{"id":549286157,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/7121-xiv-domingo-do-tempo-comum-a-grandeza-dos-pequeninos-"},"modified":"2025-11-07T16:33:04","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:04","slug":"xiv-domingo-do-tempo-comum-a-grandeza-dos-pequeninos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/xiv-domingo-do-tempo-comum-a-grandeza-dos-pequeninos\/","title":{"rendered":"XIV Domingo do Tempo Comum: \u00abA Grandeza dos Pequeninos\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031_160503044443.jpg\" \/><\/p>\n<p><p>1. As poucas linhas do Evangelho deste Domingo XIV do Tempo Comum, retiradas de Mateus 11,25-30, guardam o segredo mais inteiro de Jesus. H\u00e1 quem considere estas breves linhas como o mais belo e importante dizer de Jesus nos Evangelhos Sin\u00f3pticos (A. M. Hunter). Na verdade, estas linhas leves e ledas como asas guardam o segredo mais inteiro de Jesus, o seu tesouro mais profundo, o tesouro ou a pedra preciosa da par\u00e1bola (Mateus 13,44-46), preciosa e firme, porque leve e suave como uma almofada, onde Jesus pode reclinar tranquilamente a cabe\u00e7a (Jo\u00e3o 1,18), e tranquilamente conduzir, dormindo mansamente \u00e0 popa, a nossa barca no meio deste mar encapelado (Marcos 4,38). Nos l\u00e1bios de Jesus, chama-se \u00abPAI\u00bb (Mateus 11,25) este lugar seguro e manso, doce e apraz\u00edvel, que acolhe os pequeninos (<em>n\u00eapioi<\/em>), os senta sobre os seus joelhos, lhes conta a sua hist\u00f3ria mais bela, e lhes afaga o rosto com ternura. Diz bem Santo Agostinho que \u00abo peso de Cristo \u00e9 t\u00e3o leve que levanta, como o peso das asas para os passarinhos!\u00bb.<\/p>\n<p>2. \u00abEu Te bendigo, \u00f3 Pai, Senhor do c\u00e9u e da terra, porque escondeste estas coisas aos s\u00e1bios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos (<em>n\u00e9pioi<\/em>)\u00bb (Mateus 11,25). Sim, aos pequeninos, grego\u00a0<em>n\u00e9pioi<\/em>, que em sonoridade portuguesa daria \u00abn\u00e9pias\u00bb, nada, nenhuma ci\u00eancia, nenhum poder, nenhum valor aut\u00f3nomo. \u00d3 abismo da sabedoria dos pequeninos, daqueles que nada podem fazer sozinhos, mas que sabem confiar, e sabem que podem confiar, e sabem em quem confiar (cf. 2 Tim\u00f3teo 2,12). \u00c9 sobre os pequeninos que recai toda a aten\u00e7\u00e3o de Jesus, que, de resto, voluntariamente se confunde com eles, pois diz: \u00abTodas as vezes que fizestes isto (ou o deixastes de fazer) a \u201cum destes meus irm\u00e3os, os mais pequeninos\u201d (<em>hen\u00ec to\u00fat\u00f4n t\u00f4n adelph\u00f4n mou t\u00f4n elach\u00edst\u00f4n<\/em>), foi a Mim que o fizestes (ou o deixastes de fazer)\u00bb (Mateus 25,40 e 45). E, no ritual do Batismo, s\u00e3o estes os dizeres que acompanham a entrega da vela acesa aos pais e padrinhos da crian\u00e7a batizada: \u00aba v\u00f3s, pais e padrinhos, se confia o encargo de velar por esta luz, para que estes pequeninos, iluminados por Cristo\u2026\u00bb.