{"id":1871,"date":"2015-09-11T12:51:17","date_gmt":"2015-09-11T12:51:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/ocpm\/v2\/?p=1871"},"modified":"2015-09-18T14:07:49","modified_gmt":"2015-09-18T14:07:49","slug":"a-fe-crista-faz-nascer-um-novo-povo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/a-fe-crista-faz-nascer-um-novo-povo\/","title":{"rendered":"A f\u00e9 crist\u00e3 faz nascer um novo povo"},"content":{"rendered":"<p>Peregrina\u00e7\u00e3o Anivers\u00e1ria do Migrante e do Refugiado<\/p>\n<p>F\u00e1tima, 13 de Agosto de 2015 &#8211; Hom\u00edlia<\/p>\n<p>Caros fi\u00e9is em Cristo, como eu, peregrinos de F\u00e1tima,<\/p>\n<p>Senhor D. Ant\u00f3nio Marto, rosto da Igreja de Leiria-F\u00e1tima que nos acolhe,<\/p>\n<p>Senhor Reitor deste Santu\u00e1rio Nacional,<\/p>\n<p>Gostava de come\u00e7ar esta reflex\u00e3o com algumas quest\u00f5es. N\u00e3o perguntas ociosas, mas ajuda ao trabalho de bem pensar. Ao criar o homem e o mundo, Deus tinha em mente algum plano? Se sim, esse projecto ou plano concretizou-se plenamente? E se n\u00e3o se implementou na sua totalidade, isso deve-se a qu\u00ea: \u00e0 fraqueza de Deus ou \u00e0 for\u00e7a do homem que se lhe op\u00f5e? Mas, ent\u00e3o, quem \u00e9 mais forte: Deus ou o homem?<\/p>\n<p>Estas quest\u00f5es v\u00eam-me \u00e0 mente ao escutar as leituras agora proclamadas. A primeira \u00e9 um hino de alegria e exulta\u00e7\u00e3o porque o profeta vislumbra na salva\u00e7\u00e3o operada pelo Messias, verdadeira restaura\u00e7\u00e3o do plano origin\u00e1rio de Deus, o g\u00e9rmen do nascimento de um mundo novo. Mundo j\u00e1 n\u00e3o regido pelos asfixiantes limites das fronteiras, ra\u00e7as, l\u00ednguas, nacionalismos, costumes ou outros, mas mundo global, no qual o pr\u00f3prio estrangeiro possua os mesmos direitos que o nacional, o pobre possa saciar-se em igualdade de circunst\u00e2ncias com o rico e a todos esteja assegurado um futuro de paz, de harmonia e de contentamento. \u00c9 a felicidade messi\u00e2nica, aqui expressa em chave de alegria, com verbos tais como alegrar-se, rejubilar, regozijar, saborear delicias, acariciar, consolar, pular de j\u00fabilo, retomar vigor, etc.<\/p>\n<p>Curiosamente, n\u00e3o foi isto o que Jesus experimentou na sua pr\u00f3pria terra, como nos dizia o Evangelho. Os habitantes de Nazar\u00e9, pequen\u00edssima localidade onde todos se conheciam e, portanto, poderiam viver como fam\u00edlia, deixaram-se tomar por aquele clima de desconfian\u00e7a, desvaloriza\u00e7\u00e3o do outro, inveja e maledic\u00eancia. E rejeitam Jesus. E o Senhor sofre esta afronta, a ponto de se queixar: \u201c<em>Um profeta s\u00f3 \u00e9 desprezado na sua p\u00e1tria e em sua casa<\/em>\u201d (Mt 13, 57). E a cena \u00e9 descrita com termos negativos, tais como esc\u00e2ndalo, desprezo, falta de f\u00e9, etc. Repare-se, pois: enquanto o profeta da primeira leitura sonha e exulta com a dimens\u00e3o social do projecto de Deus para o mundo, Jesus v\u00ea-se confrontado com o anti-plano, com a recusa do projecto de Deus, com a for\u00e7a desagregadora de uma humanidade que teima em introduzir do seu e expulsar Deus. Esta ac\u00e7\u00e3o humana exprime-se em fechamento, recusa, desagrega\u00e7\u00e3o, conflito, barreiras, isolamento, desconfian\u00e7a, \u00f3dio e morte.<\/p>\n<p>De facto, a hist\u00f3ria do mundo tem-se jogado entre estes dois p\u00f3los. E quantas vezes parece que s\u00f3 fica o homem com as suas desordens e que Deus \u00e9 obrigado a \u00abbater em retirada\u00bb! Foi assim nas duas guerras mundiais \u2013 estamos no centen\u00e1rio da primeira e, depois de amanh\u00e3, comemoraremos os 70 anos do final da segunda-, foi assim em Auschwitz e parece ser assim em tantos dramas do presente. Mas n\u00f3s, no Credo, a respeito de Jesus, rosto vis\u00edvel de Deus, professamos solenemente: \u201c<em>O seu reino n\u00e3o ter\u00e1 fim<\/em>\u201d. Isto \u00e9: o \u00fanico soberano do mundo \u00e9 Deus e n\u00e3o qualquer outro poder ou realidade.