{"id":2440,"date":"2016-06-01T09:45:19","date_gmt":"2016-06-01T09:45:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/ocpm\/v2\/?p=2440"},"modified":"2016-06-01T09:45:19","modified_gmt":"2016-06-01T09:45:19","slug":"perante-as-migracoes-ultrapassemos-o-medo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/perante-as-migracoes-ultrapassemos-o-medo\/","title":{"rendered":"Perante as migra\u00e7\u00f5es, ultrapassemos o medo!"},"content":{"rendered":"<div class=\"article_text\">\n<p>No mundo inteiro, h\u00e1 homens, mulheres e crian\u00e7as que s\u00e3o obrigados a deixar a sua terra. A ang\u00fastia que vivem cria neles a motiva\u00e7\u00e3o de partir. E esta motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 mais forte que todas as barreiras erguidas para lhes impedir o caminho. Posso dar testemunho disso por ter passado alguns dias na S\u00edria. Em Homs, a extens\u00e3o das destrui\u00e7\u00f5es causadas pelos bombardeamentos \u00e9 inimagin\u00e1vel. Uma grande parte da cidade est\u00e1 em ru\u00ednas. Vi uma cidade fantasma e ressenti o desespero dos habitantes do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Hoje s\u00e3o os S\u00edrios que afluem \u00e0 Europa, amanh\u00e3 ser\u00e3o outros povos. Os grandes fluxos migrat\u00f3rios a que assistimos s\u00e3o invenc\u00edveis. N\u00e3o nos apercebermos disso seria uma demonstra\u00e7\u00e3o de miopia. Procurar regular estes fluxos \u00e9 leg\u00edtimo e mesmo necess\u00e1rio, mas querer impedi-los construindo muros de arame farpado \u00e9 absolutamente in\u00fatil.<\/p>\n<p>Perante esta situa\u00e7\u00e3o, o medo \u00e9 compreens\u00edvel. Resistir ao medo n\u00e3o significa que este deva desaparecer, mas sim que n\u00e3o devemos deixar que nos paralise. N\u00e3o permitamos que a rejei\u00e7\u00e3o do estrangeiro se introduza nas nossas mentalidades, pois recusar o outro \u00e9 o germe da barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>Numa primeira etapa, os pa\u00edses ricos deveriam tomar uma consci\u00eancia mais clara de que t\u00eam a sua parte de responsabilidade nas feridas da Hist\u00f3ria que provocaram e continuam a provocar imensas migra\u00e7\u00f5es, nomeadamente de \u00c1frica ou do M\u00e9dio Oriente. E, hoje, algumas escolhas pol\u00edticas permanecem fonte de instabilidade nestas regi\u00f5es. Uma segunda etapa deveria levar estes pa\u00edses a ir al\u00e9m do medo do estrangeiro e das diferen\u00e7as de culturas, colocando-se corajosamente a moldar o novo rosto que as migra\u00e7\u00f5es j\u00e1 d\u00e3o \u00e0s nossas sociedades ocidentais.<\/p>\n<p>Em vez de ver no estrangeiro uma amea\u00e7a para o nosso n\u00edvel de vida ou a nossa cultura, acolhamo-lo como membro da mesma fam\u00edlia humana. E assim compreenderemos que, apesar de criar certamente dificuldades, o afluxo de refugiados e de migrantes tamb\u00e9m pode ser uma oportunidade. Estudos recentes mostram o impacto positivo do fen\u00f3meno migrat\u00f3rio, tanto para a demografia como para a economia. Porque ser\u00e1 que tantos discursos salientam as dificuldades sem dar valor ao que h\u00e1 de positivo? Os que batem \u00e0 porta dos pa\u00edses mais ricos que o seu levam estes pa\u00edses a tornar-se solid\u00e1rios. Ser\u00e1 que n\u00e3o os ajudam a tomar um novo impulso?