{"id":788778594,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/7588-domingo-ii-do-tempo-comum-vinde-e-vede"},"modified":"2025-11-07T16:33:11","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:11","slug":"domingo-ii-do-tempo-comum-vinde-e-vede-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-ii-do-tempo-comum-vinde-e-vede-3\/","title":{"rendered":"Domingo II do Tempo Comum: \u00abVinde e Vede!\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031_160503044443.jpg\" \/><\/p>\n<p><p>1. O Evangelho deste Domingo II do Tempo Comum (Jo\u00e3o 1,35-42) faz-nos ver no primeiro plano Jo\u00e3o Batista e Jesus. Jo\u00e3o Batista permanece l\u00e1 \u00abestacado\u00bb (<em>eist\u00eakei<\/em>), em\u00a0<em>Bethabara<\/em>\u00a0[= \u00abCasa de passagem\u00bb], desde Jo\u00e3o 1,28, im\u00f3vel e sereno e atento. O lugar em que permanece parado, define-o e define-nos: \u00e9 um umbral ou limiar. Todo o umbral ou limiar \u00e9 um lugar de passagem. Estamos de passagem. Jo\u00e3o Batista ocupa, portanto, o seu lugar estreito e aberto entre o des-lugar e a casa, o deserto e a Terra Prometida, entre o Antigo e o Novo Testamento. Jo\u00e3o coloca-se estrategicamente do outro lado do Jord\u00e3o, onde um dia o povo do \u00caxodo parou tamb\u00e9m, para preparar a entrada na Terra Prometida, atravessando o Jord\u00e3o (Josu\u00e9 3). \u00c9 desse lugar de passagem, mas em que est\u00e1 parado como um guarda ou sentinela vigilante, que Jo\u00e3o v\u00ea bem (<em>embl\u00e9p\u00f4<\/em>) Jesus a passar (<em>peripato\u00fbnti<\/em>). E logo o apresenta como o Cordeiro de Deus. Apresenta-o a n\u00f3s, e p\u00f5e-nos em movimento atr\u00e1s d\u2019Ele. Riqu\u00edssima apresenta\u00e7\u00e3o de Jesus. Na verdade, Cordeiro diz-se na l\u00edngua aramaica, l\u00edngua comum ent\u00e3o falada,\u00a0<em>talya\u2019<\/em>. Mas\u00a0<em>talya\u2019<\/em>\u00a0significa, n\u00e3o s\u00f3 \u00abcordeiro\u00bb, mas tamb\u00e9m \u00abservo\u00bb, \u00abfilho\u00bb e \u00abp\u00e3o\u00bb. A\u00ed est\u00e1 tra\u00e7ada, com uma pincelada de mestre, a identidade de Jesus.<\/p>\n<p>2. E a\u00ed vamos n\u00f3s a segui-l\u2019O, agora no Caminho que conduz a Casa. \u00abOnde moras?\u00bb, \u00e9 a quest\u00e3o que nos move (Jo\u00e3o 1,38). E a resposta-convite de Jesus: \u00abVinde e vede\u00bb (Jo\u00e3o 1,39) aviva e sacia a nossa sede. Fomos e vimos quem era (<em>ide\u00een<\/em>) e mor\u00e1mos com Ele um dia (Jo\u00e3o 1,39), simbolismo para indicar de agora em diante, sempre. Percebemos logo que era aquela a nossa Casa. Por isso, Andr\u00e9, um de n\u00f3s, o\u00a0<em>Pr\u00f4t\u00f3kl\u00eatos Andr\u00e9as<\/em>, o \u00abprimeiro chamado\u00bb, como o qualifica ainda hoje a Tradi\u00e7\u00e3o Oriental, foi logo chamar, \u00abprimeiro chamante\u00bb, o seu irm\u00e3o Sim\u00e3o, e trouxe-o de casa para a Casa, para Jesus (Jo\u00e3o 1,40-42). O resto \u00e9 com Jesus. \u00abOlhando-o por dentro (<em>embl\u00e9p\u00f4 aut\u00f4<\/em>), Jesus disse: \u201cTu \u00e9s Sim\u00e3o, o filho de Jo\u00e3o; ser\u00e1s chamado\u00a0<em>K\u00eaph\u00e2s<\/em>, que se traduz Pedro\u201d\u00bb (Jo\u00e3o 1,42). Depois \u00e9 Filipe que \u00e9 chamado por Jesus, sem introdu\u00e7\u00e3o ou explica\u00e7\u00e3o (Jo\u00e3o 1,43). E Filipe conduz a Jesus Natanael, tamb\u00e9m sem qualquer explica\u00e7\u00e3o ou demonstra\u00e7\u00e3o convincente.