{"id":2418,"date":"2016-05-12T09:13:41","date_gmt":"2016-05-12T09:13:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/ocpm\/v2\/?p=2418"},"modified":"2016-05-12T09:13:41","modified_gmt":"2016-05-12T09:13:41","slug":"frei-eugenio-boleo-um-padre-portugues-no-meio-dos-portugueses-na-belgica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/frei-eugenio-boleo-um-padre-portugues-no-meio-dos-portugueses-na-belgica\/","title":{"rendered":"Frei Eug\u00e9nio Bol\u00e9o um padre portugu\u00eas no meio dos portugueses na B\u00e9lgica"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Nos nossos dias n\u00e3o venham para a B\u00e9lgica s\u00f3 com promessas para tentar a sorte\u201d<\/p>\n<p><strong>A experi\u00eancia ensinou ao frei Eug\u00e9nio Bol\u00e9o que \u201cas nossas vidas s\u00e3o feitas de ciclos\u201d, como referiu na carta de despedida que escreveu aos membros da Comunidade Cat\u00f3lica Portuguesa de Ixelles (C.C.P.I.), em Bruxelas, por ocasi\u00e3o da sua passagem \u00e0 reforma, depois de quatorze anos como seu Respons\u00e1vel Pastoral. Antes de ser ordenado padre, foi oficial da Marinha Portuguesa (fuzileiro especial) e esteve na guerra no Ultramar. <\/strong><br \/>\n<strong>Uma experi\u00eancia t\u00e3o forte, que o fez repensar a sua carreira e que o levou a tomar um rumo diferente na vida. \u00c9 o \u00fanico padre portugu\u00eas no meio dos portugueses na B\u00e9lgica e durante estes anos tem convivido de perto com os seus compatriotas naquele pa\u00eds.<\/strong><\/p>\n<p>Frade dominicano, Eug\u00e9nio Bol\u00e9o chegou \u00e0 B\u00e9lgica em v\u00e9speras do Natal de 2001 e come\u00e7ou juntamente com treze dominicanos de sete diferentes pa\u00edses europeus uma nova comunidade: a Comunidade Dominicana Internacional de S\u00e3o Domingos, em Bruxelas. Nesta entrevista ao \u2018Mundo Portugu\u00eas\u2019, recorda o seu percurso de vida, que o levou a entrar para a Ordem dos Pregadores (Ordem Dominicana), e da \u201csucess\u00e3o de acontecimentos\u201d que o fizeram descobrir que valia a pena dedicar-se \u00e0 evangeliza\u00e7\u00e3o durante toda a sua vida. Fala tamb\u00e9m sobre quest\u00f5es de F\u00e9 e sobre os portugueses na B\u00e9lgica.<\/p>\n<p><strong>A f\u00e9 esteve sempre presente na sua vida? Houve um \u2018chamamento\u2019 para se tornar padre?<\/strong><br \/>\nNasci e cresci numa fam\u00edlia profundamente cat\u00f3lica que, poderia dizer, n\u00e3o era do estilo tradicional da altura. Os meus pais educaram-nos, \u00e9ramos nove irm\u00e3os, a querer aprender e perguntar as raz\u00f5es das coisas. Desde novo que me habituei a ter de enfrentar opini\u00f5es diferentes, incluindo acerca da religi\u00e3o.<br \/>\nN\u00e3o considero que tenha tido um chamamento especial para me tornar padre. Penso que \u201cDeus escreve direito por linhas tortas\u201d e que me foi levando a pouco e pouco a ir tomando decis\u00f5es, at\u00e9 chegar a entrar nos Dominicanos. Foram os acontecimentos que me fizeram ir evoluindo at\u00e9 mudar o meu objetivo de vida &#8211; de oficial da Marinha de Guerra &#8211; para religioso e padre numa Ordem de Pregadores.<\/p>\n<p><strong>Esteve na guerra onde e em que altura?