{"id":3544,"date":"2019-02-11T16:00:03","date_gmt":"2019-02-11T16:00:03","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/?p=3544"},"modified":"2019-02-11T16:00:03","modified_gmt":"2019-02-11T16:00:03","slug":"a-terra-em-risco-o-mundo-em-procura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/a-terra-em-risco-o-mundo-em-procura\/","title":{"rendered":"A Terra em risco, o Mundo em procura"},"content":{"rendered":"<p>O papel das religi\u00f5es na Casa Comum e o caso Genesis Butler<\/p>\n<ol>\n<li><strong> LAUDATO S\u00cd \u2013 UMA ENC\u00cdCLICA INSPIRADORA?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p><a href=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-content\/uploads\/cuidar-da-casa-comum.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3552 alignleft\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-content\/uploads\/cuidar-da-casa-comum.jpeg\" alt=\"\" width=\"556\" height=\"457\" srcset=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-content\/uploads\/cuidar-da-casa-comum.jpeg 556w, https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-content\/uploads\/cuidar-da-casa-comum-300x247.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 556px) 100vw, 556px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Quando a jovem Genesis Butler cita a enc\u00edclica Laudato S\u00ed e pede ao Papa que fa\u00e7a um jejum mais rigoroso na Quaresma, n\u00e3o constr\u00f3i apenas \u2013 ela e todo o movimento que a acompanha nesta demanda \u2013 uma h\u00e1bil chamada de aten\u00e7\u00e3o para o prop\u00f3sito que a move, mas reconhece que Francisco \u00e9 j\u00e1 um protagonista essencial no debate sobre as quest\u00f5es ambientais.<\/p>\n<p>Laudato S\u00ed (LS) constituir\u00e1 um dos mais ruidosos gritos pol\u00edticos de um Papa na hist\u00f3ria recente, entendendo-se aqui a pol\u00edtica no sentido mais nobre, que todos responsabiliza no exerc\u00edcio de uma cidadania pelo bem comum. \u00c9 o primeiro documento de um Papa integralmente dedicado aos problemas ambientais e \u00e0 ecologia.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de um texto em circunst\u00e2ncia aguda, nem apenas da resposta a uma crise eruptiva, mas do tra\u00e7ado para uma nova era. Como escreve Francisco, \u201capontar para outro estilo de vida\u201d. E \u00e9 neste aspeto radical da reflex\u00e3o do Papa que Genesis encontra abertura para o ousado convite. Ela representa, afinal, um movimento que pretende a radicalidade de uma mudan\u00e7a de comportamento no consumo alimentar.<\/p>\n<p>Com as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas como eixo da reflex\u00e3o, Francisco exalta na enc\u00edclica Laudato S\u00ed a consci\u00eancia humana para o respeito pelo meio. Sem o compromisso pela Casa Comum e pela defesa da Cria\u00e7\u00e3o \u2013 forma judaico-crist\u00e3 de interpretar natureza \u2013 n\u00e3o ser\u00e1 nunca poss\u00edvel a justi\u00e7a e a paz.<\/p>\n<p>Na ess\u00eancia, o Papa salienta a ideia de uma d\u00edvida ecol\u00f3gica \u2013 entre os hemisf\u00e9rios norte e sul \u2013 e de uma ecologia integral. N\u00e3o fica apenas por frases abertas com slogans mais ou menos assertivos. Prop\u00f5e gestos concretos, individuais, como a reciclagem e poupan\u00e7a de \u00e1gua, mas vai muito mais al\u00e9m da responsabilidade pessoal. Recorrendo aos \u00faltimos estudos cient\u00edficos sobre o clima, o chefe da Igreja cat\u00f3lica chega a ir a pormenores do drama ecol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Se sublinha a amea\u00e7a sobre \u201corganismos marinhos que