{"id":365,"date":"2009-07-17T15:46:46","date_gmt":"2009-07-17T15:46:46","guid":{"rendered":""},"modified":"2015-05-28T15:10:03","modified_gmt":"2015-05-28T15:10:03","slug":"mobilidade-humana-na-enciclica-caritas-in-veritate","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/mobilidade-humana-na-enciclica-caritas-in-veritate\/","title":{"rendered":"Mobilidade Humana na Enc\u00edclica Caritas in Veritate"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin: 0cm 0cm 10pt;\" align=\"justify\">\u201cA complexidade e gravidade da situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica actual preocupa-nos, com toda a justi\u00e7a, mas devemos assumir com realismo, confian\u00e7a e esperan\u00e7a as novas responsabilidades a que nos chama o cen\u00e1rio de um mundo que tem necessidade duma renova\u00e7\u00e3o cultural profunda e da redescoberta de valores fundamentais para construir sobre eles um futuro melhor. A crise obriga-nos a projectar de novo o nosso caminho, a impor-nos regras novas e encontrar novas formas de empenhamento, a apostar em experi\u00eancias positivas e rejeitar as negativas. Assim, a crise torna-se ocasi\u00e3o de discernimento e elabora\u00e7\u00e3o de nova planifica\u00e7\u00e3o. Com esta chave, feita mais de confian\u00e7a que resigna\u00e7\u00e3o, conv\u00e9m enfrentar as dificuldades da hora actual\u201d (21).<\/p>\n<p>\u201cTemos hoje muitas \u00e1reas do globo que \u2014 de forma por vezes problem\u00e1tica e n\u00e3o homog\u00e9nea \u2014 evolu\u00edram, entrando na categoria das grandes pot\u00eancias destinadas a jogar um papel importante no futuro. Contudo h\u00e1 que sublinhar que n\u00e3o \u00e9 suficiente progredir do ponto de vista econ\u00f3mico e tecnol\u00f3gico; \u00e9 preciso que o desenvolvimento seja, antes de mais nada, verdadeiro e integral. A sa\u00edda do atraso econ\u00f3mico \u2014 um dado em si mesmo positivo \u2014 n\u00e3o resolve a complexa problem\u00e1tica da promo\u00e7\u00e3o do homem nem nos pa\u00edses protagonistas de tais avan\u00e7os, nem nos pa\u00edses economicamente j\u00e1 desenvolvidos, nem nos pa\u00edses ainda pobres que, al\u00e9m das antigas formas de explora\u00e7\u00e3o, podem vir a sofrer tamb\u00e9m as consequ\u00eancias negativas derivadas de um crescimento marcado por desvios e desequil\u00edbrios\u201d (23).<\/p>\n<p>\u201cA mobilidade laboral, associada \u00e0 generalizada desregulamenta\u00e7\u00e3o, constituiu um fen\u00f3meno importante, n\u00e3o desprovido de aspectos positivos porque capaz de estimular a produ\u00e7\u00e3o de nova riqueza e o interc\u00e2mbio entre culturas diversas. Todavia, quando se torna end\u00e9mica a incerteza sobre as condi\u00e7\u00f5es de trabalho, resultante dos processos de mobilidade e desregulamenta\u00e7\u00e3o, geram-se formas de instabilidade psicol\u00f3gica, com dificuldade a construir percursos coerentes na pr\u00f3pria vida, incluindo o percurso rumo ao matrim\u00f3nio. Consequ\u00eancia disto \u00e9 o aparecimento de situa\u00e7\u00f5es de degrada\u00e7\u00e3o humana, al\u00e9m de desperd\u00edcio de for\u00e7a social. Comparado com o que sucedia na sociedade industrial do passado, hoje o desemprego provoca aspectos novos de irrelev\u00e2ncia econ\u00f3mica do indiv\u00edduo, e a crise actual pode apenas piorar tal situa\u00e7\u00e3o. A exclus\u00e3o do trabalho por muito tempo ou ent\u00e3o uma prolongada depend\u00eancia da assist\u00eancia p\u00fablica ou privada corroem a liberdade e a criatividade da pessoa e as suas rela\u00e7\u00f5es familiares e sociais, causando enormes sofrimentos a n\u00edvel psicol\u00f3gico e espiritual. Queria recordar a todos, sobretudo aos governantes que