{"id":50472260,"date":"2022-02-17T00:00:00","date_gmt":"2022-02-17T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/326-vaticano\/11201-francisco-apresenta-quatro-proximidades-para-a-vida-sacerdotal"},"modified":"2022-02-17T00:00:00","modified_gmt":"2022-02-17T00:00:00","slug":"francisco-apresenta-quatro-proximidades-para-a-vida-sacerdotal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/francisco-apresenta-quatro-proximidades-para-a-vida-sacerdotal\/","title":{"rendered":"Francisco apresenta \u00abquatro proximidades\u00bb para a vida sacerdotal"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/papa_padres_220220100538.jpeg\"\/><\/p>\n<p><p><em><span>\u00abProximidade a Deus, ao bispo, entre os presb\u00edteros e ao povo\u00bb, foram as quatro &#8220;proximidades&#8221; que o Papa Francisco pediu, hoje, aos sacerdotes no simp\u00f3sio \u00ab<\/span><\/em><em>Por uma teologia fundamental do sacerd\u00f3cio\u00bb, promovido pela Congrega\u00e7\u00e3o para os Bispos, e que decorre no Vaticano<\/em><\/p>\n<p>Leia, na \u00edntegra, o discurso do Santo Padre<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o-vos a oportunidade de partilhar convosco esta reflex\u00e3o, nascida daquilo que o Senhor, pouco a pouco, me deu a conhecer durante os meus 52 anos de sacerd\u00f3cio. Nesta grata recorda\u00e7\u00e3o, n\u00e3o quero deixar de fora os sacerdotes que desde a minha inf\u00e2ncia me mostraram, com a sua vida e o seu testemunho, os tra\u00e7os do rosto do Bom Pastor. Meditando sobre o que poderia partilhar convosco da vida atual do sacerdote, cheguei \u00e0 conclus\u00e3o de que a melhor palavra deriva do testemunho que recebi de tantos padres ao longo dos anos. O que vos proponho resulta dum exerc\u00edcio de refletir sobre eles, individuando e contemplando as carater\u00edsticas distintivas que lhes davam for\u00e7a, alegria e esperan\u00e7a singulares na sua miss\u00e3o pastoral.<\/p>\n<p>Simultaneamente devo dizer o mesmo daqueles irm\u00e3os sacerdotes que tive de acompanhar porque perderam o fogo do primeiro amor, tornando-se est\u00e9ril, repetitivo e quase sem sentido o seu minist\u00e9rio. Na sua vida, o sacerdote atravessa condi\u00e7\u00f5es e momentos diferenciados; pessoalmente, passei por variadas condi\u00e7\u00f5es e momentos e, ao \u00abruminar\u00bb as mo\u00e7\u00f5es do Esp\u00edrito, constatei que nalgumas situa\u00e7\u00f5es, incluindo os momentos de prova\u00e7\u00e3o, dificuldade e desola\u00e7\u00e3o, quando vivia e partilhava duma determinada forma a vida, a paz permanecia. Estou ciente de que muito se poderia dizer e teorizar sobre o sacerd\u00f3cio; mas hoje desejo circunscrever esta minha partilha convosco a esta \u00abpequena colheita\u00bb, para que o sacerdote atual possa, independentemente do momento que esteja a viver, experimentar a paz e a fecundidade que o Esp\u00edrito quer dar. N\u00e3o sei se estas reflex\u00f5es s\u00e3o o \u00abcanto do cisne\u00bb da minha vida sacerdotal, mas posso certamente assegurar que prov\u00eam da minha experi\u00eancia. N\u00e3o dou teorias; falo daquilo que vivi.<\/p>\n<p>O tempo que estamos a viver requer, de n\u00f3s, que n\u00e3o ignoremos a mudan\u00e7a, mas, ao contr\u00e1rio, nos abramos a ela com a consci\u00eancia de estarmos perante uma mudan\u00e7a epocal (j\u00e1 o disse noutras ocasi\u00f5es). E, se ainda t\u00ednhamos d\u00favidas, a covid tornou isto mais do que evidente: de facto, a sua irrup\u00e7\u00e3o \u00e9 muito mais que uma quest\u00e3o de sa\u00fade, muito mais do que uma constipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a apresenta-nos sempre diferentes modos de a enfrentar. O problema \u00e9 que, se muitas a\u00e7\u00f5es e atitudes podem ser \u00fateis e boas, nem todas elas t\u00eam sabor de Evangelho. Aqui est\u00e1 o n\u00f3 que devemos discernir: a mudan\u00e7a e a a\u00e7\u00e3o t\u00eam sabor de Evangelho ou n\u00e3o? \u00c9 o caso, por exemplo, de procurar formas codificadas, frequentemente ancoradas no passado, que nos \u00abgarantem\u00bb uma esp\u00e9cie de prote\u00e7\u00e3o contra os riscos, refugiando-nos num mundo ou numa sociedade que j\u00e1 n\u00e3o existe (se \u00e9 que alguma vez existiu!), como se uma tal ordem fosse capaz de p\u00f4r fim aos conflitos que a hist\u00f3ria nos apresenta. \u00c9 a crise de recuar \u00e0 procura de ref\u00fagio.<\/p>\n<p>Outra atitude pode ser um otimismo exagerado: \u00abvai correr tudo bem\u00bb! Seguir em frente sem discernimento e sem as decis\u00f5es necess\u00e1rias. Este otimismo acaba por ignorar os feridos desta transforma\u00e7\u00e3o, n\u00e3o consegue aceitar as tens\u00f5es, complexidades e ambiguidades pr\u00f3prias do tempo presente e \u00abconsagra\u00bb a \u00faltima novidade como aquilo que \u00e9 verdadeiramente real, desprezando assim a sabedoria dos anos. S\u00e3o dois tipos de fuga, que fazem lembrar as atitudes do mercen\u00e1rio que v\u00ea vir o lobo e foge: foge para o passado ou foge para o futuro. Mas nenhuma destas atitudes leva a solu\u00e7\u00f5es amadurecidas. O hoje concreto: \u00e9 aqui que nos devemos deter.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, gosto da atitude que nasce da decis\u00e3o de ocupar-se confiadamente da realidade, ancorando-se na s\u00e1bia Tradi\u00e7\u00e3o viva e vivente da Igreja, que permite fazer-se ao largo\u00a0<em>sem medo<\/em>. Neste momento hist\u00f3rico, sinto que Jesus nos convida mais uma vez a \u00abfazer-se ao largo\u00bb (cf.\u00a0<em>Lc<\/em>\u00a05, 4) com a confian\u00e7a de que Ele \u00e9 o Senhor da hist\u00f3ria e, guiados por Ele, poderemos discernir o horizonte para onde tender. A nossa salva\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 ass\u00e9tica, a partir de laborat\u00f3rio ou de espiritualismos desencarnados (estamos sempre perante a tenta\u00e7\u00e3o do gnosticismo, que \u00e9 moderna, \u00e9 atual);\u00a0<em>discernir a vontade de Deus<\/em>\u00a0significa aprender a interpretar a realidade com os olhos do Senhor, sem necessidade de fugir daquilo que acontece ao nosso povo na situa\u00e7\u00e3o real onde vive e sem aquela ansiedade que induz a procurar uma sa\u00edda r\u00e1pida e tranquilizante guiada pela ideologia do momento ou por uma resposta pr\u00e9-fabricada, ambas incapazes de se ocuparem dos momentos mais dif\u00edceis e at\u00e9 obscuros da nossa hist\u00f3ria. Estas duas vias levar-nos-iam a negar \u00aba nossa hist\u00f3ria de Igreja, que \u00e9 gloriosa por ser hist\u00f3ria de sacrif\u00edcios, de esperan\u00e7a, de luta di\u00e1ria, de vida gasta no servi\u00e7o, de const\u00e2ncia no trabalho fadigoso\u00bb (Exort. ap.