{"id":678347921,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/13118-domingo-xii-do-tempo-comum-jesus-a-popa-dormia-sobre-uma-almofada"},"modified":"2025-11-07T16:34:01","modified_gmt":"2025-11-07T16:34:01","slug":"domingo-xii-do-tempo-comum-jesus-a-popa-dormia-sobre-uma-almofada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-xii-do-tempo-comum-jesus-a-popa-dormia-sobre-uma-almofada\/","title":{"rendered":"Domingo XII do Tempo Comum: \u00abJesus, \u00e0 popa, dormia sobre uma almofada\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031_160503044443.jpg\" \/><\/p>\n<p><p data-adtags-visited=\"true\">Job 38,1.8-11; Sl 107; 2 Cor 5,14-17; Mc 4,35-41<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">1. Vale a pena abrir a p\u00e1gina com a serenidade do bel\u00edssimo epis\u00f3dio do Evangelho deste Domingo XII do Tempo Comum (Marcos 4,35-41):<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">\u00abE diz-lhes naquele dia, \u00e0 tardinha: \u201cPassemos para a outra margem\u201d. E tendo eles deixado a multid\u00e3o, tomam-no consigo (<em>paralamb\u00e1nousin aut\u00f3n<\/em>), assim como estava (<em>h\u00f4s \u00ean<\/em>), na barca (<em>en t\u00f4 plo\u00ed\u00f4<\/em>), e outras barcas estavam com Ele. E acontece uma grande tempestade de vento, e as ondas atiravam-se para dentro da barca, de maneira a ficar cheia a Barca. E Ele estava \u00e0 popa (<em>pr\u00fdmna<\/em>), dormindo (<em>kathe\u00fad\u00f4n<\/em>) sobre a almofada (<em>ep\u00ec t\u00f4 proskeph\u00e1laion<\/em>). E acordam-no e dizem-lhe: \u201cMestre, Tu n\u00e3o Te importas que pere\u00e7amos?\u201d. E, tendo acordado, ordenou ao vento e disse ao mar: \u201cCala-te! Acalma-te!\u201d. E cessou o vento, e aconteceu grande bonan\u00e7a. E disse-lhes: \u201cPor que tendes medo? Ainda n\u00e3o tendes f\u00e9?\u201d. E foram amedrontados (<em>ephob\u00eath\u00easan<\/em>) de um medo grande (<em>ph\u00f3bos m\u00e9gas<\/em>), e diziam uns para os outros: \u201cQuem \u00e9 este, a quem at\u00e9 o vento e o mar obedecem?\u201d\u00bb.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">2. Um Evangelho de excel\u00eancia, uma p\u00e1gina imensa, como o mar imenso, em que somos convidados a mergulhar. Um luxo. Em pleno mar da Galileia, os disc\u00edpulos \/ ap\u00f3stolos de Jesus lutam, aflitos, contra a tempestade que amea\u00e7a desfazer a pequena e fr\u00e1gil embarca\u00e7\u00e3o no meio do mar encapelado (Marcos 4,35-41). A arqueologia p\u00f4s a descoberto as pequenas embarca\u00e7\u00f5es de pesca do tempo de Jesus. Tinham cerca de 8 metros de comprimento por 2,5 metros de largura, tornando-se, portanto, presa f\u00e1cil das ondas e do vento. E em claro e sereno contraponto, narra o Evangelho, \u00abJesus, \u00e0 popa, dormia deitado sobre uma almofada\u00bb (Marcos 4,38). N\u00e3o nos esque\u00e7amos que a popa, a parte traseira do barco, \u00e9 o lugar de comando da embarca\u00e7\u00e3o. A parte dianteira \u00e9 a proa. Jesus permanece, portanto, no comando da nossa barca, da nossa vida, ainda que muitas vezes nem nos apercebamos da serenidade da sua condu\u00e7\u00e3o. A presen\u00e7a da almofada na pobre embarca\u00e7\u00e3o e do sono sereno de Jesus marcam bem o tom doce e tranquilo deste condutor diferente da nossa vida agitada. Mas n\u00e3o \u00e9 a nossa agita\u00e7\u00e3o que conta. \u00c9 o seu sono tranquilo. Ainda que algumas vezes n\u00f3s caiamos na tenta\u00e7\u00e3o, como, de resto, sucede com aqueles disc\u00edpulos, de julgar o sono de Jesus como indiferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a n\u00f3s (Marcos 4,38).<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Canta bem a Liturgia das Horas da Igreja:<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00abSe me colhe a tempestade,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">E Jesus vai a dormir na minha barca,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Nada temo porque a Paz est\u00e1 comigo\u00bb.