{"id":689055022,"date":"2023-10-09T00:00:00","date_gmt":"2023-10-09T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/326-vaticano\/12498-papa-pede-aos-jovens-para-tirarem-a-humanidade-da-era-colonial-e-das-desigualdades"},"modified":"2023-10-09T00:00:00","modified_gmt":"2023-10-09T00:00:00","slug":"papa-pede-aos-jovens-para-tirarem-a-humanidade-da-era-colonial-e-das-desigualdades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/papa-pede-aos-jovens-para-tirarem-a-humanidade-da-era-colonial-e-das-desigualdades\/","title":{"rendered":"Papa pede aos jovens para tirarem a \u00abhumanidade da era colonial e das desigualdades\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/economia_francisco_201028045504.jpg\"\/><\/p>\n<p><p><em>Francisco enviou mensagem aos participantes de nova sess\u00e3o da \u00abEconomia de Francisco\u00bb e pediu um papel mais \u201cativo das mulheres\u201d e uma \u201cvoz clara aos pobres\u201d para \u201cque deixem de ser objeto de estudo e se tornem sujeitos das decis\u00f5es\u201d. Aos jovens, reunidos entre 6 e 8 de outubro, o papa exortou a que \u201cn\u00e3o desistam do caminho que estais a percorrer\u201d pois \u00a0\u201ch\u00e1 mais espa\u00e7o para v\u00f3s do que parece\u201d<\/em><\/p>\n<p>Leia, na \u00edntegra e em portugu\u00eas, a mensagem do Santo Padre aos participantes do IV Encontro Anual da Economia de Francisco<\/p>\n<p>Queridas e queridos jovens,<\/p>\n<p>\u00c9 um prazer reencontrar-vos um ano depois do encontro de Assis e saber que o vosso trabalho, para relan\u00e7ar a economia, est\u00e1 a progredir com frutos, entusiasmo e empenho.<\/p>\n<p>J\u00e1 me ouvistes dizer muitas vezes que a realidade \u00e9 superior \u00e0 ideia. E, no entanto, as ideias inspiram e h\u00e1 uma que me fascina desde que era um jovem estudante de teologia. Em latim \u00e9 chamada\u00a0<em>coincidencetia oppositorum<\/em>, ou seja, a unidade dos opostos. Segundo esta ideia, a realidade \u00e9 feita de p\u00f3los opostos, de casais que se op\u00f5em. Alguns exemplos s\u00e3o o grande e o pequeno, a gra\u00e7a e a liberdade, a justi\u00e7a e o amor, e assim por diante. O que fazer com estes opostos? \u00c9 certo que se pode tentar escolher um dos dois e eliminar o outro. Ou, como sugeriram os autores que estudei, na tentativa de conciliar os opostos, poder\u00e1 fazer-se uma s\u00edntese, evitando cancelar um p\u00f3lo ou outro, para resolv\u00ea-los num n\u00edvel superior, onde, no entanto, a tens\u00e3o n\u00e3o \u00e9 eliminada.<\/p>\n<p>Queridos jovens, toda a teoria \u00e9 parcial, limitada, n\u00e3o pode pretender encerrar ou resolver completamente os opostos. O mesmo ocorre com todo o projeto humano. A realidade escapa sempre. Ent\u00e3o, como jovem jesu\u00edta, esta ideia da unidade dos opostos pareceu-me um paradigma eficaz para compreender o papel da Igreja na hist\u00f3ria. Se pensarmos bem, no entanto, \u00e9 \u00fatil para compreender o que est\u00e1 a acontecer na economia atual. Grandes e pequenos, pobreza e riqueza e muitos outros opostos tamb\u00e9m existem na economia. Economia s\u00e3o as bancas do mercado, bem como os centros das finan\u00e7as internacionais; existe a economia concreta feita de rostos, olhares, pessoas, de pequenos bancos e empresas, e existe a economia t\u00e3o grande que parece abstrata de multinacionais, estados, bancos, fundos de investimento; h\u00e1 a economia do dinheiro, dos b\u00f3nus e dos sal\u00e1rios alt\u00edssimos ao lado de uma economia do cuidado, das rela\u00e7\u00f5es humanas, dos sal\u00e1rios demasiado baixos para viver bem. Onde est\u00e1 a coincid\u00eancia entre estes opostos? Est\u00e1 na natureza aut\u00eantica da economia: ser um lugar de inclus\u00e3o e coopera\u00e7\u00e3o, de gera\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de valor a ser criado e colocado em circula\u00e7\u00e3o com outros. O pequeno precisa do grande, o concreto precisa do abstrato, o contrato da d\u00e1diva, a pobreza da riqueza partilhada.