\u00a0<em><a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html#N%C3%A3o_ao_mundanismo_espiritual\">Evangelii gaudium<\/a><\/em>, 96 ).<\/p>\n<p>Em tal contexto, a pr\u00f3pria vida sacerdotal ressente-se deste desafio; sintoma disso \u00e9 a crise vocacional que, em v\u00e1rias partes, preocupa as nossas comunidades. Mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que muitas vezes isso se fica a dever \u00e0 aus\u00eancia de fervor apost\u00f3lico contagiante nas comunidades, acabando por n\u00e3o entusiasmar nem suscitar atra\u00e7\u00e3o: s\u00e3o comunidades que at\u00e9 funcionam, por exemplo bem organizadas, mas sem entusiasmo; est\u00e1 tudo em ordem, mas falta o fogo do esp\u00edrito. Onde houver vida, fervor, anseio de levar Cristo aos outros, surgem voca\u00e7\u00f5es genu\u00ednas. Mesmo em par\u00f3quias onde os sacerdotes n\u00e3o aparecem muito empenhados e alegres, \u00e9 a vida fraterna e fervorosa da comunidade que desperta o desejo de se consagrar inteiramente a Deus e \u00e0 evangeliza\u00e7\u00e3o, sobretudo se esta comunidade vivaz reza insistentemente pelas voca\u00e7\u00f5es e tem a coragem de propor aos seus jovens um caminho de especial consagra\u00e7\u00e3o. Quando ca\u00edmos no funcionalismo, quando tudo \u00e9 organiza\u00e7\u00e3o pastoral e nada mais, isto n\u00e3o atrai de maneira alguma; mas quando h\u00e1 o padre ou a comunidade que tem o tal fervor crist\u00e3o, batismal, ent\u00e3o h\u00e1 a atra\u00e7\u00e3o de novas voca\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A vida dum sacerdote \u00e9, antes de mais nada, a hist\u00f3ria de salva\u00e7\u00e3o dum batizado. O Cardeal Ouellet falou da distin\u00e7\u00e3o entre sacerd\u00f3cio ministerial e batismal. \u00c0s vezes esquecemos o Batismo, e o sacerdote torna-se uma fun\u00e7\u00e3o: \u00e9 o funcionalismo. E isto \u00e9 perigoso! Nunca devemos esquecer que cada voca\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, incluindo esta ao sacramento da Ordem, \u00e9 realiza\u00e7\u00e3o do Batismo. \u00c9 sempre uma grande tenta\u00e7\u00e3o viver\u00a0<em>um sacerd\u00f3cio sem Batismo<\/em>: existem estes sacerdotes \u00absem Batismo\u00bb, isto \u00e9, sem a mem\u00f3ria de que a nossa primeira voca\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00e0 santidade. Ser santo significa conformar-se a Jesus, deixando a nossa vida palpitar com os seus pr\u00f3prios sentimentos (cf.\u00a0<em>Flp<\/em>\u00a02, 5). S\u00f3 quando se procura amar como Jesus amou \u00e9 que tornamos Deus vis\u00edvel e, consequentemente, realizamos a nossa voca\u00e7\u00e3o \u00e0 santidade. Com toda a raz\u00e3o nos lembrava\u00a0<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/john-paul-ii\/pt.html\">S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II<\/a>\u00a0que \u00abo sacerdote, como a Igreja, deve crescer na consci\u00eancia da sua permanente necessidade de ser evangelizado\u00bb (Exort. ap. p\u00f3s-sinodal\u00a0<em><a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/john-paul-ii\/pt\/apost_exhortations\/documents\/hf_jp-ii_exh_25031992_pastores-dabo-vobis.html\">Pastores dabo vobis<\/a><\/em>, 25\/III\/1992, 26). Tenta ir dizer a um bispo, a um sacerdote que deve ser evangelizado. N\u00e3o compreendem! Isto sucede. \u00c9 o drama de hoje.<\/p>\n<p>Cada voca\u00e7\u00e3o espec\u00edfica deve ser submetida a este tipo de discernimento. A nossa voca\u00e7\u00e3o \u00e9, antes de tudo, uma resposta \u00c0quele que nos amou primeiro (cf.\u00a0<em>1 Jo<\/em>\u00a04, 19). E aqui est\u00e1 a fonte da esperan\u00e7a, pois, mesmo no meio da crise, o Senhor n\u00e3o cessa de amar e, por conseguinte, de chamar. E disto \u00e9 testemunha cada um de n\u00f3s: um dia o Senhor encontrou-nos onde est\u00e1vamos e como est\u00e1vamos, em ambientes contr\u00e1rios ou situa\u00e7\u00f5es familiares complexas. Gosto de reler Ezequiel 16 e \u00e0s vezes sinto-me identificado: encontrou-me aqui, encontrou-me assim, e levou-me para diante\u2026 Mas isto n\u00e3o O dissuadiu do des\u00edgnio de escrever, por meio de cada um de n\u00f3s, a hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o. E foi assim desde o in\u00edcio; pensemos em Pedro e Paulo, em Mateus&#8230; s\u00f3 para nomear alguns. O facto de os ter escolhido n\u00e3o deriva duma op\u00e7\u00e3o ideal, mas dum compromisso concreto com cada um deles. Cada um, olhando para a pr\u00f3pria humanidade, a pr\u00f3pria hist\u00f3ria, a pr\u00f3pria \u00edndole, n\u00e3o se deve perguntar se uma escolha vocacional \u00e9 conveniente ou n\u00e3o, mas se, em consci\u00eancia, aquela voca\u00e7\u00e3o desvenda nele o potencial de Amor recebido no dia do pr\u00f3prio Batismo.<\/p>\n<p>Ao longo destes per\u00edodos de mudan\u00e7a, muitas s\u00e3o as d\u00favidas a enfrentar e tamb\u00e9m as tenta\u00e7\u00f5es que h\u00e3o de vir. Por isso, nesta minha interven\u00e7\u00e3o, quero deter-me simplesmente naquilo que sinto ser decisivo para a vida dum sacerdote hoje, tendo presente o que diz Paulo: \u00ab\u00e9 n\u2019Ele [em Cristo] que toda a constru\u00e7\u00e3o bem ajustada cresce para formar um templo santo, no Senhor\u00bb (<em>Ef<\/em>\u00a02, 21). Crescer bem ajustada significa crescer em harmonia; mas s\u00f3 o Esp\u00edrito Santo nos pode fazer crescer em harmonia, segundo a defini\u00e7\u00e3o t\u00e3o bela que dava d\u2019Ele S\u00e3o Bas\u00edlio: \u00ab<em>Ipse harmonia est<\/em>\u00bb (Tratado\u00a0<em>\u00abSobre o Esp\u00edrito Santo<\/em>, n\u00ba 38). Assim, pensei que toda a constru\u00e7\u00e3o, para se manter de p\u00e9, precisa de s\u00f3lidos alicerces; quero, pois, partilhar convosco as atitudes que d\u00e3o solidez \u00e0 pessoa do sacerdote; quero partilhar (v\u00f3s j\u00e1 o ouvistes, mas repito-o uma vez mais!) as quatro colunas constitutivas da nossa vida sacerdotal, a que chamaremos as \u00abquatro proximidades\u00bb, pois seguem o estilo de Deus, que \u00e9 fundamentalmente um estilo de proximidade (cf.