{"id":487669901,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/326-vaticano\/8607-homilia-do-papa-francisco-na-missa-crismal"},"modified":"2025-11-07T16:34:34","modified_gmt":"2025-11-07T16:34:34","slug":"homilia-do-papa-francisco-na-missa-crismal-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/homilia-do-papa-francisco-na-missa-crismal-2\/","title":{"rendered":"Homilia do Papa Francisco na Missa Crismal"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/papa_quinta_branco_190419090528.jpg\" \/><\/p>\n<p><p>Na eucaristia a que presidiu nesta manh\u00e3 de quinta-feira santa na Bas\u00edlica de S\u00e3o Pedro, no Vaticano, o Papa lembrou ao sacerdotes tr\u00eas gra\u00e7as !do relacionamento de Jesus com as multid\u00f5es&#8221; e lembrou-lhes que &#8220;a<span>quele que aprende a ungir e a aben\u00e7oar fica curado da mesquinhez, do abuso e da crueldade&#8221;.<\/span><\/p>\n<p><span>Leia, na \u00edntegra, a homilia do Papa Francisco<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O Evangelho de Lucas, que acabamos de ouvir, faz-nos reviver a emo\u00e7\u00e3o do momento em que o Senhor Se assume a profecia de Isa\u00edas, lendo-a solenemente no meio do seu povo. A sinagoga de Nazar\u00e9 estava cheia de parentes, vizinhos, conhecidos, amigos&#8230; e outros n\u00e3o muito amigos. E todos tinham os olhos fixos n\u2019Ele. A Igreja tem sempre os olhos fixos em Jesus, o Ungido que o Esp\u00edrito envia para ungir o povo de Deus.<\/p>\n<p>Com frequ\u00eancia, os Evangelhos apresentam-nos esta imagem do Senhor no meio das multid\u00f5es, cercado e comprimido pelas pessoas que Lhe trazem os doentes, pedem-Lhe que expulse os esp\u00edritos malignos, escutam os seus ensinamentos e caminham com Ele. \u00abAs minhas ovelhas escutam a minha voz: Eu conhe\u00e7o-as e elas seguem-Me\u00bb (<em>Jo<\/em> 10, 27).<\/p>\n<p>O Senhor nunca perdeu este contacto direto com o povo, sempre manteve a gra\u00e7a da proximidade, com o povo no seu conjunto e com cada pessoa no meio daquelas multid\u00f5es. Vemo-lo na sua vida p\u00fablica, mas o mesmo aconteceu desde o princ\u00edpio: o esplendor do Menino atraiu docilmente pastores, reis e idosos sonhadores como Sime\u00e3o e Ana. E foi assim tamb\u00e9m na Cruz: o seu Cora\u00e7\u00e3o atrai todos a si (cf. <em> Jo<\/em> 12, 32): ver\u00f3nicas, cireneus, ladr\u00f5es, centuri\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>Aqui, o termo \u00abmultid\u00f5es\u00bb n\u00e3o \u00e9 depreciativo. Aos ouvidos de algu\u00e9m, poderia talvez soar como uma massa an\u00f3nima, indiferenciada; mas no Evangelho, quando as multid\u00f5es interagem com o Senhor, que Se coloca no meio delas como um pastor no rebanho, vemos que aquelas se transformam: no esp\u00edrito do povo, desperta o desejo de <em>seguir<\/em> Jesus, brota a <em>admira\u00e7\u00e3o<\/em>, toma forma o <em> discernimento<\/em>.<\/p>\n<p>Gostaria de refletir convosco sobre estas tr\u00eas gra\u00e7as que caraterizam o relacionamento entre Jesus e as multid\u00f5es.