<\/p>\n<p>Sim, eu creio firmemente que, n\u00e3o obstante a for\u00e7a desagregadora do mal, do ego\u00edsmo e do pecado que o homem introduz no mundo, a hist\u00f3ria segue o plano de Deus e se encaminha para um futuro de unidade do g\u00e9nero humano e de fraternidade entre todos. Tal como n\u00e3o caminhamos da sabedoria da idade adulta para a ignor\u00e2ncia dos tempos de beb\u00e9, tamb\u00e9m a hist\u00f3ria n\u00e3o caminha do mais para o menos, da abertura para o isolamento, da universalidade para o particularismo. Ora, esta vis\u00e3o ajuda-nos a compreender a problem\u00e1tica, t\u00e3o actual, das migra\u00e7\u00f5es, a qual, ali\u00e1s, tradicionalmente d\u00e1 tema a esta Peregrina\u00e7\u00e3o Anivers\u00e1ria de Agosto. Eis algumas considera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Os judeus antigos tinham consci\u00eancia clara que viviam numa terra que n\u00e3o lhes pertencia, que era propriedade de Deus cedida gratuitamente ao povo (cf Lev 25, 23). Por isso, sentia-se tamb\u00e9m ele como que perenemente estrangeiro e, consequentemente, com o cora\u00e7\u00e3o mais desperto para amar o migrante: a estes se concediam os mesmos cuidados e aten\u00e7\u00f5es que aos \u00f3rf\u00e3os e \u00e0s vi\u00favas, os mais pobres dos pobres (cf Dt 24, 19-21). Tinha-se presente a experi\u00eancia hist\u00f3rica do povo de Israel no Egipto: como o acolhimento do emigrante facilmente se transformou em hostilidade e explora\u00e7\u00e3o, at\u00e9 \u00e0 sua redu\u00e7\u00e3o \u00e0 escravatura.<\/p>\n<p>Fiquemos a pensar nestas palavras s\u00e1bias do Papa Francisco: \u201c<em>\u00c0 globaliza\u00e7\u00e3o do fen\u00f3meno migrat\u00f3rio \u00e9 preciso responder com a globaliza\u00e7\u00e3o da caridade e da coopera\u00e7\u00e3o, a fim de se humanizarem as condi\u00e7\u00f5es dos migrantes. Ao mesmo tempo, \u00e9 preciso intensificar os esfor\u00e7os para criar as condi\u00e7\u00f5es aptas a garantirem uma progressiva diminui\u00e7\u00e3o das raz\u00f5es que impelem popula\u00e7\u00f5es inteiras a deixar a sua terra natal devido a guerras e carestias<\/em>\u201d (Mensagem para a Jornada Mundial do Migrante e Refugiado 2015).<\/p>\n<p>Sei bem que estas quest\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o de f\u00e1cil solu\u00e7\u00e3o nem esta passa por se abrirem as fronteiras de forma indiscriminada. Mas temos o direito de exigir aos pol\u00edticos do mundo solu\u00e7\u00f5es s\u00e9rias e sustent\u00e1veis. Mas temos tamb\u00e9m de criar e difundir uma nova mentalidade: a do tal projecto universal de Deus que se h\u00e1-de sobrepor aos regionalismos e \u00e0s barreiras humanas.<\/p>\n<p>Caros emigrantes, convoco-vos para esta nobre miss\u00e3o: levai aos homens e mulheres dos pa\u00edses onde viveis esta abertura de esp\u00edrito, esta verdadeira evangeliza\u00e7\u00e3o. Mostrai-lhes que a nossa Igreja n\u00e3o possui fronteiras e, \u00e9 m\u00e3e de todos. Apresentai-lhes uma Igreja que \u00e9 migrante por natureza: come\u00e7ou com um Fundador, Jesus, que, mal nasceu, teve de se refugiar no Egipto; nos seus Ap\u00f3stolos, foi enviada a todo o mundo; e muito deve aos crist\u00e3os de Jerusal\u00e9m que tiveram de deixar a sua terra ap\u00f3s a persegui\u00e7\u00e3o que martirizou Est\u00eav\u00e3o, pois estes tornaram-se os primeiros evangelizadores al\u00e9m-fronteiras. Tamb\u00e9m hoje vos convido a irdes \u00e0 sociedade onde residis levar a luz da f\u00e9 e de uma mentalidade mais humanizada. Fazei-o com alegria e s\u00e3o orgulho: v\u00f3s dais mais aos povos que vos acolheram do que trazeis deles. Dais mais economicamente \u2013 se eles vos d\u00e3o cinco, v\u00f3s gerais riqueza de quinze ou vinte &#8211; e dais muito mais em luz da f\u00e9, pois, alguns deles, deixaram apagar a vela do seu baptismo.