n\u00e3o temos em considera\u00e7\u00e3o, como certas formas de pl\u00e2ncton que constituem um componente muito importante da cadeia alimentar marinha e de que dependem, em \u00faltima inst\u00e2ncia, esp\u00e9cies que se utilizam para a alimenta\u00e7\u00e3o humana\u201d (40, LS), condena tamb\u00e9m a tentativa de \u201clegitimar o modelo distributivo actual, no qual uma minoria se julga com o direito de consumir numa propor\u00e7\u00e3o que seria imposs\u00edvel generalizar, porque o planeta n\u00e3o poderia sequer conter os res\u00edduos de tal consumo\u201d, bem como a corrup\u00e7\u00e3o, admitindo \u201co desenvolvimento de controles mais eficientes e uma luta mais sincera contra a corrup\u00e7\u00e3o, que \u201ccresceu a sensibilidade ecol\u00f3gica das popula\u00e7\u00f5es\u201d, mas advertindo que isto \u201c\u00e9 ainda insuficiente para mudar os h\u00e1bitos nocivos de consumo, que n\u00e3o parecem diminuir, antes expandem-se e desenvolvem-se\u201d (55, LS).<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, acrescenta, \u201csabemos que se desperdi\u00e7a aproximadamente um ter\u00e7o dos alimentos produzidos, e a comida que se desperdi\u00e7a \u00e9 como se fosse roubada da mesa do pobre\u201d (50, LS). O Papa pede \u201caten\u00e7\u00e3o ao desequil\u00edbrio na distribui\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o pelo territ\u00f3rio, tanto a n\u00edvel nacional como a n\u00edvel mundial, porque o aumento do consumo levaria a situa\u00e7\u00f5es regionais complexas pelas combina\u00e7\u00f5es de problemas ligados \u00e0 polui\u00e7\u00e3o ambiental, ao transporte, ao tratamento de res\u00edduos, \u00e0 perda de recursos, \u00e0 qualidade de vida\u201d (50, LS).<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o com o estado da Casa Comum foi inscrita nos primeiros discursos do papa argentino. Acompanha o pontificado desde o in\u00edcio. Juntando-se a outras lideran\u00e7as religiosas igualmente interventivas neste debate, como o Patriarca Ortodoxo de Constantinopla, Francisco tomou partido.<\/p>\n<p>N\u00e3o se estranhe que a enc\u00edclica Laudato S\u00ed tenha sido encarada como uma declara\u00e7\u00e3o de guerra aos interesses instalados em volta da explora\u00e7\u00e3o de recursos naturais, assentes num modelo de vida e de consumo que leva ao abismo. Foi depois deste texto \u2013 posterior \u00e0 exorta\u00e7\u00e3o onde o Papa diz que \u201cesta economia mata\u201d (exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica Evangelli Gaudium, 2013) \u2013 e da intransigente defesa dos migrantes, com duras cr\u00edticas a Trump, que o Papa se viu alvo de uma agressiva campanha nos Estados Unidos, acusado de ser um perigoso extremista e comunista.<\/p>\n<p>\u201cOs recursos da terra est\u00e3o a ser depredados tamb\u00e9m por causa de formas imediatistas de entender a economia e a actividade comercial e produtiva\u201d, denuncia o chefe da Igreja cat\u00f3lica, \u201ca perda de florestas e bosques implica simultaneamente a perda de esp\u00e9cies que poderiam constituir, no futuro, recursos extremamente importantes n\u00e3o s\u00f3 para a alimenta\u00e7\u00e3o mas tamb\u00e9m para a cura de doen\u00e7as e v\u00e1rios servi\u00e7os\u201d (32, LS).<\/p>\n<p>\u00c9 nesta enc\u00edclica que o Papa lan\u00e7a um novo debate sobre a pol\u00edtica e o exerc\u00edcio pol\u00edtico. \u201cO mundo do consumo exacerbado \u00e9, simultaneamente, o mundo que maltrata a vida em todas as suas formas\u201d, constata, afirmando a necessidade de \u201cvoltar a sentir que precisamos uns dos outros, que temos uma responsabilidade para com os outros e o mundo, que vale a pena ser bons e honestos\u201d.