(00 351) 218 855 470 ocpm@ecclesia.pt

Não esquecer quem criou a Obra Católica Portuguesa de Migrações
A revelação da Igreja ao mundo português forjou-se nos últimos quarenta anos através também da Obra Católica Portuguesa de Migrações. Não o sublinho pelo exercício de funções; chamo simplesmente a atenção para um acontecimento da história da Igreja em Portugal, com início no último século.
Conforme o temos repetido, a resposta da Igreja, num período forte de emigração, contrasta com a falta da sensibilidade em geral. Só não entendo, na lógica de uma certa história, porque é que não se exercitou noutras áreas de carências sociais o mesmo afã.
Terá sido porque os encargos da solidariedade se jogavam muito longe da pátria, onde, ao tempo, era indevida problematizar a miséria imerecida?
Desde a 1ª hora, destaque-se a clarividência para tornar presentes os critérios do Evangelho junto de comunidades, doando-lhes sacerdotes que, pelas suas funções específicas, se tornaram um porto de abrigo. Pai, irmão, amigo e próximo, o padre junto de emigrantes significou e significa a formação da fé, a comunhão solidária, a promoção cultural, num halo de confiança e sensibilidade tal, que as comunidades sempre o entenderam como confidente e procurador de todas as dificuldades. Não esqueço, antes evoco a minha estada em Paris na década de sessenta e períodos subsequentes.
As inúmeras situações – limites ajudaram-me a entender muitas coisas.
Unir fronteiras, ligar pessoas, sensibilizar culturas, a Igreja local e seus padres e demais agentes de pastoral, contactar afastados, empenhar-se em grupos e associações, acompanhar o aproveitamento dos tempos livres, numa palavra, defender a dignidade de cada uma das pessoas, foi programa e acção.
Bispos, padres e leigos, responsáveis incarnaram a memória da Justiça e da fraternidade. Não esqueceram os Portugueses (as), sempre tão sós!
Na modéstia de suas vidas, os emigrantes lamuriavam-se a vários títulos pelas durezas de uma condição, que o tempo não tem curado com suficiência. É que, de “estranhos num país que não é nosso, passamos a cidadãos de segunda, quando vamos a Portugal”, diziam e continuam a dizer…
Mas o Evangelho da Obra Católica sempre os proclamou portugueses (as) de primeira…
Por outro lado, na altura de um capítulo inverso, entraram-nos casa adentro milhares de homens e mulheres pela saga da imigração. Tem-se escrito muito sobre esta matéria, e pelo que leio e ouço nos últimos tempos, vamos continuar a defrontar-nos com aspectos intoleráveis.
O país tem sabido de que lado têm estado os baptizados em Portugal. Nesta e por esta questão. Mas, infelizmente, as oportunidades não acabaram. Se a Obra Católica de Migrações não existisse, teria sido urgente criá-la. Mas, como existia, comprometeu-se com tal denodo, que até teve honras de ser acusada, em algumas horas, de negligenciar a emigração, para se virar “para pretos e outras raças…”. Que honra!
O seu testemunho em alargados sectores eclesiais e o diálogo com quem está interessado por questões da humanidade, fora da Igreja, tem sido ponte e comunhão.
“Não fechar a porta a Cristo que bate à porta do teu país na pessoa do imigrante (João Paulo II), é uma dor de cabeça para sectores e multidões.
A Obra Católica já criou um estilo. Mas não lhe será fácil, mais uma vez, o serviço aos pobres, buscando soluções e apoios da dignidade. Por isso não há festejos. Os quarenta anos clamam ainda mais por decisão.
+ Januário Torgal Mendes Ferreira
(Presidente da Comissão Episcopal de Migrações e Turismo)