{"id":479137375,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/13392-domingo-xxxi-do-tempo-comum-um-amor-entrelacado"},"modified":"2025-11-07T16:34:03","modified_gmt":"2025-11-07T16:34:03","slug":"domingo-xxxi-do-tempo-comum-um-amor-entrelacado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-xxxi-do-tempo-comum-um-amor-entrelacado\/","title":{"rendered":"Domingo XXXI do Tempo Comum: \u00abUm Amor entrela\u00e7ado\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031_160503044443.jpg\" \/><\/p>\n<p><p data-adtags-visited=\"true\">Dt 6,2-6; Sl 18; Hb 7,23-28; Mc 12,28b-34<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">1. O que se passa no \u00e1trio do Templo tem car\u00e1cter p\u00fablico. V\u00ea-se que a discuss\u00e3o antes havida entre Jesus e os saduceus (Marcos 12,18-27) teve mais audi\u00eancia al\u00e9m dos diretamente envolvidos. A prova \u00e9 que o escriba que Marcos p\u00f5e agora em cena em 12,28-34, que constitui o Evangelho proclamado neste XXXI Domingo do Tempo Comum, tinha presenciado essa discuss\u00e3o e tinha ficado satisfeito com a resposta dada por Jesus. Nem sempre os escribas andam carregados de mal\u00edcia. O escriba de hoje \u00e9 um homem atento, aberto, bem-intencionado e bem-disposto. A pergunta que faz a Jesus n\u00e3o \u00e9 uma pergunta armadilhada, como sucede nos paralelos de Mateus 22,35-36 e de Lucas 12,25. A pergunta do escriba de hoje baseia-se precisamente no facto de ele considerar boa a resposta de Jesus aos saduceus. A pergunta que o escriba faz: \u00abQual \u00e9 o primeiro de todos os mandamentos?\u00bb (Marcos 12,28) \u00e9, portanto, bem-intencionada, n\u00e3o se destina a p\u00f4r Jesus \u00e0 prova, nem a arrast\u00e1-lo para o plano inclinado da intermin\u00e1vel discuss\u00e3o acad\u00e9mica. De facto, os mestres judeus, lendo minuciosamente a Lei, ou seja, os cinco primeiros Livros da B\u00edblia [= G\u00e9nesis, \u00caxodo, Lev\u00edtico, N\u00fameros e Deuteron\u00f3mio], e reduzindo-a a preceitos, tinham contado l\u00e1 613 preceitos, sendo 365 [tantos quantos os dias do ano] negativos e 248 [tantos quantos, assim se pensava ent\u00e3o, os membros do corpo] positivos.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">2. A quest\u00e3o que entretinha os mestres e as suas escolas era a de estabelecer uma ordem nesses 613 preceitos ou mandamentos, dizendo qual consideravam ser o primeiro ou o mais importante ou o maior, e assim por diante. Discuss\u00e3o pedante, intermin\u00e1vel e natural fonte de conflitos, pois, como s\u00f3i dizer-se, cada cabe\u00e7a sua senten\u00e7a, cada mestre sua senten\u00e7a. Pelo menos. Pois \u00e9 conhecido o velho dito acerca dos hebreus, que reza assim: \u00abOnde est\u00e1 um hebreu, h\u00e1 duas opini\u00f5es\u00bb. Qual seria ent\u00e3o a posi\u00e7\u00e3o de Jesus nesta mat\u00e9ria, e como a defenderia?<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">3. Porque Jesus percebeu a boa inten\u00e7\u00e3o daquele escriba, assim tamb\u00e9m lhe responde, de forma direta e amig\u00e1vel, com apre\u00e7o, come\u00e7ando por citar ou rezar o\u00a0<em>Sh<sup>e<\/sup>ma? Yisra?el<\/em>\u00a0[= \u00abEscuta Israel\u00bb], a mais importante afirma\u00e7\u00e3o de f\u00e9 do povo hebreu: \u00abO primeiro \u00e9 este: \u201cEscuta, Israel: o Senhor, nosso Deus, \u00e9 o \u00fanico Senhor. Amar\u00e1s o Senhor, teu Deus, com\u00a0<em>todo<\/em>\u00a0o teu cora\u00e7\u00e3o, com\u00a0<em>toda<\/em>\u00a0a tua alma, com\u00a0<em>toda<\/em>\u00a0a tua intelig\u00eancia e com\u00a0<em>todas<\/em>\u00a0as tuas for\u00e7as\u201d\u00bb (Marcos 12,29-30), ora\u00e7\u00e3o