<\/p>\n<p><strong>Gostaria de situar aqui a nossa experi\u00eancia de Taiz\u00e9. \u00c9 humilde e limitada, mas muito concreta. Desde Novembro do ano passado, em colabora\u00e7\u00e3o com as autoridades e algumas associa\u00e7\u00f5es locais, acolhemos em Taiz\u00e9 onze jovens migrantes do Sud\u00e3o \u2013 a maioria deles do Darfur \u2013 e do Afeganist\u00e3o, vindos da \u00abselva\u00bb de Calais. A sua chegada despertou uma impressionante vaga de solidariedade na nossa regi\u00e3o: h\u00e1 volunt\u00e1rios que v\u00eam ensinar-lhes franc\u00eas, m\u00e9dicos que os tratam gratuitamente, vizinhos que os levam a fazer passeios e a dar voltas de bicicleta\u2026 Rodeados por tanta amizade, estes jovens, que atravessaram acontecimentos tr\u00e1gicos nas suas vidas, est\u00e3o aos poucos a reconstruir-se. E este contacto simples com mu\u00e7ulmanos muda o olhar das pessoas que os encontram.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Na nossa aldeia, os jovens tamb\u00e9m foram acolhidos por fam\u00edlias de v\u00e1rios pa\u00edses \u2013 Vietnam, Laos, B\u00f3snia, Ruanda, Egipto, Iraque \u2013 que chegaram a Taiz\u00e9 ao longo de d\u00e9cadas e que fazem hoje parte integrante do nosso ambiente. Todos eles conheceram grandes sofrimentos, mas trazem \u00e0 nossa aldeia muita vitalidade gra\u00e7as \u00e0 riqueza e \u00e0 diversidade das suas culturas.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Se uma experi\u00eancia destas \u00e9 poss\u00edvel numa pequena regi\u00e3o, porque n\u00e3o haveria de ser numa escala muito mais ampla? \u00c9 um erro pensar que a xenofobia \u00e9 o sentimento mais partilhado, muitas vezes o que h\u00e1 \u00e9 muita ignor\u00e2ncia. Assim que os encontros pessoais se tornam poss\u00edveis, os medos d\u00e3o lugar \u00e0 fraternidade. Esta fraternidade implica pormo-nos no lugar do outro. A fraternidade \u00e9 o \u00fanico caminho de futuro para preparar a paz.<\/strong><\/p>\n<p>Assumindo juntos as responsabilidades exigidas pela vaga de migra\u00e7\u00f5es, em vez de brincarem com os medos, os respons\u00e1veis pol\u00edticos poderiam ajudar a Uni\u00e3o Europeia a reencontrar uma din\u00e2mica entorpecida.<\/p>\n<p>H\u00e1 toda uma jovem gera\u00e7\u00e3o europeia que aspira a esta abertura. N\u00f3s, que acolhemos h\u00e1 muitos anos, na nossa colina de Taiz\u00e9, dezenas de milhares de jovens de todo o continente para encontros internacionais de uma semana, podemos constatar isso mesmo. Aos olhos destes jovens, a constru\u00e7\u00e3o europeia apenas encontra o seu verdadeiro sentido mostrando-se solid\u00e1ria com os outros continentes e com os povos mais pobres.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos jovens europeus que n\u00e3o conseguem compreender os seus Governos quando estes manifestam vontade de fechar as fronteiras. Pelo contr\u00e1rio, estes jovens pedem que a uma mundializa\u00e7\u00e3o da economia seja associada uma mundializa\u00e7\u00e3o da solidariedade e que esta se expresse em particular atrav\u00e9s de um acolhimento digno e respons\u00e1vel dos migrantes. Muitos destes jovens est\u00e3o dispostos a contribuir para esse acolhimento. Ousemos acreditar que a generosidade tamb\u00e9m tem um papel importante a desempenhar na vida urbana.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"clear\"><\/div>\n<div class=\"side_subtitle1\">Irm\u00e3o Alois, prior da Comunidade Ecum\u00e9nica de Taiz\u00e9<\/div>\n<div class=\"side_subtitle1\"><\/div>\n<div class=\"side_subtitle1\">http:\/\/www.vozdaverdade.org\/site\/index.php?cont_=ver2&amp;id=5560<\/div>\n<div class=\"side_subtitle1\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No mundo inteiro, h\u00e1 homens, mulheres e crian\u00e7as que s\u00e3o obrigados a deixar a sua terra. A ang\u00fastia que vivem cria neles a motiva\u00e7\u00e3o de partir. 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