{"id":669921124,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/13171-domingo-xvi-do-tempo-comum-reunidos-a-volta-de-jesus"},"modified":"2025-11-07T16:34:01","modified_gmt":"2025-11-07T16:34:01","slug":"domingo-xvi-do-tempo-comum-reunidos-a-volta-de-jesus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-xvi-do-tempo-comum-reunidos-a-volta-de-jesus\/","title":{"rendered":"Domingo XVI do Tempo Comum: \u00abReunidos \u00e0 volta de Jesus\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031_160503044443.jpg\" \/><\/p>\n<p><p data-adtags-visited=\"true\">Jr 23,1-6; Sl 23; Ef 2,13-18; Mc 6,30-34<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">1. O Evangelho deste Domingo XVI do Tempo Comum (Marcos 6,30-34) insere-se numa bela sequ\u00eancia de preciosos textos. Importante n\u00e3o perder de vista o fio de ouro (ou de sentido) que entretece os epis\u00f3dios que, com extrema habilidade, Marcos coloca diante dos nossos olhos. Em Marcos 6,1-6, Jesus \u00e9 rejeitado na sua\u00a0<em>p\u00e1tria<\/em>, prolepse de tudo o que lhe vai acontecer. No epis\u00f3dio seguinte, Marcos 6,7-13, Jesus envia os \u00abDoze\u00bb em miss\u00e3o. Envia-os dois a dois, leves e ledos, sem nada a que se agarrar ou os fa\u00e7a distrair. A sua \u00fanica bagagem \u00e9 o Evangelho. Logo a seguir, em Marcos 6,14-29, \u00e9 narrada a vers\u00e3o popular do mart\u00edrio de Jo\u00e3o Batista, que difere da vers\u00e3o pol\u00edtica de Fl\u00e1vio Josefo. Em Marcos 6,30, \u00abos Ap\u00f3stolos\u00bb (<em>hoi ap\u00f3stolloi<\/em>) re\u00fanem-se junto de Jesus, e narraram-lhe\u00a0<em>tudo<\/em>\u00a0o que tinham feito e ensinado (Marcos 6,30). \u00c9 aqui e assim que come\u00e7a o Evangelho de hoje.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">2. De notar, em primeiro lugar, que o envio em miss\u00e3o dos \u00abDoze\u00bb aparece premonitoriamente colocado entre a rejei\u00e7\u00e3o de Jesus e o mart\u00edrio de Jo\u00e3o Batista. Esta leitura sai ainda refor\u00e7ada se tivermos em conta que o epis\u00f3dio do mart\u00edrio de Jo\u00e3o Batista rasga em duas partes a miss\u00e3o dos \u00abDoze\u00bb, intrometendo-se entre o envio de junto de Jesus e o an\u00fancio feito pelos \u00abDoze\u00bb (Marcos 6,7-13), e o regresso de \u00abos Ap\u00f3stolos\u00bb (<em>hoi ap\u00f3stoloi<\/em>) a Jesus (Marcos 6,30).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">3. De notar, em segundo lugar, a permanente refer\u00eancia a Jesus por parte dos \u00abDoze\u00bb. Na verdade, \u00e9 Jesus que os envia, e envia-os dois a dois, \u00e9 d\u2019Ele que partem, \u00e9 d\u2019Ele que s\u00e3o arautos, mensageiros ou testemunhas, \u00e9 a Ele que regressam, \u00e9 a Ele que fazem a \u00abrela\u00e7\u00e3o\u00bb de\u00a0<em>tudo<\/em>\u00a0(<em>p\u00e1nta<\/em>) o que tinham feito e ensinado. Compreende-se de quanto se l\u00ea nas linhas e entrelinhas que a mensagem que lhes \u00e9 confiada por Jesus tem de ser anunciada tal qual, n\u00e3o lhes competindo ajust\u00e1-la aos seus gostos ou aos desejos dos seus destinat\u00e1rios. E \u00e9 por isso que, no seu regresso a Jesus t\u00eam de lhe fazer uma rela\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>tudo<\/em>\u00a0o que tinham feito e ensinado, porque \u00e9 perante Jesus que t\u00eam de responder. Note-se que n\u00e3o fazem a Jesus uma \u00abrela\u00e7\u00e3o\u00bb por alto, mas uma \u00abrela\u00e7\u00e3o\u00bb exaustiva: de \u00abtudo\u00bb.