{"id":840749772,"date":"2025-04-10T00:00:00","date_gmt":"2025-04-10T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/327-divulgacao\/13820-opiniao-a-incoerencia-entre-fe-e-atos-por-sergio-carvalho"},"modified":"2025-04-10T00:00:00","modified_gmt":"2025-04-10T00:00:00","slug":"opiniao-a-incoerencia-entre-fe-e-atos-por-sergio-carvalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/opiniao-a-incoerencia-entre-fe-e-atos-por-sergio-carvalho\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: \u00abA incoer\u00eancia entre f\u00e9 e atos&#8230;\u00bb, por S\u00e9rgio Carvalho"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/cruz_casa_200325105204.jfif\"\/><\/p>\n<div data-olk-copy-source=\"MessageBody\">\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u00abHaver\u00e1 uma s\u00f3 lei para o natural e para o estrangeiro residente que habite no meio de v\u00f3s.\u00bb<\/em> (\u00caxodo 12, 49)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u00abPortanto, j\u00e1 n\u00e3o sois estrangeiros nem imigrantes, mas sois concidad\u00e3os dos santos e membros da casa de Deus\u2026\u00bb<\/em> (Ef\u00e9sios 2, 19)<\/p>\n<p>No dia 8 de abril, assinalou-se o Dia Internacional dos Ciganos. No mesmo dia, o Governo de Portugal divulgava, tamb\u00e9m, o n\u00famero oficial de estrangeiros a viver, legalmente, no nosso pa\u00eds, e que atingiu pela primeira vez a fasquia dos 1,55 milh\u00f5es de pessoas. Ambos os assuntos n\u00e3o t\u00eam a ver um com o outro, mas foi curiosa a sua coincid\u00eancia.<\/p>\n<p>O povo cigano vive h\u00e1 s\u00e9culos entre n\u00f3s e, atualmente, s\u00e3o cidad\u00e3os portugueses de pleno direito, enquanto os imigrantes s\u00e3o aqueles que n\u00e3o possuindo a cidadania portuguesa t\u00eam a autoriza\u00e7\u00e3o de habitar e trabalhar em territ\u00f3rio nacional. S\u00e3o duas realidades diferentes.<\/p>\n<p>Na mensagem que a Obra Nacional da Pastoral dos Ciganos publicou pela efem\u00e9ride referiu <em>que \u00abesta data \u00e9 tamb\u00e9m uma ocasi\u00e3o para reconhecer e valorizar a hist\u00f3ria, a cultura e a identidade do povo cigano, parte integrante da riqueza e diversidade da nossa sociedade. Ao mesmo tempo, \u00e9 essencial lembrar os desafios persistentes que muitas pessoas ciganas ainda enfrentam no acesso a direitos fundamentais como a educa\u00e7\u00e3o, a sa\u00fade, a habita\u00e7\u00e3o e o emprego.\u00bb<\/em><\/p>\n<p>Os ciganos s\u00e3o uma etnia, um povo, com costumes e cultura pr\u00f3prios, mas s\u00e3o cidad\u00e3os portugueses. T\u00eam direito \u00e0 diversidade e muitos esfor\u00e7am-se por viver como qualquer cidad\u00e3o, nas suas localidades. A maioria adotou a religi\u00e3o crist\u00e3, seja cat\u00f3lica ou evang\u00e9lica.<\/p>\n<p>Trago este assunto, porque nos \u00faltimos tempos foi noticiada a constru\u00e7\u00e3o e entrega de casas camar\u00e1rias, no concelho de Paredes, a pessoas da comunidade cigana. E o que mais me escandalizou foi ver o aproveitamento pol\u00edtico da quest\u00e3o a n\u00edvel nacional, por um partido radical, cheio de gente piedosa, t\u00e3o santa como os fariseus e doutores da lei dos tempos b\u00edblicos.<\/p>\n<p>Lembrei-me a este prop\u00f3sito do primeiro bispo de Set\u00fabal, D. Manuel Martins, que nos anos 90 do s\u00e9culo passado, denunciava as freguesias \u00abultra-crist\u00e3s\u00bb que tocavam os sinos da igreja a rebate para expulsar os ciganos das suas localidades. A sua den\u00fancia prof\u00e9tica mostrava a incoer\u00eancia entre a f\u00e9 e os atos que praticavam.<\/p>\n<p>O mesmo se passa com estes novos radicais que, atrav\u00e9s de preconceitos, baseados no \u00f3dio e at\u00e9 racismo, querem capitalizar e ganhar votos \u00e0 custa da persegui\u00e7\u00e3o a outros seres humanos. Existe gente boa ou m\u00e1 em todos os povos e etnias. N\u00e3o se pode medir o todo pela parte.