceber que a &#8220;migra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um problema&#8221; de algumas regi\u00f5es mas de todo o mundo e desafiou ao abandono dos &#8220;nacionalismos e fechamentos&#8221; para que possa emergir o ideal de hospitalidade<\/p>\n<p>Leia, na \u00edntegra, e em portugu\u00eas, o discurso do Papa Francisco<\/p>\n<p><em>Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s<\/em>,<\/p>\n<p>Obrigado pelas vossas palavras! Agrade\u00e7o-lhe, Senhora Presidente, a presen\u00e7a e as suas palavras. Irm\u00e3s, irm\u00e3os, vim de novo aqui para vos encontrar. Estou aqui para vos certificar da minha proximidade, e fa\u00e7o-o com o cora\u00e7\u00e3o. Estou aqui para contemplar os vossos rostos, para ver-vos olhos nos olhos. Olhos cheios de medo e ansiedade, olhos que viram viol\u00eancia e pobreza, olhos sulcados por demasiadas l\u00e1grimas. H\u00e1 cinco anos, nesta ilha, o Patriarca Ecum\u00e9nico e querido Irm\u00e3o Bartolomeu disse algo que me impressionou: \u00abQuem tem medo de v\u00f3s, n\u00e3o vos fixou nos olhos. Quem tem medo de v\u00f3s, n\u00e3o viu os vossos rostos. Quem tem medo de v\u00f3s, n\u00e3o v\u00ea os vossos filhos. Esquece que a dignidade e a liberdade transcendem o medo e a divis\u00e3o. Esquece que a migra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um problema do M\u00e9dio Oriente e do norte da \u00c1frica, da Europa e da Gr\u00e9cia. \u00c9 um problema do mundo inteiro\u00bb (<em>Discurso<\/em>, 16\/IV\/2016).<\/p>\n<p>Sim, \u00e9 um problema mundial, uma crise humanit\u00e1ria que diz respeito a todos. A pandemia atingiu-nos globalmente, fez com que todos nos sent\u00edssemos no mesmo barco, fez-nos experimentar o que significa ter os mesmos temores. Compreendemos que as grandes quest\u00f5es devem ser enfrentadas em conjunto, porque, no mundo atual, s\u00e3o inadequadas as solu\u00e7\u00f5es fragmentadas. Mas, enquanto as vacina\u00e7\u00f5es se est\u00e3o a efetuar fadigosamente a n\u00edvel planet\u00e1rio e algo parece mover-se, embora por entre in\u00fameros atrasos e incertezas, na luta contra as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, tudo parece baldar-se terrivelmente no que diz respeito \u00e0s migra\u00e7\u00f5es. E, no entanto, h\u00e1 pessoas, vidas humanas em jogo. Est\u00e1 em jogo o futuro de todos, que, s\u00f3 poder\u00e1 ser sereno, se for integrador. S\u00f3 se aparecer reconciliado com os mais fr\u00e1geis \u00e9 que o futuro ser\u00e1 pr\u00f3spero. Pois quando s\u00e3o repelidos os pobres, repele-se a paz. Fechamentos e nacionalismos \u2013 a hist\u00f3ria no-lo ensina \u2013 levam a consequ\u00eancias desastrosas. Com efeito, como recordou o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/archive\/hist_councils\/ii_vatican_council\/index_po.htm\">Conc\u00edlio Vaticano II<\/a>, s\u00e3o \u00ababsolutamente necess\u00e1rias para a edifica\u00e7\u00e3o da paz (\u2026) a vontade firme de respeitar a dignidade dos outros homens e povos e a pr\u00e1tica ass\u00eddua da fraternidade\u00bb (<em><a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/archive\/hist_councils\/ii_vatican_council\/documents\/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html\">Gaudium et spes<\/a><\/em>, 78). \u00c9 uma ilus\u00e3o pensar que seja suficiente salvaguardar-se a si mesmo, defendendo-se dos mais fr\u00e1geis que batem \u00e0 porta. O futuro colocar-nos-\u00e1 ainda mais em contacto uns com os outros. Para bem encaminh\u00e1-lo, n\u00e3o servem a\u00e7\u00f5es unilaterais, mas pol\u00edticas de longo alcance. A hist\u00f3ria \u2013 repito \u2013 no-lo ensina, mas ainda n\u00e3o aprendemos. N\u00e3o se volte as costas \u00e0 realidade, acabe o cont\u00ednuo descarregar de responsabilidades para os outros, nem se delegue sempre para outros a quest\u00e3o migrat\u00f3ria, como se a ningu\u00e9m importasse e fosse apenas um peso in\u00fatil que algu\u00e9m \u00e9 obrigado a carregar.