{"id":1867,"date":"2015-09-11T12:03:10","date_gmt":"2015-09-11T12:03:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/ocpm\/v2\/?p=1867"},"modified":"2015-09-15T16:54:35","modified_gmt":"2015-09-15T16:54:35","slug":"amaras-o-estrangeiro-porque-tambem-tu-foste-estrangeiro-na-terra-do-egipto-dt-10-19","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/amaras-o-estrangeiro-porque-tambem-tu-foste-estrangeiro-na-terra-do-egipto-dt-10-19\/","title":{"rendered":"\u00abAmar\u00e1s o estrangeiro, porque tamb\u00e9m tu foste estrangeiro na terra do Egipto\u00bb (Dt 10, 19)\u00a0"},"content":{"rendered":"<p>Peregrina\u00e7\u00e3o Anivers\u00e1ria do Migrante e do Refugiado<\/p>\n<p>F\u00e1tima,\u00a012 de Agosto de 2015 &#8211; Hom\u00edlia<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Rev.mo Senhor D. Ant\u00f3nio Marto, ven. Bispo desta Diocese de Leiria-F\u00e1tima,<\/p>\n<p>Caros peregrinos,<\/p>\n<p>O Antigo Testamento prescreve ao judeu piedoso a obriga\u00e7\u00e3o de, duas vezes por dia, fazer uma profiss\u00e3o de f\u00e9 no Deus verdadeiro, libertador e providente. E a seu respeito, em muitas passagens b\u00edblicas, aparece um inciso, cheio de ternura e sensibilidade pedag\u00f3gica: se as crian\u00e7as interrogarem o seu pai sobre a raz\u00e3o dessa ora\u00e7\u00e3o, ele deveria explicar-lhes que os seus antepassados emigraram para o Egipto e acabaram por sere reduzidos \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de escravos pelo fara\u00f3; mas que o Senhor os retirou de l\u00e1 com m\u00e3o forte e bra\u00e7o poderoso (cf Dt 6, 20 ss). Deste modo, enquanto se cantavam os louvores do Deus Salvador e se transmitia a religi\u00e3o aos filhos, tamb\u00e9m se criava uma espec\u00edfica sensibilidade \u00e9tica de recusa da injusti\u00e7a e de grande respeito pelo migrante.<\/p>\n<p>De facto, a defesa da dignidade e dos direitos do migrante \u00e9 transversal a toda a B\u00edblia. As leituras desta Missa, agora escutadas, confirmam isso mesmo. Na primeira, o autor do livro do Deuteron\u00f3mio \u00e9 taxativo: \u201c<em>Amar\u00e1s o estrangeiro, porque tamb\u00e9m tu foste estrangeiro na terra do Egipto<\/em>\u201d (Dt 10, 19). O imigrante n\u00e3o aparece aqui como um ser a quem se olha com desconfian\u00e7a, tolerado ou objecto de comisera\u00e7\u00e3o, mas como algu\u00e9m que, positivamente, tem de ser amado e acolhido com o mesmo timbre e intensidade de afecto que se devotam a Deus. Por isso, recolhendo essa s\u00e3 e certeira teologia, j\u00e1 no Novo Testamento, em contexto especificamente crist\u00e3o, o autor da Carta aos Hebreus v\u00ea o acolhimento de todos, particularmente dos mais carenciados, como derivado necess\u00e1rio da f\u00e9: \u201c<em>N\u00e3o vos esque\u00e7ais da hospitalidade, pois, gra\u00e7as a ela, \u00e9 como se hosped\u00e1sseis anjos<\/em>\u201d (Heb 13, 2). E n\u00e3o nos esque\u00e7amos que o Anjo, na mentalidade b\u00edblica, se apresenta como manifesta\u00e7\u00e3o de Deus e sua presen\u00e7a eficaz na hist\u00f3ria do homem. Quer isto dizer que a hospitalidade, concretamente se exercida em favor do estrangeiro, \u00e9 o mesmo que acolher Deus. Raz\u00e3o mais que suficiente para, como nos diz Jesus, no ju\u00edzo final sermos confrontados com o exerc\u00edcio deste acolhimento: \u201c<em>Vinde, benditos de meu Pai [\u2026] porque era estrangeiro\/peregrino e recolhestes-me<\/em>\u201d (Mt 25, 35).