<\/p>\n<h2 class=\"notas\">Por\u00e9m, n\u00e3o vos esque\u00e7ais, existem oposi\u00e7\u00f5es que n\u00e3o geram nenhuma harmonia. A economia que mata n\u00e3o coincide com uma economia que faz viver; a economia de enorme riqueza para poucos n\u00e3o se harmoniza internamente com o grande n\u00famero de pobres que n\u00e3o t\u00eam como viver; o gigantesco neg\u00f3cio de armas nunca ter\u00e1 nada em comum com a economia da paz; a economia que polui e destr\u00f3i o planeta n\u00e3o encontra nenhuma s\u00edntese com aquela que o respeita e salvaguarda.<\/h2>\n<p>\u00c9 pr\u00f3prio nesta consci\u00eancia o cora\u00e7\u00e3o da nova economia com a qual estais empenhados. A economia que mata, que exclui, que polui, que produz a guerra, n\u00e3o \u00e9 uma economia: outros chamam-lhe economia, mas \u00e9 apenas um vazio, uma aus\u00eancia, \u00e9 uma doen\u00e7a, uma pervers\u00e3o da pr\u00f3pria economia e da sua voca\u00e7\u00e3o. As armas produzidas e vendidas para as guerras, os lucros obtidos \u00e0 custa dos mais vulner\u00e1veis e indefesos, como aqueles que abandonam as suas terras em busca de um futuro melhor, a explora\u00e7\u00e3o dos recursos e dos povos que roubam terras e sa\u00fade: tudo isto n\u00e3o \u00e9 economia, n\u00e3o \u00e9 um bom p\u00f3lo de realidade para manter. \u00c9 apenas arrog\u00e2ncia, viol\u00eancia, \u00e9 apenas uma estrutura predat\u00f3ria da qual se deve libertar a humanidade.<\/p>\n<p>Gostaria de propor uma segunda ideia que me \u00e9 muito cara, ligada ao que acabo de vos contar sobre as tens\u00f5es internas da economia: a economia da terra e a economia do caminho. A economia da terra vem do primeiro significado da palavra economia, o de cuidar da casa. A casa n\u00e3o \u00e9 apenas o lugar f\u00edsico onde vivemos, mas \u00e9 a nossa comunidade, as nossas rela\u00e7\u00f5es, s\u00e3o as cidades onde vivemos, as nossas ra\u00edzes. Por extens\u00e3o, a casa \u00e9 o mundo inteiro, o \u00fanico que temos confiado a todos n\u00f3s. Pelo simples facto de termos nascido somos chamados a tornar-nos guardi\u00e3es desta casa comum e, portanto, irm\u00e3os e irm\u00e3s de cada habitante da terra. Fazer economia significa cuidar da casa comum, e isso n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel se n\u00e3o tivermos os olhos treinados para ver o mundo a partir da periferia: o olhar dos exclu\u00eddos, dos \u00faltimos.<\/p>\n<h2 class=\"s2\">At\u00e9 agora, a vis\u00e3o sobre a casa que tem prevalecido tem sido a dos homens, do sexo masculino, geralmente dos ocidentais e dos do norte do mundo. Durante s\u00e9culos deix\u00e1mos de fora &#8211; entre outros &#8211; o olhar das mulheres: se elas estivessem presentes, ter-nos-iam feito ver menos bens e mais rela\u00e7\u00f5es, menos dinheiro e mais redistribui\u00e7\u00e3o, mais aten\u00e7\u00e3o a quem tem e a quem n\u00e3o tem, mais realidade e menos abstra\u00e7\u00e3o, mais corpo e menos coscuvelhice.<\/h2>\n<p>N\u00e3o podemos continuar a excluir diferentes perspetivas da pr\u00e1tica e da teoria econ\u00f3mica, bem como da vida da Igreja. Por isso, uma alegria especial minha \u00e9 ver quantas jovens s\u00e3o as protagonistas da Economia de Francisco. A economia integral \u00e9 aquela que se faz com e para os pobres \u2013 em todas as formas em que somos pobres hoje \u2013 os exclu\u00eddos, os invis\u00edveis, aqueles que n\u00e3o t\u00eam voz para serem ouvidos. Devemos encontrar-nos a\u00ed, nas divis\u00f5es da hist\u00f3ria e da exist\u00eancia e, para aqueles que se dedicam ao estudo da economia, tamb\u00e9m nas periferias do pensamento, que n\u00e3o s\u00e3o menos importantes. Agora perguntai-vos: quais s\u00e3o hoje as periferias da ci\u00eancia econ\u00f3mica? N\u00e3o basta pensar nos e para os pobres, mas com os pobres, com os exclu\u00eddos. Mesmo na teologia, muitas vezes \u201cestudamos os pobres\u201d, mas estudamos pouco \u201ccom os pobres\u201d: de objetos da ci\u00eancia devem tornar-se sujeitos, porque cada pessoa tem hist\u00f3rias para contar, tem um pensamento sobre o mundo: o primeiro a pobreza dos pobres \u00e9 ser exclu\u00eddo da palavra, exclu\u00eddo da pr\u00f3pria possibilidade de expressar um pensamento considerado s\u00e9rio. Trata-se de dignidade e respeito, muitas vezes negados.