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">3. Senhor, Tu falas, tu fazes, tu chamas, tu ordenas. Todos os caminhos v\u00eam de ti, v\u00e3o para ti. \u00c9s tu o Senhor de todos os chamados, de todos os reunidos, de todos os enviados. Tu \u00e9s a casa, a mesa, o caminho, o vinho, o p\u00e3o, o peixe. Velas por todos: pelos pais, pelos filhos, pelos irm\u00e3os, pelos desfilhados, pelos \u00f3rf\u00e3os, pelos desirmanados. Vela por n\u00f3s, Senhor, orienta a nossa barca, deita-te tranquilamente \u00e0 popa (Marcos 4,38): o teu sono sereno h\u00e1 de certamente serenar as nossas tempestades.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">4. Marcos descreve tr\u00eas travessias do mar da Galileia. Al\u00e9m da de hoje (Marcos 4,35-41), veja-se tamb\u00e9m Marcos 6,45-52 e 8,13-21. Carateriza-as sempre o facto de a preced\u00ea-las estar o afastamento das multid\u00f5es. Por outro lado, estas travessias do mar na barca deixam Jesus a s\u00f3s com os seus disc\u00edpulos, possibilitando-lhes uma experi\u00eancia pessoal com Ele. A barca (<em>t\u00f2 plo\u00eeon<\/em>) demarca, de resto, um espa\u00e7o privilegiado que Jesus partilha unicamente com os seus disc\u00edpulos. Mais ningu\u00e9m entra nessa barca, ainda que o solicite (veja-se Marcos 5,18).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">5. Na travessia de hoje, levantou-se uma violenta tempestade, que encheu de \u00e1gua a pequena barca e de medo aqueles disc\u00edpulos. Como Jesus dormia tranquilamente deitado sobre a almofada, os disc\u00edpulos correram a acord\u00e1-lo, deixando no ar um certo tom acusat\u00f3rio por aquilo que julgavam ser o desinteresse de Jesus pela vida dos que seguiam com Ele: \u00abTu n\u00e3o te importas que pere\u00e7amos?\u00bb (Marcos 4,38).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">6. Jesus levanta-se e mostra um modo novo de fazer, bem diferente dos seus disc\u00edpulos. Dirige-se primeiro ao vento e ao mar, dando duas ordens: \u00abCala-te! Acalma-te!\u00bb (Marcos 4,39). E parou o vento, e fez-se bonan\u00e7a no mar (Marcos 4,39). S\u00f3 depois disto, Jesus se dirige aos seus disc\u00edpulos, n\u00e3o com duas ordens, mas com duas perguntas: \u00abPor que tendes medo? Ainda n\u00e3o tendes f\u00e9?\u00bb (Marcos 4,40). Os disc\u00edpulos n\u00e3o responderam, mas expressam a sua rea\u00e7\u00e3o perante tudo o que viram Jesus fazer e ouviram Jesus dizer: \u00abQuem \u00e9 este, que at\u00e9 o vento e o mar lhe obedecem?\u00bb (Marcos 4,41).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">7. J\u00e1 l\u00e1 atr\u00e1s, em Cafarnaum, Jesus tinha dado ordens a um esp\u00edrito impuro, e ele obedeceu (Marcos 1,26-27). Fica ent\u00e3o claro que os esp\u00edritos impuros e as for\u00e7as da natureza, que n\u00e3o reagem a palavras humanas, seguem \u00e0 letra as ordens de Jesus. Os disc\u00edpulos saem ent\u00e3o de um temor, n\u00e3o para a acalmia, para outro temor ainda maior. \u00c9 o temor que resulta da experi\u00eancia do poder divino, sobre humano (cf. \u00caxodo 14,31). Se o perigo se manifesta superior ao homem, ent\u00e3o, a salva\u00e7\u00e3o do perigo tem de ser ainda maior, vence a humana impot\u00eancia e desperta o sentido profundo do sagrado. O novo temor daqueles disc\u00edpulos mostra o sentido que come\u00e7am a ver nascer do fazer divino de Jesus. Mas expressa tamb\u00e9m o seu espanto diante da pergunta de Jesus [\u00abainda n\u00e3o tendes f\u00e9?\u00bb], que deixa supor que lhes era requerida uma f\u00e9 sem medida e sem condi\u00e7\u00e3o. Se fosse requerida por um homem, uma tal f\u00e9 seria imposs\u00edvel e sem sentido. A pergunta que os disc\u00edpulos se fazem entre si \u00e9, portanto, dupla: \u00abQuem \u00e9 este que faz tais coisas, e que pede uma tal f\u00e9\u00bb? Esta pergunta n\u00e3o exprime d\u00favida, mas espanto sagrado e pesquisa atenta. Acompanh\u00e1-los-\u00e1 daqui para a frente no seu caminho com Jesus. Para j\u00e1 d\u00e1 para entender que \u00e9 Deus que anda por ali.