<\/strong><br \/>\nA viragem mais decisiva na minha vida deu-se durante a guerra em Angola, em 1964. Sendo imediato, tive de ficar a comandar um Destacamento de Fuzileiros Especiais (75 homens) em zonas nevr\u00e1lgicas, no norte de Angola (na zona do rio Zaire) e em Cabinda (Lagoa do Massabi). Essa experi\u00eancia foi t\u00e3o forte que me fez repensar a vida. Uma constata\u00e7\u00e3o que me impressionou foi ver como a esmagadora maioria dos jovens com a minha idade, entre fuzileiros e civis, tinham tanto receio de Deus. Viam-nO como um castigador, que incute medo. Comecei ent\u00e3o a pensar que valia a pena que me dedicasse a ajudar as pessoas a descobrirem que o que elas pensavam sobre Deus, era completamente diferente do que Jesus tinha ensinado e no qual eu acreditava.<br \/>\nEstava em zonas fronteiri\u00e7as com pa\u00edses que eram hostis a Portugal e que davam apoio aos grupos de guerrilheiros angolanos que n\u00f3s combat\u00edamos. T\u00ednhamos assim de ter muito contato com os servi\u00e7os de informa\u00e7\u00f5es e de contra-informa\u00e7\u00f5es. Tamb\u00e9m acontecia fazermos prisioneiros durante as opera\u00e7\u00f5es e patrulhas. Outra quest\u00e3o era a colabora\u00e7\u00e3o com os servi\u00e7os especializados em \u201ctirar informa\u00e7\u00f5es\u201d aos prisioneiros, usando, muitas vezes a tortura. Como comandante do Destacamento passei, apenas com 26 anos, a ter acesso ao \u201clado invis\u00edvel\u201d da guerra. Eu recebia informa\u00e7\u00f5es e tinha de tomar decis\u00f5es a que normalmente s\u00f3 se tem acesso quando se \u00e9 muito mais velho.<br \/>\nQuem \u00e9 confrontado com atrocidades em ambientes de guerra, \u00e9 mais normal que ponha em quest\u00e3o a exist\u00eancia e a bondade de Deus.<br \/>\nMas, de facto, n\u00e3o sei por qu\u00ea, a mim aconteceu-me o contr\u00e1rio. Foi nessa altura que comecei a acreditar, com muita for\u00e7a interior, que Deus era mesmo um Pai para toda a gente. Se n\u00e3o fosse Pai e n\u00e3o quisesse que tiv\u00e9ssemos nascido para nos realizarmos e sermos felizes, as vidas de milh\u00f5es e milh\u00f5es de pessoas n\u00e3o teriam sentido, de tal modo vivem sem dignidade e numa constante luta pela sobreviv\u00eancia.<br \/>\nFoi acontecendo algo de inexplic\u00e1vel: quanto mais as circunst\u00e2ncias poderiam ter denegrido a imagem de Deus em mim, mais ia crescendo a forte convic\u00e7\u00e3o de que para Deus cada pessoa tinha um valor inestim\u00e1vel.<br \/>\nFazer com que as pessoas descobrissem isso, poderia mudar as suas vidas e dar-lhes muita esperan\u00e7a.<br \/>\nTer estado na guerra deu-lhe uma perspectiva diferente da import\u00e2ncia da paz?<br \/>\nCompletamente diferente. Passados cinquenta anos do in\u00edcio da guerra em Angola, em 2011, escrevi um pequeno artigo onde dizia que \u201ca guerra \u00e9 onde os contra-valores se apresentam como valores\u201d. Fomo-nos habituando a ver as guerras como um espet\u00e1culo com os seus combates, bombardeamentos, destrui\u00e7\u00f5es, mortos, \u2026<br \/>\nMas pior do que isso \u00e9 a nossa maneira de avaliar esses acontecimentos, a ponto de justificarmos todas as ac\u00e7\u00f5es destruidoras de pessoas como sendo um combate justo com um inimigo, que se torna uma entidade impessoal amea\u00e7adora e sem rosto. Convencemo-nos, ou deixamo-nos convencer que estamos a lutar para salvar grandes valores: os direitos hist\u00f3ricos, a defesa duma civiliza\u00e7\u00e3o, a democracia, o dever de combater o terrorismo, at\u00e9 mesmo poupar muitas vidas com informa\u00e7\u00f5es obtidas por torturas, etc.