\u00a0<em>Dt<\/em>\u00a04, 7). Assim Se define a Si pr\u00f3prio, colocando estas palavras na boca do seu povo: \u00abQue grande na\u00e7\u00e3o haver\u00e1 que tenha um deus t\u00e3o pr\u00f3ximo de si como est\u00e1 pr\u00f3ximo de n\u00f3s o Senhor, nosso Deus sempre que O invocamos?\u00bb O estilo de Deus \u00e9 proximidade, \u00e9 uma proximidade especial, compassiva e terna. As tr\u00eas palavras que definem a vida dum sacerdote (e tamb\u00e9m dum crist\u00e3o), porque s\u00e3o tiradas precisamente do estilo de Deus: proximidade, compaix\u00e3o e ternura.<\/p>\n<p>J\u00e1 me referi a isto no passado; hoje, por\u00e9m, quero deter-me mais longamente, porque o sacerdote, mais do que de receitas ou teorias, precisa de instrumentos concretos para acometer o seu minist\u00e9rio, a sua miss\u00e3o e a sua vida quotidiana. S\u00e3o Paulo exortava Tim\u00f3teo a manter vivo o dom de Deus que recebera pela imposi\u00e7\u00e3o das m\u00e3os dele, pois Deus n\u00e3o nos concedeu um esp\u00edrito de timidez, mas de fortaleza, amor e sobriedade (cf.\u00a0<em>2 Tm<\/em>\u00a01, 6-7). Julgo que estas quatro colunas, estas quatro \u00abproximidades\u00bb de que vou falar agora podem ajudar, de forma pr\u00e1tica, concreta e esperan\u00e7osa, a reavivar o dom e a fecundidade que um dia nos foram prometidos, e a conservar vivo aquele dom.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, a proximidade com Deus. Quatro proximidades, e a primeira \u00e9 a proximidade com Deus.<\/p>\n<p><em><strong>Proximidade com Deus<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Por outras palavras, proximidade com o Senhor pr\u00f3ximo. \u00abEu sou a videira; v\u00f3s, os ramos (Jo\u00e3o diz isto no seu Evangelho a prop\u00f3sito de \u00abpermanecer\u00bb). Quem permanece em Mim e Eu nele, esse d\u00e1 muito fruto, pois, sem Mim, nada podeis fazer. Se algu\u00e9m n\u00e3o permanece em Mim, \u00e9 lan\u00e7ado fora, como um ramo, e seca. Esses s\u00e3o apanhados e lan\u00e7ados ao fogo, e ardem. Se permanecerdes em Mim e as minhas palavras permanecerem em v\u00f3s, pedi o que quiserdes, e assim vos acontecer\u00e1\u00bb (<em>Jo<\/em>\u00a015, 5-7).<\/p>\n<p>O sacerdote \u00e9 convidado, antes de mais nada, a cultivar esta proximidade, a intimidade com Deus, e desta rela\u00e7\u00e3o poder\u00e1 haurir todas as for\u00e7as necess\u00e1rias para o seu minist\u00e9rio. A rela\u00e7\u00e3o com Deus \u00e9, por assim dizer, o enxerto que nos mant\u00e9m dentro duma liga\u00e7\u00e3o de fecundidade. Sem uma rela\u00e7\u00e3o significativa com o Senhor, o nosso minist\u00e9rio tende a tornar-se est\u00e9ril. A proximidade com Jesus, o contacto com a sua Palavra, permite-nos comparar a nossa vida com a d\u2019Ele e aprender a n\u00e3o nos escandalizarmos com nada do que nos acontece, a defender-nos dos \u00abesc\u00e2ndalos\u00bb. Como sucedeu com o Mestre, passareis por momentos de alegria e festas nupciais, milagres e curas, multiplica\u00e7\u00e3o de p\u00e3es e descanso. Haver\u00e1 momentos em que poder-se-\u00e1 ser louvado, mas vir\u00e3o horas tamb\u00e9m de ingratid\u00e3o, rejei\u00e7\u00e3o, d\u00favida e solid\u00e3o, a ponto de ter que dizer: \u00abMeu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?\u00bb (<em>Mt<\/em>\u00a027, 46).<\/p>\n<p>A proximidade com Jesus convida-nos a n\u00e3o temer nenhuma destas horas, n\u00e3o porque somos fortes, mas porque olhamos para Ele e agarramo-nos a Ele, dizendo-Lhe: \u00abSenhor, n\u00e3o permitais que eu caia em tenta\u00e7\u00e3o! Fazei-me compreender que estou a viver um momento importante na minha vida e que V\u00f3s estais comigo para provar a minha f\u00e9 e o meu amor\u00bb (Carlo Maria Martini,\u00a0<em>La fuerza de la debilidad. Reflexiones sobre Job<\/em>, Salterrae 2014, 84). Por vezes esta proximidade com Deus assume a forma duma luta: havemos de lutar com o Senhor sobretudo nos momentos em que a sua aus\u00eancia se faz sentir mais na vida do sacerdote ou na vida das pessoas a ele confiadas; lutar toda a noite e pedir a sua b\u00ean\u00e7\u00e3o (cf.\u00a0<em>Gn<\/em>\u00a032, 25-27), que ser\u00e1 fonte de vida para muitos. \u00c0s vezes \u00e9 uma luta. Contava-me um padre jovem, que trabalha aqui na C\u00faria: tem um trabalho dif\u00edcil, ou seja, p\u00f4r um lugar em ordem e \u00e0 noite voltava cansado. Voltava cansado, mas repousava antes de ir para a cama diante de Nossa Senhora com o ter\u00e7o na m\u00e3o. Ele, um curial, um funcion\u00e1rio do Vaticano, precisava desta proximidade. Criticam-se muito as pessoas da C\u00faria, e \u00e0s vezes com verdade; mas eu posso dizer tamb\u00e9m e dar testemunho de que aqui dentro h\u00e1 santos. Isto \u00e9 verdade!<\/p>\n<p>Muitas crises sacerdotais t\u00eam origem precisamente numa escassa vida de ora\u00e7\u00e3o, numa falta de intimidade com o Senhor, numa redu\u00e7\u00e3o da vida espiritual a mera pr\u00e1tica religiosa. Quero distinguir isto, mesmo na forma\u00e7\u00e3o: uma coisa \u00e9 a vida espiritual, outra \u00e9 a pr\u00e1tica religiosa. \u00abComo est\u00e1 a tua vida espiritual?\u00bb &#8211; \u00abBem, est\u00e1 bem! Fa\u00e7o a medita\u00e7\u00e3o de manh\u00e3, rezo o ter\u00e7o, rezo a \u201csogra\u201d (a sogra \u00e9 o brevi\u00e1rio), rezo o brevi\u00e1rio e tudo&#8230; Fa\u00e7o tudo\u00bb. N\u00e3o! Isto \u00e9 pr\u00e1tica religiosa. Mas como est\u00e1 a tua vida espiritual? Recordo momentos importantes da minha vida em que esta proximidade com o Senhor foi decisiva para me manter de p\u00e9, aguentar-me nos momentos escuros. Sem a intimidade da ora\u00e7\u00e3o, da vida espiritual, da proximidade concreta com Deus atrav\u00e9s da escuta da Palavra, da Celebra\u00e7\u00e3o Eucar\u00edstica, do sil\u00eancio da adora\u00e7\u00e3o, da consagra\u00e7\u00e3o a Maria, do s\u00e1bio acompanhamento duma guia, do sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o\u2026 sem estas \u00abproximidades\u00bb concretas, um sacerdote n\u00e3o passa, por assim dizer, dum trabalhador cansado que n\u00e3o se aproveita dos benef\u00edcios dos amigos do Senhor. Na outra diocese, gostava de perguntar aos padres, que me contavam os seus trabalhos: \u00abDiz-me?! Como vais tu para a cama?