<\/p>\n<p>3. \u00c9 importante precisar que a demonstra\u00e7\u00e3o \u00e9 fr\u00e1gil face \u00e0 experi\u00eancia que implica a vida. Na verdade, a efic\u00e1cia do testemunho acontece, n\u00e3o quando a testemunha incita o destinat\u00e1rio a inclinar-se ou a render-se perante as provas, mas quando o incita a fazer, por sua vez, a experi\u00eancia, levando-o a implicar a pr\u00f3pria vida. A experi\u00eancia da testemunha \u00e9 sempre mais forte e mais radical do que as provas que eventualmente queira dar. \u00c9 por isso que Filipe fala de Jesus a Natanael, mas face \u00e0s obje\u00e7\u00f5es deste, n\u00e3o lhe dissipa as d\u00favidas (Jo\u00e3o 1,45-46), mas diz-lhe simplesmente: \u00abVem e v\u00ea!\u00bb (Jo\u00e3o 1,46).<\/p>\n<p>4. Mas voltemos ao chamamento decisivo, aquele que muda o nome, isto \u00e9, segundo a mentalidade b\u00edblica, a pessoa e a sua vida. Diz Jesus: \u00abTu \u00e9s Sim\u00e3o, o filho de Jo\u00e3o; ser\u00e1s chamado\u00a0<em>K\u00eaph\u00e2s<\/em>, que se traduz Pedro\u00bb (Jo\u00e3o 1,42). O termo hebraico normal para dizer \u00abrocha\u00bb, \u00abrochedo\u00bb, \u00abpedra firme\u00bb \u00e9\u00a0<em>ts\u00fbr<\/em>\u00a0ou\u00a0<em>sela\u2018<\/em>, que designa mesmo Deus no AT por 33 vezes. Mas o hebraico tamb\u00e9m conhece o termo\u00a0<em>keph<\/em>, aramaico\u00a0<em>k\u00eapha\u2019<\/em>, que designa a rocha, n\u00e3o tanto na sua solidez, mas a rocha escavada, oca, esp\u00e9cie de gruta que serve de lugar de ref\u00fagio e acolhimento, onde os p\u00e1ssaros fazem os seus ninhos, os animais guardam as suas crias e os homens se refugiam em caso de guerra: n\u00e3o \u00e9 s\u00f3lido, mas d\u00e1 solidez e prote\u00e7\u00e3o a uma vida nova. Este segundo veio de termos, que traduzem a ideia de guardar, proteger, abra\u00e7ar, envolver, alarga-se num vasto campo onomatopaico:\u00a0<em>kaph<\/em>, palma da m\u00e3o;\u00a0<em>keph<\/em>, rochedo esburacado (grutas);\u00a0<em>k\u00eapha\u2019<\/em>\u00a0(aramaico), rochedo esburacado;\u00a0<em>k\u00eaph\u00e3s<\/em>\u00a0(grego), rochedo esburacado e acolhedor, nome dado por Jesus a Pedro em Jo\u00e3o 1,42, \u00fanica vez nos Evangelhos;\u00a0<em>kipah<\/em>, folha de palmeira, que serve para proteger do sol, e cobertura que os judeus ortodoxos usam na cabe\u00e7a, para indicar a prote\u00e7\u00e3o de Deus;\u00a0<em>kaphar<\/em>, cobrir, perdoar;\u00a0<em>kaporet<\/em>, cobertura, perd\u00e3o. Sendo de teor onomatopaico, este som existe na composi\u00e7\u00e3o de voc\u00e1bulos em todas as l\u00ednguas.