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">4. Uma intelig\u00eancia mais profunda do envio \u00abdois a dois\u00bb faz-nos ver que \u00abos Doze\u00bb n\u00e3o v\u00e3o em nome pr\u00f3prio, mas s\u00e3o apenas testemunhas daquele que os enviou. E, porque \u00e9 de testemunho que se trata, para que este seja v\u00e1lido, requer-se a presen\u00e7a de duas ou tr\u00eas testemunhas (cf. Deuteron\u00f3mio 19,15 e Jo\u00e3o 8,17). Mas o envio \u00abdois a dois\u00bb faz-nos ver ainda que entre \u00abos Doze\u00bb e Jesus h\u00e1 um v\u00ednculo profundo, valendo aqui a palavra de Jesus: \u00abOnde est\u00e3o dois ou tr\u00eas reunidos em meu nome, ali estou Eu no meio deles\u00bb (Mateus 18,20).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">5. Depois de noticiado este regresso a Jesus e da men\u00e7\u00e3o ao relat\u00f3rio exaustivo da miss\u00e3o feito a Jesus, os \u00abDoze\u00bb s\u00e3o, pela primeira vez, chamados \u00abos Ap\u00f3stolos\u00bb (<em>hoi ap\u00f3stoloi<\/em>) (Marcos 6,30). Nunca at\u00e9 aqui, neste Evangelho, foram chamados \u00abos Ap\u00f3stolos\u00bb. E Jesus retoma agora a iniciativa, vinculando-os ainda mais, se assim se pode dizer, a si mesmo, convidando-os \u00e0 comunh\u00e3o com Ele (\u00abVinde\u00bb) e ao descanso, separando-os para o efeito da multid\u00e3o que os apertava (Marcos 6,31). J\u00e1 se sabe que quem quiser ter uma vida c\u00f3moda e sossegada, n\u00e3o est\u00e1 apto para o servi\u00e7o do Evangelho. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o se deve recorrer a um ativismo desenfreado. O ativismo desenfreado n\u00e3o \u00e9 um comportamento crist\u00e3o. \u00abE partiram na barca para um lugar deserto, \u00e0 parte\u00bb (Marcos 6,32). No Evangelho de Marcos, a \u00abbarca\u00bb (<em>t\u00f2 plo\u00eeon<\/em>) demarca um espa\u00e7o privilegiado que Jesus partilha unicamente com os seus disc\u00edpulos.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">6. Fica-se unicamente pela barca a estreita comunh\u00e3o de Jesus com os seus disc\u00edpulos. \u00c9 mesmo s\u00f3 a comunh\u00e3o que sai real\u00e7ada, pois nada nos \u00e9 dito sobre nenhum particular assunto de conversa durante a viagem. Sa\u00eddos na barca da press\u00e3o da multid\u00e3o, ei-los que, ao sair da barca, ficam outra vez no meio da multid\u00e3o. E o narrador l\u00e1 est\u00e1 para nos dizer que \u00abEle viu\u00bb (<em>e\u00eeden<\/em>) (Marcos 6,34). \u00c9 a quinta vez, neste Evangelho, que o narrador nos diz que Jesus \u00abviu\u00bb (Marcos 1,10; 1,16; 1,19; 2,14; 6,34).\u00a0 A primeira vez, \u00abviu\u00bb os c\u00e9us abertos e o Esp\u00edrito a descer (Marcos 1,10). A segunda vez, \u00abviu\u00bb Sim\u00e3o e Andr\u00e9 (Marcos 1,16). A terceira vez, \u00abviu\u00bb Tiago e Jo\u00e3o (Marcos 1,19). A quarta vez, \u00abviu\u00bb Levi (Marcos 2,14). Nestas quatro primeiras vezes, este \u00abver\u00bb de Jesus desencadeia um agir novo e decisivo. Tamb\u00e9m agora, na quinta vez, o olhar de Jesus abre para uma p\u00e1gina de sublime miseric\u00f3rdia (<em>esplagchn\u00edsth\u00ea<\/em>) (Marcos 6,34), que leva Jesus a reunir e abra\u00e7ar aquela multid\u00e3o de ovelhas sem pastor, e a ensin\u00e1-las demoradamente, dando resposta plena \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o de Mois\u00e9s no deserto, \u00e0 entrada da Terra Prometida, pedindo a Deus um novo guia \u00abpara que a comunidade do Senhor n\u00e3o seja como um rebanho sem pastor\u00bb (N\u00fameros 27,17). Uma comunidade cai em ru\u00ednas quando \u00e9 atropelada pelo individualismo e pelo ego\u00edsmo dos seus membros, e torna-se um povo sem pastor quando n\u00e3o tem nem reconhece normas e valores comuns. Portanto, primeiro Jesus assume sobre si a figura do Bom Pastor, e ensin\u00e1-los-\u00e1 demoradamente. Depois, repartir\u00e1 com eles o p\u00e3o. O gr\u00e3o do esp\u00edrito precede o gr\u00e3o de trigo.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">7. Este Jesus, que assume sobre si os tra\u00e7os do Bom Pastor, que se reparte totalmente entre os seus Ap\u00f3stolos e o povo, impressionou grandemente as primeiras gera\u00e7\u00f5es crist\u00e3s. \u00c9 assim que a figura do Bom Pastor, carregando uma ovelha aos ombros, faz parte das primeiras representa\u00e7\u00f5es que encontramos nos frescos, relevos e est\u00e1tuas j\u00e1 nas antigas catacumbas. Ainda recentemente arque\u00f3logos Israelitas encontraram perto do antigo porto de Cesareia Mar\u00edtima um anel de ouro, da \u00e9poca romana, com a imagem de Jesus como o Bom Pastor. Esta representa\u00e7\u00e3o \u00e9 certamente uma das mais significativas de Jesus, e \u00e9 belo ver como ela perdura ao longo dos s\u00e9culos. Como para dizer que todos se podem aproximar de Jesus, dado que Ele se enche de compaix\u00e3o por todos.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">8. Jeremias 23,1-6 constitui um marco, tra\u00e7a uma fronteira entre um tempo velho e a cair de podre, marcado por aquele \u00abAi (<em>h\u00f4y<\/em>) dos pastores que perdem e dispersam as ovelhas do meu rebanho, or\u00e1culo do SENHOR!\u00bb (Jeremias 23,1), que retoma aquele \u00abAi\u00bb que arrasa o tirano rei Joaquim (609-597) e o toma como paradigma dos maus pastores (Jeremias 22,18), que ser\u00e1 sepultado como um jumento (Jeremias 22,19). O grande profeta de Anatot v\u00ea bem a ru\u00edna dos poderosos, mas v\u00ea e sente na pr\u00f3pria pele tamb\u00e9m a desgra\u00e7a que se abate sobre os pobres, porque n\u00e3o h\u00e1 pastores bons e justos que lhes indiquem os caminhos a seguir (Jeremias 23,2). O pr\u00f3prio Deus se prop\u00f5e reunir e cuidar em primeira m\u00e3o das suas ovelhas (Jeremias 23,3), e promete enviar no futuro um descendente de David, um \u00abG\u00e9rmen justo\u00bb (<em>tsemah tsadd\u00eeq<\/em>), um pastor bom e justo, que trar\u00e1 consigo o direito e a justi\u00e7a (Jeremias 23,5), e o seu nome ser\u00e1 \u00abO SENHOR,\u00a0<em>nossa<\/em>\u00a0justi\u00e7a\u00bb (<em>YHWH tsidqen\u00fb<\/em>) (Jeremias 23,6). Este nome novo, referido no plural [\u00ab<em>nossa<\/em>\u00a0justi\u00e7a\u00bb], atinge e condena tamb\u00e9m o rei Sedecias (<em>tsidqiyah<\/em>) (597-587), cujo nome significa \u00abO SENHOR,\u00a0<em>minha<\/em>\u00a0justi\u00e7a\u00bb, referido no singular, e que, devido aos seus cambalachos pol\u00edticos entre a Babil\u00f3nia e o Egito, acarretou sobre o povo de Jud\u00e1 o desastre de 587. Mas \u00e9 sobretudo not\u00f3rio que o \u00abG\u00e9rmen justo\u00bb, que receber\u00e1 o nome de \u00abO SENHOR,\u00a0<em>nossa<\/em>\u00a0justi\u00e7a\u00bb, da descend\u00eancia de David, e que salvar\u00e1 o seu povo, aponta j\u00e1 para Jesus, o Bom Pastor, que sente compaix\u00e3o pelas suas ovelhas, como se v\u00ea no Evangelho de hoje.