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">8. Note-se que, no epis\u00f3dio hoje diante de n\u00f3s estendido, e nunca de todo entendido, a iniciativa de fazer os disc\u00edpulos entrar na barca \u00e9 de Jesus (Marcos 4,35). Mas tamb\u00e9m \u00e9 dito que os disc\u00edpulos \u00abpegam em Jesus, assim como estava, na barca\u00bb (Marcos 4,36). Pode passar despercebido, mas esta fant\u00e1stica anota\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma pequena nota do di\u00e1rio de bordo daquela travessia mar\u00edtima. Serve, antes, para nos apercebermos bem que, na verdade, \u00e9 Jesus que conduz aqueles disc\u00edpulos, estes disc\u00edpulos, e que pega neles e em n\u00f3s assim como somos, assim como estamos: impotentes, desarmados, cheios de medo!<\/p>\n<p class=\"inline-ad-slot\" data-adtags-visited=\"true\" data-adtags-width=\"450\" id=\"inline-ad-1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">9. A li\u00e7\u00e3o do Livro de Job, de hoje (Job 38,1.8-11), faz boa companhia \u00e0 soberba p\u00e1gina do Evangelho. Antes de mais, mostra um Deus absolutamente soberano, incontrol\u00e1vel, que n\u00e3o surge na ponta das nossas perguntas ou pedidos. \u00c9 um Deus absolutamente livre, que irrompe do seio da tempestade, isto \u00e9, do seio da liberdade, como nas antigas teofanias. N\u00e3o vem para responder \u00e0s muitas perguntas de Job. Vem, antes, para mostrar as maravilhas da cria\u00e7\u00e3o que nos rodeiam, e fazer-nos perguntas, para as quais n\u00e3o temos resposta nenhuma. Apenas a adora\u00e7\u00e3o e o louvor. \u00c9 assim que Deus faz passar diante de Job as p\u00e1ginas de um \u00e1lbum repleto de maravilhas impenetr\u00e1veis. E Job fica maravilhado, at\u00f3nito, e reconhece que nada sabe, ou que apenas sabe decifrar um ou outro fragmento deste mapa deslumbrante. Uma das p\u00e1ginas deste \u00e1lbum, a de hoje, \u00e9 dedicada ao mar, de acordo com o Evangelho. As tintas s\u00e3o excecionais: o ventre de que irrompe, as faixas em que \u00e9 envolvido como uma crian\u00e7a quando nasce, as portas e ferrolhos que o seguram\u2026 S\u00f3 pode tudo isto ser afazer de Deus!<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">10. E a\u00ed est\u00e1 S. Paulo na Segunda Carta aos Cor\u00edntios (5,14-17), que continuamos a ter a gra\u00e7a de escutar. A chave da vida de Paulo e da nossa \u00e9 o amor de Cristo por n\u00f3s, que deve desencadear em n\u00f3s o nosso amor por Cristo, de modo a vivermos, n\u00e3o j\u00e1 para n\u00f3s mesmos, em clave ego\u00edsta, egoc\u00eantrica e autorreferencial, mas para Cristo que por n\u00f3s morreu e ressuscitou. E a\u00ed est\u00e1 uma nova e bela criatura, nascida da gra\u00e7a, chamada a dar gra\u00e7as.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">11. Hoje temos a gra\u00e7a de sermos postos a cantar o Salmo 107, que, na sua estrutura, se apresenta como que composto por quatro ex-votos de pessoas libertadas no meio das diferentes dificuldades que as assolavam. O primeiro ex-voto \u00e9 de um viajante que se perde e \u00e9 salvo no deserto (vv. 4-9). O segundo vem de um prisioneiro, salvo das cadeias que o oprimiam (vv. 10-16). O terceiro vem de um doente libertado das suas dores e da morte (vv. 17-22). O quarto e o mais original, que ser\u00e1 a parte cantada hoje, vem de um marinheiro libertado no meio de uma tempestade. De forma significativa, Santo Agostinho, na sua exegese espiritual e aleg\u00f3rica, aplica esta \u00faltima parte do Salmo aos timoneiros da barca da Igreja, isto \u00e9, aos pastores que, diz ele, \u00abquanto mais honras t\u00eam, mais perigos t\u00eam\u00bb. E eu digo: \u00e9 de ter a peito esta leitura sapiencial e profunda, que perfura a superf\u00edcie das coisas, e nos deixa ocupados num s\u00e9rio exame de consci\u00eancia. Diga-se ainda que o Salmo apresenta duas palavras dominantes: uma \u00e9 a\u00a0<em>hesed<\/em>\u00a0divina, o amor de Deus sempre fiel; a outra \u00e9 a\u00a0<em>t\u00f4dah<\/em>\u00a0humana, a humana gratid\u00e3o a Deus pelos seus feitos maravilhosos em nosso favor. As duas formam um belo abra\u00e7o.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Job 38,1.8-11; Sl 107; 2 Cor 5,14-17; Mc 4,35-41 1. 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