<\/p>\n<p>3. Abre-se aqui um dos mais belos fios de ouro da espiritualidade crist\u00e3, habitualmente denominado por \u00abinf\u00e2ncia espiritual\u00bb, o \u00abpequeno caminho\u00bb, \u00abo permanecer pequeno\u00bb, \u00abo estar nos bra\u00e7os de Jesus\u00bb, que Santa Teresinha do Menino Jesus (1873-1897) exalta na sua \u00abHist\u00f3ria de uma alma\u00bb, que tem a sua nascente mais funda naquela maravilha que \u00e9 o Salmo 131,2, em que o orante se diz assim: \u00abEstou tranquilo e sereno\/, como crian\u00e7a desmamada (<em>gam\u00fbl<\/em>),\/ no colo da sua m\u00e3e;\/ como crian\u00e7a desmamada,\/ est\u00e1 em mim a minha alma\u00bb. N\u00e3o se trata de uma quietude irracional e cega, semelhante \u00e0 do rec\u00e9m-nascido, depois de ter mamado no seio da sua m\u00e3e. O texto fala de uma crian\u00e7a desmamada (<em>gamul<\/em>). E \u00e9 sabido que, no Oriente, o desmame oficial acontecia tarde, pelos tr\u00eas anos, e dava origem a uma grande festa familiar (cf. G\u00e9nesis 21,8; 1 Samuel 1,22-24). Tamb\u00e9m o famoso Padre Jesu\u00edta franc\u00eas, L\u00e9once de Grandmaison (1868-1927), se segurava neste fio de ouro, e rezava assim: \u00abSanta Maria, M\u00e3e de Deus, conserva em mim um cora\u00e7\u00e3o de crian\u00e7a, puro e transparente, como uma nascente\u00bb.<\/p>\n<p>4. Os pequeninos, os\u00a0<em>n\u00e9pioi<\/em>, n\u00e9pias, que nada valem de per si, dependem dos seus pais ou de algu\u00e9m que cuide deles com carinho. Se Jesus os traz desta maneira para a primeira p\u00e1gina, temos ent\u00e3o de perguntar: o que \u00e9 que s\u00e3o ent\u00e3o crist\u00e3os adultos, maduros na sua f\u00e9? Ser\u00e3o aqueles que sabem tudo, que est\u00e3o seguros de si, que chegaram ao fim de um curso ou percurso, que t\u00eam um estatuto, um\u00a0<em>status<\/em>, que t\u00eam um diploma na m\u00e3o, que j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o dependentes porque j\u00e1 n\u00e3o precisam de ningu\u00e9m que cuide deles? Seguramente n\u00e3o. Crist\u00e3os adultos na sua f\u00e9 s\u00e3o aqueles que sabem que precisam de Deus a todo o momento, e que sabem debru\u00e7ar-se sobre os pequeninos com amor. Crist\u00e3os adultos na f\u00e9 n\u00e3o somos n\u00f3s que pensamos que temos as chaves de tudo e de todos, que abrimos ou fechamos todas as portas, mas somos n\u00f3s como filhos de Deus, a quem carinhosamente tratamos por PAI (<em>?Abba?<\/em>), em quem depositamos toda a nossa confian\u00e7a, somos n\u00f3s como filhos e irm\u00e3os, carinhosamente atentos uns aos outros, at\u00e9 ao ponto sem retorno de j\u00e1 n\u00e3o sabermos viver sen\u00e3o repartindo o p\u00e3o e o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>5. \u00abEu Te bendigo, \u00f3 PAI, Senhor do c\u00e9u e da terra, porque escondeste estas coisas aos s\u00e1bios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos\u00bb (Mateus 11,25; cf. Lucas 10,21). Esta \u00e9 uma das muitas vezes em que, nos Evangelhos, Jesus aparece a rezar ao PAI, mas \u00e9 uma das poucas vezes em que nos \u00e9 dada a gra\u00e7a de ouvirmos o conte\u00fado da ora\u00e7\u00e3o de Jesus [al\u00e9m desta vez, s\u00f3 no Gets\u00e9mani: \u00abPAI, se \u00e9 poss\u00edvel, afasta de mim este c\u00e1lice, mas n\u00e3o se fa\u00e7a a minha vontade, mas sim a tua\u00bb (Mateus 26,39 e 42), e na Cruz: \u00abMeu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?