{"id":462799899,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/327-divulgacao\/13525-iii-domingo-do-advento-e-nos-que-devemos-fazer"},"modified":"2025-11-07T16:34:24","modified_gmt":"2025-11-07T16:34:24","slug":"iii-domingo-do-advento-e-nos-que-devemos-fazer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/iii-domingo-do-advento-e-nos-que-devemos-fazer\/","title":{"rendered":"III Domingo do Advento: \u00abE n\u00f3s que devemos fazer?\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031_160503044443.jpg\" \/><\/p>\n<p><p data-adtags-visited=\"true\">Sf 3,14-18; Is 12,2-6 (Salmo); Fl 4,4-7; Lc 3,10-18<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">1. Como tivemos oportunidade de ver e de sentir, o Evangelho do Domingo II do Advento (Lucas 3,1-6) rasga este mundo ao meio de forma clara e impiedosa. Diz o narrador, com a precis\u00e3o do bisturi, que a Palavra de Deus passa ao lado dos senhores deste mundo, e cita Tib\u00e9rio C\u00e9sar, Pilatos, Herodes Antipas, Filipe, Lis\u00e2nias, An\u00e1s e Caif\u00e1s, e n\u00f3s podemos sempre atualizar esta lista, incluindo nela outros nomes e o nosso tamb\u00e9m. A\u00ed est\u00e1 o golpe a sangrar do bisturi de dois gumes que \u00e9 a Palavra de Deus (Salmo 149,6; Ju\u00edzes 3,16-22; Hebreus 4,12). Ent\u00e3o, a Palavra de Deus passa ao lado deste mundo rico e poderoso, autorreferencial, impiedoso, insens\u00edvel, indiferente e violento, e, para espanto nosso, vai cair sobre um pobre, Jo\u00e3o Batista, que n\u00e3o habita em pal\u00e1cios, mas no deserto! Com esse bisturi da Palavra, Jo\u00e3o Batista pode sempre limpar (Jo\u00e3o 15,3) o silvado que nos enche os ouvidos, lavar as gorduras que embotam o nosso humano cora\u00e7\u00e3o e desfazer, com o martelo pneum\u00e1tico, o pedregulho que petrifica o nosso quotidiano.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">2. A\u00ed est\u00e1, ent\u00e3o, no Evangelho deste Domingo III do Advento (Lucas 3,10-18), outra vez Jo\u00e3o Batista em cena, irrompendo agora com o bisturi da Palavra direto aos ouvidos dos homens deste tempo, ouvidos obstru\u00eddos por mato e por silvas, anunciando que o tempo est\u00e1 maduro para limpar a eira e recolher o trigo, que a hora \u00e9 de frutos novos!<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">3. \u00abE n\u00f3s que devemos fazer?\u00bb, perguntam as multid\u00f5es (<em>\u00f3chloi<\/em>) (Lucas 3,10), os coletores de impostos (<em>tel\u00f4nai<\/em>) (Lucas 3,12) e os soldados (<em>strateu\u00f3menoi<\/em>) (Lucas 3,14). \u00c0s multid\u00f5es indeterminadas, Jo\u00e3o Batista responde: \u00abQuem tem duas t\u00fanicas (<em>chit\u00f4nes<\/em>), reparta (<em>metad\u00f3t\u00f4<\/em>: imperativo de\u00a0<em>metad\u00edd\u00f4mi<\/em>) com quem n\u00e3o tem nenhuma, e quem tem alimentos, fa\u00e7a da mesma maneira\u00bb (Lucas 3,11). Para compreender a resposta de Jo\u00e3o Batista, conv\u00e9m saber que a\u00a0<em>t\u00fanica<\/em>\u00a0era a pe\u00e7a do vestu\u00e1rio usada diretamente em contacto com a pele; usava-se debaixo do\u00a0<em>manto<\/em>\u00a0(<em>him\u00e1tion<\/em>), e as pessoas de elevada condi\u00e7\u00e3o costumavam usar duas t\u00fanicas. Os \u00abcoletores de impostos\u00bb aparecem habitualmente nas tradu\u00e7\u00f5es como \u00abpublicanos\u00bb. Mas n\u00e3o \u00e9 o caso. Os publicanos eram os grandes funcion\u00e1rios do fisco romano; os coletores s\u00e3o pequenos agentes ao servi\u00e7o dos publicanos. \u00c9-lhes recomendado por Jo\u00e3o Batista que n\u00e3o cobrem sen\u00e3o o que est\u00e1 fixado (Lucas 3,13). Aos soldados, Jo\u00e3o Batista recomenda que n\u00e3o roubem nada a ningu\u00e9m, e que se contentem com o seu soldo (Lucas 3,14). Neste ponto do di\u00e1logo, perguntemos n\u00f3s tamb\u00e9m o que devemos fazer. E Jo\u00e3o Batista, que j\u00e1, entretanto, abriu passagem por entre o mato e as silvas que obstruem o caminho que vai dos nossos ouvidos at\u00e9 