<\/p>\n<p>Irm\u00e3s, irm\u00e3os, os vossos rostos, os vossos olhos pedem-nos para n\u00e3o vos virarmos as costas, n\u00e3o renegarmos a humanidade que nos irmana, para assumirmos as vossas hist\u00f3rias e n\u00e3o esquecermos os vossos dramas. Assim escreveu Elie Wiesel, testemunha da maior trag\u00e9dia do s\u00e9culo passado: \u00ab\u00c9 porque recordo a nossa origem comum que me aproximo dos homens meus irm\u00e3os. \u00c9 porque me recuso a esquecer que o futuro deles \u00e9 t\u00e3o importante como o meu\u00bb (<em>From the Kingdom of Memory, Reminiscenses<\/em>, Nova York, 1990, 10). Neste domingo, pe\u00e7o a Deus que nos acorde da indiferen\u00e7a por quem sofre, nos sacuda do individualismo que exclui, desperte os cora\u00e7\u00f5es surdos \u00e0s necessidades dos outros. E pe\u00e7o tamb\u00e9m ao homem, a todo o homem: superemos a paralisia do medo, a indiferen\u00e7a que mata, o desinteresse c\u00ednico que, com luvas de veludo, condena \u00e0 morte quem est\u00e1 colocado \u00e0 margem. Contrariemos na sua raiz o\u00a0<em>pensamento dominante<\/em>, aquele que gira em torno do\u00a0<em>pr\u00f3prio eu<\/em>, dos pr\u00f3prios ego\u00edsmos pessoais e nacionais que se tornam medida e crit\u00e9rio de tudo.<\/p>\n<p>Passaram-se cinco anos desde a visita que aqui fiz com os queridos Irm\u00e3os Bartolomeu e Ieronymos. Depois de todo este tempo, constatamos que pouca coisa mudou na quest\u00e3o migrat\u00f3ria. Muitos, sem d\u00favida, se empenharam no acolhimento e na integra\u00e7\u00e3o, e quero agradecer aos numerosos volunt\u00e1rios e a quantos nos v\u00e1rios n\u00edveis \u2013 institucional, social, caritativo, pol\u00edtico \u2013 arcaram com grandes fadigas ocupando-se das pessoas e da quest\u00e3o migrat\u00f3ria. Reconhe\u00e7o o esfor\u00e7o realizado para financiar e construir estruturas de acolhimento dignas e de cora\u00e7\u00e3o agrade\u00e7o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o local pelo grande bem que fizeram e os in\u00fameros sacrif\u00edcios que suportaram. E quero agradecer tamb\u00e9m \u00e0s autoridades locais, que est\u00e3o empenhadas em receber, abrigar e fazer avan\u00e7ar estas pessoas que chegam aqui. Obrigado! Obrigado por tudo o que fazem! Com amargura, por\u00e9m, temos de admitir que este pa\u00eds, \u00e0 semelhan\u00e7a de outros, continua sob press\u00e3o e que, na Europa, h\u00e1 quem persista em tratar o problema como um assunto que n\u00e3o lhe diz respeito. Isto \u00e9 tr\u00e1gico. Recordo, [Senhora Presidente], as suas palavras finais: \u00abQue a Europa fa\u00e7a o mesmo\u00bb. E quantas condi\u00e7\u00f5es indignas do homem! Quantos pontos de triagem onde migrantes e refugiados vivem em condi\u00e7\u00f5es que est\u00e3o no limite da suporta\u00e7\u00e3o, sem se vislumbrar no horizonte qualquer solu\u00e7\u00e3o! E todavia o respeito pelas pessoas e pelos direitos humanos, especialmente no continente