<\/p>\n<p><em>A gra\u00e7a do seguimento<\/em><\/p>\n<p>Lucas diz que as multid\u00f5es \u00abprocuravam-No\u00bb (<em>Lc<\/em> 4, 42) e \u00abseguiam com Ele\u00bb (<em>Lc<\/em> 14, 25), \u00abapertavam-No\u00bb e \u00abempurravam-No\u00bb (cf. <em>Lc<\/em> 8, 42-45) \u00abjuntando-se grandes multid\u00f5es para O ouvirem\u00bb (<em>Lc<\/em> 5, 15). Este seguimento do povo n\u00e3o \u00e9 calculista, \u00e9 um seguimento sem condi\u00e7\u00f5es, cheio de carinho. Contrasta com a mesquinhez dos disc\u00edpulos, cujo comportamento face ao povo se revela quase cruel quando sugerem ao Senhor que o mande embora para irem procurar algo de comer. Creio que o clericalismo come\u00e7ou aqui: nesta atitude de querer assegurar-se o pr\u00f3prio alimento e comodidade, desinteressando-se das pessoas. O Senhor cortou pela raiz esta tenta\u00e7\u00e3o. \u00abDai-lhes v\u00f3s mesmos de comer\u00bb (<em>Mc<\/em> 6,37), foi a resposta de Jesus: \u00abOcupai-vos do povo!\u00bb.<\/p>\n<p><em>A gra\u00e7a da admira\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>A segunda gra\u00e7a, que a multid\u00e3o recebe ao seguir Jesus, \u00e9 a duma admira\u00e7\u00e3o cheia de alegria. O povo fica admirado com Jesus (cf. <em>Lc<\/em> 11, 14), com os seus milagres, mas sobretudo com a sua pr\u00f3pria Pessoa. O povo gostava muito de saud\u00e1-Lo ao longo da estrada, ser aben\u00e7oado por Ele e bendiz\u00ea-Lo, como aquela mulher que do meio da multid\u00e3o bendisse a sua M\u00e3e. E o Senhor, por sua vez, ficava admirado com a f\u00e9 do povo, regozijava-Se e n\u00e3o perdia ocasi\u00e3o de o fazer notar.<\/p>\n<p><em>A gra\u00e7a do discernimento<\/em><\/p>\n<p>A terceira gra\u00e7a, que recebe o povo, \u00e9 a do discernimento. \u00abAs multid\u00f5es, que souberam [para onde fora Jesus], seguiram-No\u00bb (<em>Lc<\/em> 9, 11). \u00abA multid\u00e3o ficou vivamente impressionada com os seus ensinamentos, porque Ele ensinava-os como quem possui autoridade\u00bb (<em>Mt<\/em> 7, 28-29; cf. <em>Lc<\/em> 5, 26). Cristo, a Palavra de Deus feita carne, suscita nas pessoas este carisma do discernimento; certamente, n\u00e3o um discernimento de especialistas em assuntos controversos. Quando os fariseus e os doutores da lei discutiam com Ele, aquilo que o povo reconhecia era a Autoridade de Jesus: a for\u00e7a da sua doutrina, capaz de penetrar nos cora\u00e7\u00f5es, e o facto de os esp\u00edritos malignos Lhe obedecerem; e ainda deixar sem palavra aqueles que urdiam di\u00e1logos insidiosos. O povo alegrava-se com isso. Sabia distinguir e regozijava-se.<\/p>\n<p>Aprofundemos um pouco esta vis\u00e3o evang\u00e9lica da multid\u00e3o. Lucas indica quatro grandes grupos que s\u00e3o destinat\u00e1rios preferenciais da un\u00e7\u00e3o do Senhor: os pobres, os prisioneiros de guerra, os cegos, os oprimidos. Nomeia-os em geral, mas depois, no decorrer da vida do Senhor, vemos com alegria que estes ungidos adquirem rosto e nome pr\u00f3prios. Assim como a un\u00e7\u00e3o com o azeite se aplica num ponto e a sua a\u00e7\u00e3o ben\u00e9fica se expande por todo o corpo, tamb\u00e9m o Senhor, assumindo a profecia de Isa\u00edas, nomeia v\u00e1rias \u00abmultid\u00f5es\u00bb \u00e0s quais O envia o Esp\u00edrito, obedecendo a uma din\u00e2mica que poder\u00edamos chamar de \u00abprefer\u00eancia inclusiva\u00bb: a gra\u00e7a e o carisma que se d\u00e1 a uma pessoa ou a um grupo em particular redunda, como toda a a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito, em benef\u00edcio de todos.