<\/p>\n<p>Se a \u201cdegrada\u00e7\u00e3o moral\u201d e a falta de \u00e9tica destroem \u201co fundamento da vida social\u201d, colocando \u201cuns contra os outros na defesa dos pr\u00f3prios interesses\u201d, despertando \u201cnovas formas de viol\u00eancia e crueldade\u201d que impedem o desenvolvimento de \u201cuma verdadeira cultura do cuidado do meio ambiente\u201c (229, LS), o Papa prop\u00f5e o conceito de \u201camor civil e pol\u00edtico\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 o princ\u00edpio da corresponsabilidade, enquadrado na chamada Doutrina Social da Igreja: \u201cO amor, cheio de pequenos gestos de cuidado m\u00fatuo, \u00e9 tamb\u00e9m civil e pol\u00edtico, manifestando-se em todas as ac\u00e7\u00f5es que procuram construir um mundo melhor\u201d (231, LS). Este \u201camor \u00e0 sociedade e o compromisso pelo bem comum\u201d implicar\u00e1 as rela\u00e7\u00f5es entre os indiv\u00edduos e as \u201c macro rela\u00e7\u00f5es como relacionamentos sociais, econ\u00f3micos, pol\u00edticos\u201d (enc\u00edclica Caritas in Veritate, Bento XVI, 2009).<\/p>\n<p>A ecologia integral preconizada por Francisco, de Roma, sintoniza-se com o hino de Francisco de Assis. A preocupa\u00e7\u00e3o com a natureza e a paz \u00e9 insepar\u00e1vel da justi\u00e7a, do combate \u00e0 pobreza, de um compromisso social que contrarie as desigualdades.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong> \u201cTEMOS DE AGIR\u201d \u2013 UM COMPROMISSO PORTUGU\u00caS.<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>O apelo de Genesis Butler vai al\u00e9m do circunstancial impacto da campanha que protagoniza, pois n\u00e3o se dirige apenas ao Papa. \u00c9 um apelo ao compromisso, lembrando avan\u00e7os e recuos dos pactos e metas definidas pelos cons\u00f3rcios e organiza\u00e7\u00f5es intergovernamentais.<\/p>\n<p>Esta tarefa apresenta-se com tanta urg\u00eancia quanta a evid\u00eancia de um quotidiano que j\u00e1 nos habituou \u00e0 imprevisibilidade dos ritmos e vontades do clima.<\/p>\n<p>Como sublinha o Papa Francisco, cada indiv\u00edduo, cada comunidade, cada n\u00facleo de influ\u00eancia, tem uma responsabilidade pr\u00f3pria. \u00c9 o caso das estruturas religiosas, a come\u00e7ar nas lideran\u00e7as.<\/p>\n<p>Com reduzido impacto medi\u00e1tico, quase passou despercebido o momento hist\u00f3rico vivido em Junho de 2017. Dias antes da trag\u00e9dia de Pedr\u00f3g\u00e3o, representantes de todas as confiss\u00f5es religiosas em Portugal assinaram em Vila Nova de Gaia, durante a primeira vers\u00e3o do evento Gaia \u2013 <a href=\"http:\/\/religioesdomundo.ulusofona.pt\/projectos-rec-xxi\/4-compromisso-pela-casa-comum-e-pela-etica-do-cuidado\/\">Todo Um Mundo, o Compromisso pela Casa Comum e pela \u00c9tica do Cuidado<\/a>. O texto foi trabalhado por investigadores da \u00e1rea de Ci\u00eancia das Religi\u00f5es da Universidade Lus\u00f3fona, depois de elaborada reflex\u00e3o e di\u00e1logo.<\/p>\n<p>Os subscritores reconhecem que \u201cexiste uma liga\u00e7\u00e3o fundamental entre o que fazemos e o que isso faz ao Planeta, ou seja, \u00e0 \u00abcasa que \u00e9 comum\u00bb que, longe de ser uma qualquer propriedade ou recurso de quem quer que seja, \u00e9 acima de tudo a condi\u00e7\u00e3o de possibilidade de existirmos, vivermos e aprendermos a cuidar\u201d. Concordando que h\u00e1 uma \u201cinterdepend\u00eancia fundamental da Vida\u201d, vislumbram a necessidade de \u201cuma revolu\u00e7\u00e3o cultural que transforme o homem (\u2026) num sujeito ecol\u00f3gico que entende e experi\u00eancia o ethos como morada global\u201d. Al\u00e9m do estudo \u201cde uma rede natural de vida e da revis\u00e3o do lugar do homem na Natureza, precisamos de (re)encontrar o lugar da Natureza no humano\u201d, l\u00ea-se, o ser humano \u00e9 \u201cem rela\u00e7\u00e3o e interdepend\u00eancia, ser no mundo e com o mundo\u201d.