{"id":3811,"date":"2019-07-12T13:02:43","date_gmt":"2019-07-12T13:02:43","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/?p=3811"},"modified":"2019-07-12T13:02:43","modified_gmt":"2019-07-12T13:02:43","slug":"a-maior-expressao-de-preconceito-racial-consiste-na-negacao-deste-preconceito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/a-maior-expressao-de-preconceito-racial-consiste-na-negacao-deste-preconceito\/","title":{"rendered":"&#8221; A maior express\u00e3o de preconceito racial consiste na nega\u00e7\u00e3o deste preconceito&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>https:\/\/www.publico.pt\/2019\/07\/09\/sociedade\/opiniao\/francisca-van-dunem-maior-expressao-preconceito-racial-consiste-negacao-preconceito-1879342<\/p>\n<p>Pensar, ponderar, analisar e acima de tudo, realizar estudos sobre os fen\u00f3menos do racismo, da xenofobia e da discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9tnico-racial em Portugal, constitui uma necessidade imperiosa de uma sociedade que cresceu e se diversificou no plano \u00e9tnico, no plano racial, no plano cultural. Felicito, por isso, a 1\u00aa Comiss\u00e3o e, em particular a subcomiss\u00e3o para a igualdade e n\u00e3o discrimina\u00e7\u00e3o por esta feliz e t\u00e3o oportuna iniciativa.<\/p>\n<p>Sem informa\u00e7\u00e3o obtida atrav\u00e9s de estudos, inqu\u00e9ritos e an\u00e1lises aprofundadas e s\u00e9rias sobre estas tem\u00e1ticas nunca chegaremos a conhec\u00ea-las na sua dimens\u00e3o integral, sendo incontorn\u00e1vel que estes fen\u00f3menos existem e atravessam, transversalmente todos os estratos da sociedade.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2019\/07\/09\/sociedade\/noticia\/relatorio-parlamento-propoe-quotas-universidades-negros-ciganos-1879219\">O relat\u00f3rio agora apresentado<\/a>\u00a0evidencia claramente essa necessidade de obten\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o estruturada, detalhada e atualizada. \u00c9 redutor e pode ser indutor de erros que cada um de n\u00f3s fundeie a sua opini\u00e3o, apenas, em perce\u00e7\u00f5es e na an\u00e1lise da realidade limitada que conhece.<\/p>\n<p>Tenho a perce\u00e7\u00e3o \u2013 que julgo partilhada por muita gente -, de que na popula\u00e7\u00e3o racial ou etnicamente diferenciada se inscrevem:<\/p>\n<p>&#8211; Os economicamente mais desfavorecidos;<\/p>\n<p>&#8211; Os que possuem os empregos com posi\u00e7\u00f5es de mais baixa qualifica\u00e7\u00e3o e consequentemente mais mal pagos;<\/p>\n<p>&#8211; Os estudantes que apresentam taxas de reprova\u00e7\u00e3o e de reten\u00e7\u00e3o escolar mais elevadas e revelam maior absten\u00e7\u00e3o escolar;<\/p>\n<p>&#8211; Os cidad\u00e3os com taxas de inser\u00e7\u00e3o no ensino superior mais baixas;<\/p>\n<p>&#8211; Os que registam uma maior taxa de encarceramento criminal;<\/p>\n<p>&#8211; Os que residem na periferia da periferia, juntando-se em bairros que tendem a transformar-se em guetos, n\u00e3o s\u00f3 econ\u00f3mico-sociais, mas tamb\u00e9m culturais.<\/p>\n<p>Tenho, de igual modo, a perce\u00e7\u00e3o que essa realidade n\u00e3o \u00e9 id\u00eantica para as v\u00e1rias comunidades \u00e9tnico-raciais que residem em Portugal. A discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9 hierarquizada \u2013 existir\u00e3o uns que est\u00e3o mais no fim da cadeia do que outros. Ou seja, que o vivenciado pela comunidade negra, ou cigana, n\u00e3o \u00e9 semelhante ao vivenciado, por exemplo, pelas comunidades de nepalesa, paquistanesa, da europa de leste, brasileira ou chinesa. No que diz respeito a estas \u00faltimas, a ideia que parece transparecer \u00e9 a de que a sua inclus\u00e3o, pelo menos do ponto de vista social e econ\u00f3mico, se mostra um pouco menos dif\u00edcil, apesar de n\u00e3o deixam de pertencer a grupos \u00e9tnicos diferenciados.