<br \/>\nTodas as viol\u00eancias e destrui\u00e7\u00f5es passam a ser feitas com a consci\u00eancia em paz. Os contra-valores mais destruidores ficam transformados em grande valores. E isto, estou convencido, tem acontecido em todas as guerras. A meu ver \u00e9 uma profunda degrada\u00e7\u00e3o humana. O que vivi intensamente fez-me descobrir como a Paz entre as pessoas \u00e9 fundamental para vivermos bem neste planeta. Vi que a Paz ainda \u00e9 mais necess\u00e1ria do que a sa\u00fade. Um doente em paz vive melhor do que uma pessoa saud\u00e1vel sempre em conflito.<br \/>\nAcreditando que Deus \u00e9 Criador e Pai, reconhecemos que somos o produto de um Amor imenso e que somos criados com uma grande capacidade para amar e para viver em comunh\u00e3o com os outros; mas que na maioria das pessoas essa capacidade anda adormecida ou \u00e9 mal utilizada. N\u00e3o podemos ficar satisfeitos com um desejo instintivo de paz. Este desejo deve ser transformado numa firme convic\u00e7\u00e3o pessoal e desenvolver um profundo sentido de responsabilidade pela constru\u00e7\u00e3o da Paz.<br \/>\nE se acreditamos que ao longo da caminhada da vida n\u00e3o estamos s\u00f3s, mas que Jesus est\u00e1 vivo conosco, experimentamos que com Ele somos capazes de fazer coisas maravilhosas muito al\u00e9m do que sonh\u00e1vamos.<br \/>\n\u00c9 bom descobrir que a Paz nunca est\u00e1 sozinha. Tem muitas amigas e amigos que a acompanham: a esperan\u00e7a num mundo mais humano, o bem comum, a confian\u00e7a m\u00fatua, a procura da beleza, a procura do amor duradouro, a procura da justi\u00e7a, o sentido da responsabilidade, a capacidade de fazer boas escolhas, a partilha, a humildade, o valor de cada pessoa e muitos outros\u2026<\/p>\n<p><strong>A mudan\u00e7a de vida da Marinha para a de padre, foi r\u00e1pida?<\/strong><br \/>\nEm plena guerra no Ultramar sair da Marinha, sendo oficial de carreira &#8211; e n\u00e3o do servi\u00e7o militar obrigat\u00f3rio -, s\u00f3 poderia acontecer por doen\u00e7a muito grave ou por deser\u00e7\u00e3o. Estavam fora dos meus planos procurar obter atestados m\u00e9dicos falsos ou desertar. Estava convencido que se Deus queria que fosse padre, havia de fazer com que o Ministro da Marinha me deixasse sair.<br \/>\nDepois dum processo dif\u00edcil, tendo chegado at\u00e9 ao di\u00e1logo com o Ministro recebi um claro \u201cN\u00e3o, nem pensar!\u201c S\u00f3 umas semanas mais tarde, para grande surpresa e alegria minha, ele me veio a conceder a t\u00e3o desejada licen\u00e7a que me permitiu entrar na ordem dos Dominicanos e dar inicio ao meu noviciado. J\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o 50 anos.<\/p>\n<p><strong>Por qu\u00ea a Ordem Dominicana?<\/strong><br \/>\nTamb\u00e9m n\u00e3o encontro nenhuma raz\u00e3o especial. Nessa altura n\u00e3o conhecia nenhum dominicano e apenas conhecia as numerosas refer\u00eancias a eles na Hist\u00f3ria de Portugal e da Igreja. Quem me sugeriu que fosse \u201cbater \u00e0 porta\u201d dos Dominicanos foi um bom amigo meu que tinha sido novi\u00e7o dominicano no convento de F\u00e1tima e que continuava amigo dos frades pregadores. Foi assim que os conheci.<br \/>\nMudei de ramo, mas por coincid\u00eancia pude manter a cor branca da farda da Marinha, pois o h\u00e1bito dos dominicanos tamb\u00e9m \u00e9 branco.<br \/>\nApesar de conhecer alguns padres seculares que muito contribu\u00edram para a minha forma\u00e7\u00e3o crist\u00e3 desde crian\u00e7a &#8211; Manuel de Almeida Trindade, Manuel Vieira Pinto e Alberto Neto, entre outros &#8211; tinha o desejo de entrar numa Ordem religiosa onde a ora\u00e7\u00e3o e a evangeliza\u00e7\u00e3o tivessem um lugar importante.