que n\u00e3o deixa de os promover no mundo, deveria ser sempre salvaguardado e a dignidade de cada um deveria ter prioridade sobre tudo. \u00c9 triste ouvir propor, como solu\u00e7\u00e3o, o uso de fundos comuns para construir muros, para levantar barreiras de arame farpado. Estamos na \u00e9poca dos muros e do arame farpado. Claro, compreendem-se os medos e inseguran\u00e7as, as dificuldades e perigos. Fazem-se sentir o cansa\u00e7o e a frustra\u00e7\u00e3o, agravados pelas crises econ\u00f3mica e pand\u00e9mica, mas n\u00e3o \u00e9 erguendo barreiras que se resolvem os problemas e melhora a conviv\u00eancia. Antes pelo contr\u00e1rio, \u00e9 unindo as for\u00e7as para cuidar dos outros segundo as possibilidades reais de cada um e no respeito da legalidade, colocando sempre em primeiro lugar o valor incancel\u00e1vel da vida de\u00a0<em>cada homem<\/em>, de cada mulher, de toda a pessoa. A prop\u00f3sito afirma o referido Elie Wiesel: \u00abQuando as vidas humanas est\u00e3o em perigo, quando a dignidade humana est\u00e1 em perigo, as fronteiras nacionais tornam-se irrelevantes\u00bb (<em>Discurso ao receber o Pr\u00e9mio Nobel da Paz<\/em>, 10\/XII\/1986).<\/p>\n<p>Em v\u00e1rias sociedades, h\u00e1 quem esteja, de forma ideol\u00f3gica, a contrapor seguran\u00e7a e solidariedade, local e universal, tradi\u00e7\u00e3o e abertura. Mais do que\u00a0<em>tomar partido pelas ideias<\/em>, ajuda\u00a0<em>partir da realidade<\/em>: parar, estender o olhar, faz\u00ea-lo penetrar nos problemas da maioria da humanidade, de tantas popula\u00e7\u00f5es v\u00edtimas de emerg\u00eancias humanit\u00e1rias que n\u00e3o criaram, mas t\u00eam de as suportar, frequentemente, depois de longas hist\u00f3rias de explora\u00e7\u00e3o ainda em curso. \u00c9 f\u00e1cil arrastar a opini\u00e3o p\u00fablica incutindo o medo do outro; mas por que motivo n\u00e3o se fala, com o mesmo brio, da explora\u00e7\u00e3o dos pobres, das guerras esquecidas e muitas vezes lautamente financiadas, dos acordos econ\u00f3micos feitos na pele do povo, das manobras ocultas para contrabandar armas e fazer proliferar o seu com\u00e9rcio? Por que motivo n\u00e3o se fala disto? H\u00e1 que enfrentar as causas remotas, n\u00e3o as pessoas pobres que pagam as suas consequ\u00eancias, acabando at\u00e9 por ser usadas para propaganda pol\u00edtica. Para remover as causas profundas, n\u00e3o basta apenas resolver as emerg\u00eancias. S\u00e3o necess\u00e1rias a\u00e7\u00f5es concordadas. \u00c9 preciso abordar as mudan\u00e7as epocais com grandeza de vis\u00e3o, porque n\u00e3o h\u00e1 respostas f\u00e1ceis para problemas complexos. Em vez disso, imp\u00f5e-se acompanhar os processos a partir do seu interior para superar os guetos e favorecer uma integra\u00e7\u00e3o lenta e indispens\u00e1vel, para acolher de modo fraterno e respons\u00e1vel as culturas e as tradi\u00e7\u00f5es alheias.<\/p>\n<p>Se queremos recome\u00e7ar, olhemos sobretudo os rostos das crian\u00e7as. Tenhamos a coragem de nos envergonhar \u00e0 vista delas, que s\u00e3o inocentes e constituem o futuro. Interpelam as nossas consci\u00eancias, perguntando-nos: \u00abQue mundo nos quereis dar?