\u00bb E n\u00e3o percebiam a pergunta. \u00abSim! \u00c0 noite, como vais para a cama?\u00bb \u2013 \u00abChego cansado, como qualquer coisa e vou para a cama, e l\u00e1 vejo a televis\u00e3o que est\u00e1 na frente&#8230;\u00bb \u2013 \u00abMas como? N\u00e3o passas sequer junto do Senhor, ao menos para Lhe dar a boa noite?\u00bb Aqui est\u00e1 o problema\u2026 Falta de proximidade. Era habitual o cansa\u00e7o do trabalho, ir descansar e ver televis\u00e3o \u2013 o que \u00e9 l\u00edcito \u2013, mas sem o Senhor, sem esta proximidade, n\u00e3o est\u00e1 bem! Rezara o ter\u00e7o, rezara o brevi\u00e1rio, mas sem a intimidade com o Senhor. N\u00e3o sentia a necessidade de dizer ao Senhor: \u00abAdeus! At\u00e9 amanh\u00e3! Muito obrigado!\u00bb S\u00e3o pequenos gestos que revelam o comportamento duma alma sacerdotal.<\/p>\n<p>Por exemplo, na vida sacerdotal, muitas vezes pratica-se a ora\u00e7\u00e3o apenas como um dever, esquecendo que a amizade e o amor n\u00e3o podem ser impostos como uma regra externa, mas s\u00e3o uma op\u00e7\u00e3o fundamental do nosso cora\u00e7\u00e3o. Um sacerdote que reza permanece, radicalmente, um crist\u00e3o que compreendeu profundamente o dom recebido no Batismo. Um padre que reza \u00e9 um filho que se lembra continuamente de ser filho e ter um Pai que o ama. Um padre que reza \u00e9 um filho que se aproxima do Senhor.<\/p>\n<p>Mas tudo isto \u00e9 dif\u00edcil se n\u00e3o se est\u00e1 habituado a ter espa\u00e7os de sil\u00eancio ao longo do dia. Se n\u00e3o se sabe largar o \u00abfazer\u00bb de Marta, para aprender o \u00abestar\u00bb de Maria. Custa a renunciar ao ativismo \u2013 muitas vezes o ativismo pode ser uma fuga \u2013, porque quando cessamos de nos atarefar, n\u00e3o vem logo ao cora\u00e7\u00e3o a paz, mas a desola\u00e7\u00e3o; e, para n\u00e3o entrar em desola\u00e7\u00e3o, estamos dispostos a nunca parar. O trabalho \u00e9 uma distra\u00e7\u00e3o, para n\u00e3o entrar na desola\u00e7\u00e3o. Mas desola\u00e7\u00e3o \u00e9 de certo modo o ponto de encontro com Deus. \u00c9 justamente aceitando a desola\u00e7\u00e3o que vem do sil\u00eancio, do jejum de atividades e palavras, da coragem de nos examinarmos com sinceridade\u2026 \u00e9 precisamente nessa situa\u00e7\u00e3o que tudo ganha uma luz e uma paz que j\u00e1 n\u00e3o assentam sobre as nossas for\u00e7as e capacidades. Trata-se de aprender a deixar que o Senhor continue a realizar a sua obra em cada um e corte tudo o que \u00e9 infecundo, est\u00e9ril, e que distorce a voca\u00e7\u00e3o. Perseverar na ora\u00e7\u00e3o significa mais do que permanecer fi\u00e9is a uma pr\u00e1tica: significa n\u00e3o fugir quando a pr\u00f3pria ora\u00e7\u00e3o nos conduz ao deserto. O caminho do deserto leva \u00e0 intimidade com Deus, mas sob condi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o fugir, n\u00e3o encontrar formas para escapar deste encontro. Hei de conduzi-lo ao deserto \u00abpara lhe falar ao cora\u00e7\u00e3o\u00bb: diz o Senhor ao seu povo, pela boca do profeta Oseias (cf. 2,16). Aqui est\u00e1 uma coisa acerca da qual se deve questionar o sacerdote: \u00e9 capaz de se deixar levar ao deserto? Os guias espirituais, aqueles que acompanham os sacerdotes, devem compreender, ajudando-os a porem-se esta pergunta: \u00e9s capaz de te deixar levar ao deserto? Ou vais logo para o o\u00e1sis da televis\u00e3o ou doutra coisa qualquer?<\/p>\n<p>A proximidade com Deus permite-nos, a n\u00f3s sacerdotes, tomar contacto com o sofrimento que existe no nosso cora\u00e7\u00e3o e, se aceite, nos desarma at\u00e9 ao ponto de tornar poss\u00edvel um encontro. A ora\u00e7\u00e3o que, como fogo, anima a vida sacerdotal \u00e9 o clamor dum cora\u00e7\u00e3o contrito e arrependido, que o Senhor (assim no-lo diz a Palavra) n\u00e3o despreza (cf.\u00a0<em>Sal<\/em>\u00a051\/50, 19). \u00abOs justos clamaram e o Senhor atendeu-os \\ e livrou-os das suas ang\u00fastias. \\ O Senhor est\u00e1 perto dos cora\u00e7\u00f5es contritos \\ e salva os esp\u00edritos abatidos\u00bb (<em>Sal<\/em>\u00a034\/33, 18-19).<\/p>\n<p>Um sacerdote deve ter um cora\u00e7\u00e3o suficientemente \u00abampliado\u00bb para dar espa\u00e7o ao sofrimento do povo que lhe est\u00e1 confiado e ao mesmo tempo, como sentinela, anunciar a aurora da Gra\u00e7a de Deus que se manifesta precisamente naquele sofrimento. Abra\u00e7ar, aceitar e apresentar a pr\u00f3pria mis\u00e9ria na proximidade com o Senhor ser\u00e1 a melhor escola para poder, pouco a pouco, dar espa\u00e7o a toda a mis\u00e9ria e sofrimento que encontrar dia a dia no seu minist\u00e9rio, at\u00e9 ao ponto de se tornar ele mesmo como o cora\u00e7\u00e3o de Cristo. E isto preparar\u00e1 o sacerdote tamb\u00e9m para outra proximidade: a proximidade com o Povo de Deus. Na proximidade com Deus, o sacerdote refor\u00e7a a proximidade com o seu povo; e, vice-versa, na proximidade com o seu povo vive tamb\u00e9m a proximidade com o seu Senhor. E esta proximidade com Deus \u2013 chama-me a aten\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 a primeira tarefa dos bispos, porque quando os Ap\u00f3stolos \u00abinventam\u00bb os di\u00e1conos, Pedro depois explica a sua fun\u00e7\u00e3o e conclui assim: \u00abE para n\u00f3s \u2013 os bispos \u2013 fica a ora\u00e7\u00e3o e o an\u00fancio da Palavra\u00bb (cf.\u00a0<em>At<\/em>\u00a06, 4). Por outra palavras, a primeira tarefa do bispo \u00e9 rezar; e isto vale tamb\u00e9m para o sacerdote: rezar.<\/p>\n<p>\u00abEle \u00e9 que deve crescer, e eu diminuir\u00bb (<em>Jo<\/em>\u00a03, 30): dizia Jo\u00e3o Batista. A intimidade com Deus torna poss\u00edvel tudo isto, porque na ora\u00e7\u00e3o se faz experi\u00eancia de ser grande aos seus olhos, e ent\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um problema para os sacerdotes pr\u00f3ximos do Senhor tornar-se pequenos aos olhos do mundo. E l\u00e1, naquela proximidade, j\u00e1 n\u00e3o assusta conformar-se a Jesus Crucificado, como nos \u00e9 pedido no rito da ordena\u00e7\u00e3o sacerdotal, que \u00e9 maravilhoso, mas esquecemo-lo frequentemente.