{"id":3638,"date":"2019-03-20T10:53:26","date_gmt":"2019-03-20T10:53:26","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/?p=3638"},"modified":"2019-03-20T11:24:12","modified_gmt":"2019-03-20T11:24:12","slug":"pai-quando-estiver-ao-pe-de-ti-nunca-mais-vou-estar-doente-a-historia-de-um-pai-refugiado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/pai-quando-estiver-ao-pe-de-ti-nunca-mais-vou-estar-doente-a-historia-de-um-pai-refugiado\/","title":{"rendered":"\u201cPai, quando estiver ao p\u00e9 de ti, nunca mais vou estar doente.\u201d A hist\u00f3ria de um pai refugiado"},"content":{"rendered":"<p>19 mar, 2019 &#8211; 07:00 \u2022\u00a0<a href=\"https:\/\/rr.sapo.pt\/artigo\/122741\/joana-goncalves\">Joana Gon\u00e7alves &#8211; R\u00e1dio Renascen\u00e7a\u00a0<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Viu morrer, foi feito prisioneiro e acabou por ser salvo por uma crian\u00e7a-soldado. Enganado na hora de pedir o visto para a fam\u00edlia na embaixada portuguesa, s\u00f3 se reencontrou com a mulher e os tr\u00eas filhos cinco anos depois. Ben chegou a Portugal em 2013, para escapar ao conflito armado no seu pa\u00eds. Ou\u00e7a a hist\u00f3ria, na primeira pessoa, de um pai refugiado em Portugal.<\/p>\n<p><em> <a href=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-content\/uploads\/SJos\u00e9_PaiDeJesus_\u00edcone-675x506.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3640 alignleft\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-content\/uploads\/SJos\u00e9_PaiDeJesus_\u00edcone-675x506.jpg\" alt=\"\" width=\"675\" height=\"506\" srcset=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-content\/uploads\/SJos\u00e9_PaiDeJesus_\u00edcone-675x506.jpg 675w, https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-content\/uploads\/SJos\u00e9_PaiDeJesus_\u00edcone-675x506-300x225.jpg 300w, https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-content\/uploads\/SJos\u00e9_PaiDeJesus_\u00edcone-675x506-510x382.jpg 510w\" sizes=\"(max-width: 675px) 100vw, 675px\" \/><\/a><\/em><\/p>\n<p><em>Ben (nome fict\u00edcio) prefere n\u00e3o ser identificado. O Estado portugu\u00eas concedeu-lhe asilo em 2013, depois de ter escapado aos rebeldes na Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo.<\/em>\u00a0<em>Escolheu Portugal pelos fortes la\u00e7os que mant\u00e9m com Angola, uma das nove na\u00e7\u00f5es que fazem fronteira com o seu pa\u00eds-natal.<\/em><\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/rr.sapo.pt\/noticia\/144755\/\">Como ele, mais de 4.500 pessoas pediram ajuda ao nosso pa\u00eds nos \u00faltimos cinco anos<\/a>. A maioria desses pedidos continua a acontecer de forma espont\u00e2nea, geralmente logo \u00e0 chegada a um aeroporto nacional.<\/em><\/p>\n<p><strong>I &#8211; &#8220;Se eles chegarem ao poder, quem \u00e9 que v\u00e3o governar?&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Os rebeldes entraram na nossa aldeia em novembro de 2012. Chama-se Rutshuru e fica a 70 quil\u00f3metros de Goma, uma capital provincial com um milh\u00e3o de habitantes, na Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo.<\/p>\n<p>M23 era o nome deste grupo, Movimento 23 de Mar\u00e7o. Roubaram as nossas casas, as nossas lojas, mataram homens, violaram mulheres. T\u00ednhamos medo de acordar um dia com toda a aldeia em chamas.<\/p>\n<p>Decidimos pedir ajuda. Na altura j\u00e1 t\u00ednhamos soldados das Na\u00e7\u00f5es Unidas no nosso pa\u00eds. Eu pensava muitos vezes: \u201cSe eles est\u00e3o em guerra com o Governo, porque \u00e9 que atacam o povo? N\u00e3o compreendo. Se eles conseguirem o que querem, se eles chegarem ao poder, quem \u00e9 que v\u00e3o governar? Se matarem toda a gente n\u00e3o vai sobrar ningu\u00e9m.