<\/p>\n<p>5. Nasce aqui, portanto, um Sim\u00e3o Pedro novo, casa aberta e acolhedora, atento, pr\u00f3ximo, cuidadoso e carinhoso, fr\u00e1gil, com a miss\u00e3o pastoral de alimentar e cuidar de todos os filhos de Deus. Mas, entenda-se sempre bem, a casa \u00e9 Deus, e s\u00e3o de Deus os filhos que nela s\u00e3o gerados, acolhidos, alimentados.<\/p>\n<p>6. O contraponto musical vem hoje do Primeiro Livro de Samuel 3,3-19, com Deus a chamar uma e outra vez o jovem Samuel, que \u00abainda n\u00e3o conhecia o Senhor\u00bb (1 Samuel 3,7), e Eli, sacerdote do santu\u00e1rio de Silo, a fazer bem o papel de Diretor Espiritual. Depois de discernir a Voz de Deus que chamava Samuel, \u00e9 para Deus que Eli remete Samuel, com a indica\u00e7\u00e3o precisa: \u00abFala, Senhor, que o teu servo escuta\u00bb (1 Samuel 3,9). E o texto termina com o belo resumo do narrador: \u00abE Samuel crescia, o Senhor estava com ele, e nenhuma das suas palavras deixou cair por terra\u00bb (1 Samuel 3,19). Extraordin\u00e1rio programa de vida para a Igreja inteira e cada crist\u00e3o em particular.<\/p>\n<p>7. E S\u00e3o Paulo, na Primeira Carta aos Cor\u00edntios 6,13-20, tra\u00e7a em contraluz a radiografia da grande cidade de Corinto, capital da prov\u00edncia romana da Acaia, com muitas divis\u00f5es, distra\u00e7\u00f5es, idolatrias e imoralidades, coisas em tudo semelhantes ao que se v\u00ea nas grandes metr\u00f3poles modernas. E aponta aos crist\u00e3os de Corinto e de hoje o caminho do Evangelho: o corpo, que, no mundo b\u00edblico, diz a pessoa toda, integral, \u00e9 para o Senhor, e o Senhor \u00e9 para o corpo.<\/p>\n<p>8. A toada musical que hoje embala a nossa vida est\u00e1 em conson\u00e2ncia com a docilidade e o rumo novo, para o Senhor, que devemos empreender. Na verdade, canta assim o Salmo Responsorial de hoje: \u00abSacrif\u00edcio e obla\u00e7\u00e3o n\u00e3o Te agradaram, mas escavaste-me os ouvidos\u00bb (Salmo 40,7), express\u00e3o forte que a Carta aos Hebreus cita atualizando assim: \u00abSacrif\u00edcio e obla\u00e7\u00e3o Tu n\u00e3o quiseste, mas formaste-me um corpo\u00bb (Hebreus 10,5). Sim, d\u00e1 para entender, que o corpo \u00e9 para oferecer ao bom Deus, num culto novo de todos os dias (cf. Romanos 12,1). Mas, para que a melodia chegue ao cora\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m \u00e9 verdade, como diz o Salmo e nos lembra poeticamente Nelly Sachs, que talvez seja necess\u00e1rio escavar bem os ouvidos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00abSe os profetas irrompessem<\/p>\n<p>pelas portas da noite<\/p>\n<p>com as suas palavras abrindo feridas<\/p>\n<p>nas rotinas do nosso quotidiano<\/p>\n<p>(\u2026)<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Se os profetas irrompessem<\/p>\n<p>pelas portas da noite<\/p>\n<p>\u00e0 procura de um ouvido como p\u00e1tria<\/p>\n<p>Ouvido humano<\/p>\n<p>obstru\u00eddo por mato e por silvas<\/p>\n<p>ser\u00e1 que saberias escutar?\u00bb.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. O Evangelho deste Domingo II do Tempo Comum (Jo\u00e3o 1,35-42) faz-nos ver no primeiro plano Jo\u00e3o Batista e Jesus. 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