<\/p>\n<p>E passemos \u00e0 segunda proximidade, que ser\u00e1 mais breve do que a primeira.<\/p>\n<p><em><strong>Proximidade com o bispo<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Durante muito tempo, esta segunda proximidade foi lida s\u00f3 de maneira unilateral. Muitas vezes na hist\u00f3ria da Igreja, e ainda hoje, se d\u00e1 \u00e0 obedi\u00eancia uma interpreta\u00e7\u00e3o distante do sentir do Evangelho. A obedi\u00eancia n\u00e3o \u00e9 um atributo disciplinar, mas a carater\u00edstica mais forte dos la\u00e7os que nos unem em comunh\u00e3o. Obedecer \u2013 neste caso, ao bispo \u2013 significa aprender a escutar, lembrando-se de que ningu\u00e9m se pode arvorar em detentor da vontade de Deus e que esta h\u00e1 de ser compreendida apenas atrav\u00e9s do discernimento. Assim, a obedi\u00eancia \u00e9 a escuta da vontade de Deus que se discerne precisamente numa liga\u00e7\u00e3o. Esta atitude de escuta permite maturar a ideia de que ningu\u00e9m \u00e9 o princ\u00edpio e o fundamento da vida, mas cada qual deve necessariamente confrontar-se com os outros. Esta l\u00f3gica das proximidades \u2013 neste caso com o bispo, mas vale tamb\u00e9m para as outras \u2013 permite vencer qualquer tenta\u00e7\u00e3o de fechamento, de autojustifica\u00e7\u00e3o e de vida de \u00absolteiro\u00bb, ou de \u00absolteir\u00e3o\u00bb. Quando os padres se fecham, se v\u00e3o fechando cada vez mais\u2026, acabam \u00absolteir\u00f5es\u00bb com todas as manias dos \u00absolteir\u00f5es\u00bb. E n\u00e3o \u00e9 um belo espet\u00e1culo! Esta proximidade convida-nos, ao contr\u00e1rio, a fazer apelo a outras inst\u00e2ncias para encontrar o caminho que conduz \u00e0 verdade e \u00e0 vida.<\/p>\n<p>O bispo n\u00e3o \u00e9 um vigilante de escola, n\u00e3o \u00e9 um vigiador, \u00e9 um pai, e deveria proporcionar esta proximidade. Assim deve procurar comportar-se o bispo, porque sen\u00e3o afasta os padres, ou ent\u00e3o s\u00f3 aproxima os ambiciosos. O bispo, seja ele quem for, permanece para cada presb\u00edtero e cada Igreja particular uma liga\u00e7\u00e3o que ajuda a discernir a vontade de Deus. Mas n\u00e3o devemos esquecer que o pr\u00f3prio bispo s\u00f3 pode ser instrumento deste discernimento se tamb\u00e9m ele se colocar \u00e0 escuta da realidade dos seus presb\u00edteros e do povo santo de Deus que lhe est\u00e1 confiado. Como escrevi na Exorta\u00e7\u00e3o\u00a0<em><a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html#O_acompanhamento_pessoal_dos_processos_de_crescimento\">Evangelii gaudium<\/a><\/em>, \u00abprecisamos de nos exercitar na arte de escutar, que \u00e9 mais do que ouvir. Escutar, na comunica\u00e7\u00e3o com o outro, \u00e9 a capacidade do cora\u00e7\u00e3o que torna poss\u00edvel a proximidade, sem a qual n\u00e3o existe um verdadeiro encontro espiritual. Escutar ajuda-nos a individuar o gesto e a palavra oportunos que nos desinstalam da c\u00f3moda condi\u00e7\u00e3o de espetadores. S\u00f3 a partir desta escuta respeitosa e compassiva \u00e9 que se podem encontrar os caminhos para um crescimento genu\u00edno, despertar o desejo do ideal crist\u00e3o, o anseio de corresponder plenamente ao amor de Deus e o anelo de desenvolver o melhor de quanto Deus semeou na nossa pr\u00f3pria vida\u00bb (n. 171).<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso que o maligno, para destruir a fecundidade da a\u00e7\u00e3o da Igreja, procura minar os nossos la\u00e7os constitutivos. Defender os la\u00e7os do presb\u00edtero com a Igreja particular, com o instituto a que pertence e com o bispo torna confi\u00e1vel a vida sacerdotal. Defender os la\u00e7os. A obedi\u00eancia \u00e9 a decis\u00e3o fundamental de acolher quem est\u00e1 colocado \u00e0 nossa frente como sinal concreto daquele sacramento universal de salva\u00e7\u00e3o que \u00e9 a Igreja; obedi\u00eancia que pode ser tamb\u00e9m confronta\u00e7\u00e3o, escuta e, nalguns casos, tens\u00e3o, mas n\u00e3o se separa. Isto requer necessariamente que os sacerdotes rezem pelos bispos e saibam exprimir, com respeito, coragem e sinceridade, o seu parecer. Requer, igualmente dos bispos, humildade, capacidade de escuta, de autocr\u00edtica e de se deixar ajudar. Se defendermos esta liga\u00e7\u00e3o, avan\u00e7aremos com seguran\u00e7a no nosso caminho.<\/p>\n<p>E creio que isto, relativamente \u00e0 proximidade com os bispos, seja suficiente.<\/p>\n<p><em><strong>Proximidade entre presb\u00edteros<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00c9 a terceira proximidade. Proximidade com Deus, proximidade com os bispos, proximidade com os presb\u00edteros. Precisamente a partir da comunh\u00e3o com o bispo \u00e9 que se abre a terceira proximidade: a da fraternidade. Jesus manifesta-Se onde h\u00e1 irm\u00e3os prontos a amarem-se: \u00abOnde estiverem dois ou tr\u00eas reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles\u00bb (<em>Mt<\/em>\u00a018, 20). Tamb\u00e9m a fraternidade, \u00e0 semelhan\u00e7a da obedi\u00eancia, n\u00e3o pode ser uma imposi\u00e7\u00e3o moral externa \u00e0 pessoa. Fraternidade \u00e9 optar deliberadamente por procurar ser santo com os outros, e n\u00e3o em solid\u00e3o, santo com os outros. Um prov\u00e9rbio africano, que bem conheceis, diz: \u00abSe queres chegar depressa, vai sozinho; se queres chegar longe, vai com os outros\u00bb. \u00c0s vezes parece que a Igreja seja lenta \u2013 e \u00e9 verdade \u2013, mas apraz-me pensar que seja a lentid\u00e3o de quem decidiu caminhar em fraternidade; inclusive acompanhando os \u00faltimos, mas sempre em fraternidade.