Terminou o Seminário internacional que se realizou de 11 a 14 de Março de 2021, em Aveiro, com apresentação, a partir da Junta de Freguesia de Cacia, via internet, promovido e organizado pela LOC/MTC – Liga Operária Católica/Movimento de Trabalhadores Cristãos,  e que contou com a participação portuguesa de membros da Base-Fut, da JOC, da LOC/MTC,  da Quercus, da Fidestra, e internacional do KAB da Alemanha,  da HOAC  de Espanha,  da  ACO e da CFTC de França, do KAP da Republica Checa, e do EZA – Centro Europeu para os Assuntos dos Trabalhadores, sob o tema: Evolução das relações e formas de trabalho na era digital. “Trabalho” “Trabalhador” “Empresa” – Organização dos trabalhadores e sua representação.

Na sessão de abertura, na mesa, participaram presencialmente, D. António Moiteiro, Bispo de Aveiro que presidiu à sessão; Dr. Ribau Esteves, Presidente da Cámara Municipal de Aveiro; Nelson Santos Presidente da Junta de Freguesia de Cacia; Américo Monteiro, Coordenador Nacional da LOC/MTC; e Maria Reina da Administração do EZA.

A eleição de Aveiro para a realização deste seminário, recebeu o agradecimento de todos os intervenientes. Apesar da circunstância de pandemia e de confinamento, foi possível, com todos os cuidados, para que se pudesse realizar de uma forma digna e com condições. Elogiaram os temas em debate e levantaram alguns desafios sobre o assunto. D. António Moiteiro no encerramento da sessão apresentou uma reflexão mais aprofundada sobre a cultura digital e o trabalho, as preocupações que levantam e que pode ser uma oportunidade, mas que nem tudo é positivo e existem muitos circuitos fechados, que alimentam notícias falsas e provocam discórdia na sociedade.

O Assistente Nacional da LOC/MTC, JOC e MAAC, Padre Joaquim António Martins desafiou-nos a não desanimar, através de um texto resultante de uma reflexão/compromisso pessoal sobre a leitura bíblica de 2 Timóteo 1, 8-13, em que São Paulo prisioneiro escreve a Timóteo para que não se envergonhe nem dele e muito menos de Deus. “Seguir em frente”, também no nosso trabalho, continuar a semear, porque no meio da desolação haverá sempre alguém que olhará acreditando em nós e se algum dia tivermos a tentação de desistir, haverá alguém que através de um beijo, um abraço ou um sorriso nos motive a voltar ao nosso caminho.

Nas outras sessões participaram como oradores: Luís Soares Barbosa, Professor Catedrático da Universidade do Minho e Investigador Sénior no INESC TEC.; Maria da Paz Campos Lima, Socióloga e investigadora do ISCTE; Pau Díaz Boïls da HOAC de Espanha; António Correia de Campos, Professor de Saúde Publica, ex Ministro da Saúde e ex Presidente do Conselho Económico e Social.

O debate do tema foi desdobrado em várias sessões:

Na primeira sessão moderada por Alice Marques, vice-coordenadora nacional da LOC/MTC, o Dr. Luís Soares barbosa, apresentou a reflexão, “Evolução das relações laborais e formas de trabalho na era digital” de que destacamos a perspetiva sobre o trabalho, o que morre e o que emerge na era digital. Cresce a insegurança no emprego, a desregulação, a destruição de emprego tradicional, emerge a precariedade, a insegurança no emprego, perda de direitos, salários baixos e a descontinuidade laboral. Adaptação a relações laborais: plásticas, irregulares, moveis, flexíveis, mutáveis. São muitos os desafios que se nos colocam, este assunto não pode ser deixado só nas mãos de especialistas, há que desenvolver novas literacias, estar desperto para discernir perante os mitos vigentes na sociedade e ter atitude proativa face à tecnologia e à mudança, defender o que ainda não se conquistou e resistir à precariedade social e interior. A transição digital não vai retroceder, não sendo um mapa de sentido único, de inevitabilidades, nem uma questão de só preto ou branco.

Na segunda sessão, moderada por Pedro Estevão, coordenador da Base Fut, a Drª Maria da Paz C. Lima, desenvolveu o tema na perspetiva dos “Conceitos de trabalho, trabalhador e empresa hoje. Consequências para os trabalhadores e para a proteção social em Portugal e na Europa”. Falou-nos de direitos laborais individuais, direitos de proteção social, direitos de associação, representação e negociação e que há grandes entraves a uma negociação coletiva séria no nosso país. A precarização dos vínculos laborais e a “deslaborização”, através das formas de emprego assentes na prestação de serviços, em particular da “uberização/plataformização”.

