{"id":461083923,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/327-divulgacao\/11628-homilia-do-papa-francisco-na-beatificacao-do-papa-joao-paulo-i"},"modified":"2025-11-07T16:34:22","modified_gmt":"2025-11-07T16:34:22","slug":"homilia-do-papa-francisco-na-beatificacao-do-papa-joao-paulo-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/homilia-do-papa-francisco-na-beatificacao-do-papa-joao-paulo-i\/","title":{"rendered":"Homilia do Papa Francisco na beatifica\u00e7\u00e3o do Papa Jo\u00e3o Paulo I"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/papa_beatificacao_news_vatican_220905023213.jpg\" \/><\/p>\n<p><p>Jesus vai a caminho de Jerusal\u00e9m e, como diz o Evangelho de hoje, \u00abseguiam com Ele grandes multid\u00f5es\u00bb (<em>Lc<\/em>\u00a014, 25). Caminhar com Ele significa segui-Lo, isto \u00e9, tornar-se disc\u00edpulo. E, contudo, a estas pessoas o Senhor faz um discurso pouco atraente e muito exigente: n\u00e3o pode ser seu disc\u00edpulo quem n\u00e3o O ama mais do que aos seus entes queridos, quem n\u00e3o carrega a sua cruz, quem n\u00e3o renuncia aos bens terrenos (cf. 14, 26-27.33). Porque \u00e9 que Jesus dirige tais palavras \u00e0 multid\u00e3o? Qual \u00e9 o significado das suas advert\u00eancias? Tentemos responder a estas quest\u00f5es.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, vemos muitas pessoas, uma multid\u00e3o numerosa que segue Jesus. Podemos imaginar que muitos ficaram fascinados pelas suas palavras e maravilhados com os gestos que realizava; e, por isso, ter\u00e3o visto n\u2019Ele uma esperan\u00e7a para o pr\u00f3prio futuro. Que teria feito qualquer outro mestre de ent\u00e3o, ou \u2013 podemos ainda interrogar-nos \u2013 que faria um l\u00edder astuto ao ver que as suas palavras e o seu carisma atra\u00edam as multid\u00f5es e faziam crescer o consenso no seio delas? Como sucede hoje, especialmente nos momentos de crise pessoal e social em que estamos mais expostos a sentimentos de ira ou temos medo de qualquer coisa que amea\u00e7a o nosso futuro, ficamos mais vulner\u00e1veis e assim, na onda da emo\u00e7\u00e3o, confiamo-nos a quem com sag\u00e1cia e ast\u00facia sabe cavalgar esta situa\u00e7\u00e3o, aproveitando-se dos temores da sociedade e prometendo ser o \u00absalvador\u00bb que resolver\u00e1 os problemas, quando, na realidade, o que deseja \u00e9 aumentar a sua popularidade e o pr\u00f3prio poder, a sua pr\u00f3pria imagem, a pr\u00f3pria capacidade de controlar as coisas.<\/p>\n<p>O Evangelho diz-nos que Jesus n\u00e3o procede assim. O estilo de Deus \u00e9 diferente. \u00c9 importante compreender o estilo de Deus, compreender como age Deus. Deus age segundo um estilo, e o estilo de Deus \u00e9 diverso do estilo de tais pessoas, porque Ele n\u00e3o instrumentaliza as nossas necessidades, nunca Se aproveita das nossas fraquezas para se engrandecer a Si mesmo. A Ele, que n\u00e3o nos quer seduzir com o engano nem quer distribuir alegrias f\u00e1ceis, n\u00e3o interessam as multid\u00f5es oce\u00e2nicas. N\u00e3o tem a paix\u00e3o dos n\u00fameros, n\u00e3o busca consensos, nem \u00e9 um id\u00f3latra do sucesso pessoal. Pelo contr\u00e1rio, parece preocupar-Se quando as pessoas O seguem com euforia e f\u00e1ceis entusiasmos. Assim, em vez de Se deixar atrair pelo fasc\u00ednio da popularidade \u2013 porque a popularidade fascina \u2013, pede a cada um para discernir cuidadosamente os motivos por que O segue e as consequ\u00eancias que isso acarreta. De facto, naquela