<\/p>\n<p>Porque, embora de diferentes formas, as diferentes tradi\u00e7\u00f5es religiosas abordam \u201cas mesmas preocupa\u00e7\u00f5es perante altera\u00e7\u00f5es ambientais radicadas em pr\u00e1ticas que contrariam os equil\u00edbrios dos ecossistemas\u201d, os representantes das confiss\u00f5es religiosas radicadas em Portugal assumem a vontade de elevar a voz \u201cpara que todos e cada um, pessoal ou institucionalmente, cooperem pela paz radicada na Compaix\u00e3o por toda a vida planet\u00e1ria, de modo a que seja estabelecido um programa ecol\u00f3gico eficiente, pleno de impulso fraterno e sustentabilidade verdadeiramente integral.\u201d<\/p>\n<p>Este Compromisso foi subscrito tamb\u00e9m por autarcas e investigadores, numa cerim\u00f3nia precedida de um debate sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o pensamento religioso e a ecologia, cujo tema inspirou o t\u00edtulo deste texto \u2013 A Terra em risco, o Mundo em Procura.<\/p>\n<p>Noutra sess\u00e3o, o Compromisso pela Casa Comum e pela \u00c9tica do Cuidado voltou a ser subscrito na Amadora por representantes locais das confiss\u00f5es religiosas e da autarquia. Est\u00e1 em din\u00e2mica crescente, procurando envolver lideran\u00e7as, na expectativa que tome formas pr\u00e1ticas nas comunidades religiosas, com consequ\u00eancias no comportamento individual.<\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia desta iniciativa, a \u00e1rea de Ci\u00eancia das Religi\u00f5es da ULHT anunciou j\u00e1 cria\u00e7\u00e3o de um selo ambiental a atribuir \u00e0s estruturas religiosas.<\/p>\n<p>Sendo abrangente, este Compromisso n\u00e3o especifica a quest\u00e3o alimentar, mas esta \u00e9 subjacente quando os subscritores se comprometem \u201ca tudo fazer para inverter pr\u00e1ticas depredat\u00f3rias, promovendo uma compreens\u00e3o ecol\u00f3gica associada a valores \u00e9ticos\u201d. O resto cabe \u00e0 media\u00e7\u00e3o e especificidade do impacto da religi\u00e3o na vida concreta dos crentes.<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><strong> \u201cCOZINHAR \u00c9 UM MODO DE AMAR OS OUTROS\u201d \u2013 AS RELIGI\u00d5ES E A ALIMENTA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A quest\u00e3o ambiental \u00e9 um pilar do fen\u00f3meno religioso, mas n\u00e3o \u00e9 uma gaveta isolada no arm\u00e1rio da experi\u00eancia religiosa. O mesmo acontece com o ato de comer.\u00a0<a href=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-content\/uploads\/maxresdefault-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3550 alignright\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-content\/uploads\/maxresdefault-1.jpg\" alt=\"\" width=\"556\" height=\"313\" srcset=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-content\/uploads\/maxresdefault-1.jpg 1280w, https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-content\/uploads\/maxresdefault-1-300x169.jpg 300w, https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-content\/uploads\/maxresdefault-1-768x432.jpg 768w, https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-content\/uploads\/maxresdefault-1-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-content\/uploads\/maxresdefault-1-1080x608.