{"id":614156644,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/326-vaticano\/8312-domingo-ii-do-advento-um-caminho-direitinho-ao-coracao"},"modified":"2025-11-07T16:34:32","modified_gmt":"2025-11-07T16:34:32","slug":"domingo-ii-do-advento-um-caminho-direitinho-ao-coracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-ii-do-advento-um-caminho-direitinho-ao-coracao\/","title":{"rendered":"Domingo II do Advento: \u00abUm caminho direitinho ao cora\u00e7\u00e3o\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031-1.jpg\" \/><\/p>\n<p><p>1. Sempre considerei o texto de Lucas 3,1-6, que constitui a passagem do Evangelho que temos a gra\u00e7a de ouvir neste Domingo II do Advento, como uma das p\u00e1ginas mais admir\u00e1veis, e, ao mesmo tempo, mais implac\u00e1veis que me vieram ter \u00e0 m\u00e3o. \u00c0 primeira vista, parece que o narrador pretende apenas situar as principais figuras e os principais acontecimentos da salva\u00e7\u00e3o bem no cora\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria e da geografia humanas. \u00c9 assim que o vemos tra\u00e7ar com rigorosa precis\u00e3o a vinda da Palavra de Deus sobre Jo\u00e3o Batista, no deserto, no 15.\u00ba ano do imp\u00e9rio (<em>h\u00eagemonia<\/em>) de Tib\u00e9rio (Lucas 3,1). Como Tib\u00e9rio reinou de 14 a 37, o 15.\u00ba ano do seu governo corresponde, segundo o c\u00e1lculo comum, ao ano 28-29, ou, segundo o c\u00e1lculo sir\u00edaco, ao ano 27-28, sempre de outono a outono.<\/p>\n<p>2. Se a pretens\u00e3o do narrador fosse apenas a de situar as figuras de Jo\u00e3o Batista e, sobretudo, Jesus, no centro da hist\u00f3ria de ent\u00e3o, bastava a refer\u00eancia precisa que faz a Tib\u00e9rio. Mas o narrador acrescenta-lhe quatro nomes, que t\u00eam a ver com a divis\u00e3o do territ\u00f3rio do reino de Herodes o Grande (37-4 a. C.): P\u00f4ncio Pilatos, governador romano da Judeia (26-36 d.C.), que condenar\u00e1 Jesus \u00e0 morte na cruz (Lucas 23,24), como recitamos no Credo; Herodes Antipas, respons\u00e1vel pela pris\u00e3o e decapita\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Batista (Lucas 3,20; 9,9), e que, enquanto tetrarca da Galileia (4 a.C-39 d.C.), tem tamb\u00e9m jurisdi\u00e7\u00e3o sobre Jesus (Lucas 13,31), sendo esse o motivo pelo qual Pilatos lhe enviar\u00e1 Jesus (Lucas 23,6-12). Estas duas figuras est\u00e3o diretamente ligadas \u00e0 morte violenta de Jesus e de Jo\u00e3o Batista. As men\u00e7\u00f5es de Filipe, tetrarca da Itureia e da Tracon\u00edtide, regi\u00f5es que se estendiam a norte e oriente do Mar da Galileia, e de Lis\u00e2nias, tetrarca de Abilene, que se situava na Beqaa libanesa, parecem servir para mostrar que a hist\u00f3ria de Jesus e a salva\u00e7\u00e3o que Ele traz t\u00eam a ver, n\u00e3o apenas com os hebreus, mas com todos os povos, at\u00e9 os mais insignificantes, hoje dir\u00edamos, com as periferias. Os nomes de An\u00e1s e Caif\u00e1s, sumos-sacerdotes de 5 a.C. a 15 d.C. e de 18 a 36 d.C., respetivamente, trazem para a cena o poder religioso judaico, que se escandalizou com o comportamento de Jesus e solicitou a sua condena\u00e7\u00e3o \u00e0 morte.