A terceira sessão, moderada por Rui Lavoura, Tesoureiro nacional da LOC/MTC foi a realização de uma mesa redonda, onde nos inteirámos do que se vive em alguns países da Europa: Alemanha, Miriam Catulo KAB Aachen, Espanha Bernardino Dominguez Martin da HOAC, República Checa Lidmila Nemcovà da KAP e de Portugal João Esteves da JOC e José Janela da Quercus. Como são encaradas pelos jovens em cada país, as preocupações pelo ambiente e os novos modelos de trabalho. Em alguns destes países afirma-se que a grande maioria dos jovens estão agora mais preocupados com os problemas ambientais. No caso de Portugal cerca de 89% dos jovens portugueses estão hoje mais preocupados com os problemas ambientais, que há 10 anos atrás. Em Espanha está a ser dada resposta aos novos modelos de trabalho, ao estilo de vida, à sociedade e à política. Há tribunais que estão a reconhecer falsos recibos verdes e algumas empresas estão a ser multadas. Muitos jovens estão a perder motivação para estudar porque não veem futuro. Mas a maioria continua com otimismo e acreditam que vão ter sucesso profissional. Apesar das condições de trabalho precárias e sem grandes meios, continuam preocupados e lutam pelo ambiente, como está a acontecer na Alemanha, com manifestações de jovens, que lutam contra a deslocação de aldeias motivada pelo aumento da exploração de minas de carvão.

A quarta sessão, moderada por Fátima Almeida, copresidente do MMTC e dirigente da LOC/MTC, Pau Diaz Boils abordou o tema “Qual o papel das organizações e movimentos de trabalhadores na dignificação do trabalho”. Foi-nos apresentada uma reflexão sobre a realidade de luta e de empenhamento dos trabalhadores nas batalhas travadas e influentes na sociedade espanhola, a importância de cuidarmos do “cancro” que é a corrupção, não esquecendo a educação de consciências para a solidariedade. O empenhamento das centrais sindicais contra este austericídio, fazendo um sindicalismo em perspetiva do género, junto dos bairros em conjunto com outras associações e na defesa do clima. Não é a realidade que tem que se adaptar, aos sindicatos, mas o contrário. “Fizemos, fazemos e faremos um sindicalismo de proximidade e defendemos os serviços públicos e universais”.

Na quinta e última sessão, moderada por Américo Monteiro coordenador nacional da LOC/MTC o Dr. António Correia de Campos, apresentou o tema: Que assuntos dos trabalhadores colocar e como, na agenda política, sindical e empresarial, que fortaleçam o Diálogo Social e um desenvolvimento harmonioso”. Fortalecer o diálogo social é um meio para alcançar o progresso social e económico, como um fim em si mesmo, uma vez que dá voz e possibilita às comunidades uma participação ativa, nas respetivas sociedades e locais de trabalho, pelo que é um agente de cidadania. Diálogo social existe sempre, a questão está em saber se ele se desenvolve com a qualidade necessária. A qualidade pressupõe opiniões informadas, baseadas no conhecimento. Estará o diálogo social a incidir sobre “assuntos de interesse comum”? Estará o diálogo social a incidir sobre tópicos, atuais? As mudanças na sociedade alteram os temas, ou são ignoradas? O mundo mudou e continua a mudar rapidamente e os instrumentos do diálogo, embora instalados, levam tempo a mudar as suas agendas. A automação, a digitalização, a demografia e a globalização são vetores de mudança e de desafio para a sociedade.

No final dos trabalhos, promovemos um encontro via online com Cristina Tavares, operária corticeira, que nos falou da sua experiência de vida e de luta no seu processo de assédio moral na empresa, bem conhecido dos portugueses. Que nunca quis qualquer protagonismo e o que a motivou foi e é a necessidade do seu trabalho e salário para a sua subsistência. Muitas vezes se refugiou na oração para continuar a ter forças e levar até ao fim a luta pelos seus direitos, ainda hoje o faz e que o que lhe dá sempre razão é que mesmo quando a colocaram a fazer e desfazer trabalhos inúteis, de castigo, foi sempre responsável, diligente e aplicada, mesmo sabendo que não era correto o que lhe faziam. Neste encontro tivemos também o presidente do Sindicato dos Corticeiros, Alírio Martins, que acompanhou todo o processo e foi a primeira testemunha do que estava a acontecer. Deu uma panorâmica de toda a luta travada e ainda em curso, o que só torna mais clara a importância da solidariedade. Como avançou para despoletar toda a onda de solidariedade que se desencadeou, pedindo audiências e colocando o assunto junto das entidades, junto da Igreja local e Diocesana, junto da sua central sindical e até ao nível político.

Foi possível, aos participantes, relembrar a sua adesão aos atos de solidariedade que ocorreram em vários locais e de manifestar o seu apreço pela luta que se está a travar e renovam o apoio bem como a amizade e solidariedade.

Terminámos com a apresentação do esboço do relatório e uma breve avaliação por parte dos participantes no Seminário, que foi promovido e organizado pela LOC/MTC, com o apoio financeiro do EZA-Centro Europeu para os Assuntos dos Trabalhadores e da UE-União Europeia.