<\/p>\n<p>Queria, neste momento, felicitar e agradecer aos que vos ajudam no dia-a-dia a manter viva a vossa f\u00e9 e as vossas tradi\u00e7\u00f5es de origem: os mission\u00e1rios sacerdotes, religiosas e religiosos e leigos. A Igreja portuguesa tem fracos recursos. Mas saber\u00e1 disponibilizar alguns deles para vos acompanhar. Sim, a Igreja, que reivindica a honra de ter estado convosco desde a primeira hora, muito antes do Estado ou de qualquer outro organismo, continuar\u00e1 a fazer caminhada convosco. Abri-vos a ela. Caminhai tamb\u00e9m v\u00f3s com ela.<\/p>\n<p>Sabeis que estamos a preparar o centen\u00e1rio das apari\u00e7\u00f5es de F\u00e1tima. A imagem peregrina de Nossa Senhora anda a visitar as Dioceses portuguesas. \u00c9 a Senhora, mais uma vez, a deixar a sua \u00abcasa\u00bb e a fazer-se migrante. Ela participa, portanto, da vossa condi\u00e7\u00e3o. Participai, tamb\u00e9m v\u00f3s, da sua condi\u00e7\u00e3o de disc\u00edpula de Jesus e membro proeminente da Igreja.<\/p>\n<p>Que ela vos alcance de seu Filho Jesus as gra\u00e7as indispens\u00e1veis \u00e0 vossa vida. E que a intercess\u00e3o dos Beatos Francisco e Jacinta Marto e da serva de Deus Irm\u00e3 L\u00facia vos obtenha o atendimento dos pedidos que trazeis a esta Peregrina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>+ Manuel Linda<\/p>\n<p>Bispo das For\u00e7as Armadas e de Seguran\u00e7a de Portugal<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 desta consci\u00eancia que, hoje, o nosso mundo necessita. Chega de muros de cimento armado e de mentalidades que se isolam e se fecham ao exterior! Basta de cimeiras para descortinar formas de impedir que os povos da fome se aproximem da nossa casa, apenas para apanharem as migalhas que caem da nossa mesa! N\u00e3o mais o travar caminho aos que fogem \u00e0 carnificina horrorosa e b\u00e1rbara dos que matam em nome de uma f\u00e9! Deixe-se de invocar falta de recursos por parte da Uni\u00e3o Europeia \u2013 ela que at\u00e9 os esbanja em ac\u00e7\u00f5es n\u00e3o muito \u00e9ticas &#8211; para se continuar a fazer do Mediterr\u00e2neo a \u00abvala comum\u00bb onde se sepultam os transportados nas obsoletas \u00abcarretas funer\u00e1rias\u00bb! Considere-se a xenofobia e o racismo como crimes contra Deus e contra a humanidade! Arranjem-se formas de vedar definitivamente a possibilidade de se viver \u00e0 base do sangue sugado ao trabalhador escravizado, como tantas vezes as not\u00edcias nos referem! <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1809,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[5,24],"tags":[],"class_list":["post-1871","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","category-semana-nacional-de-migracoes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1871","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1871"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1871\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2009,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1871\/revisions\/2009"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1809"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1871"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1871"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1871"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}