\u201d<\/p>\n<p>Decidimos denunciar a situa\u00e7\u00e3o a um grupo de soldados da ONU estacionado fora da aldeia. A pessoa com quem fal\u00e1mos disse-nos que o chefe estava fora, em Goma.<\/p>\n<p>\u201cQuando ele regressar vamos contar-lhe o que se passa\u201d, disse-nos.<\/p>\n<p>E foi isso que aconteceu. Quando o chefe voltou trouxe uma brigada das Na\u00e7\u00f5es Unidas que criou um per\u00edmetro de seguran\u00e7a \u00e0 volta da nossa aldeia. Perguntaram-nos a todos, um a um, o que se tinha passado.<\/p>\n<p>Alguns relataram roubos, outros viola\u00e7\u00f5es. Cont\u00e1mos tudo.<\/p>\n<p>O chefe ficou muito, muito chateado. Disse-nos: \u201cA guerra tem regras, eles n\u00e3o est\u00e3o a cumprir as regras. Mataram civis, isto n\u00e3o pode ser!\u201d<\/p>\n<p>Uma semana depois os rebeldes regressaram, com o dobro da viol\u00eancia. Mataram soldados da ONU e levaram-nos a todos.<\/p>\n<p><strong>II &#8211; Um amigo entre a tormenta e a chegada a Portugal<\/strong><\/p>\n<p>Levaram-nos para uma floresta. L\u00e1 encontr\u00e1mos um grupo maior, estavam \u00e0 nossa espera. O l\u00edder estava ao centro.<\/p>\n<p>Pens\u00e1vamos que eles iam fazer o habitual, est\u00e1vamos \u00e0 espera que nos roubassem e nos deixassem ir, mas desta vez foi diferente. Disseram-nos que sabiam da den\u00fancia e que n\u00e3o iam deixar ningu\u00e9m sair de l\u00e1, enquanto n\u00e3o acus\u00e1ssemos os denunciantes.<\/p>\n<p>Isto era um enorme problema, n\u00f3s fomos juntos. Ningu\u00e9m ia falar. Levaram-nos para um edif\u00edcio, uma pris\u00e3o. Disseram-nos que se n\u00e3o fal\u00e1ssemos at\u00e9 ao final da noite nos matavam a todos, que ningu\u00e9m ia sair de l\u00e1 com vida.<\/p>\n<p>\u201cDeus, porque me deixaste? Porque me deixaste?\u201d, gritei em tetela, a minha l\u00edngua materna.<\/p>\n<p>Estava muito assustado, aterrorizado. Bateram-me com a coronha de uma arma. \u00c0 noite, um soldado perguntou: \u201cOuvi algu\u00e9m falar tetela h\u00e1 pouco. Quem \u00e9?\u201d<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o respondi. Tive medo. Ent\u00e3o ele falou na minha l\u00edngua materna, s\u00f3 eu percebi, os restantes falavam franc\u00eas. \u201cEu quero ajudar-te. N\u00e3o te vou fazer mal.\u201d<\/p>\n<p>Perguntou-me se eu tinha fam\u00edlia. \u201cSim, tenho uma mulher e tr\u00eas filhos\u201d, respondi. \u201cNingu\u00e9m vai sair daqui. N\u00e3o quero que fiques aqui\u201d, disse-me.<\/p>\n<p>Lembro-me que ele n\u00e3o queria falar comigo junto ao grupo. Levou-me, explicou-me que tinha sido uma das crian\u00e7as sequestradas, recrutadas para servir no grupo de rebeldes M23.<\/p>\n<p>Fugimos. Entregou-me em m\u00e3o a outra pessoa. Disse que t\u00ednhamos de andar muito, fugir at\u00e9 muito longe, que eles iam procurar por mim. Foi esta pessoa que me salvou.<\/p>\n<p>Antes de partir, contou-me que tamb\u00e9m queria fugir, mas que n\u00e3o tinha ainda chegado o momento. A 5 de novembro de 2013, o l\u00edder do M23 anunciou o fim das opera\u00e7\u00f5es militares e ordenou \u00e0s tropas o desarmamento e a desmobiliza\u00e7\u00e3o. Renderam-se, finalmente. Espero que ele tenha conseguido escapar.<\/p>\n<p>Durante tr\u00eas dias estive escondido, tinha medo de sair. Ao quarto dia fugi, pedi ajuda e apanhei um avi\u00e3o at\u00e9 Lisboa. Cheguei em 2013, consegui asilo. Um m\u00eas e meio depois enviaram-me para Portalegre. Eu n\u00e3o sabia falar portugu\u00eas, n\u00e3o tinha ainda not\u00edcias da minha fam\u00edlia.