<\/p>\n<p>As carater\u00edsticas da fraternidade s\u00e3o as mesmas do amor. S\u00e3o Paulo, na primeira Carta aos Cor\u00edntios (cap. 13), deixou-nos um \u00abguia\u00bb claro do amor, indicando-nos em certo sentido para onde deveria tender a fraternidade. Em primeiro lugar, aprender\u00a0<em>a paci\u00eancia<\/em>, que \u00e9 a capacidade de nos sentir respons\u00e1veis pelos outros, carregar os seus fardos, de algum modo padecer com eles. O contr\u00e1rio da paci\u00eancia \u00e9 a indiferen\u00e7a, a dist\u00e2ncia que constru\u00edmos entre n\u00f3s e os outros para n\u00e3o nos sentir envolvidos com a sua vida. Em muitos presb\u00edteros, vai-se consumando o drama da solid\u00e3o, de se sentirem sozinhos. Sentimo-nos n\u00e3o dignos de paci\u00eancia, de considera\u00e7\u00e3o; antes, parece que do outro nos venha o julgamento, n\u00e3o o bem, nem a\u00a0<em>benignidade<\/em>. O outro \u00e9 incapaz de se alegrar com o bem que nos acontece na vida, ou ent\u00e3o sou eu que me sinto incapaz de me alegrar quando vejo o bem na vida dos outros. Esta incapacidade de se alegrar com o bem alheio, dos outros \u00e9 a\u00a0<em>inveja<\/em>\u00a0&#8211; quero destacar isto \u2013, que tanto faz tribular os nossos ambientes e que constitui uma dura luta na pedagogia do amor, e n\u00e3o simplesmente um pecado a confessar. O pecado \u00e9 a \u00faltima coisa, \u00e9 a atitude que \u00e9 invejosa. A inveja est\u00e1 muito presente nas comunidades sacerdotais. E a Palavra de Deus diz-nos que \u00e9 a atitude destrutiva: por inveja do diabo, entrou o pecado no mundo (cf.\u00a0<em>Sab<\/em>\u00a02, 24). \u00c9 a porta, a porta para a destrui\u00e7\u00e3o. E sobre isso devemos falar claramente: em nossos presbit\u00e9rios, h\u00e1 inveja. Nem todos s\u00e3o invejosos. Isso n\u00e3o! Mas a tenta\u00e7\u00e3o da inveja est\u00e1 sempre \u00e0 espreita. Tenhamos cuidado. E, da inveja, provem a murmura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para nos sentir parte da comunidade, do \u00abn\u00f3s\u00bb, n\u00e3o \u00e9 preciso usar m\u00e1scaras que deem, de n\u00f3s mesmos, apenas uma imagem vencedora. Ou seja, n\u00e3o precisamos de nos\u00a0<em>vangloriarmos<\/em>, e menos ainda de nos\u00a0<em>orgulharmos<\/em>\u00a0ou, pior, assumir atitudes violentas,\u00a0<em>faltando ao respeito<\/em>\u00a0com quem nos rodeia. H\u00e1 tamb\u00e9m formas clericais de\u00a0<em>bullying<\/em>. Com efeito, se um sacerdote tem algo de que gloriar-se, \u00e9 a miseric\u00f3rdia do Senhor; conhece o seu pecado, a sua mis\u00e9ria e os seus limites, mas experimentou que, onde abundou o pecado, superabundou o amor (cf.\u00a0<em>Rm<\/em>\u00a05, 20); e esta \u00e9 a sua primeira boa nova. Um sacerdote que tenha isto presente, n\u00e3o \u00e9 invejoso, n\u00e3o pode ser invejoso.<\/p>\n<p>O amor fraterno\u00a0<em>n\u00e3o busca o pr\u00f3prio interesse<\/em>, n\u00e3o deixa espa\u00e7o \u00e0\u00a0<em>ira<\/em>, ao ressentimento, como se o irm\u00e3o ao meu lado me tivesse de algum modo defraudado em qualquer coisa. E, quando encontro a mis\u00e9ria do outro, estou pronto a\u00a0<em>n\u00e3o recordar para sempre o mal recebido<\/em>, n\u00e3o fazer disso o \u00fanico crit\u00e9rio de julgamento, chegando porventura ao ponto de me\u00a0<em>alegrar com a injusti\u00e7a<\/em>\u00a0quando a sua v\u00edtima \u00e9 precisamente a pessoa que me fez sofrer. O amor verdadeiro\u00a0<em>compraz-se com a verdade<\/em>\u00a0e considera um pecado grave atentar contra a verdade e a dignidade dos irm\u00e3os atrav\u00e9s de cal\u00fanias, maledic\u00eancias, murmura\u00e7\u00f5es. A origem est\u00e1 na inveja. Chega-se a isto, inclusive \u00e0s cal\u00fanias, para se ganhar uma posi\u00e7\u00e3o&#8230; E isto \u00e9 muito triste. Quando daqui se pedem informa\u00e7\u00f5es para se fazer bispo algu\u00e9m, muitas vezes recebemos informa\u00e7\u00f5es viciadas de inveja. E esta \u00e9 uma doen\u00e7a dos nossos presbit\u00e9rios. Muitos de v\u00f3s s\u00e3o formadores nos Semin\u00e1rios. Tende isto em conta!<\/p>\n<p>Entretanto, \u00e0 luz disto, n\u00e3o se deve pensar que o amor fraterno seja uma utopia e, muito menos, um \u00abt\u00f3pico comum\u00bb para suscitar bons sentimentos ou palavras de circunst\u00e2ncia ou um discurso tranquilizante. N\u00e3o! Todos sabemos qu\u00e3o dif\u00edcil possa ser a vida em comunidade ou no presbit\u00e9rio (havia um santo que dizia: a vida comunit\u00e1ria \u00e9 a minha penit\u00eancia)! Qu\u00e3o dif\u00edcil \u00e9 partilhar o dia a dia com aqueles que quisemos reconhecer como irm\u00e3os. Contudo, o amor fraterno, se n\u00e3o pretendermos edulcor\u00e1-lo, acomod\u00e1-lo, diminu\u00ed-lo, \u00e9 a \u00abgrande profecia\u00bb que somos chamados a viver nesta sociedade do descarte. Apraz-me pensar no amor fraterno como um gin\u00e1sio do esp\u00edrito, onde dia a dia nos confrontamos connosco e temos o term\u00f3metro da nossa vida espiritual. Hoje a profecia da fraternidade permanece viva e tem necessidade de arautos; precisa de pessoas que, cientes das pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es e das dificuldades surgidas, se deixem tocar, interpelar e instigar por estas palavras do Senhor: \u00abpor isto \u00e9 que todos conhecer\u00e3o que sois meus disc\u00edpulos: se vos amardes uns aos outros\u00bb (<em>Jo<\/em>\u00a013, 35).<\/p>\n<p>No caso dos presb\u00edteros, o amor fraterno n\u00e3o se restringe a um pequeno grupo, mas exprime-se como caridade pastoral (cf. Exort. ap. p\u00f3s-sinodal\u00a0<em><a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/john-paul-ii\/pt\/apost_exhortations\/documents\/hf_jp-ii_exh_25031992_pastores-dabo-vobis.html\">Pastores dabo vobis<\/a><\/em>, 23), que impele a viv\u00ea-lo concretamente na miss\u00e3o. Podemos dizer que amamos, se aprendermos a express\u00e1-lo como o descreve S\u00e3o Paulo. E s\u00f3 quem procura amar \u00e9 que est\u00e1 em seguran\u00e7a. Quem vive com a s\u00edndrome de Caim, na convic\u00e7\u00e3o de n\u00e3o poder amar porque sente continuamente que n\u00e3o foi amado, valorizado, tido na devida considera\u00e7\u00e3o, acaba por viver sempre como um errante, sem nunca se sentir em casa, e por isso mesmo est\u00e1 mais exposto ao mal: a fazer-se mal e a fazer mal. Por isso o amor entre os presb\u00edteros tem a fun\u00e7\u00e3o de guardar, de se guardarem mutuamente.