multid\u00e3o havia muitos que talvez seguissem Jesus, porque esperavam que Ele fosse um chefe que os libertaria dos inimigos, algu\u00e9m que conquistaria o poder e o partilharia com eles; ou ent\u00e3o algu\u00e9m que, realizando milagres, resolveria os problemas da fome e das doen\u00e7as. Com efeito, pode-se seguir o Senhor por v\u00e1rias raz\u00f5es, e algumas destas \u2013admitamo-lo \u2013 s\u00e3o mundanas: por tr\u00e1s duma fachada religiosa perfeita pode-se esconder a mera satisfa\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias necessidades, a busca do prest\u00edgio pessoal, o desejo de aceder a um cargo, de ter as coisas sob controle, o desejo de ocupar espa\u00e7o e obter privil\u00e9gios, a aspira\u00e7\u00e3o de receber reconhecimentos, e muito mais. Ainda hoje sucede isto entre os crist\u00e3os. Mas este n\u00e3o \u00e9 o estilo de Jesus; nem pode ser o estilo do disc\u00edpulo e da Igreja. Se algu\u00e9m segue Cristo movido por tais interesses pessoais, enganou-se no caminho.<\/p>\n<p>O Senhor pede um comportamento diferente: segui-Lo n\u00e3o significa entrar na corte, nem participar num cortejo triunfal, nem mesmo garantir-se um seguro de vida. Pelo contr\u00e1rio, significa \u00abtomar a pr\u00f3pria cruz\u00bb (<em>Lc\u00a0<\/em>14, 27): como Ele, carregar os pesos pr\u00f3prios e os pesos alheios, fazer da vida um dom, n\u00e3o uma posse, gast\u00e1-la imitando o amor magn\u00e2nimo e misericordioso que Ele tem por n\u00f3s. Trata-se de op\u00e7\u00f5es que comprometem a totalidade da exist\u00eancia; por isso, Jesus deseja que o disc\u00edpulo nada anteponha a este amor, nem sequer os afetos mais queridos ou os bens maiores.<\/p>\n<p>Para o conseguir, por\u00e9m, \u00e9 preciso olhar mais para Ele do que para n\u00f3s pr\u00f3prios, aprender o amor que brota do Crucificado. N\u2019Ele vemos um amor que se d\u00e1 at\u00e9 ao fim, sem medida nem fronteiras. A medida do amor \u00e9 amar sem medida. N\u00f3s mesmos \u2013 dizia o Papa Luciani \u2013 \u00absomos objeto, da parte de Deus, dum amor que n\u00e3o se apaga\u00bb (<em><a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/john-paul-i\/pt\/angelus\/documents\/hf_jp-i_ang_10091978.html\">Angelus<\/a><\/em>, 10\/IX\/1978). N\u00e3o se apaga: nunca se eclipsa da nossa vida, resplandece sobre n\u00f3s e ilumina at\u00e9 as noites mais escuras. Ora, olhando para o Crucificado, somos chamados \u00e0s alturas daquele amor: somos chamados a purificar-nos das nossas ideias erradas sobre Deus e dos nossos fechamentos, a am\u00e1-Lo a Ele e aos outros, na Igreja e na sociedade, incluindo aqueles que n\u00e3o pensam como n\u00f3s e at\u00e9 os pr\u00f3prios inimigos.<\/p>\n<p>Amar, ainda que custe a cruz do sacrif\u00edcio, do sil\u00eancio, da incompreens\u00e3o, da solid\u00e3o, da contrariedade e da persegui\u00e7\u00e3o. Amar assim, inclusive a este pre\u00e7o, porque \u2013 dizia o Beato\u00a0<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/john-paul-i\/pt.html\">Jo\u00e3o Paulo I<\/a>\u00a0\u2013 se queres beijar Jesus crucificado, \u00abn\u00e3o o podes fazer sem te debru\u00e7ares sobre a cruz e deixar que te fira algum espinho da coroa, que est\u00e1 na cabe\u00e7a do Senhor\u00bb (<em><a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/john-paul-i\/pt\/audiences\/documents\/hf_jp-i_aud_27091978.html\">Audi\u00eancia Geral<\/a><\/em>, 27\/IX\/1978). O amor at\u00e9 ao extremo, com todos os seus espinhos: e n\u00e3o as coisas a meio, as acomoda\u00e7\u00f5es