est\u00e3o empenhados a dar um perfil renovado aos sistemas econ\u00f3micos e sociais do mundo, que o primeiro capital a preservar e valorizar \u00e9 o homem, a pessoa, na sua integridade: \u00ab com efeito, o homem \u00e9 o protagonista, o centro e o fim de toda a vida econ\u00f3mico-social \u00bb (25).61<\/p>\n<p>\u201cAdequadamente concebidos e geridos, os processos de globaliza\u00e7\u00e3o oferecem a possibilidade duma grande redistribui\u00e7\u00e3o da riqueza a n\u00edvel mundial, como antes nunca tinha acontecido; se mal geridos, podem, pelo contr\u00e1rio, fazer crescer pobreza e desigualdade, bem como contagiar com uma crise o mundo inteiro. \u00c9 preciso corrigir as suas disfun\u00e7\u00f5es, tantas vezes graves, que introduzem novas divis\u00f5es entre os povos e no interior dos mesmos, e fazer com que a redistribui\u00e7\u00e3o da riqueza n\u00e3o se verifique \u00e0 custa de uma redistribui\u00e7\u00e3o da pobreza ou at\u00e9 com o seu agravamento, como uma m\u00e1 gest\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o actual poderia fazer-nos temer\u201d (42).<\/p>\n<p>\u201cExistem, em todas as culturas, singulares e variadas converg\u00eancias \u00e9ticas, express\u00e3o de uma mesma natureza humana querida pelo Criador e que a sabedoria \u00e9tica da humanidade chama lei natural.140 Esta lei moral universal \u00e9 um fundamento firme de todo o di\u00e1logo cultural, religioso e pol\u00edtico e permite que o multiforme pluralismo das v\u00e1rias culturas n\u00e3o se desvie da busca comum da verdade, do bem e de Deus. Por isso, a ades\u00e3o a esta lei escrita nos cora\u00e7\u00f5es \u00e9 o pressuposto de qualquer colabora\u00e7\u00e3o social construtiva. Em todas as culturas existem pesos de que libertar-se, sombras a que subtrair-se. A f\u00e9 crist\u00e3, que se encarna nas culturas transcendendo-as, pode ajud\u00e1-las a crescer na fraterniza\u00e7\u00e3o e solidariedade universais com benef\u00edcio para o desenvolvimento comunit\u00e1rio e mundial\u201d (59).<\/p>\n<p>\u201cUm exemplo da relev\u00e2ncia deste problema temo-lo no fen\u00f3meno do turismo internacional,141 que pode constituir not\u00e1vel factor de desenvolvimento econ\u00f3mico e de crescimento cultural, mas pode tamb\u00e9m transformar-se em ocasi\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o e degrada\u00e7\u00e3o moral. A situa\u00e7\u00e3o actual oferece singulares oportunidades para que os aspectos econ\u00f3micos do desenvolvimento, ou seja, os fluxos de dinheiro e o nascimento em sede local de significativas experi\u00eancias empresariais, cheguem a combinar-se com os aspectos culturais, sendo o educativo o primeiro deles. H\u00e1 casos onde isso ocorre, mas em muitos outros o turismo internacional \u00e9 fen\u00f3meno deseducativo tanto para o turista como para as popula\u00e7\u00f5es locais. Com frequ\u00eancia, estas s\u00e3o confrontadas com comportamentos imorais ou mesmo perversos, como no caso do chamado turismo sexual, em que s\u00e3o sacrificados muitos seres humanos, mesmo de tenra idade. \u00c9 doloroso constatar que isto acontece frequentemente com o aval dos governos locais, com o sil\u00eancio dos governos donde prov\u00eam os turistas e com a cumplicidade de muitos agentes do sector. Mesmo quando n\u00e3o se chega t\u00e3o longe, o turismo internacional n\u00e3o raramente \u00e9 vivido de modo consumista e hedonista, como evas\u00e3o e com modalidades de organiza\u00e7\u00e3o t\u00edpicas dos pa\u00edses de proveni\u00eancia, e assim n\u00e3o se favorece um verdadeiro encontro entre pessoas e culturas. Por isso, \u00e9 preciso pensar num turismo diverso, capaz de promover verdadeiro conhecimento rec\u00edproco, sem tirar espa\u00e7o ao repouso e ao s\u00e3o divertimento: um turismo deste g\u00e9nero h\u00e1-de ser incrementado, gra\u00e7as tamb\u00e9m a uma liga\u00e7\u00e3o mais estreita com as experi\u00eancias de coopera\u00e7\u00e3o internacional e de empresariado para o desenvolvimento\u201d (61).