{"id":3677,"date":"2019-04-24T15:03:18","date_gmt":"2019-04-24T15:03:18","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/?p=3677"},"modified":"2019-04-24T15:07:32","modified_gmt":"2019-04-24T15:07:32","slug":"nao-se-trata-apenas-de-migrantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/nao-se-trata-apenas-de-migrantes\/","title":{"rendered":"N\u00e3o se trata apenas de migrantes"},"content":{"rendered":"<p>As migra\u00e7\u00f5es fazem parte da nossa Hist\u00f3ria enquanto Humanidade. A circula\u00e7\u00e3o de pessoas que ao longo dos tempos, atravessaram montanhas e vales, cruzaram mares e hoje cruzam os c\u00e9us deveria ser natural, um ato verdadeiro de vontade; mas sabemos que nem sempre foi nem \u00e9 assim. Infelizmente as migra\u00e7\u00f5es for\u00e7adas ainda hoje existem e assumem causas diversas, tais como persegui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, \u00e9tnicas ou religiosas, fugas de guerra, pobreza e cat\u00e1strofes naturais, o sonho de uma vida melhor, o desejo de levar Deus a povos remotos; diante de cada um destes cen\u00e1rios, a resposta mais humana e edificante \u00e9 a hospitalidade e n\u00e3o a hostilidade que, temos vindo a assistir em crescendo, expressa em discursos de \u00f3dio que revelam a xenofobia latente e resultados eleitorais perigosos para a democracia, em todos os cantos do globo.<\/p>\n<p>O acolhimento exercido por todos aqueles que, em comunidade, em fam\u00edlia ou a t\u00edtulo pessoal, reconhecem as necessidades de quem passa ou chega constitui-se uma refer\u00eancia de estabilidade, um porto de abrigo, que a qualquer ser humano, deveria ser oferecido, principalmente quando se experimenta o imperativo de recome\u00e7ar.<\/p>\n<p>Ser uma pessoa em contexto de mobilidade humana, implica escolher viver e essa op\u00e7\u00e3o acarreta o risco da vulnerabilidade e da incompreens\u00e3o, suportar medos e discrimina\u00e7\u00f5es, isolamentos e explora\u00e7\u00f5es, por vezes, mais dif\u00edceis de transpor que alguns muros f\u00edsicos que ao longo do tempo e do espa\u00e7o foram constru\u00eddos, geraram periferias existenciais e refletem desequil\u00edbrios urbanos.<\/p>\n<p>Muito possivelmente por estarmos na era da globaliza\u00e7\u00e3o e da comunica\u00e7\u00e3o, assistimos todos os dias a terr\u00edveis atrocidades, que nos motivam e interpelam para uma consci\u00eancia, cada vez maior, de que s\u00f3 trabalhando de forma articulada conseguimos obter resultados mais eficientes e duradouros.<\/p>\n<p>Quem est\u00e1 no terreno e acompanha as pessoas em situa\u00e7\u00e3o de mobilidade chega \u00e0 conclus\u00e3o de que s\u00f3 construindo pontes entre Comunidades, Regi\u00f5es e Estados \u00e9 poss\u00edvel fazer a diferen\u00e7a. Ousar a mem\u00f3ria, aprender com a hist\u00f3ria, operacionalizar o que j\u00e1 est\u00e1 consagrado em Leis, Tratados e Conven\u00e7\u00f5es, honrar compromissos que colocam no centro a dignidade humana, a justi\u00e7a e a coes\u00e3o social, reconhecer os migrantes e refugiados como co-protagonistas do desenvolvimento \u00e9 o caminho do futuro que precisamos de trilhar, hoje.<\/p>\n<p>Nas Na\u00e7\u00f5es Unidas, os Estados t\u00eam assumido compromissos importantes que revelam a disponibilidade e vontade pol\u00edtica para articular esfor\u00e7os ao n\u00edvel da coopera\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a, hospitalidade, solidariedade, e assim enfrentar os desafios de um fen\u00f3meno que \u00e9 leg\u00edtimo. Contudo compete tamb\u00e9m ao cidad\u00e3o comum reconhecer em quem migra uma pessoa com ou sem fam\u00edlia, portadora de direitos, de uma bagagem cultural, valores, cren\u00e7as, compet\u00eancias; aceitar o