\u00bb (Mateus 27,46); \u00abPAI, perdoa-lhes, porque n\u00e3o sabem o que fazem\u00bb (Lucas 23,34); \u00abPAI, nas tuas m\u00e3os entrego o meu esp\u00edrito\u00bb (Lucas 23,46)]. Note-se que a bel\u00edssima ora\u00e7\u00e3o do \u00abPAI Nosso\u00bb (Mateus 6,9-13; cf. Lucas 11,2-4) \u00e9-nos ensinada por Jesus, mas n\u00e3o o ouvimos a rez\u00e1-la. Um crist\u00e3o adulto na sua f\u00e9, isto \u00e9, na sua confian\u00e7a, tem de se p\u00f4r, como Jesus, totalmente nas m\u00e3os seguras e carinhosas do PAI, \u00fanica dire\u00e7\u00e3o da sua e da nossa vida dada, recebida e oferecida.<\/p>\n<p>6. \u00c9 assim que o Evangelho entra por n\u00f3s adentro, cortante como uma espada de dois gumes ou como um bisturi. Vem-me \u00e0 mem\u00f3ria uma velha hist\u00f3ria que circula na \u00c1frica Oriental, e que fala de uma mulher pobre que andava sempre com uma B\u00edblia grande debaixo do bra\u00e7o. Dizem que nunca se separava dela. As pessoas que a viam passar todos os dias, faziam chacota dela com dizeres do g\u00e9nero: \u00abPorqu\u00ea sempre a B\u00edblia, se h\u00e1 tantos livros para ler?\u00bb. Mas a mulher l\u00e1 seguia o seu caminho, imperturb\u00e1vel e indiferente \u00e0s provoca\u00e7\u00f5es. Um dia, por\u00e9m, a mulher da B\u00edblia viu-se cercada por um bando de escarnecedores. Ent\u00e3o, levantando bem alto a sua B\u00edblia, a mulher, abrindo um grande sorriso, disse: \u00abEu bem sei que h\u00e1 muitos outros livros que posso ler! Mas este \u00e9 o \u00fanico livro que me l\u00ea a mim!\u00bb. Sim, como um bisturi!<\/p>\n<p>7. Nenhum arrogante racioc\u00ednio, nenhum orgulho, nenhuma escada por n\u00f3s constru\u00edda, conduz a Deus. Nenhuma arrog\u00e2ncia conduz a Deus. Jesus, Mestre novo, n\u00e3o aponta para coisas nem ensina coisas. Ele diz: \u00abVinde a Mim\u00bb e \u00abaprendei de Mim\u00bb (Mateus 11,28 e 29). Com Jesus. Como Jesus. Ele n\u00e3o ensina coisas. Ensina-se a si mesmo, dando-se a si mesmo. Aprendeu do Pai, que tudo lhe deu (Mateus 11,27). Dar e receber. Jugo suave e carga leve (Mateus 11,30). Como os mission\u00e1rios do Evangelho, que devem partir sempre sem ouro, nem prata, nem cobre, nem saco, nem duas t\u00fanicas, nem sand\u00e1lias, nem bast\u00e3o, dando de gra\u00e7a o que de gra\u00e7a receberam (cf. Mateus 10,8-9). Nenhum acess\u00f3rio ou mero adere\u00e7o nos faz falta. Dar o acess\u00f3rio, o adere\u00e7o, o sup\u00e9rfluo, o que sobra, n\u00e3o tem a marca de Deus, n\u00e3o \u00e9 fazer a verdadeira mem\u00f3ria de Jesus, que se entregou a si mesmo por n\u00f3s (Ef\u00e9sios 5,2), que se entregou por mim (G\u00e1latas 2,20). Como \u00e9 da nossa humana experiencia, o acess\u00f3rio, o adere\u00e7o, o sup\u00e9rfluo deixa a vida intacta. O dom de si mesmo, se for verdadeiro, afeta a nossa vida, porque \u00e9 decisivo, \u00e9 para sempre, tem a marca da eternidade, p\u00f5e-nos no seguimento de Jesus. E, neste caminho discipular, n\u00e3o h\u00e1 estrat\u00e9gia que nos valha.