<\/p>\n<p>3. Ora bem, \u00e9 este mapa do mundo civil e religioso que \u00e9 aberto ao meio de forma clara e impiedosa pela Palavra de Deus (<em>rh\u00eama Theo\u00fb<\/em>) que veio como um acontecimento (<em>eg\u00e9neto<\/em>) sobre Jo\u00e3o Batista, no deserto (Lucas 3,2). Ent\u00e3o, recebendo a p\u00e1gina de outra maneira, a mais intensa, o elenco dos nomes dos grandes do mundo de ent\u00e3o n\u00e3o traduz tanto a pretens\u00e3o do narrador de fazer hist\u00f3ria. Em vez disso, com a precis\u00e3o do bisturi, quer dizer-nos que a Palavra de Deus passa ao lado dos senhores deste mundo, e cita Tib\u00e9rio C\u00e9sar, Herodes Antipas, Filipe, Lis\u00e2nias, An\u00e1s e Caif\u00e1s, e n\u00f3s podemos sempre atualizar este elenco, incluindo nele outros nomes e o nosso tamb\u00e9m. A\u00ed est\u00e1 o golpe a sangrar do bisturi de dois gumes que \u00e9 a Palavra de Deus (Salmo 149,6; Hebreus 4,12). De forma grandemente sintom\u00e1tica, a Palavra de Deus passa ao lado deste mundo rico e saciado, poderoso e religioso, impiedoso e insens\u00edvel, e, para grande espanto nosso, vai cair sobre um pobre, Jo\u00e3o Batista, que n\u00e3o habita em pal\u00e1cios, mas no deserto! E, tal como na primeira p\u00e1gina do Livro do G\u00e9nesis, a Palavra de Deus dita e feita veio (<em>wayh\u00ee<\/em>\u00a0TM;\u00a0<em>eg\u00e9neto<\/em>\u00a0LXX) sobre o caos (G\u00e9nesis 1,3), ordenando-o e imprimindo-lhe um sentido, sendo depois ordenado ao homem que continuasse essa tarefa, aqui est\u00e1 um novo sentido imprimido \u00e0 ca\u00f3tica hist\u00f3ria humana, sintomaticamente n\u00e3o pelos ricos e importantes, mas pelos pobres, e tamb\u00e9m n\u00e3o nas capitais, mas nas periferias, no deserto!<\/p>\n<p>4. No deserto nada \u00e9 obra das m\u00e3os do homem. Nada \u00e9 idol\u00e1trico, portanto. \u00c9 tudo obra das m\u00e3os de Deus. Nova cria\u00e7\u00e3o \u00e0 vista, onde irrompe outra vez a voz de Deus: uma voz que nunca se ouviu, um sil\u00eancio que nunca se calou! Caminhos novos, retificados, plenificados. Pura engenharia divina. A salva\u00e7\u00e3o de Deus ao alcance de todos. Universalidade. \u00c9 significativo que, ao contr\u00e1rio de Mateus 3,3, de Marcos 1,3 e de Jo\u00e3o 1,23, que citam apenas Isa\u00edas 40,3, Lucas alarga a cita\u00e7\u00e3o a Isa\u00edas 40,3-5, para incluir que \u00abtoda a carne ver\u00e1 a salva\u00e7\u00e3o de Deus\u00bb. \u00abToda a carne\u00bb, isto \u00e9, toda a humanidade. Como habitualmente, Lucas \u00e9 universalista e mission\u00e1rio (Evangelho mission\u00e1rio), e quer que a voz criadora de Deus desenhe caminhos novos para todos, retina em todos os ouvidos e leve a salva\u00e7\u00e3o a todos os cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>5. Este Domingo II do Advento serve-nos tamb\u00e9m a del\u00edcia de Baruc 5,1-9, isto \u00e9, todo o Cap\u00edtulo 5 do Livro deuterocan\u00f3nico de Baruc. Baruc passa por ser o secret\u00e1rio de Jeremias. Mas o Livro de Baruc, s\u00f3 conhecido em grego, \u00e9 tardio. E canta, de forma esplendorosa, a cidade de Jerusal\u00e9m personificada como Esposa e como M\u00e3e. Esposa de Deus, e como tal maravilhosamente vestida e adornada, e como M\u00e3e dos filhos de Deus, que regressam festivamente a Casa, vindos dos quatro cantos do mundo, unidos e reunidos, livres e felizes, sa\u00eddos de todas as opress\u00f5es, de todos os ex\u00edlios, de todas as orfandades.