migrante como algu\u00e9m que ajuda a construir a cidade do ponto de vista econ\u00f3mico, cultural, social, espiritual, capaz de criar e participar em espa\u00e7os de di\u00e1logo onde se aprende a afirmar que somos pessoas de saberes, h\u00e1bitos, valores que na promo\u00e7\u00e3o do encontro v\u00e3o amadurecendo. Compete a todos n\u00f3s aprender a olhar e aceitar com gestos concretos o migrante como detentor de uma cidadania consagrada pela Conven\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos e consider\u00e1-lo um merecido habitante deste Planeta Terra, nossa Casa Comum.<\/p>\n<p>Partilhamos uma casa comum em p\u00e9 de desigualdade, diariamente, somos recordados que as circunst\u00e2ncias e os rostos da mobilidade tamb\u00e9m s\u00e3o mut\u00e1veis. Por isso importa conhecer e difundir os princ\u00edpios e as leis que nos protegem, promovem a vida humana e ambicionam um desenvolvimento sustent\u00e1vel, como os 17\u00a0objetivos\u00a0da Agenda 2030, assumidos pelos Governos de todo o mundo e Organiza\u00e7\u00f5es N\u00e3o-governamentais para o Desenvolvimento &#8211; ONGD, e que precisam ser cada vez mais conhecidos e apropriados pelo cidad\u00e3o comum. S\u00f3 desta forma tantos milh\u00f5es de pessoas podem exercer o seu direito a n\u00e3o emigrar e permanecer no seu pa\u00eds de origem em condi\u00e7\u00f5es dignas.<\/p>\n<p>Importa tamb\u00e9m conhecer e acompanhar a implementa\u00e7\u00e3o dos Pactos Globais para Refugiados e para as Migra\u00e7\u00f5es Ordenadas, Seguras e Regulares, aprovados em Dezembro do ano passado em Marraquexe, uma vez que estes visam proteger de forma global todas as pessoas que ponderem a necessidade de emigrar exercendo com liberdade esse mesmo direito.<\/p>\n<p>Recentemente, em Janeiro deste ano foram publicadas pela Santa S\u00e9 as orienta\u00e7\u00f5es pastorais sobre o tr\u00e1fico de seres humanos, poss\u00edveis de serem consultados no\u00a0<a href=\"https:\/\/migrants-refugees.va\/pt\/trafico-de-seres-humanos-e-escravidao\/\">site da Sec\u00e7\u00e3o Migrantes e Refugiados<\/a>. Um crime hediondo transnacional, que por assentar na explora\u00e7\u00e3o, desumanizar e transformar pessoas em mercadoria, precisa de ser conhecido e combatido.<\/p>\n<p><strong>A cada crente imp\u00f5e-se o imperativo \u00e9tico de n\u00e3o explorar, n\u00e3o lucrar, n\u00e3o usar de viol\u00eancia para com o seu semelhante, cuidar do valor da vida humana e proteger as potenciais v\u00edtimas da sedu\u00e7\u00e3o e do engano.<\/strong><\/p>\n<p>As pr\u00f3ximas Jornadas do Migrante e do Refugiado,\u00a0\u00a0ir\u00e3o assinalar-se no dia 29 de Setembro de 2019, em todas as par\u00f3quias e comunidades crist\u00e3s espalhadas pelo mundo e\u00a0ter\u00e3o como tema:\u00a0<em>N\u00e3o se trata apenas de Migrantes.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>O Santo Padre confia a toda a Igreja, a partir da Pastoral das Migra\u00e7\u00f5es, a sensibiliza\u00e7\u00e3o para estas quest\u00f5es. N\u00e3o se trata apenas de migrantes. S\u00e3o pessoas.\u00a0Em Igreja afirmamos \u2013 S\u00e3o irm\u00e3os, n\u00e3o apenas migrantes. E ainda em Igreja recordamos que foi o pr\u00f3prio Cristo que se quis configurar com os mais pequeninos, isto \u00e9, os mais vulner\u00e1veis da mobilidade humana, deixando-nos como mandato o Acolhimento.<\/p>\n<p>Em Cristo reafirmamos que a Hospitalidade faz parte do nosso ADN e colocamos os migrantes e refugiados no cora\u00e7\u00e3o da Igreja, isto \u00e9, Papa, bispos, sacerdotes, religiosas e religiosos, leigos e leigas, que deixando-se conduzir por Deus se constituem em comunidades de f\u00e9.