<\/p>\n<p><strong>O que define a Ordem Dominicana?<\/strong><br \/>\nO nome oficial \u00e9 Ordem dos Pregadores, que deu origem a uma grande Fam\u00edlia com variados ramos: monjas de clausura, frades, leigos (adultos e jovens) e religiosas de vida ativa. Espalhados pelos cinco Continentes, re\u00fanem-se em mosteiros, conventos, fraternidades, congrega\u00e7\u00f5es, fam\u00edlias, equipas e movimentos. Na origem desta Ordem e da Fam\u00edlia que dela nasceu est\u00e1 um homem cuja vida teve uma extraordin\u00e1ria fecundidade evang\u00e9lica: Domingos de Gusm\u00e3o (1170-1221). A Ordem foi fundada em 1215, estando a festejar-se presentemente os seus 800 anos. Os dominicanos chegaram a Portugal em 1217.<br \/>\nNa carta que o Papa de ent\u00e3o escreveu a Domingos diz-se: \u201cpara que vos entregueis \u00e0 proclama\u00e7\u00e3o da Palavra de Deus, evangelizando pelo mundo inteiro o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo\u201d. A Ordem foi institu\u00edda especialmente pela necessidade que havia da prega\u00e7\u00e3o. At\u00e9 ent\u00e3o, na Igreja Cat\u00f3lica apenas os bispos pregavam, como no tempo dos Ap\u00f3stolos, e por isso, como os padres n\u00e3o podiam pregar, a grande maioria dos crist\u00e3os durante gera\u00e7\u00f5es seguidas, tinham as devo\u00e7\u00f5es, as prociss\u00f5es, ouviam contar as vidas dos santos e praticavam os sacramentos, mas n\u00e3o conheciam o Evangelho. A funda\u00e7\u00e3o da Ordem Dominicana, juntamente com a Ordem Franciscana, criada na mesma altura, abriu um nova etapa na Hist\u00f3ria da Igreja.<\/p>\n<p><strong>Portugal e B\u00e9lgica s\u00e3o pa\u00edses com rela\u00e7\u00f5es seculares?<\/strong><br \/>\nSim, remontam ao primeiro rei de Portugal. D. Teresa, filha de D. Afonso Henriques casou-se em 1184 com Filipe da Als\u00e1cia, Conde da Flandres. Mas foi sobretudo em 1430, com o casamento de D. Isabel, filha de D. Jo\u00e3o I, com Filipe, o Bom, Duque de Borgonha, que se deu a primeira grande entrada de emigrantes portugueses, porque ela foi para B\u00e9lgica (ent\u00e3o chamada Flandres) acompanhada por muitos portugueses e portuguesas.<br \/>\nNo s\u00e9culo XX a imigra\u00e7\u00e3o portuguesa na B\u00e9lgica come\u00e7ou por volta dos anos 50 com a vinda, organizada entre os governos, de trabalhadores para as minas de carv\u00e3o, e depois nos anos 60 e 70, para fugirem da pobreza e da guerra colonial. A vinda mais numerosa deu-se a partir de 1986, com a entrada de Portugal na Uni\u00e3o Europ\u00e9ia.<\/p>\n<p><strong>De que forma o seu percurso o levou at\u00e9 \u00e0 B\u00e9lgica, onde \u00e9 o \u00fanico padre portugu\u00eas no meio dos portugueses?<\/strong><br \/>\nMais uma vez poderia dizer que \u201cDeus escreve direito por linhas tortas\u201d. Antes de vir para B\u00e9lgica em 2001, j\u00e1 tinha vivido cerca de oito anos em pa\u00edses de l\u00ednguas francesa e inglesa. Tamb\u00e9m tinha colaborado intensamente a n\u00edvel europeu com o ramo dos leigos da Ordem Dominicana. Quando come\u00e7ou a ser preparada a nova Comunidade Internacional Dominicana em Bruxelas, pediram volunt\u00e1rios e eu ofereci-me.<br \/>\nUma parte muito importante do trabalho pastoral que passei a ter com os portugueses, para al\u00e9m do \u201ctesouro\u201d que era a catequese de crian\u00e7as, jovens e adultos, foi criar \u201cpontes\u201d e rela\u00e7\u00f5es humanas com as associa\u00e7\u00f5es portuguesas, com as festas dos portugueses na B\u00e9lgica, com o consulado e a embaixada de Portugal, com o ensino da l\u00edngua portuguesa e com os funcion\u00e1rios portugueses no Conselho, na Comiss\u00e3o e no Parlamento Europeu.