{"id":2038,"date":"2015-10-06T10:56:06","date_gmt":"2015-10-06T10:56:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/ocpm\/v2\/?p=2038"},"modified":"2015-10-06T11:03:49","modified_gmt":"2015-10-06T11:03:49","slug":"para-que-nos-servem-as-religioes-o-sentido-de-comunidade-ou-o-apelo-de-construir-o-oikos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/para-que-nos-servem-as-religioes-o-sentido-de-comunidade-ou-o-apelo-de-construir-o-oikos\/","title":{"rendered":"Para que nos servem as religi\u00f5es? O sentido de Comunidade, ou o apelo de construir o oikos"},"content":{"rendered":"<p>De uma forma muito mais ecol\u00f3gica \u2014 e digo-o porque com menos mortes de \u00e1rvores, mas tamb\u00e9m porque mais eficaz para com os problemas das comunidades humanas onde essas quest\u00f5es cada vez se colocam de forma mais premente \u2014, quem est\u00e1 no terreno, junto das comunidades, sabe muito bem que \u00e9 no equil\u00edbrio, no matiz entre o multi e o inter, que tudo se joga, num tabuleiro onde, mais que saberes te\u00f3ricos, \u00e9 com sensibilidades, com confian\u00e7a e com compromissos que se constr\u00f3i comunidade.<\/p>\n<p>E o equil\u00edbrio resulta daquilo que, mais uma vez, quem est\u00e1 no terreno muito bem sabe: um grupo precisa de definir identidade para manter amarras e coes\u00e3o, trazendo o multicultural para o todo, muitas vezes como uma imposi\u00e7\u00e3o, mas o colectivo mais largo que o grupo necessita que, para que haja di\u00e1logo, esse multi, em que cada parte se afirma pela diferen\u00e7a, se encontre no espa\u00e7o comum, na \u00e1gora, na pra\u00e7a p\u00fablica da cidadania onde se d\u00e1 o intercultural, que resulta em choque, em confronto, e em mudan\u00e7a e adapta\u00e7\u00e3o de cada uma das partes, mas enriquece a todos.<\/p>\n<p>Sem o multicultural n\u00e3o temos identidades e cada indiv\u00edduo poder\u00e1 ser um \u00f3rf\u00e3o se a sua raiz for destru\u00edda, e o colectivo precisa que cada individualidade d\u00ea espa\u00e7o aos indiv\u00edduos para tocarem no semelhante que \u00e9 diferente, criando a interculturalidade. Pode parecer simples, mas a Europa anda com esta equa\u00e7\u00e3o, este verdadeiro enigma matem\u00e1tico, h\u00e1 muito tempo sem conseguir chegar a uma solu\u00e7\u00e3o minimamente satisfat\u00f3ria. A riqueza da diferen\u00e7a encontra-se nesse fio-de-prumo que nos indica um meio-termo imagin\u00e1rio entre a manuten\u00e7\u00e3o do espec\u00edfico atrav\u00e9s da afirma\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a e o comunit\u00e1rio que obriga, logicamente, a fazer concess\u00f5es e abdicar de absolutos.<\/p>\n<p>Foi com alguma apreens\u00e3o que nos \u00faltimos dias fui para um debate na Apela\u00e7\u00e3o, Loures, que reunia um grupo de religiosos de v\u00e1rias tradi\u00e7\u00f5es com implanta\u00e7\u00e3o na freguesia, em torno da ideia\u00a0<em>Amar \u00e9 cuidar<\/em>. Era um debate centrado no lugar dos idosos na sociedade.<\/p>\n<p>E ia com alguma apreens\u00e3o porque os mais normais encontros de lideran\u00e7as religiosas t\u00eam duas caracter\u00edsticas fundamentais. Por um lado, s\u00e3o sempre os mesmos actores, os \u201cpresidentes\u201d, o topo das hierarquias; por outro, esses debates s\u00e3o quase sempre em torno de ideias muito vagas, direccionadas para conceitos fundamentais como a Paz, mas libertos de qualquer amarra ao mundo das pessoas e dos colectivos que ouvem t\u00e3o doutos l\u00edderes. O meu papel, que tamb\u00e9m se repete, \u00e9 o do acad\u00e9mico, a pessoa conhecedora e isenta que pode ser um garante de di\u00e1logo e respeito \u2014 a minha tarefa \u00e9 sempre muito f\u00e1cil de cumprir.<\/p>\n<p>Mas no fim-de-semana passado, na Apela\u00e7\u00e3o, o desafio era o de nos amarrar ao concreto, a quest\u00f5es que importunavam os ouvintes: os idosos maltratados, os idosos abandonados, vigarizados, ostracizados. A organiza\u00e7\u00e3o da autarquia de Loures tudo tinha articulado para nos conduzir para respostas e n\u00e3o para ideias vagas, come\u00e7ando pelo primeiro momento desse evento: uma pe\u00e7a de teatro apresentada por um punhado de jovens do bairro, um bairro complicado e problem\u00e1tico, o Teatro Ibisco, que nos mostrou, de forma muito directa, a viol\u00eancia sobre os idosos. O mote estava lan\u00e7ado. O debate seria sobre o concreto.