que todo o hebreu piedoso recitava todos os dias, de manh\u00e3 e \u00e0 tardinha, e que \u00e9 formada pelo texto do Deuteron\u00f3mio 6,4-5. Mas Jesus n\u00e3o d\u00e1 por terminada a sua resposta, pois continua assim: \u00abO segundo \u00e9 este: \u201cAmar\u00e1s o teu pr\u00f3ximo como a ti mesmo\u201d\u00bb (Marcos 12,31a), citando o Livro do Lev\u00edtico 19,18. E agora sim, Jesus fecha a sua resposta, dizendo: \u00abN\u00e3o h\u00e1 outro mandamento maior do que este\u00bb (Marcos 12,31b). O escriba perguntou a Jesus pelo primeiro. Na sua resposta, Jesus exp\u00f5e o primeiro, mas acosta-lhe o segundo, concluindo que os dois s\u00e3o um \u00fanico mandamento: \u00abN\u00e3o h\u00e1 outro mandamento maior do que este\u00bb (Marcos 12,31b).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">4. Para Jesus, o primeiro mandamento s\u00e3o dois amores entrela\u00e7ados: amar a Deus e amar o pr\u00f3ximo. O g\u00e9nio b\u00edblico e crist\u00e3o consiste na capacidade de manter unidos e bem articulados e equilibrados estes dois amores, pois h\u00e1 quem, para amar a Deus se afaste dos homens, e quem, para lutar ao lado dos homens, se esque\u00e7a de Deus. Ora bem, o realismo b\u00edblico ensina-nos que onde e quando estes dois amores se separam, ficamos no terreno movedi\u00e7o da mentira, da falsidade e da idolatria. Na verdade, quando tu dizes que amas a Deus, mas n\u00e3o te importas do pr\u00f3ximo, n\u00e3o reages perante as injusti\u00e7as e n\u00e3o lutas contra a opress\u00e3o, a que Deus te referes? N\u00e3o seguramente ao Deus de Jesus Cristo, mas a um deus, com letra pequena, por ti pr\u00f3prio constru\u00eddo. Do mesmo modo, quando dizes que amas o pr\u00f3ximo e o serves, mas recusas entregar-te totalmente a Deus, cair\u00e1s facilmente nas m\u00e3os dos \u00eddolos (a tua ideologia, o teu modelo de liberta\u00e7\u00e3o, a tua pol\u00edtica, o teu sucesso), e pensando que amas o pr\u00f3ximo, nem te apercebes que o est\u00e1s a instrumentalizar: queres libert\u00e1-lo, impondo-lhe as tuas ideias, a tua vis\u00e3o do mundo, a tua justi\u00e7a. J\u00e1 para n\u00e3o dizer, e isto \u00e9 at\u00e9 o mais grave, que enquanto queres ajudar o homem a ser mais homem, o est\u00e1s a afastar da sua necessidade mais profunda, da sua busca essencial, que \u00e9 o pr\u00f3prio Deus.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">5. Dois amores entrela\u00e7ados e insepar\u00e1veis. Cada um leva \u00e0 verifica\u00e7\u00e3o do outro. Insepar\u00e1veis, mas n\u00e3o iguais. Amar a Deus, \u00fanico Senhor da nossa vida, requer a\u00a0<em>totalidade<\/em>\u00a0de n\u00f3s: \u00abcom\u00a0<em>todo<\/em>\u00a0o teu cora\u00e7\u00e3o, com\u00a0<em>toda<\/em>\u00a0a tua alma, com\u00a0<em>toda<\/em>\u00a0a tua intelig\u00eancia e com\u00a0<em>todas<\/em>\u00a0as tuas for\u00e7as\u00bb. Este amor n\u00e3o \u00e9 divis\u00edvel com nenhum outro. N\u00e3o se chega a Deus com alguma coisa de n\u00f3s. S\u00f3 chegamos a Deus se formos inteiros, com\u00a0<em>todas<\/em>\u00a0as nossas ra\u00edzes, caule, folhas, flores e frutos. A medida do nosso amor a Deus \u00e9 a\u00a0<em>inteireza<\/em>\u00a0e a\u00a0<em>totalidade<\/em>. Chegados a este ponto, imp\u00f5e-se que nos interroguemos acerca do nosso real comportamento para com Deus: n\u00e3o suceder\u00e1 que, atolados nos afazeres e preocupa\u00e7\u00f5es do dia-a-dia, n\u00e3o cheguemos sequer a pensar n\u2019Ele, n\u00e3o tenhamos tempo para Ele, que muitas vezes nos sintamos inseguros e cheios de d\u00favidas, que n\u00e3o saibamos sequer o que fazer com Ele? Pode o amor ser objeto de um mandamento? Com um tal amor