<\/p>\n<p>\u201cOutro aspecto merecedor de aten\u00e7\u00e3o, ao tratar do desenvolvimento humano integral, \u00e9 o fen\u00f3meno das migra\u00e7\u00f5es. \u00c9 um fen\u00f3meno impressionante pela quantidade de pessoas envolvidas, pelas problem\u00e1ticas sociais, econ\u00f3micas, pol\u00edticas, culturais e religiosas que levanta, pelos desafios dram\u00e1ticos que coloca \u00e0s comunidades nacional e internacional. Pode-se dizer que estamos perante um fen\u00f3meno social de natureza epocal, que requer uma forte e clarividente pol\u00edtica de coopera\u00e7\u00e3o internacional para ser convenientemente enfrentado. Esta pol\u00edtica h\u00e1-de ser desenvolvida a partir de uma estreita colabora\u00e7\u00e3o entre os pa\u00edses donde partem os emigrantes e os pa\u00edses de chegada; h\u00e1-de ser acompanhada por adequadas normativas internacionais capazes de harmonizar os diversos sistemas legislativos, na perspectiva de salvaguardar as exig\u00eancias e os direitos das pessoas e das fam\u00edlias emigradas e, ao mesmo tempo, os das sociedades de chegada dos pr\u00f3prios emigrantes. Nenhum pa\u00eds se pode considerar capaz de enfrentar, sozinho, os problemas migrat\u00f3rios do nosso tempo. Todos somos testemunhas da carga de sofrimentos, contrariedades e aspira\u00e7\u00f5es que acompanha os fluxos migrat\u00f3rios. Como \u00e9 sabido, o fen\u00f3meno \u00e9 de gest\u00e3o complicada; todavia \u00e9 certo que os trabalhadores estrangeiros, n\u00e3o obstante as dificuldades relacionadas com a sua integra\u00e7\u00e3o, prestam com o seu trabalho um contributo significativo para o desenvolvimento econ\u00f3mico do pa\u00eds de acolhimento e tamb\u00e9m do pa\u00eds de origem com as remessas monet\u00e1rias. Obviamente, tais trabalhadores n\u00e3o podem ser considerados como simples mercadoria ou mera for\u00e7a de trabalho; por isso, n\u00e3o devem ser tratados como qualquer outro factor de produ\u00e7\u00e3o. Todo o imigrante \u00e9 uma pessoa humana e, enquanto tal, possui direitos fundamentais inalien\u00e1veis que h\u00e3o-de ser respeitados por todos em qualquer situa\u00e7\u00e3o\u201d (62).142<\/p>\n<p>\u201cPara o governo da economia mundial, para sanar as economias atingidas pela crise de modo a prevenir o agravamento da mesma e em consequ\u00eancia maiores desequil\u00edbrios, para realizar um oportuno e integral desarmamento, a seguran\u00e7a alimentar e a paz, para garantir a salvaguarda do ambiente e para regulamentar os fluxos migrat\u00f3rios urge a presen\u00e7a de uma verdadeira Autoridade pol\u00edtica mundial\u201d (67).<\/p>\n<p>\u201cEnquanto os pobres do mundo batem \u00e0s portas da opul\u00eancia, o mundo rico corre o risco de deixar de ouvir tais apelos \u00e0 sua porta por causa de uma consci\u00eancia j\u00e1 incapaz de reconhecer o humano\u201d (75).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA complexidade e gravidade da situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica actual preocupa-nos, com toda a justi\u00e7a, mas devemos assumir com realismo, confian\u00e7a e esperan\u00e7a as novas responsabilidades a que nos chama o cen\u00e1rio de um mundo que tem necessidade duma renova\u00e7\u00e3o cultural profunda e da redescoberta de valores fundamentais para construir sobre eles um futuro melhor. 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