ao nosso cora\u00e7\u00e3o empedernido, responder\u00e1 mais ou menos assim: v\u00f3s n\u00e3o vos canseis de dar, de repartir, de partilhar! E n\u00e3o roubeis, n\u00e3o pratiqueis a injusti\u00e7a, n\u00e3o fa\u00e7ais viol\u00eancia! Amai! Reparemos que todos os frutos de convers\u00e3o que Jo\u00e3o Batista menciona e reclama se referem sempre ao nosso comportamento para com o pr\u00f3ximo. Fica claro que a convers\u00e3o, isto \u00e9, o nosso voltar-se para Deus, passa sempre pelos nossos gestos para com o pr\u00f3ximo, nomeadamente pela partilha para al\u00e9m do impens\u00e1vel. Se eu tenho duas t\u00fanicas, e o meu pr\u00f3ximo nenhuma, devo dar-lhe uma. Fica ent\u00e3o claro que, nesta nossa sociedade, em que poucos t\u00eam muito, muit\u00edssimo, quase tudo, e os outros nada ou quase nada, andamos a brincar com o Evangelho!<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">4. Mas este verbo \u00abrepartir\u00bb ou \u00abpartilhar\u00bb, para a nossa mentalidade comodista e ego\u00edsta, parece-nos terr\u00edvel. Sem darmos por isso, \u00e9 muitas vezes a \u00faltima palavra que queremos ouvir. Na verdade, \u00abpartilhar\u00bb desvenda-nos e despoja-nos da nossa falsa boa vontade, da nossa generosidade virtual, do nosso v\u00e3o sentimentalismo religioso, enfim, da nossa hipocrisia. Partilhar n\u00e3o \u00e9 \u00abdepositar\u00bb nos outros apenas o sup\u00e9rfluo, as sobras. Dar o que sobra n\u00e3o tem a marca de Deus, n\u00e3o \u00e9 fazer a verdadeira mem\u00f3ria de Jesus, que se entregou a si mesmo por n\u00f3s (Ef\u00e9sios 5,2), por mim (G\u00e1latas 2,20). O sup\u00e9rfluo deixa a vida intacta. O dom de si mesmo transforma a vida para sempre. Mas Jo\u00e3o Batista, verdadeiro guardi\u00e3o da fronteira entre este mundo velho que passa e o mundo novo que vem, anuncia tamb\u00e9m uma Presen\u00e7a nova, a d\u2019Aquele-Que-Vem com o Esp\u00edrito, que d\u00e1 a vida verdadeira: ei-lo que vem, o noivo, o esposo, aquele de quem eu, diz Jo\u00e3o Batista, n\u00e3o tenho o direito nem o poder de desatar a correia da sand\u00e1lia!<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">5. E que significado atribuir \u00e0 anota\u00e7\u00e3o da incompet\u00eancia (<em>ikan\u00f3s<\/em>) de Jo\u00e3o para \u00abretirar\u00bb ou descal\u00e7ar as sand\u00e1lias d\u2019Aquele-que-Vem (Lucas 3,16)? Ser\u00e1 simplesmente uma confiss\u00e3o de humildade por parte de Jo\u00e3o face a Algu\u00e9m que lhe \u00e9 incomparavelmente superior? Esta tonalidade est\u00e1 certamente presente, mas n\u00e3o esgota a met\u00e1fora das sand\u00e1lias. Trata-se, desde logo, de um dizer importante, pois encontramo-lo por cinco vezes no Novo Testamento: Mateus 3,11; Marcos 1,7; Lucas 3,16; Jo\u00e3o 1,27; Atos dos Ap\u00f3stolos 13,25. Num c\u00e9lebre artigo, intitulado \u00abAs sand\u00e1lias do Messias Noivo\u00bb, Lu\u00eds Alonso-Sch\u00f6kel levou este dizer e esta met\u00e1fora para o dom\u00ednio da esponsalidade do Messias. De acordo com o referido nos Salmos 60,10 e 108,9, \u00abp\u00f4r a sand\u00e1lia sobre\u00bb significa \u00abtomar posse\u00bb; \u00e9, portanto, linguagem jur\u00eddica de posse. No Livro do Deuteron\u00f3mio 25,5-9, o n\u00e3o-cumprimento da lei do levirato implica que seja \u00abretirada\u00bb a sand\u00e1lia ao cunhado n\u00e3o cumpridor da lei, gesto que garante a sua perda de posse no dom\u00ednio matrimonial. Aqui j\u00e1 se trata de direito matrimonial. Em Rute 4,7-10, temos um caso jur\u00eddico concreto em que o que tem o direito de resgatar o patrim\u00f3nio e de desposar Rute prescinde desse direito. Para o dizer juridicamente, em reuni\u00e3o p\u00fablica realizada \u00e0 porta da cidade (Rute 4,1), o homem em causa \u00abretira\u00bb a sand\u00e1lia e entrega-a a Booz, que fica assim com o direito de resgatar o patrim\u00f3nio e de desposar Rute. A met\u00e1fora da sand\u00e1lia em Lucas 3,16 e nos demais dizeres do Novo Testamento que anot\u00e1mos significa que \u00e9 Jesus o noivo, a quem assiste o direito de desposar Israel, e que a Jo\u00e3o n\u00e3o assiste esse direito ou compet\u00eancia. Portanto, Jo\u00e3o Batista n\u00e3o pode desatar a sand\u00e1lia daquele que tem o direito \u00e0 noiva. S\u00f3 este \u00e9 que \u00e9 o noivo, o esposo. Jo\u00e3o Batista n\u00e3o \u00e9 o noivo, mas indica-o. Ei-lo que est\u00e1 a chegar! O esposo \u00e9 Cristo. E a esposa \u00e9 do esposo. A hora \u00e9, portanto, de alegria, de amor, \u00e9 de frutos de alegria e de amor!