\u00bb N\u00e3o fujamos apressadamente das cruas imagens dos seus corpinhos estendidos, inertes, nas praias. O Mediterr\u00e2neo, que uniu durante mil\u00e9nios povos diferentes e terras distantes, est\u00e1 a tornar-se um cemit\u00e9rio frio sem l\u00e1pides. Esta grande bacia hidrogr\u00e1fica, ber\u00e7o de tantas civiliza\u00e7\u00f5es, agora parece um espelho de morte. N\u00e3o deixemos que o\u00a0<em>mare nostrum<\/em>\u00a0se transforme num desolador\u00a0<em>mare mortuum<\/em>, que este lugar de encontros se transforme no palco de confrontos. N\u00e3o permitamos que este \u00abmar das mem\u00f3rias\u00bb se transforme no \u00abmar do esquecimento\u00bb. Por favor, irm\u00e3os e irm\u00e3s, paremos este\u00a0<em>naufr\u00e1gio de civiliza\u00e7\u00e3o<\/em>!<\/p>\n<p>Nas margens deste mar, Deus fez-Se homem. A sua Palavra ecoou, trazendo o an\u00fancio de Deus, que \u00e9 \u00abPai e guia de todos os homens\u00bb (S. Greg\u00f3rio Nazianzeno,\u00a0<em>Discurso 7 para o irm\u00e3o Ces\u00e1rio<\/em>, 24). Ele ama-nos como filhos e quer-nos irm\u00e3os. Ao contr\u00e1rio, ofende-se Deus, desprezando o homem criado \u00e0 sua imagem, deixando-o \u00e0 merc\u00ea das ondas, num vaiv\u00e9m de indiferen\u00e7a, \u00e0s vezes justificada at\u00e9 em nome de pretensos valores crist\u00e3os. Ao contr\u00e1rio, a f\u00e9 pede compaix\u00e3o e miseric\u00f3rdia; n\u00e3o esque\u00e7amos qual \u00e9 o estilo de Deus: proximidade, compaix\u00e3o e ternura. A f\u00e9 exorta \u00e0 hospitalidade, \u00e0quela\u00a0<em>filoxenia<\/em>\u00a0que permeou a cultura cl\u00e1ssica, encontrando depois em Jesus a sua manifesta\u00e7\u00e3o definitiva, sobretudo na par\u00e1bola do bom samaritano (cf.\u00a0<em>Lc<\/em>\u00a010, 29-37) e nas palavras do cap\u00edtulo 25 do Evangelho de Mateus (cf. vv. 31-46). N\u00e3o \u00e9 ideologia religiosa, s\u00e3o\u00a0<em>ra\u00edzes crist\u00e3s concretas<\/em>. Jesus afirma solenemente que est\u00e1 ali no estrangeiro, no refugiado, no nu e no faminto. E o programa crist\u00e3o \u00e9 encontrar-se onde Jesus est\u00e1. Sim, porque \u00abo programa do crist\u00e3o \u2013 escreveu o Papa Bento XVI \u2013 \u00e9 \u201cum cora\u00e7\u00e3o que v\u00ea\u201d\u00bb (Carta enc.\u00a0<em><a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/benedict-xvi\/pt\/encyclicals\/documents\/hf_ben-xvi_enc_20051225_deus-caritas-est.html\">Deus caritas est<\/a><\/em>, 31). E n\u00e3o quero terminar estas minhas palavras sem agradecer o acolhimento praticado pelo povo grego. Muitas vezes este acolhimento torna-se um problema, porque n\u00e3o se encontram vias de sa\u00edda para as pessoas irem para outro lugar. Obrigado, irm\u00e3os e irm\u00e3s gregos, por esta generosidade!<\/p>\n<p>Agora rezemos a Nossa Senhora para que nos abra os olhos aos sofrimentos dos irm\u00e3os. Ela p\u00f4s-Se a caminho apressadamente para ir ter com a prima Isabel, que estava gr\u00e1vida. Quantas m\u00e3es gr\u00e1vidas, apressadas e em viagem, encontraram a morte enquanto levavam no ventre a vida! Que a M\u00e3e de Deus nos ajude a ter um olhar materno, que veja nos homens filhos de Deus, irm\u00e3s e irm\u00e3os que devemos acolher, proteger, promover, integrar e&#8230; amar ternamente. Que a Toda Santa nos ensine a colocar\u00a0<em>a realidade do homem antes das ideias e das ideologias<\/em>, e a mover, r\u00e1pido, os passos ao encontro de quem sofre.<\/p>\n<p>Agora, todos juntos, rezemos a Nossa Senhora.<\/p>\n<p>Educris|05.12.2021<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No segundo dia da sua visita \u00e0 Gr\u00e9cia o Papa Francisco visitou, cinco anos depois, a ilha de Lesbos. 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