{"id":687058049,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/8125-domingo-xxiii-do-tempo-comum-tudo-fez-bem-feito"},"modified":"2025-11-07T16:33:18","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:18","slug":"domingo-xxiii-do-tempo-comum-tudo-fez-bem-feito-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-xxiii-do-tempo-comum-tudo-fez-bem-feito-2\/","title":{"rendered":"Domingo XXIII do Tempo Comum: \u00abTudo fez bem feito\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p>1. Em termos de caixilho geogr\u00e1fico, a cura de um surdo-mudo narrada no Evangelho deste Domingo XXIII (Marcos 7,31-37) decorre fora das fronteiras de Israel, a oriente do mar da Galileia, na Dec\u00e1pole. Al\u00e9m do epis\u00f3dio de hoje, o Evangelho de Marcos regista apenas mais tr\u00eas epis\u00f3dios fora das fronteiras de Israel: tamb\u00e9m na Dec\u00e1pole (Gerasa), a cura de um endemoninhado (5,1-20) e a segunda \u00abmultiplica\u00e7\u00e3o\u00bb dos p\u00e3es (8,1-9), e a noroeste, na regi\u00e3o de Tiro, o epis\u00f3dio da mulher sirofen\u00edcia (7,24-30). Estas sa\u00eddas do Evangelho em pessoa para terra pag\u00e3 baralham os nossos esquemas de \u00abantes\u00bb e \u00abdepois\u00bb [primeiro os judeus, depois os gregos], pr\u00f3prios da nossa mentalidade fechada, mas que n\u00e3o cabem no amor de Deus. Al\u00e9m disso, podem ser vistos ainda como uma prolepse da futura prega\u00e7\u00e3o do Evangelho entre os pag\u00e3os.<\/p>\n<p>2. Sendo um entre muitos relatos de cura por parte de Jesus, este epis\u00f3dio da cura de um surdo-mudo apresenta uma fisionomia pr\u00f3pria assente em tra\u00e7os singulares. As pessoas trazem o pobre homem, incapaz de falar e de ouvir e inapto para entrar na assembleia de Deus, e pedem a Jesus que lhe imponha as m\u00e3os (Marcos 7,32). Em vez disso, Jesus faz uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es: 1) toma-o \u00e0 parte, para longe da multid\u00e3o; 2) toca os \u00f3rg\u00e3os privados da sua fun\u00e7\u00e3o: ouvidos e l\u00edngua; 3) ergue os olhos para o c\u00e9u; 4) suspira; 5) diz para o surdo-mudo: \u00ab<em>Effatha<\/em>, abre-te!\u00bb.<\/p>\n<p>3. Jesus atende sempre a nossa s\u00faplica. Mas n\u00e3o do modo que lhe pedimos. Assim: n\u00e3o imp\u00f4s as m\u00e3os ao surdo-mudo, mas tocou com as suas m\u00e3os os ouvidos e a l\u00edngua daquele homem. Entenda-se j\u00e1 este gesto e mais do que este gesto: \u00e9 tocando com as suas m\u00e3os tudo o que est\u00e1 doente, que Jesus o assume e o cura. \u00c9 assumindo a nossa carne toda de pecado, de recusa e viol\u00eancia, que Jesus cura a nossa humanidade ferida e pecadora. Ergue os olhos para o c\u00e9u: gesto sacerdotal da ora\u00e7\u00e3o sacerdotal de Jesus (Jo\u00e3o 17,1). Suspirou: suspirar (<em>sten\u00e1z\u00f4<\/em>) \u00e9 rezar e interceder por n\u00f3s \u00e0 maneira do Esp\u00edrito, que intercedia por n\u00f3s com \u00absuspiros sem palavras\u00bb (<em>stenagm\u00f2s al\u00e1l\u00eatos<\/em>) (Romanos 8,26). O gesto de erguer os olhos para o c\u00e9u, gesto de ora\u00e7\u00e3o, logo traduzido no suspiro mostra que Jesus age em especial\u00edssima rela\u00e7\u00e3o com o Pai. De resto, no contexto de uma cura, s\u00f3 aqui Jesus ergue os olhos para o c\u00e9u; do mesmo modo, s\u00f3 Marcos recorda o suspiro de Jesus (7,34; 8,12). Riqu\u00edssima simbologia. Tamb\u00e9m s\u00f3 aqui (<em>Effatha<\/em>) e em Marcos 5,41 (<em>Thalitha k\u00fbm<\/em>), a ordem de Jesus aparece pronunciada em aramaico, e depois traduzida em grego.\u00a0<em>Effatha<\/em>\u00a0(<em>etftah<\/em>, de\u00a0<em>ptah<\/em>, abrir).