<\/p>\n<p><strong>III &#8211; Uma carta sem aviso de rece\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Antes de partir escrevi uma carta e pedi \u00e0 pessoa que me ajudou que a entregasse \u00e0 minha esposa.<\/p>\n<p>Eu sabia que ela ia fugir, porque eu disse-lhe para o fazer na carta que lhe escrevi. Os rebeldes podiam procurar-me na aldeia e fazer-lhe muito mal. \u201cA\u00ed n\u00e3o est\u00e3o seguros. Sai, leva os nosso filhos e vende tudo o que conseguires.\u201d N\u00f3s t\u00ednhamos uma loja. \u201cGuarda o dinheiro e vai. Eles n\u00e3o t\u00eam um cora\u00e7\u00e3o bom, compreendes?\u201d, escrevi.<\/p>\n<p>Tenho duas meninas e um menino. Durante v\u00e1rios meses n\u00e3o soube deles.<\/p>\n<p>Em Portugal procurei na internet, mas n\u00e3o consegui encontr\u00e1-los. S\u00f3 mais tarde, atrav\u00e9s de uma r\u00e1dio local, \u00e9 que cheguei at\u00e9 eles. Um amigo disse-me que conhecia um jornalista de uma ag\u00eancia, confesso que n\u00e3o sei que ag\u00eancia era, mas foi ele quem fez o contacto.<\/p>\n<p>O an\u00fancio de que eu estava vivo e \u00e0 procura deles circulou nas r\u00e1dios e jornais, juntamente com as outras not\u00edcias. Algu\u00e9m que conhecia a minha mulher ouviu-o numa r\u00e1dio local e avisou-a de que eu estava bem, em Portugal.<\/p>\n<p>O meu amigo conseguiu o n\u00famero dela e nunca mais perdemos o contacto. Ela j\u00e1 estava na capital, fal\u00e1mos sempre ao telefone. Eu enviei-lhe algumas fotografias para ela mostrar aos nossos filhos.<\/p>\n<p><strong>IV &#8211; Cinco anos depois, o reencontro<\/strong><\/p>\n<p>Depois de conseguir o visto de resid\u00eancia, em 2015, fiz o pedido de reagrupamento familiar no Servi\u00e7o de Estrangeiros e Fronteiras. Esperei muito.<\/p>\n<p>Paguei a uma pessoa para me ajudar a recolher os documentos necess\u00e1rios \u00e0 obten\u00e7\u00e3o do visto para a minha fam\u00edlia. Em 2016, todos os pap\u00e9is foram entregues na embaixada de Portugal em Kinshasa. Disseram-lhes que nenhum deles era v\u00e1lido, que t\u00ednhamos sido enganados.<\/p>\n<p>Em 2017 recome\u00e7\u00e1mos todo o processo. A minha fam\u00edlia acabaria por chegar em maio de 2018.<\/p>\n<p>Quando fui busc\u00e1-los ao aeroporto estava nervoso. Passaram cinco anos desde que fugi do meu pa\u00eds. Sei que a minha filha mais velha ainda me conhece, ela tinha 13 anos na altura. O meu filho tamb\u00e9m, tinha 11 quando parti, mas a mais nova era ainda um beb\u00e9, com apenas 3 anos.<\/p>\n<p>O primeiro a abra\u00e7ar-me foi o meu filho. Lembrei-me do que me disse uma vez ao telefone, quando lhe perguntei porque \u00e9 que estava sempre doente. Ele esteve muitas vezes internado antes de c\u00e1 chegar.<\/p>\n<p>\u201cPai, quando eu estiver ao p\u00e9 de ti, nunca mais vou estar doente.\u201d<\/p>\n<p>A promessa foi cumprida: desde que chegou a Portugal, nunca mais esteve doente.<\/p>\n<p>Texto editado a partir de uma entrevista:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/rr.sapo.pt\/especial\/144746\/pai-quando-estiver-ao-pe-de-ti-nunca-mais-vou-estar-doente-a-historia-de-um-pai-refugiado\">https:\/\/rr.sapo.pt\/especial\/144746\/pai-quando-estiver-ao-pe-de-ti-nunca-mais-vou-estar-doente-a-historia-de-um-pai-refugiado<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>19 mar, 2019 &#8211; 07:00 \u2022\u00a0Joana Gon\u00e7alves &#8211; R\u00e1dio Renascen\u00e7a\u00a0 &nbsp; Viu morrer, foi feito prisioneiro e acabou por ser salvo por uma crian\u00e7a-soldado. 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