<br \/>\nComo na Diocese de Bruxelas h\u00e1 mais de 40 comunidades cat\u00f3licas de origem estrangeira era preciso estabelecer contatos com elas. Por outro lado, dada a import\u00e2ncia em Bruxelas da religi\u00e3o mu\u00e7ulmana, tamb\u00e9m foi importante conhecer e contatar com respons\u00e1veis e grupos mu\u00e7ulmanos. A minha fun\u00e7\u00e3o na B\u00e9lgica como pastor foi muito al\u00e9m de celebrar missas e sacramentos.<br \/>\nEm 2010 comecei a colaborar em dois programas semanais de r\u00e1dio &#8211; \u2018Raizes de C\u00e1\u2019 e \u2018Constuir sobre a rocha\u2019 &#8211; que t\u00eam sido uma experi\u00eancia formid\u00e1vel de contato com todo o tipo de portugueses e de amigos dos portugueses.<\/p>\n<p><strong>Nos seus quase 15 anos na B\u00e9lgica, acompanhou os portugueses. A comunidade portuguesa mudou?<\/strong><br \/>\nA designa\u00e7\u00e3o de \u201ccomunidade\u201d portuguesa que se usa constantemente na comunica\u00e7\u00e3o social e nos discursos pol\u00edticos n\u00e3o me parece muito adequada. De facto, na B\u00e9lgica como noutros pa\u00edses n\u00e3o h\u00e1 propriamente uma \u201ccomunidade\u201d portuguesa . H\u00e1 portugueses e luso-descendentes que na pr\u00e1tica t\u00eam muito pouco em comum, muitas vezes nem sequer o uso da l\u00edngua portuguesa.<br \/>\nApesar de haver, felizmente, algumas exce\u00e7\u00f5es, dum lado temos os chamados \u201cimigrantes\u201d, dos quais fazem parte sobretudo trabalhadores da constru\u00e7\u00e3o civil e empregadas dom\u00e9sticas e porteiras, e do outro os chamados \u201cexpatriados\u201d que incluem os funcion\u00e1rios da Uni\u00e3o Europeia e os quadros de grandes empresas. S\u00e3o dois grupos distintos que vivem em mundos completamente separados.<br \/>\nNo que diz respeito aos trabalhadores portugueses nota-se que t\u00eam feito um grande evolu\u00e7\u00e3o social e cultural desde que aqui chegaram.<br \/>\nAs comunas de Ixelles e de Saint-Gilles continuam a ter uma concentra\u00e7\u00e3o de caf\u00e9s, restaurantes, lojas e at\u00e9 associa\u00e7\u00f5es portuguesas. At\u00e9 h\u00e1 um largo com uma est\u00e1tua do Fernando Pessoa. Mas os portugueses, sobretudo na regi\u00e3o de Bruxelas, v\u00e3o estando cada vez mais espalhados. J\u00e1 n\u00e3o se pode dizer que em Bruxelas h\u00e1 uma \u201clusotown\u201d.<br \/>\nA \u00faltima estat\u00edstica oficial do governo belga, de 2010, refere que a popula\u00e7\u00e3o de origem portuguesa aumentou 45% na Flandres. Muitos dos portugueses que est\u00e3o na B\u00e9lgica h\u00e1 15, 20 anos ou mais, depois de terem casa pr\u00f3pria em Portugal, desejam tamb\u00e9m comprar uma casa na B\u00e9lgica, pois os filhos e os netos v\u00e3o continuar a viver no pa\u00eds. V\u00e3o ent\u00e3o residir nas comunas flamengas \u00e0 volta de Bruxelas, onde as casas s\u00e3o a pre\u00e7os mais acess\u00edveis. A t\u00edtulo de exemplo: as fam\u00edlias das cerca de 150 crian\u00e7as e jovens que estavam na catequese em Ixelles em 2015, viviam em 31 comunas diferentes, embora a cidade de Bruxelas tenha apenas 19. Para virem at\u00e9 \u00e0 igreja muitos pais t\u00eam de fazer mais de 10 ou 15 quil\u00f3metros<br \/>\nAtualmente, em Bruxelas, a grande maioria dos trabalhadores e trabalhadoras portugueses s\u00e3o oriundos sobretudo dos distritos de Viseu e de Vila Real. H\u00e1 tamb\u00e9m uma imigra\u00e7\u00e3o dos anos 60 e 70 que veio do Alentejo. Nesta imigra\u00e7\u00e3o, uns foram chamando os outros e por isso, quando chegavam tinham pessoas conhecidas e familiares que lhes iam dando os apoios indispens\u00e1veis.