<\/p>\n<p>Os <em>pobres<\/em> (<em>ptochoi<\/em>) s\u00e3o aqueles que est\u00e3o curvados, como os mendigos que se inclinam para pedir. Mas \u00e9 pobre (<em>ptoch\u00e8<\/em>) tamb\u00e9m a vi\u00fava, que unge com os seus dedos as duas moedinhas que constitu\u00edam tudo o que tinha naquele dia para viver. <em>A un\u00e7\u00e3o daquela vi\u00fava para dar a esmola<\/em> passa despercebida aos olhos de todos, exceto aos de Jesus, que v\u00ea com bondade a sua pequenez. Com ela, o Senhor pode cumprir plenamente a sua miss\u00e3o de anunciar o Evangelho aos pobres. Paradoxalmente, s\u00e3o os disc\u00edpulos que ouvem a boa nova de que existem tais pessoas. Ela, a mulher generosa, nem se deu conta de \u00abter aparecido no Evangelho\u00bb (ou seja, que o seu gesto haveria de ser mencionado no Evangelho): o feliz an\u00fancio de que as suas a\u00e7\u00f5es \u00abt\u00eam peso\u00bb no Reino e contam mais do que todas as riquezas do mundo, ela vive-o dentro de si, como tantos santos e santas de \u00abao p\u00e9 da porta\u00bb.<\/p>\n<p><em>Os cegos<\/em>\u00a0s\u00e3o representados por um dos rostos mais simp\u00e1ticos do Evangelho: Bartimeu (cf. <em>Mc<\/em> 10, 46-52), o mendigo cego que recuperou a vista e, a partir daquele momento, s\u00f3 teve olhos para seguir Jesus pela estrada. <em>A un\u00e7\u00e3o do olhar<\/em>! O nosso olhar, ao qual os olhos de Jesus podem devolver aquele brilho que s\u00f3 o amor gratuito pode dar, aquele brilho que nos \u00e9 roubado diariamente pelas imagens interessadas ou banais com que nos submerge o mundo.<\/p>\n<p>Para designar <em>os oprimidos<\/em> (<em>tethrausmenous<\/em>), Lucas usa um termo que cont\u00e9m a palavra \u00abtrauma\u00bb. Isto \u00e9 suficiente para evocar a par\u00e1bola (talvez a preferida de Lucas) do Bom Samaritano, que unge com azeite e enfaixa as feridas (<em>traumata<\/em>: <em>Lc<\/em> 10, 34) do homem que fora espancado deixando-o meio morto na beira da estrada. <em>A un\u00e7\u00e3o da carne ferida de Cristo<\/em>! Naquela un\u00e7\u00e3o, est\u00e1 o rem\u00e9dio para todos os traumas que deixam pessoas, fam\u00edlias e popula\u00e7\u00f5es inteiras fora de jogo, como exclu\u00eddas e sup\u00e9rfluas, \u00e0 margem da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Os <em>prisioneiros<\/em> s\u00e3o os cativos de guerra (<em>aichmalotos<\/em>), aqueles que eram conduzidos a ponta de lan\u00e7a (<em>aichm\u00e9<\/em>). Jesus usar\u00e1 o termo para Se referir \u00e0 pris\u00e3o e deporta\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m, sua amada cidade (<em>Lc<\/em> 21, 24). Hoje as cidades s\u00e3o feitas prisioneiras n\u00e3o tanto a ponta de lan\u00e7a, como sobretudo com os meios mais subtis de coloniza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. S\u00f3 <em>a un\u00e7\u00e3o da nossa cultura pr\u00f3pria<\/em>, forjada pelo trabalho e a arte dos nossos antepassados, \u00e9 que pode libertar as nossas cidades destas novas escravid\u00f5es.