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 556px) 100vw, 556px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Se perscrutarmos a ancestralidade do fen\u00f3meno religioso, verificaremos sem dificuldade que os interditos alimentares definidos pelas religi\u00f5es derivam, em grande medida, de uma rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia com o meio, entre a vontade humana, o concreto da sobreviv\u00eancia e a procura de sentido para o abstrato.<\/p>\n<p>A vis\u00e3o antropos compreende-se na grande angular do meio envolvente e de uma alteridade orientadora, organizadora. \u00c9 o homem no meio, que em contexto b\u00edblico assume o papel de cuidador delegado e respons\u00e1vel, gestor em media\u00e7\u00e3o \u00e9tica.<\/p>\n<p>At\u00e9 em pr\u00e1ticas religiosas animistas, a diviniza\u00e7\u00e3o de animais reflete paradoxalmente esta matriz de compreens\u00e3o do meio. Satisfazendo os deuses, o sacrif\u00edcio d\u00e1 altivez \u00e0 esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>As narrativas do sagrado a Oriente definem tamb\u00e9m o papel humano nesta cadeia. No percurso para a moksha ou para o nirvana, a \u00e9tica da interdepend\u00eancia \u00e9 determinante. A liberta\u00e7\u00e3o faz-se no respeito pelo meio, porque tudo est\u00e1 ligado e transporta o sopro da exist\u00eancia. Neste contexto, aniquilar um ser vivo \u00e9 um rev\u00e9s.<\/p>\n<p>Um debate realizado em Novembro de 2018 na Mesquita Central de Lisboa real\u00e7ou o papel das religi\u00f5es na promo\u00e7\u00e3o de uma alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, valorizando o acto de comer e os sistemas tradicionais de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Paulo Mendes Pinto, coordenador da \u00c1rea de Ci\u00eancia das Religi\u00f5es da Universidade Lus\u00f3fona, lembrou que as religi\u00f5es, e sobretudo os monote\u00edsmos, \u201cem que a refei\u00e7\u00e3o \u00e9 central na sociabiliza\u00e7\u00e3o e na pr\u00e1tica religiosa, valorizam o acto de comer\u201d. As narrativas religiosas monote\u00edstas, acrescentou, falam num \u201cmandato\u201d dado ao homem para distribuir com justi\u00e7a e \u201ccuidar da Terra participando no acto da Cria\u00e7\u00e3o\u201d. O desafio religioso \u00e9 o da \u201cigualdade\u201d, concluiu, \u201ca alimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 uma responsabilidade \u00e9tica\u201d, sendo por isso assustador voltar a ver imagens de crian\u00e7as a morrer \u00e0 fome quando se sabe como superar essa car\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cCozinhar \u00e9 um modo de amar os outros\u201d. Estas palavras de Mia Couto serviram de ingrediente para a conversa servida na mesquita com uma pergunta na ementa: \u201cComo alimentar a Humanidade de forma sustent\u00e1vel?\u201d<\/p>\n<p>Francisco Sarmento, o representante da FAO (Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura) em Portugal, abriu o apetite da conversa citando o poeta mo\u00e7ambicano, bi\u00f3logo e escritor, para real\u00e7ar a import\u00e2ncia de se encarar a alimenta\u00e7\u00e3o com responsabilidade \u00e9tica: \u201cCozinhar \u00e9 o mais privado e arriscado acto, no alimento se coloca ternura e \u00f3dio, na panela se verte tempero ou veneno. Cozinhar n\u00e3o \u00e9 um servi\u00e7o, cozinhar \u00e9 um modo de amar os outros.