<br \/>\nH\u00e1 agora um fen\u00f3meno novo: os que chegaram nos \u00faltimos quatro ou cinco anos que n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o t\u00eam apoios familiares na B\u00e9lgica, como tamb\u00e9m n\u00e3o sabem falar a l\u00edngua francesa e ainda menos o flamengo. Como estavam em situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis em Portugal, acreditaram em promessas e vieram para \u201ctentar a sua sorte\u201d. Ent\u00e3o come\u00e7am as dificuldades, por vezes intranspon\u00edveis, e os dramas pessoais e familiares v\u00e3o surgindo.<br \/>\nA meu ver \u00e9 preciso dizer-lhes: \u201cn\u00e3o v\u00e3o para a B\u00e9lgica apenas com promessas vagas de trabalho e de alojamento\u201d. Grande parte n\u00e3o consegue trabalho declarado e vai aceitando trabalhos prec\u00e1rios e n\u00e3o declarados, ficando completamente dependentes de pessoas que as v\u00e3o explorar. Al\u00e9m disso o processo de aluguer de casa exige muita burocracia e os pre\u00e7os s\u00e3o elevados.<br \/>\nPara ajud\u00e1-los, h\u00e1 servi\u00e7os de volunt\u00e1rios, quer portugueses, quer belgas, como o \u2018SOS a quem chega\u2019 e outros, mas que n\u00e3o t\u00eam m\u00e3os a medir para ajudar. H\u00e1 tamb\u00e9m outro tipo de imigra\u00e7\u00e3o recente que \u00e9 composta de jovens qualificados, por exemplo enfermeiras e engenheiros entre outros, que conseguem trabalho declarado e com boas condi\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas. Ainda \u00e9 cedo para ver se v\u00e3o ficar pela B\u00e9lgica.<br \/>\nQuanto aos trabalhadores da constru\u00e7\u00e3o civil contratados por empresas portuguesas e a trabalhar em grandes obras, uma grande parte passa aqui apenas alguns meses enquanto h\u00e1 trabalho. S\u00f3 uma pequena parte consegue ficar pela B\u00e9lgica. Como as leis a n\u00edvel europeu est\u00e3o a mudar, vamos ver qual ser\u00e1 o futuro desta imigra\u00e7\u00e3o na B\u00e9lgica.<br \/>\nDesde 1986, h\u00e1 tamb\u00e9m uns milhares de portugueses que s\u00e3o funcion\u00e1rios na Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 pouco falou no \u201ctesouro\u201d que \u00e9 a catequese. N\u00e3o se referia apenas \u00e0 quest\u00e3o dos ensinamentos religiosos\u2026<\/strong><br \/>\nAs duas comunidades cat\u00f3licas portuguesas em Bruxelas t\u00eam uma catequese de oito anos. \u00c9 caso \u00fanico entre as Comunidades Cat\u00f3licas de origem estrangeira, que s\u00f3 em Bruxelas s\u00e3o mais de 40.<br \/>\nAs catequeses portuguesas s\u00e3o bem organizadas. O que se verifica nestes \u00faltimos anos \u00e9 que a percentagem de crian\u00e7as que tem aulas de l\u00edngua e cultura portuguesas vai diminuindo. Assim, sobretudo as crian\u00e7as mais novas, n\u00e3o s\u00f3 t\u00eam um vocabul\u00e1rio muito reduzido em portugu\u00eas, mas sobretudo n\u00e3o sabem ler, nem escrever na nossa l\u00edngua.