<\/p>\n<p>Atrevo-me a dizer que, onde reina a fraternidade sacerdotal, a proximidade entre os padres, e existem la\u00e7os de verdadeira amizade, \u00e9 poss\u00edvel viver com mais serenidade tamb\u00e9m a op\u00e7\u00e3o celibat\u00e1ria. O celibato \u00e9 um dom que a Igreja latina guarda; mas, para ser vivido como santifica\u00e7\u00e3o, necessita de rela\u00e7\u00f5es sadias, rela\u00e7\u00f5es de verdadeira estima apostando no bem aut\u00eantico, cuja raiz est\u00e1 em Cristo. Sem amigos e sem ora\u00e7\u00e3o, o celibato pode tornar-se um peso insuport\u00e1vel e um contratestemunho da pr\u00f3pria beleza do sacerd\u00f3cio.<\/p>\n<p>Agora chegamos \u00e0 quarta e \u00faltima proximidade: a proximidade com o Povo de Deus, com o santo Povo fiel de Deus. Ser-nos-\u00e1 \u00fatil ler os n\u00fameros 8 e 12 da\u00a0<em><a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/archive\/hist_councils\/ii_vatican_council\/documents\/vat-ii_const_19641121_lumen-gentium_po.html\">Lumen gentium<\/a><\/em>.<\/p>\n<p><em><strong>Proximidade com o povo<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Tenho assinalado, com frequ\u00eancia, como a rela\u00e7\u00e3o com o santo Povo de Deus seja para cada um de n\u00f3s, n\u00e3o um dever, mas uma gra\u00e7a. \u00abO amor \u00e0s pessoas \u00e9 uma for\u00e7a espiritual que favorece o encontro em plenitude com Deus\u00bb (<em><a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html#O_prazer_espiritual_de_ser_povo\">Evangelii gaudium<\/a><\/em>, 272). \u00c9 por isso que o lugar de cada sacerdote \u00e9 no meio das pessoas, numa rela\u00e7\u00e3o de proximidade com o povo. Salientei na Exorta\u00e7\u00e3o\u00a0<em><a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html\">Evangelii gaudium<\/a><\/em>\u00a0que, \u00abpara ser evangelizadores com esp\u00edrito, \u00e9 preciso tamb\u00e9m desenvolver o prazer espiritual de estar pr\u00f3ximo da vida das pessoas, at\u00e9 chegar a descobrir que isto se torna fonte duma alegria superior. A miss\u00e3o \u00e9 uma paix\u00e3o por Jesus, e simultaneamente uma paix\u00e3o pelo seu povo. Quando paramos diante de Jesus crucificado, reconhecemos todo o seu amor que nos dignifica e sustenta, mas l\u00e1 tamb\u00e9m, se n\u00e3o formos cegos, come\u00e7amos a perceber que este olhar de Jesus se alonga e dirige, cheio de afeto e ardor, a todo o seu povo fiel. L\u00e1 descobrimos novamente que Ele quer servir-Se de n\u00f3s para chegar cada vez mais perto do seu povo amado. Jesus quer servir-Se dos sacerdotes para ficar mais pr\u00f3ximo do santo Povo fiel de Deus. Toma-nos do meio do povo e envia-nos ao povo, de tal modo que a nossa identidade n\u00e3o se compreende sem esta perten\u00e7a\u00bb (<em><a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html#O_prazer_espiritual_de_ser_povo\">Ibid<\/a><\/em>., 268). A identidade sacerdotal n\u00e3o se pode perceber sem esta perten\u00e7a ao santo Povo fiel de Deus.<\/p>\n<p>Tenho a certeza de que hoje, para se compreender de novo a identidade do sacerd\u00f3cio, \u00e9 importante viver em estreita liga\u00e7\u00e3o com a vida real das pessoas, ao lado delas, sem qualquer via de fuga. \u00ab\u00c0s vezes sentimos a tenta\u00e7\u00e3o de ser crist\u00e3os, mantendo uma prudente dist\u00e2ncia das chagas do Senhor. Mas Jesus quer que toquemos a mis\u00e9ria humana, que toquemos a carne sofredora dos outros. Espera que renunciemos a procurar aqueles abrigos pessoais ou comunit\u00e1rios que permitem manter-nos \u00e0 dist\u00e2ncia do n\u00f3 do drama humano, a fim de aceitarmos verdadeiramente entrar em contacto com a vida concreta dos outros e conhecermos a for\u00e7a da ternura. Quando o fazemos, a vida complica-se sempre maravilhosamente e vivemos a intensa experi\u00eancia de ser povo, a experi\u00eancia de pertencer a um povo\u00bb (<em><a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html#O_prazer_espiritual_de_ser_povo\">Ibid<\/a>.<\/em>, 270). E o povo n\u00e3o \u00e9 uma categoria l\u00f3gica; \u00e9 uma categoria m\u00edtica; para o entender, devemos aproximar-nos como fazemos com as categorias m\u00edticas.<\/p>\n<p>Proximidade com o Povo de Deus. Uma proximidade que, enriquecida com as \u00aboutras proximidades\u00bb, as outras tr\u00eas, convida e, em certa medida, exige dar continuidade ao estilo do Senhor, que \u00e9 estilo de proximidade, compaix\u00e3o e ternura, porque capaz de caminhar, n\u00e3o como um juiz, mas como o Bom Samaritano, que reconhece as feridas do seu povo, o sofrimento vivido em sil\u00eancio, a abnega\u00e7\u00e3o e os sacrif\u00edcios de tantos pais e m\u00e3es para manter as suas fam\u00edlias, e tamb\u00e9m as consequ\u00eancias da viol\u00eancia, da corrup\u00e7\u00e3o e da indiferen\u00e7a, cuja passagem procura silenciar toda a esperan\u00e7a. Uma proximidade que permite ungir as feridas e proclamar um ano da gra\u00e7a do Senhor (cf.\u00a0<em>Is<\/em>\u00a061, 2). \u00c9 decisivo lembrar-se que o Povo de Deus espera encontrar\u00a0<em>pastores<\/em>\u00a0com o estilo de Jesus e n\u00e3o \u00abcl\u00e9rigos de Estado\u00bb (recordamos aquela \u00e9poca na Fran\u00e7a em que havia o cura de Ars, o cura, mas havia tamb\u00e9m \u00abmonsieur l&#8217;abb\u00e9\u00bb, cl\u00e9rigos de Estado). Tamb\u00e9m hoje o povo pede-nos pastores do povo e n\u00e3o \u00abcl\u00e9rigos de Estado\u00bb nem \u00abprofissionais do sagrado\u00bb; pastores que se entendam de compaix\u00e3o, de oportunidade; homens corajosos, capazes de parar junto de quem est\u00e1 ferido e estender-lhe a m\u00e3o; homens contemplativos que possam, na proximidade com o seu povo, anunciar nas chagas do mundo a for\u00e7a operante da Ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma das carater\u00edsticas cruciais de nossa sociedade \u00abem rede\u00bb \u00e9 que abunda o sentimento de orfandade. Trata-se de um fen\u00f3meno atual. Ligados a tudo e a todos, falta-nos a experi\u00eancia da perten\u00e7a, que \u00e9 muito mais do que uma conex\u00e3o. Com a proximidade do pastor, pode-se convocar a comunidade e favorecer o crescimento do sentido de perten\u00e7a; pertencemos ao santo Povo fiel de Deus, que \u00e9 chamado a ser sinal da irrup\u00e7\u00e3o do Reino de Deus no momento presente da hist\u00f3ria. Se o pastor se extraviar, se o pastor se afastar, tamb\u00e9m as ovelhas se dispersar\u00e3o acabando ao alcance de todo e qualquer lobo.