\u201d<\/p>\n<p>A partir das palavras de Mia Couto, Sarmento salientou que \u201calimenta\u00e7\u00e3o e sustentabilidade t\u00eam de estar juntas\u201d, pois \u201cn\u00e3o se pode alimentar a Humanidade de forma insustent\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p>Especialista em gest\u00e3o alimentar e pol\u00edticas agr\u00edcolas, o representante da FAO alertou para o novo problema da produ\u00e7\u00e3o excessiva de calorias, em vez de nutrientes, que faz aumentar a incid\u00eancia de doen\u00e7as como a obesidade ou a diabetes, desencadeando indirectamente, entre outros dramas, a exclus\u00e3o social e o absentismo laboral. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais grave nos pa\u00edses em vias de desenvolvimento \u201cque n\u00e3o t\u00eam sistemas de sa\u00fade capazes de responder\u201d, afirmou. Francisco Sarmento alertou ainda para a necessidade de \u201cmudarem os padr\u00f5es de consumo alimentar, com a evolu\u00e7\u00e3o para dietas\u201d mais saud\u00e1veis e ecologicamente sustent\u00e1veis e admitiu que esta discuss\u00e3o pode ser frustrante: as solu\u00e7\u00f5es s\u00e3o conhecidas mas parece faltar vontade pol\u00edtica para contrariar uma \u201calimenta\u00e7\u00e3o cada vez mais industrializada, que afecta os grupos mais desfavorecidos\u201d.<\/p>\n<p>As estruturas sociais, incluindo as religiosas, \u201ct\u00eam um papel pedag\u00f3gico na alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, valorizando o acto de comer e os sistemas tradicionais de produ\u00e7\u00e3o\u201d, acrescentou Francisco Sarmento, insistindo no refor\u00e7o \u201cdos produtores familiares, ligando o meio-ambiente \u00e0 agricultura, reconstruindo sistemas localizados, de proximidade, na produ\u00e7\u00e3o e na confec\u00e7\u00e3o\u201d, para atenuar o uso qu\u00edmico de conservantes.<\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li><strong> \u201cABSTENHA-SE DE PRODUTOS DE ORIGEM ANIMAL DURANTE A QUARESMA\u201d \u2013 O APELO OUSADO.<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p><a href=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-content\/uploads\/1549810757_crece-el-millonario-desafio-al-papa-francisco-para-que-se-vuelva-vegano-678x381.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3551 alignleft\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-content\/uploads\/1549810757_crece-el-millonario-desafio-al-papa-francisco-para-que-se-vuelva-vegano-678x381.jpg\" alt=\"\" width=\"408\" height=\"229\" srcset=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-content\/uploads\/1549810757_crece-el-millonario-desafio-al-papa-francisco-para-que-se-vuelva-vegano-678x381.jpg 678w, https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-content\/uploads\/1549810757_crece-el-millonario-desafio-al-papa-francisco-para-que-se-vuelva-vegano-678x381-300x169.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 408px) 100vw, 408px\" \/><\/a>O convite ao Papa tem um contexto. Na tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, a Quaresma \u00e9 um tempo de jejum e abstin\u00eancia, abrindo espa\u00e7o \u00e0 ora\u00e7\u00e3o e \u00e0 penit\u00eancia dos fi\u00e9is, correspondente ao per\u00edodo de quarenta dias de prepara\u00e7\u00e3o para a P\u00e1scoa. Lembra o n\u00famero quarenta, simb\u00f3lico em muitas narrativas do Antigo e do Novo Testamento, como os quarenta dias que Jesus passou no deserto ou os 40 anos da travessia dos judeus no deserto.<\/p>\n<p>Mas o que pede Genesis Butler ao Papa? A tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica revela comportamentos exacerbados no folclore das devo\u00e7\u00f5es. Mas, entre a teatraliza\u00e7\u00e3o da penit\u00eancia como catequese e o exerc\u00edcio da chamada \u00abmortifica\u00e7\u00e3o corporal\u00bb \u2013 cuja sustenta\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica \u00e9 controversa \u2013 sobrevive um princ\u00edpio orientador na viv\u00eancia deste tempo.