<\/p>\n<p>Concretizando para n\u00f3s, queridos irm\u00e3os sacerdotes, n\u00e3o devemos esquecer que os nossos modelos evang\u00e9licos s\u00e3o este \u00abpovo\u00bb, esta multid\u00e3o com estes rostos concretos, que a un\u00e7\u00e3o do Senhor levanta e vivifica. S\u00e3o aqueles que completam e tornam real a un\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito em n\u00f3s, que fomos ungidos para ungir. Fomos tomados dentre eles e podemos, sem medo, identificar-nos com esta gente simples. Cada um de n\u00f3s tem a sua hist\u00f3ria. Um pouco de mem\u00f3ria far-nos-\u00e1 muito bem. Eles s\u00e3o imagem da nossa alma e imagem da Igreja. Cada um encarna o cora\u00e7\u00e3o \u00fanico do nosso povo.<\/p>\n<p>N\u00f3s, sacerdotes, somos o pobre e queremos ter o cora\u00e7\u00e3o da vi\u00fava pobre quando damos esmola e tocamos a m\u00e3o do mendigo fixando-o nos olhos. N\u00f3s, sacerdotes, somos Bartimeu, e levantamo-nos cada manh\u00e3 para rezar: \u00abSenhor, que eu veja!\u00bb (cf. <em>Mc<\/em> 10, 51). N\u00f3s, sacerdotes, somos, nos v\u00e1rios momentos do nosso pecado, o ferido espancado deixado meio morto pelos ladr\u00f5es. E queremos ser os primeiros a estar entre as m\u00e3os compassivas do Bom Samaritano, para depois podermos com as m\u00e3os ter compaix\u00e3o dos outros.<\/p>\n<p>Confesso-vos que, quando crismo e ordeno, gosto de espalhar bem o Crisma na testa e nas m\u00e3os de quantos s\u00e3o ungidos. Ungindo bem, experimenta-se que ali se renova a nossa pr\u00f3pria un\u00e7\u00e3o. Uma coisa quero dizer: N\u00e3o somos distribuidores de azeite em garrafa. Somos ungidos, para ungir. Ungimos, distribuindo-nos a n\u00f3s mesmos, distribuindo a nossa voca\u00e7\u00e3o e o nosso cora\u00e7\u00e3o. Enquanto ungimos, somos de novo ungidos pela f\u00e9 e pela afei\u00e7\u00e3o do nosso povo. Ungimos, sujando as nossas m\u00e3os ao tocar as feridas, os pecados, as amarguras do povo; ungimos perfumando as nossas m\u00e3os ao tocar a sua f\u00e9, as suas esperan\u00e7as, a sua fidelidade e a generosidade sem reservas da sua doa\u00e7\u00e3o, que muitas pessoas eruditas designam como supersti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Aquele que aprende a ungir e a aben\u00e7oar fica curado da mesquinhez, do abuso e da crueldade.<\/p>\n<p>Rezemos, irm\u00e3os car\u00edssimos, colocando-nos com Jesus no meio do nosso povo, \u00e9 o lugar melhor. O Pai <em>renove em n\u00f3s a efus\u00e3o do seu Esp\u00edrito de santidade<\/em> e fa\u00e7a com que <em>nos unamos para implorar a sua miseric\u00f3rdia para o povo que nos est\u00e1 confiado e pelo mundo inteiro<\/em>. Assim, as multid\u00f5es dos povos, reunidos em Cristo, podem tornar-se o \u00fanico Povo fiel de Deus, que ter\u00e1 a sua plenitude no Reino (cf. <em>Ora\u00e7\u00e3o Consecrat\u00f3ria dos Presb\u00edteros<\/em>).<\/p>\n<p>Educris a partir do <a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/it\/homilies\/2019\/documents\/papa-francesco_20190418_omelia-crisma.html\">original em italiano<\/a><\/p>\n<p><span><br \/><\/span><\/p>\n<p><span><br \/><\/span><\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na eucaristia a que presidiu nesta manh\u00e3 de quinta-feira santa na Bas\u00edlica de S\u00e3o Pedro, no Vaticano, o Papa lembrou 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