a Deus, que envolva toda a nossa vida, Jesus est\u00e1 a indicar o dom da pessoa de cada um de n\u00f3s, e n\u00e3o a simples oferta de sacrif\u00edcios, a recita\u00e7\u00e3o de ora\u00e7\u00f5es, coisas exteriores a n\u00f3s, que n\u00e3o empenham a nossa vida toda. A medida do amor ao pr\u00f3ximo tem um tempero diferente: somos n\u00f3s [\u00abcomo a ti mesmo\u00bb]. Amar o nosso pr\u00f3ximo como a n\u00f3s mesmos significa aceitar o outro na sua singularidade, e reconhecer que tamb\u00e9m ele \u00e9 querido e criado por Deus como n\u00f3s. Amar o nosso pr\u00f3ximo significa reconhecer tamb\u00e9m, em rela\u00e7\u00e3o a ele, a vontade criadora e providente de Deus. O mandamento de amar o pr\u00f3ximo tem como fundamento e express\u00e3o que n\u00f3s, eu e o meu pr\u00f3ximo, temos o mesmo valor, a mesma import\u00e2ncia e a mesma dignidade, al\u00e9m de termos a mesma origem e o mesmo fim em Deus. Da\u00ed o imenso respeito, dedica\u00e7\u00e3o e aux\u00edlio que devemos prestar uns aos outros, de modo a vivermos com dignidade e amor a nossa miss\u00e3o comum.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">6. O escriba aprova o dizer de Jesus: \u00abMuito bem, Mestre, tens raz\u00e3o\u2026\u00bb (Marcos 12,32-33). E Jesus aprova o dizer do escriba: \u00abN\u00e3o est\u00e1s longe do Reino de Deus\u00bb (Marcos 12,34). Entre Jesus e o escriba existe uma rec\u00edproca admira\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m esta nota \u00e9 importante, dado que habitualmente o Evangelho trata os escribas com duras cr\u00edticas. O texto de hoje diz-nos que, tamb\u00e9m entre os escribas, h\u00e1 pessoas \u00abn\u00e3o longe\u00bb de Deus e dos irm\u00e3os. Portanto, para o Evangelho, n\u00e3o h\u00e1 categorias ou classes de pessoas exclu\u00eddas \u00e0 partida. E \u00e9 o amor a Deus e ao pr\u00f3ximo a chave que abre a porta do Reino de Deus.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">7. O texto de Deuteron\u00f3mio 6,2-6 \u00e9 hoje o ch\u00e3o lavrado do belo Evangelho tamb\u00e9m hoje proclamado. A\u00ed ouvimos a fort\u00edssima exorta\u00e7\u00e3o de Mois\u00e9s, no \u00faltimo dia da sua vida: escutar a Palavra, amar a Deus, p\u00f4r em pr\u00e1tica os mandamentos, \u00e9 o caminho para uma vida longa na Terra Prometida e para a Felicidade. E a grande homilia que \u00e9 a Carta aos Hebreus (hoje 7,23-28) diz-nos que Jesus, o Filho, \u00e9 o nosso verdadeiro Sumo-Sacerdote, que preside, hoje tamb\u00e9m, ao culto dos nossos l\u00e1bios, das nossas m\u00e3os e do nosso cora\u00e7\u00e3o. Deus sempre primeiro.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">8. Um Deus fiel, seguro, firme como \u00abrocha\u00bb, que n\u00e3o oscila nem engana, atento e pr\u00f3ximo do homem, sobretudo dos mais fragilizados e em dificuldade, eis o fluxo po\u00e9tico que nos oferece o grande\u00a0<em>Te Deum<\/em>\u00a0que \u00e9 o Salmo 18, que tem muitas afinidades com o \u00abC\u00e2ntico de David\u00bb, registado em 2 Samuel 22. A palavra-chave deste imenso hino \u00e9 a raiz \u00absalvar\u00bb (vv. 3.4.28.36.42.47.51). Deixemo-lo tomar conta de n\u00f3s. Este Deus e este fluxo po\u00e9tico. E cantemos com o orante e como ele, com todo o cora\u00e7\u00e3o, alma, mente, energia, arte: \u00abEu te amo, Senhor, minha for\u00e7a!\u00bb (Salmo 18,2).\u00a0<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto<\/p>\n<p>2.11.2024<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dt 6,2-6; Sl 18; Hb 7,23-28; Mc 12,28b-34 1. O que se passa no \u00e1trio do Templo tem car\u00e1cter p\u00fablico. 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