<\/p>\n<p>6. Por detr\u00e1s desta Esposa bela e M\u00e3e radiante, pode ver-se em filigrana a Noiva do Apocalipse, bela como uma Esposa adornada para o seu Esposo, a Igreja nossa M\u00e3e. No texto de Baruc, esta Esposa e M\u00e3e recebe um nome novo, dado por Deus. Quando \u00e9 Deus a dar o nome, isso significa criar: nova criatura, dileta, imagem perfeita de Deus, filha do amor, m\u00e3e do amor. N\u00f3s, que formamos esta Igreja, Esposa bela e M\u00e3e radiante, n\u00e3o podemos hoje deixar de cantar bem alto a nossa gratid\u00e3o e a nossa alegria. Imp\u00f5e-se ainda que fa\u00e7amos da nossa Igreja local, da nossa Par\u00f3quia, onde nos reunimos, \u00aba Casa carinhosa e acolhedora de Deus no meio das casas dos seus filhos e das suas filhas\u00bb, para o dizer com as palavras belas de S. Jo\u00e3o Paulo II, na Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica\u00a0<em>Christifideles laici<\/em>\u00a0[30 de Dezembro de 1988], n.\u00ba 26), que alguns anos antes j\u00e1 tinha dito, no mesmo sentido, que a voca\u00e7\u00e3o da par\u00f3quia \u00ab\u00e9 a de ser a casa de fam\u00edlia, fraterna e acolhedora\u00bb (Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica\u00a0<em>Catechesi tradendae<\/em>\u00a0[16 de Outubro de 1979], n.\u00ba 67).<\/p>\n<p>7. Para dizer esta alegria filial, batismal, temos de cantar que \u00abo Senhor fez maravilhas em favor do seu povo\u00bb. \u00c9 o Salmo 126, o canto do regresso a Casa, de um sonho feliz, da esta\u00e7\u00e3o das can\u00e7\u00f5es e das colheitas. Verdadeiramente Deus cuida de n\u00f3s. O Canto ritmado deste Salmo serve para nos abrir bem os olhos do cora\u00e7\u00e3o para vermos bem as inumer\u00e1veis maravilhas com que Deus enche os nossos caminhos todos os dias. Entre a sementeira e a ceifa, entre a dor e a alegria, o inverno e a primavera, a semente n\u00e3o erra e n\u00e3o mente. Segue o seu curso natural. Suavemente. A\u00ed est\u00e1, portanto, outra vez a jubilosa prociss\u00e3o dos exilados! E n\u00f3s, extasiados, como quem sonha, a boca cheia de riso e os l\u00e1bios de can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>8. E a\u00ed est\u00e1 o princ\u00edpio da Carta de S. Paulo aos Filipenses (1,4-6.8-11). Filipos foi a primeira comunidade crist\u00e3 fundada por Paulo em solo europeu, a\u00ed pelo ano 49 ou 50. Quanta alegria, quanta ternura, quanto amor, quanta sensibilidade crist\u00e3 perpassa esta bela p\u00e1gina de S\u00e3o Paulo. Deliciemo-nos. Ser crist\u00e3o, filho de Deus, membro desta Igreja Esposa e M\u00e3e, \u00e9 deliciar-se e ser delicioso. Este \u00e9 o caminho novo que urge abrir direitinho ao nosso cora\u00e7\u00e3o e ao cora\u00e7\u00e3o da humanidade.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O Senhor do Advento<\/p>\n<p>\u00c9 Aquele-que-Vem<\/p>\n<p>Nascer em Bel\u00e9m,<\/p>\n<p>Bater \u00e0 nossa porta,<\/p>\n<p>Pedir ao nosso cora\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Um bocadinho de p\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>T\u00e3o pouco e tanto<\/p>\n<p>Nos pede Jesus,<\/p>\n<p>E para nosso espanto,<\/p>\n<p>E encanto nosso,<\/p>\n<p>O Filho de Maria<\/p>\n<p>Vem vestido de irm\u00e3o nosso<\/p>\n<p>De cada dia.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Ele anda por a\u00ed,<\/p>\n<p>Ao frio e ao calor,<\/p>\n<p>Rico e pobrezinho,<\/p>\n<p>Nosso Senhor.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Vem, Menino,<\/p>\n<p>Senhor do mundo,<\/p>\n<p>Do sol e da lua,<\/p>\n<p>Bate \u00e0 minha porta,<\/p>\n<p>Entra em minha casa,<\/p>\n<p>E que, por gra\u00e7a,<\/p>\n<p>Entre eu tamb\u00e9m na tua.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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