<br \/>\nOra, os catecismos utilizados s\u00e3o em l\u00edngua portuguesa, o que torna a comunica\u00e7\u00e3o entre catequistas e crian\u00e7as muito mais dif\u00edcil, obrigando a tradu\u00e7\u00e3o constante. Al\u00e9m disso, se pensam e falam todo o dia em franc\u00eas, como \u00e9 que v\u00e3o conseguir rezar na l\u00edngua dos pais, que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a deles? Podem decorar f\u00f3rmulas, mas sem terem uma comunica\u00e7\u00e3o pessoal com Jesus. Na vida quotidiana das fam\u00edlias n\u00e3o h\u00e1 pr\u00e1ticas crist\u00e3s como seja: ora\u00e7\u00e3o, ler a B\u00edblia, discutir quest\u00f5es de f\u00e9 ligadas \u00e0 vida do dia-a-dia. \u00c9 para mim um grande desafio ajudar as pessoas a viverem a sua f\u00e9 tamb\u00e9m em fam\u00edlia.<\/p>\n<p><strong>Este \u00e9 o Ano Santo da Miseric\u00f3rdia, decidido pelo Papa Francisco e que se prolonga at\u00e9 20 de novembro de 2016. Mas o que \u00e9 ser misericordioso?<\/strong><br \/>\nSe \u00e9 dif\u00edcil de explicar o significado de \u201cser misericordioso\u201d, felizmente os gestos e as atitudes de verdadeira miseric\u00f3rdia s\u00e3o bem entendidos pelas pessoas que os recebem.<br \/>\nUm gesto vale bem mil palavras. Apenas duas situa\u00e7\u00f5es de que fui testemunha.<br \/>\nUm jovem casal portugu\u00eas vive num apartamento em Bruxelas. Tem uma vizinha que foi fazer v\u00e1rias queixas contra eles ao administrador do pr\u00e9dio. O casal come\u00e7ou a detestar essa vizinha, que s\u00f3 lhes estava a levantar problemas. Um dia a mulher disse ao marido que no fim-de-semana ia convidar a vizinha irritante par almo\u00e7ar em casa deles. A vizinha ficou muit\u00edssimo espantada. Foi, conversaram, e no final j\u00e1 o ambiente entre eles era diferente. Uns dias depois a vizinha foi levar-lhes um vaso com flores e agradecer-lhes.<br \/>\nOutra situa\u00e7\u00e3o: Um casal portugu\u00eas batizou um filho na igreja portuguesa e a seguir foram para um restaurante perto da igreja. \u00c0 sa\u00edda da igreja, um velho pedinte, pede uma moedinha para comer. O pai da crian\u00e7a disse-lhe simplesmente: \u201dVenha almo\u00e7ar connosco\u201d. Ele foi e eu fiquei ao lado dele e senti bem o cheiro de quem n\u00e3o costuma lavar-se. Os convidados estavam muito espantados, mas n\u00e3o disseram nada. O homem almo\u00e7ou bem e foi-se embora. O pai da crian\u00e7a fez exatamente o que Jesus fazia.<br \/>\nSem dizer palavra deu-me a mim e aos convidados uma grande li\u00e7\u00e3o de Evangelho, que valeu por muitos serm\u00f5es. Um gesto de miseric\u00f3rdia \u00e9 mais eloquente que muitas palavras.<\/p>\n<p>Mundo Portugu\u00eas &#8211; Ana Gr\u00e1cio Pinto<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Nos nossos dias n\u00e3o venham para a B\u00e9lgica s\u00f3 com promessas para tentar a sorte\u201d A experi\u00eancia ensinou ao frei Eug\u00e9nio Bol\u00e9o que \u201cas nossas vidas s\u00e3o feitas de ciclos\u201d, como referiu na carta de despedida que escreveu aos membros da Comunidade Cat\u00f3lica Portuguesa de Ixelles (C.C.P.I.), em Bruxelas, por ocasi\u00e3o da sua passagem \u00e0 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2420,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-2418","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2418","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2418"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2418\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2421,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2418\/revisions\/2421"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2420"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2418"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2418"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2418"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}