<\/p>\n<p>4. Depois desta sequ\u00eancia de gestos de Jesus, que culmina com aquela ordem (<em>Effatha<\/em>), o sucesso surge imediatamente: o surdo-mudo abre-se, e come\u00e7a a ouvir e a falar (Marcos 7,35). E a multid\u00e3o reage manifestando um estado de maravilha (<em>exepl\u00eassonto<\/em>: imperf. pass. de\u00a0<em>ekpl\u00eass\u00f4<\/em>) para al\u00e9m de todas as medidas (<em>hyperperism\u00f2s<\/em>) (Marcos 7,37a), express\u00e3o que n\u00e3o encontramos em mais nenhum lugar do Evangelho. E a palavra que acompanha o espanto: \u00abBem todas as coisas fez: os surdos faz ouvir e os mudos falar\u00bb (Marcos 7,37b). remete claramente para a obra da cria\u00e7\u00e3o (G\u00e9nesis 1).<\/p>\n<p>5. Serve de ch\u00e3o ao Evangelho de hoje o texto de Isa\u00edas 35,4-7, que se integra no chamado \u00abPequeno Apocalipse de Isa\u00edas\u00bb (Isa\u00edas 34-35). Se o Cap\u00edtulo 34 aparece constru\u00eddo sobre um mundo de castigo e de julgamento, de c\u00f3lera e destrui\u00e7\u00e3o, o Cap\u00edtulo 35 transporta-nos para um mundo de paz de alegria, em que a marcha ao longo do deserto dos exilados hebreus que regressavam da Babil\u00f3nia mais parecia uma prociss\u00e3o coral, que evocava e superava o primeiro \u00caxodo do Egito ou as peregrina\u00e7\u00f5es anuais e jubilosas ao Templo de Jerusal\u00e9m (cf. Salmo 122). Trata-se de todo um povo que se levanta da mis\u00e9ria para a esperan\u00e7a e liberdade. \u00c9 neste contexto de felicidade, novo \u00caxodo e nova Cria\u00e7\u00e3o, que se leem as express\u00f5es: \u00abEnt\u00e3o se abrir\u00e3o os olhos dos cegos, e os ouvidos dos surdos h\u00e3o de desobstruir-se. Ent\u00e3o o coxo saltar\u00e1 como um veado, e a l\u00edngua do mudo cantar\u00e1 de alegria\u00bb (Isa\u00edas 35,5-6). O Evangelho de hoje mostra a realiza\u00e7\u00e3o deste sonho.<\/p>\n<p>6. S. Tiago continua, na incisiva li\u00e7\u00e3o de hoje (2,1-5), a reclamar a nossa aten\u00e7\u00e3o carinhosa para com os pobres, que s\u00e3o os escolhidos de Deus. E adverte-nos de que n\u00e3o podemos encher os olhos com os ricos, e p\u00f4r de lado os pobres, pois n\u00e3o pode haver disjun\u00e7\u00e3o entre culto e vida, f\u00e9 e empenho eclesial. Na verdade, a nossa f\u00e9 em Cristo tem de se traduzir em obras compat\u00edveis. A aten\u00e7\u00e3o e o carinho que pusermos no nosso relacionamento com os pobres ser\u00e1 sempre o exame e a verifica\u00e7\u00e3o da nossa f\u00e9.<\/p>\n<p>7. \u00c9 assim que o Salmo 146, que \u00e9 uma esp\u00e9cie de carrilh\u00e3o musical, nos convida a cantar os \u00abdoze bel\u00edssimos nomes\u00bb de Deus, decalcando aqui a express\u00e3o mu\u00e7ulmana que exalta os \u00ab99 bel\u00edssimos nomes\u00bb de Allah. \u00c9 claro que os doze nomes que passaremos em revista n\u00e3o celebram tanto a ess\u00eancia divina, mas a sua a\u00e7\u00e3o em favor das suas criaturas, sobretudo dos mais pobres e desfavorecidos. \u00c9 assim que o Salmo evoca o Deus que fez o c\u00e9u, a terra, o mar, o Deus Criador (1), o Deus da verdade (<em>?emet<\/em>) (2), o Deus que faz justi\u00e7a aos oprimidos, defensor dos \u00faltimos (3), que d\u00e1 p\u00e3o aos famintos (4), que liberta os prisioneiros (5), que abre os olhos aos cegos (6), que levanta os abatidos (7), que ama os justos (8), que protege os estrangeiros (9), que sustenta o \u00f3rf\u00e3o e a vi\u00fava (10), que entrava o caminho dos \u00edmpios (11), o Deus que reina eternamente (12). Este maravilhoso Salmo faz-nos saborear musicalmente toda a liturgia de hoje.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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