<\/p>\n<p>Esta hospitalidade, express\u00e3o do amor preocupado com quem sofre ou \u00e9 portador de especial car\u00eancia, aparece-nos magistralmente exemplificado na par\u00e1bola do bom samaritano, escutada no Evangelho. O Senhor Jesus n\u00e3o faz discursos te\u00f3ricos, mas refere a vida quotidiana, t\u00e3o cheia de surpresas e de sobressaltos, porque a hist\u00f3ria do homem concreto \u00e9 o \u00ablugar\u00bb onde se acolhe ou recusa o reino de Deus. Por isso, a par\u00e1bola \u00abfaz pensar\u00bb, provoca, importuna a nossa consci\u00eancia muitas vezes adormecida. E faz-nos ver que, tal como no caso da energia el\u00e9ctrica que sup\u00f5e sempre os dois fios por onde circulam a electricidade dita positiva e negativa, desapareceria a vida religiosa crist\u00e3 se separ\u00e1ssemos o amor a Deus do amor ao pr\u00f3ximo, este traduzido em acolhimento activo, promo\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que tudo isto que venho referindo \u00e0 base das leituras desta Missa sobre a necessidade de acolher o outro, tem consequ\u00eancias. Uma, porventura a mais evidente, diz respeito \u00e0 problem\u00e1tica que tradicionalmente fornece o tema a esta Peregrina\u00e7\u00e3o Anivers\u00e1ria de Agosto: as migra\u00e7\u00f5es e as suas dificuldades nunca completamente resolvidas e, ultimamente, os novos dramas com que nos confrontamos diariamente. Sobre isto penso voltar a reflectir na Missa de amanh\u00e3. Mas outra consequ\u00eancia, que agora gostaria de evidenciar, relaciona-se intimamente com as apari\u00e7\u00f5es de F\u00e1tima. Ainda antes do 13 de Maio de 1917, o Anjo pedia aos Pastorinhos: \u201c<em>Orai, orai muito e fazei sacrif\u00edcio pelos pecadores<\/em>\u201d. E logo na primeira apari\u00e7\u00e3o, Nossa Senhora ordena-lhes: \u201c<em>Oferecei constantemente ao Alt\u00edssimo ora\u00e7\u00f5es e sacrif\u00edcios<\/em>\u201d. Por quem? Por eles mesmos? Tamb\u00e9m. Mas os Pastorinhos compreenderam perfeitamente que essa ora\u00e7\u00e3o deveria ser pelos tais \u201cpecadores\u201d, aqueles que n\u00e3o amam a Deus nem respeitam os irm\u00e3os.<\/p>\n<p>Pode-se dizer, portanto, que no centro da mensagem de F\u00e1tima est\u00e1 o amor oblativo e adorador a Deus e o amor preocupado e sol\u00edcito pelos outros. O que, ali\u00e1s, se tornou bem vis\u00edvel na curta vida dos dois videntes mais pequeninos: enquanto para Francisco a sua alegria era ir \u00e0 igreja, junto do sacr\u00e1rio, para estar com \u201c<em>Jesus escondido<\/em>\u201d, a Jacinta passou a levar t\u00e3o a s\u00e9rio a convers\u00e3o dos pecadores que arrancou da prima L\u00facia este coment\u00e1rio: \u201c<em>A Jacinta parecia insaci\u00e1vel na pr\u00e1tica do sacrif\u00edcio<\/em>\u201d (Mem\u00f3rias, vol. I, 47). Os dois n\u00e3o se excluem, mas completam-se.<\/p>\n<p>Caros peregrinos, a espiritualidade que se respira neste santu\u00e1rio e os motivos profundos da peregrina\u00e7\u00e3o pedem-nos uma interioriza\u00e7\u00e3o desta mensagem. Disponhamo-nos ao respeito activo dos outros, mesmo dos que n\u00e3o conhecemos, de alguma maneira representados na figura do migrante. Estejamos na linha da frente dos que os acolhem e dos que reivindicam os seus direitos, como faz a B\u00edblia. E reequacionemos a nossa exist\u00eancia na direc\u00e7\u00e3o do Amor, esse amor de adora\u00e7\u00e3o ao mist\u00e9rio de Deus e, simultaneamente, amor empenhado pela sorte dos homens e mulheres, nossos irm\u00e3os, particularmente dos mais desafortunados e infelizes. No fundo, foi esta a mensagem que a Senhora aqui deixou, vai fazer cem anos.<\/p>\n<p>+ Manuel Linda<\/p>\n<p>Bispo das For\u00e7as Armadas e de Seguran\u00e7a de Portugal<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>    Esta hospitalidade, express\u00e3o do amor preocupado com quem sofre ou \u00e9 portador de especial car\u00eancia, aparece-nos magistralmente exemplificado na par\u00e1bola do bom samaritano, escutada no Evangelho. O Senhor Jesus n\u00e3o faz discursos te\u00f3ricos, mas refere a vida quotidiana, t\u00e3o cheia de surpresas e de sobressaltos, porque a hist\u00f3ria do homem concreto \u00e9 o \u00ablugar\u00bb onde se acolhe ou recusa o reino de Deus. 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