<\/p>\n<p>E fez-se multiculturalidade porque cada grupo, cada l\u00edder religioso, levou a sua experiencia, a sua forma de lidar com as situa\u00e7\u00f5es; mas tamb\u00e9m se fez interculturalidade porque o grande apelo transversal todo foi o do comum, da comunidade, dos gestos e das pr\u00e1ticas que salvaguardam os direitos dos idosos no seu geral.<\/p>\n<p>Nos tempos que correm em que a fam\u00edlia alargada que herd\u00e1mos de s\u00e9culos e s\u00e9culos de vida em comunidade j\u00e1 quase n\u00e3o existe, foi especialmente significativo ouvir a experiencia da comunidade cigana atrav\u00e9s da Igreja Cigana Filad\u00e9lfia. Com tantas diferen\u00e7as encerradas em muros que erguemos em torno da imagem de \u201ccigano\u201d, ali todos percebemos que, para as comunidades ciganas, os idosos ainda s\u00e3o os anci\u00e3os, os que s\u00e3o ouvidos e respeitados, os que s\u00e3o procurados para conselho. N\u00e3o h\u00e1 abandono de idosos, dando a todos n\u00f3s uma li\u00e7\u00e3o de dignidade que nos obriga a quebrar os referidos muros.<\/p>\n<p>Mas o evento n\u00e3o se esgotava neste debate. No dia seguinte, domingo, enquadrada nas Festas da Sra. da Fonte, cat\u00f3lica, voltou-se a fazer o multi e o inter cultural. A prociss\u00e3o deixou de ser normal e juntou-se a uma marcha c\u00edvica em que se misturavam c\u00e2nticos religiosos, com frases emblem\u00e1ticas de cidadania, empunhadas como se uma manifesta\u00e7\u00e3o silenciosa fosse. Os principais actores, na sua coragem, foram as crian\u00e7as.<\/p>\n<p>No fim, ao bom gosto mediterr\u00e2nico, regressando \u00e0 frase de Homero no final do Canto I da\u00a0<em>Il\u00edada<\/em>, ouve uma refei\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, onde todos s\u00e3o iguais. A comunidade cigana, a guineense, a cabo-verdiana, entre outras, partilharam a cozinha e serviram mais de 700 refei\u00e7\u00f5es marcadas pelas suas gastronomias. Todos comeram a um pre\u00e7o simb\u00f3lico do prato e dos sabores do vizinho do lado. Um vizinho tantas vezes olhado com desconfian\u00e7a, mas aqui algu\u00e9m que alimentou.<\/p>\n<p>Tudo foi poss\u00edvel gra\u00e7as \u00e0s comunidades religiosas do bairro, \u00e0 Pastoral dos Ciganos, \u00e0 autarquia de Loures e \u00e0 Junta de Freguesia da Apela\u00e7\u00e3o, e a tantos como eu que, com as suas especificidades, passaram umas boas horas de forma diferente, a olhar para um rol imenso de \u201coutros\u201d, percebendo melhor o que \u00e9 a multiculturalidade e a interculturalidade.<\/p>\n<p>Um\u00a0<em>oikos<\/em>\u00a0\u00e9 isso, a reuni\u00e3o das individualidades numa dimens\u00e3o de comum. \u00c9 assim que se faz Comunidade.<\/p>\n<p>02.10.2015 &#8211; Paulo Mendes Pinto, in\u00a0lifestyle.publico.pt\/religiaonacidade<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sem o multicultural n\u00e3o temos identidades e cada indiv\u00edduo poder\u00e1 ser um \u00f3rf\u00e3o se a sua raiz for destru\u00edda, e o colectivo precisa que cada individualidade d\u00ea espa\u00e7o aos indiv\u00edduos para tocarem no semelhante que \u00e9 diferente, criando a interculturalidade. <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2040,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4,7],"tags":[],"class_list":["post-2038","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","category-recortes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2038","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2038"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2038\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2043,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2038\/revisions\/2043"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2040"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2038"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2038"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2038"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}