<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">6. Portanto, grita Paulo na li\u00e7\u00e3o de hoje da Carta aos Filipenses (4,4-7), \u00abAlegrai-vos sempre no Senhor, repito: alegrai-vos!\u00bb (Filipenses 4,4). E a raz\u00e3o \u00e9 porque \u00abo Senhor est\u00e1 pr\u00f3ximo!\u00bb (Filipenses 4,5). E continua: \u00abN\u00e3o vos inquieteis com nada, mas fazei chegar a Deus os vossos pedidos com ora\u00e7\u00f5es, s\u00faplicas e a\u00e7\u00f5es de gra\u00e7as, e a paz de Deus guardar\u00e1 os vossos cora\u00e7\u00f5es e os vossos pensamentos em Cristo Jesus\u00bb (Filipenses 4,6-7). Sempre em a\u00e7\u00e3o de ora\u00e7\u00e3o. Isa\u00edas poderia resumir assim esta atitude bel\u00edssima: \u00abV\u00f3s, que sois os\u00a0<em>secret\u00e1rios<\/em>\u00a0(<em>mazkir\u00eem<\/em>) de Deus, n\u00e3o vos deis descanso, nem deis descanso a Deus\u00bb (Isa\u00edas 62,6-7).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">7. E o Profeta Sofonias (3,14-18) mant\u00e9m alta a tonalidade festiva: \u00abRejubila, filha de Si\u00e3o!,\/ Solta gritos de alegria, Israel!,\/ porque o Senhor est\u00e1 no meio de Ti!\u00bb. Tamb\u00e9m este intenso grito de alegria \u00e9 dirigido a n\u00f3s, hoje, e deve ser vivido por n\u00f3s, hoje e aqui, reunidos em assembleia lit\u00fargica festiva, que confessamos uma e outra vez: \u00abEle est\u00e1 no meio de n\u00f3s!\u00bb.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">8. Sempre em tom de festa e de alegria, o Salmo Responsorial, hoje um hino de louvor retirado de Isa\u00edas 12,3-6, deixa a nossa alma cheia de can\u00e7\u00f5es, fazendo-nos repetir (e n\u00f3s repetimos o que amamos): \u00abPovo do Senhor, exulta e canta de alegria!\u00bb, ou \u00abExultai de alegria, porque est\u00e1 no meio de v\u00f3s o Santo de Israel!\u00bb. Sim, o povo de Deus, a sua Igreja Una e Santa, vive da m\u00fasica de Deus, cantando com um dos mais belos versos da inteira Escritura: \u00abMinha for\u00e7a e meu canto\u00a0<em>Yah<\/em>!\u00bb (Sl 118,14; Is 12,2; cf. Ex 15,2).\u00a0<em>Yah<\/em>\u00a0de YHWH, como quando cantamos \u00ab<em>Hall<sup>e<\/sup>l\u00fb-yah<\/em>!\u00bb [= Louvai\u00a0<em>Yah<\/em>], louvai Deus, o nosso Deus, Aquele que est\u00e1 no meio de n\u00f3s, hoje e sempre, operando maravilhas.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">9. Por tudo isto, e n\u00e3o \u00e9 pouco, este Domingo III do Advento \u00e9 chamado \u00abDomingo\u00a0<em>gaudete<\/em>\u00bb, \u00abDomingo da alegria\u00bb. Que o seja de verdade nos nossos cora\u00e7\u00f5es. Deixemo-nos, ent\u00e3o, atravessar pela Alegria que vem de Deus, e sintamos bem fundo, para al\u00e9m da capa do nosso sentimentalismo religioso, o bisturi da Palavra de Deus e o martelo pneum\u00e1tico do Esp\u00edrito. Sim, neste belo Domingo\u00a0<em>gaudete<\/em>, em que nos invade este imenso convite \u00e0 alegria, compreendamos bem que a verdadeira alegria vem de Deus, e deixemos ressoar em n\u00f3s as belas palavras de Neemias, de Esdras e dos Levitas: \u00abN\u00e3o vos aflijais: a alegria do Senhor \u00e9 a vossa fortaleza!\u00bb (Neemias 8,10). Neste Domingo da Alegria, fiquemos ent\u00e3o com este punhado de imperativos: alegrai-vos! Partilhai! Rezai!<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sf 3,14-18; Is 12,2-6 (Salmo); Fl 4,4-7; Lc 3,10-18 1. 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