<\/p>\n<p>E agora a economia do caminho. Se olharmos para a experi\u00eancia de Jesus e dos primeiros disc\u00edpulos, \u00e9 a do \u201cFilho do homem que n\u00e3o tem onde reclinar a cabe\u00e7a\u201d (Lc, 9). Uma das formas mais antigas de descrever os crist\u00e3os era: \u201caqueles do caminho\u201d. E quando Francisco de Assis, t\u00e3o querido para n\u00f3s, iniciou a sua revolu\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica apenas em nome do Evangelho, regressou como um mendigo, um andarilho: come\u00e7ou a caminhar, saindo da casa do seu pai Bernardone. Que caminho, ent\u00e3o, para quem quer renovar a economia desde a raiz? A jornada dos peregrinos sempre foi arriscada, entrela\u00e7ada de confian\u00e7a e vulnerabilidade. Quem a empreende deve logo reconhecer a sua depend\u00eancia dos outros, ao longo do caminho: assim, se entende que a economia tamb\u00e9m \u00e9 mendicante de outras disciplinas e conhecimentos. E assim como o peregrino sabe que o seu caminho ser\u00e1 poeirento, tamb\u00e9m v\u00f3s sabeis que o bem comum exige um compromisso que suja as m\u00e3os. S\u00f3 as m\u00e3os sujas sabem mudar a terra: vive-se a justi\u00e7a, encarna-se a caridade e, unidos nos desafios, perseveramos com coragem. Ser economistas e empres\u00e1rios \u201cde Francisco\u201d hoje significa necessariamente ser mulheres e homens de paz: n\u00e3o dar a paz pela paz.<\/p>\n<p>Queridos jovens, n\u00e3o tenhais medo das tens\u00f5es e dos conflitos, procurai viv\u00ea-los e humaniz\u00e1-los todos os dias. Confio-vos a tarefa de salvaguardar a casa comum e de ter a coragem de percorrer o caminho.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil, mas sei que v\u00f3s podeis faz\u00ea-lo pelo que estais a fazer. Sei que n\u00e3o \u00e9 imediato inserir os vossos esfor\u00e7os e partilhar os vossos sonhos nas vossas Igrejas e entre as realidades econ\u00f3micas dos territ\u00f3rios que habitais. A realidade parece j\u00e1 configurada, muitas vezes imperme\u00e1vel como o solo onde n\u00e3o chove h\u00e1 muito tempo. Que n\u00e3o vos falte paci\u00eancia e desenvoltura para vos dardes a conhecer e para estabelecerdes conex\u00f5es cada vez mais est\u00e1veis e fecundas. O desejo de um novo mundo \u00e9 mais difundido do que parece. N\u00e3o vos fecheis em v\u00f3s mesmos: os o\u00e1sis no deserto s\u00e3o lugares aos quais todos devem poder aceder, encruzilhadas onde parar e onde recome\u00e7ar. Portanto, permanecei abertos e procurai os vossos colegas, os vossos bispos, os vossos concidad\u00e3os com determina\u00e7\u00e3o e entusiasmo. E nisto, repito, os pobres estejam convosco. Dai voz e dai forma a um povo, porque o concreto da economia e as solu\u00e7\u00f5es que estais a estudar e a experimentar envolvem a vida de todos. H\u00e1 mais espa\u00e7o para v\u00f3s do que parece hoje. Por isso, pe\u00e7o-vos que permane\u00e7ais ativamente unidos, construindo verdadeiras pontes entre os continentes sobre temas operacionais, que tirar\u00e3o definitivamente a humanidade da era colonial e das desigualdades. Dar rostos, conte\u00fados e projetos a uma fraternidade universal. Sede pioneiros na vida econ\u00f3mica e empresarial de um desenvolvimento humano integral.<\/p>\n<p>Confio em v\u00f3s e n\u00e3o vos esque\u00e7ais: Quero-vos muito bem.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o e destaques Educris a partir do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/it\/messages\/pont-messages\/2023\/documents\/20231006-messaggio-economy-of-francesco.html\" target=\"_blank\">original em italiano<\/a><\/p>\n<p>Educris|09.10.2023<\/p>\n<\/p>\n<p><iframe allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen=\"\" frameborder=\"0\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/S-VXcHosWno?si=cB0735EuGqEfYfOG\" title=\"YouTube video player\" width=\"560\"><\/iframe> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Francisco enviou mensagem aos participantes de nova sess\u00e3o da \u00abEconomia de Francisco\u00bb e pediu um papel mais \u201cativo das mulheres\u201d 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