<\/p>\n<p>Na indica\u00e7\u00e3o do papa Le\u00e3o Magno, h\u00e1 que \u201cmortificar um pouco o homem exterior, para que o interior seja restaurado, perdendo um pouco do excesso corp\u00f3reo, o esp\u00edrito refor\u00e7a-se\u201d.<\/p>\n<p>O jejum da Quaresma n\u00e3o consiste na conten\u00e7\u00e3o dos impulsos da libido ou na priva\u00e7\u00e3o de alimentos para fazer dieta, embora esta acabe por resultar numa a\u00e7\u00e3o de restabelecimento. \u00c9 sobretudo um convite \u00e0 experi\u00eancia espiritual. As buscas do e pelo esp\u00edrito compreendem o indiv\u00edduo como um todo \u2013 corpo e alma.<\/p>\n<p>Na disciplina tradicional da Igreja, jejum e abstin\u00eancia fazem-se da Quarta-feira de Cinzas \u00e0 P\u00e1scoa, limitando a alimenta\u00e7\u00e3o di\u00e1ria a uma refei\u00e7\u00e3o ou comendo de forma ligeira e simples, evitando o esbanjamento. Os fi\u00e9is podem ainda privar-se de uma certa quantidade e qualidade de alimentos ou bebidas. A mais praticada \u00e9 a absten\u00e7\u00e3o da carne, pelo menos nas sextas-feiras da Quaresma.<\/p>\n<p>A missiva de Genesis Butler usa a figura do Papa para dar um impulso medi\u00e1tico \u00e0 op\u00e7\u00e3o vegana como proposta de vida, contribuindo para contrariar a \u201cdestrui\u00e7\u00e3o e devasta\u00e7\u00e3o global\u201d provocada por um excessivo consumo de carne. Verificando-se a generosidade e honestidade da campanha, o Papa n\u00e3o se incomodar\u00e1, pelo contr\u00e1rio. Mas conv\u00e9m refor\u00e7ar que n\u00e3o basta deixar de comer carne para resolver o problema e fazer a desejada revolu\u00e7\u00e3o nos h\u00e1bitos alimentares. N\u00e3o comer carne na Quaresma ser\u00e1 uma op\u00e7\u00e3o tranquila para o Papa e n\u00e3o ser\u00e1 dif\u00edcil para qualquer outro cat\u00f3lico, nem para qualquer outro cidad\u00e3o, crente ou n\u00e3o crente. E, na verdade, n\u00e3o \u00e9 ao Papa que este convite se dirige\u2026<\/p>\n<p><strong><em>Por Joaquim Franco, jornalista da SIC e investigador em Ci\u00eancia das Religi\u00f5es<\/em><\/strong><\/p>\n<p>https:\/\/sicnoticias.pt\/especiais\/a-menina-ativista-que-desafia-o-papa\/2019-02-06-A-Terra-em-risco-o-Mundo-em-procura<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O papel das religi\u00f5es na Casa Comum e o caso Genesis Butler LAUDATO S\u00cd \u2013 UMA ENC\u00cdCLICA INSPIRADORA? Quando a jovem Genesis Butler cita a enc\u00edclica Laudato S\u00ed e pede ao Papa que fa\u00e7a um jejum mais rigoroso na Quaresma, n\u00e3o constr\u00f3i apenas \u2013 ela e todo o movimento que a acompanha nesta demanda \u2013 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":3549,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[39,36,7],"tags":[],"class_list":["post-3544","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-dialogo-inter-religioso","category-recortes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3544","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3544"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3544\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3553,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3544\/revisions\/3553"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3549"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3544"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3544"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3544"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}