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns anos, lecionava numa escola do Porto onde havia um grande n\u00famero de alunos ciganos. Quando l\u00e1 fui colocado, nenhum deles frequentava a disciplina de Educa\u00e7\u00e3o Moral e Religiosa Cat\u00f3lica, pois quase todos eram crist\u00e3os evang\u00e9licos. Contudo, um dia, tudo mudou.<\/p>\n<p>Ouvindo eu o barulho de uma grande confus\u00e3o no corredor, vim ver o que se passava. Um aluno falava muito alto e n\u00e3o acatava as instru\u00e7\u00f5es da auxiliar de a\u00e7\u00e3o educativa. Batia nos arm\u00e1rios e cacifos. Tive de agir. Disse ao aluno que se moderasse e que respeitasse a funcion\u00e1ria pois ela at\u00e9 j\u00e1 poderia ser sua av\u00f3. Ele respondeu-me que eu era apenas \u00abum padreco que ensinava os betinhos\u00bb. Informei-o, com firmeza, que por acaso n\u00e3o era padre, e que era casado e pai de fam\u00edlia, n\u00e3o admitindo a ningu\u00e9m que faltasse ao respeito a algu\u00e9m dentro da escola, muito menos a uma senhora.<\/p>\n<p>Sanada a situa\u00e7\u00e3o, a funcion\u00e1ria veio dizer-me \u00ab\u00f3 professor, porque se meteu? Sabe que ele era cigano? Vai ter problemas\u00bb.<\/p>\n<p>No dia seguinte, ao chegar \u00e0 escola tinha o patriarca da comunidade e muitos homens da comunidade cigana \u00e0 minha espera. O patriarca dirigiu-se a mim dizendo: \u00abo senhor \u00e9 o professor da religi\u00e3o moral?\u00bb. \u00abSou, sim senhor\u00bb, respondi. \u00abO senhor chamou \u00e0 aten\u00e7\u00e3o o meu neto ontem?\u00bb. \u00abChamei, sim senhor, porque ele estava a ser indelicado com uma senhora e eu n\u00e3o posso ver e ficar calado\u00bb.<\/p>\n<p>O anci\u00e3o ficou a olhar para mim e acrescentou: \u00abN\u00f3s n\u00e3o somos da religi\u00e3o cat\u00f3lica, somos evang\u00e9licos. Mas, como aqui na escola n\u00e3o h\u00e1 professor da nossa religi\u00e3o, e o senhor mostrou coragem e for\u00e7a na f\u00e9, e eu quero que os meus respeitem toda a gente e sejam respeitados, a partir de amanh\u00e3, todos os alunos ciganos v\u00e3o passar a ir \u00e0s aulas de religi\u00e3o moral!\u00bb<\/p>\n<p>Dito e feito. Nos dias seguintes, as turmas aumentaram de n\u00famero passando toda a comunidade cigana a estar nas aulas de Educa\u00e7\u00e3o Moral e Religiosa Cat\u00f3lica. Sempre se comportaram bem e eram ass\u00edduos. Ficavam orgulhosos quanto partilhavam as suas tradi\u00e7\u00f5es e convic\u00e7\u00f5es. O conhecimento destr\u00f3i os preconceitos.<\/p>\n<p>Tratemos todas as pessoas como seres humanos, e que haja uma s\u00f3 lei para todos: a lei da s\u00e3 conviv\u00eancia e do respeito.<\/p>\n<p>S\u00e9rgio Carvalho<\/p>\n<p>Imagem: Unsplash<\/p>\n<p>Educris|10.04.2025<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abHaver\u00e1 uma s\u00f3 lei para o natural e para o estrangeiro residente que habite no meio de v\u00f3s.\u00bb (\u00caxodo 12, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3441807658,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[67],"class_list":["post-840749772","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-divulgacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/840749772","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=840749772"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/840749772\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=840749772"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=840749772"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=840749772"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}