<\/p>\n<p>Deus visita o seu Povo nos migrantes que chegam at\u00e9 n\u00f3s, Deus faz-se companheiro de caminho atrav\u00e9s dos mission\u00e1rios e agentes pastorais que v\u00e3o ao encontro de outros povos, e no fim, a miss\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma constituir uma s\u00f3 fam\u00edlia humana, apesar da diversidade cultural que constitui os povos. Atrav\u00e9s da hospitalidade Deus fala ao seu povo reunido de todas partes, unidos pela f\u00e9, pela gram\u00e1tica do amor que gera comunh\u00e3o. Deus quer atrav\u00e9s daqueles que se apresentam como forasteiros, revelar-se como bom Samaritano, que\u00a0 quer curar-nos do ego\u00edsmo, da indiferen\u00e7a, do isolamento, da xenofobia.<\/p>\n<p>Se nos deixarmos conduzir por Cristo, atrav\u00e9s dos migrantes, descobriremos terrenos novos e novas atitudes a semear.\u00a0Encontrar e acompanhar a via-sacra dos\u00a0migrantes e refugiados, confronta-nos com as injusti\u00e7as da lei ou de quem as aplica, isso interpela-nos a uma nova cultura.<\/p>\n<p>O conflito, o confronto sem viol\u00eancia, faz parte desta exig\u00eancia de crescimento, a mudan\u00e7a interior \u00e9 inevit\u00e1vel.\u00a0 Em Deus,\u00a0nasce a fraternidade, apesar das diferen\u00e7as.<\/p>\n<p>Para prosseguirmos juntos temos que ousar reconciliar a mem\u00f3ria, isso implica tratar as feridas e as m\u00e1goas do passado, para construirmos um futuro juntos como uma s\u00f3 fam\u00edlia humana.\u00a0Este sonho de Deus,\u00a0\u00a0atravessa o pessoal, o comunit\u00e1rio, o nacional at\u00e9 chegar ao global.<\/p>\n<p>Cresce a consci\u00eancia de que s\u00f3 de forma interligada podemos responder aos desafios, s\u00f3 contando com os migrantes e refugiados como co-protagonistas do desenvolvimento teremos sociedades mais justas e fraternas. Seremos mais Igreja, na medida em que soubermos trabalhar em conjunto, e por consequ\u00eancia mais eficazes.<\/p>\n<p>Deus atrav\u00e9s do seu filho Jesus Cristo, que se revela nos mais vulner\u00e1veis e desprotegidos, aponta-nos o caminho, da miseric\u00f3rdia e da justi\u00e7a. Quer gerar comunidades verdadeiramente abertas que afirmam a sua identidade, sendo porta que escuta e acolhe a diversidade daqueles que procuram Cristo; derrubando os muros que nos impedem de ser Igreja Cat\u00f3lica, m\u00e3e de todos sem fronteiras.<\/p>\n<p>EUG\u00c9NIA QUARESMA<br \/>\nDIRECTORA DA OBRA CAT\u00d3LICA PORTUGUESA DE MIGRA\u00c7\u00d5ES<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.diariodominho.pt\/2019\/04\/04\/nao-se-trata-apenas-de-migrantes\/#\">Publicado in Di\u00e1rio do Minho, 4 de abril 2019<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No \u00e2mbito do ciclo de confer\u00eancias nova \u00e1gora, o igreja viva convidou Eug\u00e9nia Quaresma para escrever sobre o tema da terceira e \u00faltima confer\u00eancia de 2019, as migra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":3678,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[39,18,55,4,7,29],"tags":[],"class_list":["post-3677","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-dioceses","category-migrantes","category-noticias","category-recortes","category-refugiados"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3677","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3677"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3677\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3679,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3677\/revisions\/3679"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3678"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3677"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3677"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3677"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}