{"id":762354037,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/8291-domingo-xxiv-do-tempo-comum-a-soberania-do-amor"},"modified":"2025-11-07T16:33:22","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:22","slug":"domingo-xxiv-do-tempo-comum-a-soberania-do-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-xxiv-do-tempo-comum-a-soberania-do-amor\/","title":{"rendered":"Domingo XXIV do Tempo Comum: \u00abA Soberania do Amor\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p>1. A \u00abFesta de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei\u00bb, com esta denomina\u00e7\u00e3o, foi institu\u00edda pelo Papa Pio XI, em 11 de Dezembro de 1925, com a Carta Enc\u00edclica\u00a0<em>Quas Primas<\/em>. Os tempos apresentavam-se sombrios e turvos e os c\u00e9us nublados como os de hoje, e Pio XI, homem de a\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 tinha fundado a A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica em 1922, instituiu ent\u00e3o esta Festa com o intuito de promover a milit\u00e2ncia cat\u00f3lica e ajudar a sociedade a revestir-se dos valores crist\u00e3os. A Festa de Cristo Rei era ent\u00e3o celebrada no \u00faltimo Domingo de Outubro. A reorganiza\u00e7\u00e3o da Liturgia no p\u00f3s-Conc\u00edlio passou esta Festa para o \u00faltimo Domingo do Ano Lit\u00fargico, alterando-lhe a denomina\u00e7\u00e3o para \u00abSolenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo\u00bb.<\/p>\n<p>2. \u00abO Senhor Reina\u00bb. \u00c9 assim que abre o Salmo 93, que hoje cantamos. Esta locu\u00e7\u00e3o verbal \u2013 \u00abo Senhor reina\u00bb \u2013 \u00e9 tamb\u00e9m a mais usual no Antigo Testamento para dizer Deus na a\u00e7\u00e3o de reinar, isto \u00e9, de salvar, justificar, perdoar, criar. Na verdade, reinar \u00e9 salvar, isto \u00e9, trazer a prosperidade, o bem-estar e a alegria ao seu Povo. \u00c9 esta a miss\u00e3o do rei b\u00edblico. Salvar \u00e9 justificar. Justificar \u00e9, no seu sentido mais profundo, transformar um pecador em justo. Justificar \u00e9, portanto, perdoar. Neste profundo sentido b\u00edblico, justificar e perdoar s\u00e3o a\u00e7\u00f5es que s\u00f3 Deus pode fazer, dado que, transformar um pecador em justo \u00e9 igual a criar ou recriar. E da a\u00e7\u00e3o de criar tamb\u00e9m s\u00f3 Deus \u00e9 o sujeito em toda a Escritura. J\u00e1 se sabe que o Novo Testamento transforma o ativo \u00abDeus Reina\u00bb no mais abstrato \u00abReino de Deus\u00bb.<\/p>\n<p>3. Tanta e quase indescrit\u00edvel riqueza, a de um Deus, que o Livro de Daniel 7,3-12 apresenta solenemente sentado no seu trono de Luz e de Fogo purificador, que inutiliza o poder das quatro bestas enormes sa\u00eddas do mar com aspeto terr\u00edvel, e que se assemelham a um le\u00e3o com asas de \u00e1guia, um urso com costelas na boca, um leopardo alado com quatro cabe\u00e7as, e um monstro met\u00e1lico aterrorizador, com enormes dentes de ferro que tudo tritura, cospe e espezinha debaixo das enormes patas. Tinha ainda dez chifres na cabe\u00e7a, mas nasceu-lhe entretanto um outro mais pequeno e insolente, com uma boca que proferia palavras arrogantes. Estas bestas representam quatro imp\u00e9rios: babil\u00f3nio, medo, persa e grego (de Alexandre Magno e seus sucessores). Os dez chifres s\u00e3o os reis da dinastia Sel\u00eaucida, e o d\u00e9cimo primeiro \u00e9 Ant\u00edoco IV Epif\u00e2nio (175-163). O tribunal divino toma assento para julgar o arrogante Ant\u00edoco, que \u00e9 morto e destru\u00eddo. E v\u00ea-se ent\u00e3o, em contraponto com as bestas que saem do mar, s\u00edmbolo da desordem e do mal, o Filho do Homem que vem sobre as nuvens, do mundo celeste, portanto. A ele \u00e9 entregue o reino eterno, n\u00e3o assente no poder prepotente da brutalidade, mas no poder manso do Amor (Daniel 7,13-14).<\/p>\n<p>4. No Livro do Apocalipse 1,5-8, este Filho do Homem tem um nome. Chama-se Jesus Cristo. Aparece igualmente sobre as nuvens do c\u00e9u e ostenta, entre outros, o bel\u00edssimo t\u00edtulo de \u00abAquele que nos ama\u00bb (Apocalipse 1,5). E \u00e9 por este Amor levado ao extremo que vence, sem combater, este combate, amando, abra\u00e7ando, sofrendo, sorvendo e dissolvendo o poder da brutalidade, como sucede aos poderosos da terra na batalha de Harmaged\u00f4n (Apocalipse 16,14 e 16; 17,14; 19,11-21). Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 assim de admirar que, neste grande Livro do Apocalipse, o mar, que j\u00e1 vimos no Livro de Daniel como fonte da confus\u00e3o e do mal, deixe de existir (Apocalipse 21,1). Vem assim a toda a luz a soberania nova do Filho do Homem, que \u00e9 Jesus, \u00abAquele que nos ama\u00bb. A sua soberania \u00e9 o Amor, que \u00e9 Primeiro e \u00daltimo (Apocalipse 1,8). \u00c9 Primeiro, e, por ser Primeiro, \u00e9 tamb\u00e9m \u00daltimo. Se \u00e9 Primeiro e \u00e9 tamb\u00e9m \u00daltimo, ent\u00e3o o Amor \u00e9 a soberania verdadeira, a \u00fanica soberania portanto, porque tudo o resto cai e fica pelo caminho. Entre o Primeiro e o \u00daltimo instala-se o pen\u00faltimo, que \u00e9 o poder velho e podre da viol\u00eancia e da brutalidade das bestas ferozes que nos habitam. O Bem \u00e9 de sempre e \u00e9 para sempre. \u00c9 Primeiro e \u00e9 \u00daltimo. O Bem n\u00e3o come\u00e7ou, portanto. O que come\u00e7ou foi o mal, que se foi insinuando nas pregas do nosso cora\u00e7\u00e3o. Mas o que come\u00e7a, tamb\u00e9m acaba. Os imp\u00e9rios da nossa viol\u00eancia, malvadez e estupidez caem, imagine-se, vencidos por um Amor fr\u00e1gil que \u00e9 desde sempre e para sempre, e que vence, sem combater, a nossa prepot\u00eancia!<\/p>\n<p>5. Tem de ser sem combater. Porque, se combatesse, usaria os nossos m\u00e9todos, e apenas aumentaria a viol\u00eancia. \u00c9 assim que Jesus atravessa as p\u00e1ginas dos Evangelhos e da nossa hist\u00f3ria, entregando-se por Amor \u00e0 nossa viol\u00eancia, abra\u00e7ando-a e, portanto, sofrendo-a, dissolvendo-a e absolvendo-a. \u00c9 assim que o Amor Reina, Salva, Justifica, Perdoa e Recria. Os Judeus e Pilatos representam, no Evangelho de hoje (Jo\u00e3o 18,33-37), os imp\u00e9rios envelhecidos, podres e caducos da nossa viol\u00eancia e estupidez. Os quatro Evangelhos documentam a pergunta de Pilatos a Jesus: \u00abTu \u00e9s o rei dos Judeus?\u00bb (Mateus 27,11; Marcos 15,2; Lucas 23,3; Jo\u00e3o 18,33). Nos sin\u00f3ticos, Jesus d\u00e1 uma resposta breve: \u00abTu o dizes\u00bb (Mateus 27,11; Marcos 15,2; Lucas 23,3), para logo se remeter a um sil\u00eancio habitado e teol\u00f3gico (Mateus 27,12; Marcos 15,4; Lucas 23,9), \u00e0 maneira do Servo de YHWH, Cordeiro conduzido ao matadouro, mas que n\u00e3o abriu a boca (Isa\u00edas 53,7). Jo\u00e3o, ao contr\u00e1rio, apresenta um longo di\u00e1logo entre Jesus e Pilatos, em que o ponto mais alto est\u00e1 nas palavras de Jesus: \u00abO meu reino n\u00e3o \u00e9 deste mundo; o meu reino n\u00e3o \u00e9 daqui\u00bb (Jo\u00e3o 18,36). E explica bem Jesus a Pilatos e a n\u00f3s que, se o seu reino fosse deste mundo, daqui, l\u00e1 estariam certamente, para o defender, as suas for\u00e7as militares. Em vez dessa quinquilharia, o seu Reino assenta num Amor novo e subversivo, que n\u00e3o pode deixar de amar a nossa viol\u00eancia at\u00e9 ao fim e ao fundo, sorvendo-lhe todo o veneno.<\/p>\n<p>6. As coisas s\u00e3o de tal ordem, t\u00e3o novas, que, daqui para a frente, a partir da entrada de um tal amor no mundo, todas as formas de poder se devem considerar superadas. Na verdade, Jesus \u00e9 Rei na medida em que contrap\u00f5e o amor ao poder. A Igreja participa nesta soberania de Cristo, assumindo at\u00e9 ao fim a mais humilde e radical atitude de servi\u00e7o \u00e0 humanidade, n\u00e3o servindo-se da humanidade, mas servindo a humanidade em cada ser humano, de acordo com o \u201cc\u00f3digo da autoridade crist\u00e3\u201d: \u00abSabeis que aqueles que se consideram chefes das na\u00e7\u00f5es, as dominam, e os grandes exercem sobre elas o seu poder. N\u00e3o ser\u00e1 assim entre v\u00f3s; ao contr\u00e1rio, aquele que quiser tornar-se grande entre v\u00f3s, seja vosso servo, e aquele que queira ser o primeiro entre v\u00f3s, seja escravo de todos. Na verdade, o Filho do Homem n\u00e3o veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos\u00bb (Marcos 10,42-45). Compete \u00e0 Igreja manter bem aberto este golpe que Cristo infligiu a qualquer forma de poder e a todo o mal.<\/p>\n<p>7. Vem, Senhor Jesus! Ilumina com a tua Luz nova as trevas, as pregas e as pedras do nosso cora\u00e7\u00e3o empedernido. Reina sobre n\u00f3s, Salva-nos, Justifica-nos, Perdoa-nos, Recria-nos. Faz-nos outra vez \u00e0 tua Imagem. Dissolve a besta brava que h\u00e1 em n\u00f3s e que, \u00e0 imagem de Caim, n\u00e3o fala, mas trucida e come o outro. Hoje \u00e9 o Dia da celebra\u00e7\u00e3o de um amor novo e de uma nova ordem assente, n\u00e3o no poder, mas no amor.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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