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">9. Na li\u00e7\u00e3o da Carta aos Ef\u00e9sios 2,13-18, Paulo p\u00f5e diante de n\u00f3s todos, judeus e pag\u00e3os, a a\u00e7\u00e3o salvadora e unificadora de Jesus Cristo. Nele, na sua Cruz, no seu Corpo, novo Templo, n\u00e3o h\u00e1 mais lugar para separa\u00e7\u00f5es, cai o muro que, no velho Templo, separava o \u00e1trio dos pag\u00e3os do \u00e1trio dos judeus. Jesus Cristo, aproximando-se de todos, aproximou-nos a todos, os de longe e os de perto, destruiu \u00f3dios e toda a esp\u00e9cie de barreiras, e estabeleceu a Paz entre n\u00f3s. O Evangelho, que \u00e9 Cristo, une, re\u00fane, enla\u00e7a, entrela\u00e7a, gera fraternidade. Bem \u00e0 vista tamb\u00e9m no Evangelho de hoje.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">10. Quanto ao mais, todo o tempo \u00e9 tempo para nos deixarmos conduzir pela m\u00e3o carinhosa e pela voz maternal e melodiosa do Bom e Belo Pastor, cantando o Salmo 23. Sim, Ele recebe bem os seus h\u00f3spedes: faz-nos uma visita guiada pelos seus prados muito verdes, cheios de \u00e1guas muito azuis, unge com \u00f3leo perfumado a nossa cabe\u00e7a, estende no ch\u00e3o do seu c\u00e9u a \u00abpele de vaca\u00bb (<em>shulhan<\/em>), que \u00e9 a sua mesa, serve-nos vinhos generosos\u2026 \u00c9 a alegria da nossa fam\u00edlia reunida. Confessou o fil\u00f3sofo franc\u00eas Henri Bergson: \u00abAs centenas de livros que li nunca me trouxeram tanta luz e conforto como os versos do Salmo 23\u00bb.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">11. Aproveitamos para deixar j\u00e1 aberta a p\u00e1gina que se segue no Evangelho de Marcos: o p\u00e3o, o p\u00e3o, o p\u00e3o! Fazemos notar que no texto grego, original, o nome \u00abJesus\u00bb aparece em Marcos 6,30, texto hoje lido, e desaparece, para reaparecer 89 vers\u00edculos depois, em Marcos 8,27, quando Jesus parte com os seus disc\u00edpulos para Cesareia de Filipe. S\u00e3o 89 vers\u00edculos (mais de 13% do Evangelho de Marcos que, no seu todo, conta 677 vers\u00edculos), em que desaparece o nome \u00abJesus\u00bb para aparecer em catadupa o nome \u00abp\u00e3o\u00bb por 21 vezes! A pedagogia b\u00edblica e hebraica sabe bem que esconder uma realidade \u00e9 chamar a aten\u00e7\u00e3o para ela, pois toda a gente quer saber o que l\u00e1 est\u00e1 escondido! Trata-se, portanto, de um extraordin\u00e1rio texto sobre a Eucaristia com o clar\u00edssimo convite ao leitor para aprender a ver Jesus no p\u00e3o! Mas nos pr\u00f3ximos cinco Domingos (XVII a XXI), n\u00e3o leremos Marcos, mas Jo\u00e3o 6, que cont\u00e9m o grande discurso do p\u00e3o da vida.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jr 23,1-6; Sl 23; Ef 2,13-18; Mc 6,30-34 1. 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