<\/p>\n<p>Por sua vez, esta perten\u00e7a proporcionar\u00e1 o ant\u00eddoto contra uma deforma\u00e7\u00e3o da voca\u00e7\u00e3o, que deriva precisamente do facto de esquecer que se deve a vida sacerdotal aos outros, ou seja, ao Senhor e \u00e0s pessoas que est\u00e3o confiadas ao padre. Este esquecimento est\u00e1 na base do clericalismo \u2013 de que falou o Cardeal Ouellet \u2013 e das suas consequ\u00eancias. O clericalismo \u00e9 uma pervers\u00e3o. E um dos seus sinais \u2013 a rigidez \u2013 \u00e9 outra pervers\u00e3o. O clericalismo \u00e9 uma pervers\u00e3o, porque se constitui com base no \u00abdistanciamento\u00bb. Curioso! N\u00e3o sobre as proximidades, mas sobre o contr\u00e1rio! Quando penso no clericalismo, vem-me ao pensamento tamb\u00e9m a clericaliza\u00e7\u00e3o do laicado, ou seja, a promo\u00e7\u00e3o duma pequena elite que, ao redor do padre, acaba inclusivamente por desnaturar a sua miss\u00e3o fundamental (cf.\u00a0<em><a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/archive\/hist_councils\/ii_vatican_council\/documents\/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html\">Gaudium et spes<\/a><\/em>, 44): a do fiel leigo. H\u00e1 tantos leigos clericalizados, tantos: \u00abeu sou de tal associa\u00e7\u00e3o, estamos em tal par\u00f3quia, somos\u2026\u00bb os \u00abeleitos\u00bb, leigos clericalizados: \u00e9 uma tremenda tenta\u00e7\u00e3o! Recordemos que \u00aba miss\u00e3o no cora\u00e7\u00e3o do povo n\u00e3o \u00e9 uma parte da minha vida, ou um ornamento que posso p\u00f4r de lado; n\u00e3o \u00e9 um ap\u00eandice ou um momento entre tantos outros da minha vida. \u00c9 algo que n\u00e3o posso arrancar do meu ser [sacerdotal], se n\u00e3o me quero destruir. Eu\u00a0<em>sou uma miss\u00e3o<\/em>\u00a0nesta terra, e para isso estou neste mundo. \u00c9 preciso considerarmo-nos como marcados a fogo por esta miss\u00e3o de iluminar, aben\u00e7oar, vivificar, levantar, curar, libertar\u00bb (<em><a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html#O_prazer_espiritual_de_ser_povo\">Evangelii gaudium<\/a><\/em>, 273).<\/p>\n<p>Gostaria de relacionar esta proximidade com o Povo de Deus e a proximidade com Deus, porque a ora\u00e7\u00e3o do pastor se nutre e encarna no cora\u00e7\u00e3o do Povo de Deus. Quando reza, o pastor carrega consigo os sinais das feridas e das alegrias do seu povo, que apresenta em sil\u00eancio ao Senhor para que as unja com o dom do Esp\u00edrito Santo. Est\u00e1 aqui a esperan\u00e7a do pastor, que tem confian\u00e7a e luta para que o Senhor aben\u00e7oe o seu povo.<\/p>\n<p>Seguindo o ensinamento de Santo In\u00e1cio, segundo o qual \u00abn\u00e3o \u00e9 o muito saber que sacia e satisfaz a alma, mas o sentir e saborear interiormente as coisas\u00bb (<em>Exerc\u00edcios Espirituais<\/em>, Anota\u00e7\u00f5es, 2, 4), ser\u00e1 \u00fatil aos bispos e presb\u00edteros interrogarem-se: \u00abComo est\u00e3o as minhas proximidades\u00bb? Como estou a viver estas quatro dimens\u00f5es do meu ser sacerdotal que o configuram transversalmente e me consentem gerir as tens\u00f5es e os desequil\u00edbrios com que tenho de lidar diariamente? Estas quatro proximidades s\u00e3o uma boa escola para jogar a todo o campo na realidade concreta onde o sacerdote \u00e9 chamado, sem medo, sem rigidez, sem reduzir nem empobrecer a miss\u00e3o. Um cora\u00e7\u00e3o sacerdotal percebe de proximidades, porque o primeiro que quis estar pr\u00f3ximo foi o Senhor. Que Ele visite os seus sacerdotes na ora\u00e7\u00e3o, no bispo, nos irm\u00e3os presb\u00edteros e no seu povo. Quebre a rotina e disturbe um pouco, desperte inquieta\u00e7\u00f5es \u2013 como no tempo do primeiro amor \u2013, ponha em movimento todas as capacidades a fim de que o nosso povo tenha vida e vida em abund\u00e2ncia (cf.\u00a0<em>Jo<\/em>\u00a010, 10). A proximidade com o Senhor n\u00e3o \u00e9 uma nova tarefa, mas um dom que Ele concede para se manter viva e fecunda a voca\u00e7\u00e3o. A proximidade com Deus, a proximidade com o bispo, a proximidade entre n\u00f3s, sacerdotes, e a proximidade com o santo Povo fiel de Deus.<\/p>\n<p>Vendo a tenta\u00e7\u00e3o de nos fecharmos em discursos e discuss\u00f5es intermin\u00e1veis acerca da teologia do sacerd\u00f3cio ou sobre as teorias do que deveria ser, o Senhor olha com ternura e compaix\u00e3o para os sacerdotes, oferecendo-lhes as coordenadas a partir das quais h\u00e3o de reconhecer e manter vivo o ardor pela miss\u00e3o: proximidade que \u00e9 compassiva e terna, proximidade com Deus, com o bispo, com os irm\u00e3os presb\u00edteros e com o povo que lhes foi confiado. Uma proximidade com o estilo de Deus, que Se aproxima com compaix\u00e3o e ternura.<\/p>\n<p>E obrigado a todos v\u00f3s pela vossa proximidade e a vossa paci\u00eancia! Obrigado, muito obrigado! Bom trabalho a todos. Vou \u00e0 Biblioteca, porque tenho muitos encontros esta manh\u00e3. Rezai por mim e eu rezarei por v\u00f3s. Bom trabalho!<\/p>\n<p>Imagem: Vatican Media<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o Educris|17.02.2022<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abProximidade a Deus, ao bispo, entre os presb\u00edteros e ao povo\u00bb, foram as quatro &#8220;proximidades&#8221; que o Papa Francisco pediu, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":424699220,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[64],"class_list":["post-50472260","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-vaticano"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50472260","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=50472260"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50472260\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/media\/424699220"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=50472260"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=50472260"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=50472260"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}