ou a vida tranquila. Se n\u00e3o apontarmos para o alto, se n\u00e3o arriscarmos, se nos contentarmos com uma f\u00e9 superficial, somos \u2013 diz Jesus \u2013 como quem deseja construir uma torre, mas n\u00e3o calculou bem os meios para a fazer: \u00abassenta os alicerces\u00bb e, depois, \u00abn\u00e3o a pode acabar\u00bb (<em>Lc<\/em>\u00a014, 29). Se, por medo de nos perdermos, renunciamos a dar-nos, deixamos inacabadas as coisas \u2013 os relacionamentos, o trabalho, as responsabilidades que nos est\u00e3o confiadas, os sonhos, e at\u00e9 a f\u00e9 \u2013, ent\u00e3o acabamos por viver a meias. E quantas pessoas vivem a meias! Tamb\u00e9m n\u00f3s muitas vezes temos a tenta\u00e7\u00e3o de viver a meias, sem nunca dar o passo decisivo (isto \u00e9 viver a meias), sem levantar voo, sem arriscar pelo bem, sem nos empenharmos verdadeiramente pelos outros. Jesus pede-nos isto: vive o Evangelho e viver\u00e1s a vida, n\u00e3o a meias, mas at\u00e9 ao fundo. Vive o Evangelho, vive a vida, sem ced\u00eancias.<\/p>\n<p>Irm\u00e3os, irm\u00e3s, o novo Beato viveu assim: na alegria do Evangelho, sem ced\u00eancias, amando at\u00e9 ao extremo. Encarnou a pobreza do disc\u00edpulo, que n\u00e3o \u00e9 apenas desapegar-se dos bens materiais, mas sobretudo vencer a tenta\u00e7\u00e3o de me colocar a mi mesmo no centro e procurar a gl\u00f3ria pr\u00f3pria. Ao contr\u00e1rio, seguindo o exemplo de Jesus, foi pastor manso e humilde. Considerava-se a si mesmo como o p\u00f3 sobre o qual Deus Se dignara escrever (cf. A. Luciani\/Jo\u00e3o Paulo I,\u00a0<em>Opera Omnia<\/em>, P\u00e1dua 1988, vol. II, 11). Nesta linha, exclamava: \u00abO Senhor tanto recomendou: sede humildes! Mesmo que tenhais feito grandes coisas, dizei: \u201csomos servos in\u00fateis\u201d\u00bb (<em><a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/john-paul-i\/pt\/audiences\/documents\/hf_jp-i_aud_06091978.html\">Audi\u00eancia Geral<\/a><\/em>, 6\/IX\/1978).<\/p>\n<p>Com o sorriso, o Papa Luciani conseguiu transmitir a bondade do Senhor. \u00c9 bela uma Igreja com o rosto alegre, o rosto sereno, o rosto sorridente, uma Igreja que nunca fecha as portas, que n\u00e3o exacerba os cora\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o se lamenta nem guarda ressentimentos, que n\u00e3o \u00e9 bravia nem impaciente, n\u00e3o se apresenta com modos rudes, nem padece de saudades do passado, caindo no retrogradismo. Rezemos a este nosso pai e irm\u00e3o e pe\u00e7amos-lhe que nos obtenha \u00abo sorriso da alma\u00bb, um sorriso transparente, que n\u00e3o engana: o sorriso da alma. Servindo-nos das suas palavras, pe\u00e7amos o que ele pr\u00f3prio costumava pedir: \u00abSenhor, aceitai-me como sou, com os meus defeitos, com as minhas faltas, mas fazei que me torne como V\u00f3s desejais\u00bb (<em><a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/john-paul-i\/pt\/audiences\/documents\/hf_jp-i_aud_13091978.html\">Audi\u00eancia Geral<\/a><\/em>, 13\/IX\/1978). Amen.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o Educris a partir do <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/it\/homilies\/2022\/documents\/20220904-omelia-beatificazione-gpi.html\" target=\"_blank\">original em italiano<\/a><\/p>\n<p>04.09.2022<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jesus vai a caminho de Jerusal\u00e9m e, como diz o Evangelho de hoje, \u00abseguiam com Ele grandes multid\u00f5es\u00bb (Lc\u00a014, 25). 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