<\/p>\n<p>8. Esta agenda [AGE + NDA] de Jesus, que fica \u00abconnosco todos os dias\u00bb (Mateus 28,20), podemos v\u00ea-la diariamente na sua maneira feliz, ousada, pobre, despojada, humilde, filial, fraternal, pr\u00f3xima e dedicada de viver, bem ao jeito do Rei novo e fazedor de paz e de felicidade, sonhado por Zacarias (9,9-10) no \u00faltimo quartel do s\u00e9culo IV a. C., em claro contraponto com o esplendor militar dos cavalos e pesados carros de combate de Alexandre Magno, que ent\u00e3o atravessava a costa palestinense a caminho do Egito. Da agenda de Jesus, faz parte indeclin\u00e1vel a completa orienta\u00e7\u00e3o da sua vida filial para o Pai, abrindo a este mundo novos rumos e desafios imensos de fraternidade. N\u00e3o carros e cavalos, gl\u00f3ria militar, vangl\u00f3ria do poder. Jesus, o Rei novo, belo e manso, vem montado num jumento, que n\u00e3o \u00e9 animal que se leve para a guerra! \u00abEstrada bela! \u00c9 andando nela, que encontraremos repouso para a nossa vida\u00bb (Jeremias 6,16).<\/p>\n<p>9. A\u00ed est\u00e1 de novo S. Paulo, escrevendo aos Romanos (8,9-13) e a n\u00f3s, para nos advertir que n\u00e3o \u00e9 \u00abna carne\u00bb (<em>en sark\u00ed<\/em>), mas \u00abno Esp\u00edrito\u00bb (<em>en pne\u00famati<\/em>), que devemos viver. E ele insiste em dizer como \u00e9 importante Cristo estar \u00abem v\u00f3s\u00bb (<em>en hym\u00een<\/em>), e o Esp\u00edrito, Aquele que ressuscitou Jesus dos mortos, habitar (<em>oik\u00e9\u00f4<\/em>) \u00abem v\u00f3s\u00bb (<em>en hym\u00een<\/em>). A carne tem a ver com o curr\u00edculo, o\u00a0<em>status<\/em>, a import\u00e2ncia, a gan\u00e2ncia\u2026 Mas podemos sempre socorrer-nos do vasto elenco, sempre atualizado, das \u00abobras da carne\u00bb, que S. Paulo faz na Carta aos G\u00e1latas: \u00abS\u00e3o manifestas as obras da carne, que s\u00e3o: fornica\u00e7\u00e3o, impureza, devassid\u00e3o, idolatria, magia, inimizades, rixa, ci\u00fame, iras, ambi\u00e7\u00f5es, dissens\u00f5es, divis\u00f5es, invejas, bebedeiras, orgias, e coisas semelhantes a estas, sobre as quais vos previno, como j\u00e1 preveni, que os que tais coisas fizerem n\u00e3o herdar\u00e3o o Reino de Deus\u00bb (G\u00e1latas 5,19-21). E podemos tamb\u00e9m ver o confronto que ele faz com os \u00abfrutos do Esp\u00edrito\u00bb, que s\u00e3o: \u00abamor, alegria, paz, paci\u00eancia, benevol\u00eancia, bondade, fidelidade, mansid\u00e3o, autodom\u00ednio\u00bb (G\u00e1latas 5,22-23).<\/p>\n<p>10. Fica bem hoje cantar com alegria renovada o grande hino alfab\u00e9tico que \u00e9 o Salmo 145, at\u00e9 que vibrem as cordas do nosso cora\u00e7\u00e3o. Or\u00edgenes classificava este Salmo como \u00abo supremo c\u00e2ntico de a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as\u00bb, e Agostinho viu-o como \u00aba ora\u00e7\u00e3o perfeita de Cristo, uma ora\u00e7\u00e3o para todas as circunst\u00e2ncias e acontecimentos da vida\u00bb. E enquanto saboreamos as imensas riquezas que nos v\u00eam de Deus: a sua gra\u00e7a, miseric\u00f3rdia, amor e bondade, usando, para o efeito, toda a gama de sabores e todas as letras do alfabeto, continuemos a cantar: \u00abAbris, Senhor, a vossa m\u00e3o, e saciais a nossa fome!\u00bb (Salmo 145,16).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Senhor Jesus,<\/p>\n<p>D\u00e1-me um cora\u00e7\u00e3o puro e transparente<\/p>\n<p>Como uma nascente,<\/p>\n<p>Como uma semente,<\/p>\n<p>E ensina-me a ser simples e leve<\/p>\n<p>Como aquele p\u00e1ssaro que do c\u00e9u desce,<\/p>\n<p>Reza, canta, come e agradece.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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