<\/p>\n<p>Mas, ser\u00e1 esta perce\u00e7\u00e3o correta ou ela resultar\u00e1, t\u00e3o s\u00f3, do desconhecimento sobre a viv\u00eancia destas comunidades? O que se passar\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 islamofobia e ao antissemitismo? Qual a medida da sua exist\u00eancia e que repercuss\u00f5es tem na sociedade portuguesa?<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que, confesso, n\u00e3o gosto de formar ju\u00edzos com base em perce\u00e7\u00f5es. Confio em factos e n\u00e3o simpatizo com presun\u00e7\u00f5es. Tamb\u00e9m por esta raz\u00e3o, me regozijo pela promo\u00e7\u00e3o e realiza\u00e7\u00e3o do trabalho que originou o relat\u00f3rio hoje aqui se apresentado e, mais ainda por a iniciativa partir dos eleitos do povo.<\/p>\n<p>Sobre estas tem\u00e1ticas relacionadas com o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/racismo\">racismo<\/a>, a xenofobia e a discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9tnico-racial tende a recair um enorme manto de sil\u00eancio. Tanto quanto me \u00e9 dado a conhecer, s\u00e3o realizados alguns estudos sectorais, mas n\u00e3o se encontra dispon\u00edvel informa\u00e7\u00e3o ampla e abrangente, suscet\u00edvel de ser cruzadas e trabalhada, com base na qual se possa extrair conclus\u00f5es seguras sobre a realidade.<\/p>\n<p>Perguntas t\u00e3o simples como as de saber quantos s\u00e3o os membros destas comunidades; que idade t\u00eam; quantos nasceram em Portugal; quantos aos que n\u00e3o nasceram, h\u00e1 quantos anos aqui residem, onde e como vivem, quanto auferem, que graus de escolaridade det\u00eam, que acesso a empregos, a habita\u00e7\u00e3o, a cuidados de sa\u00fade ou a bens e servi\u00e7os lhes s\u00e3o negados? Estas quest\u00f5es n\u00e3o t\u00eam hoje resposta. No entanto, se n\u00e3o conhecemos as v\u00e1rias vertentes do problema, nem t\u00e3o pouco a sua dimens\u00e3o, como \u00e9 que poderemos atuar de forma integrada e eficaz?<\/p>\n<p>Parafraseando James Baldwin \u2013 uma das vozes mais influentes do movimento dos direitos civis, nos Estados Unidos, \u201cnem tudo o que enfrentamos pode ser mudado. Mas nada pode ser mudado enquanto n\u00e3o for enfrentado. O confronto nem sempre traz uma solu\u00e7\u00e3o para o problema, mas enquanto n\u00e3o enfrentarmos o problema, n\u00e3o teremos solu\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/n1879219\">Relat\u00f3rio do Parlamento prop\u00f5e estudar quotas em universidades para negros e ciganos<\/a><\/strong><\/p>\n<p>Durante d\u00e9cadas, apregoar a inexist\u00eancia de fen\u00f3menos racistas na sociedade portuguesa tornou-se um quase lugar-comum. A repeti\u00e7\u00e3o incessante da ideia n\u00e3o teve, contudo, a virtualidade de a converter em verdadeira.<\/p>\n<p>A maior express\u00e3o de preconceito racial consiste, precisamente, na nega\u00e7\u00e3o deste preconceito.<\/p>\n<p>Porque, como escreveu Sophia de Mello Breyner, \u2013 \u00abVemos, ouvimos e lemos, N\u00e3o podemos ignorar\u00bb. E falando na primeira pessoa, eu acrescentaria que se para alem de vermos, ouvirmos e lermos, tamb\u00e9m sentimos \u2013 essa ideia da inexist\u00eancia de fen\u00f3menos racistas na sociedade portuguesa foi, paulatinamente, perdendo solidez.<\/p>\n<p>Um n\u00famero n\u00e3o despiciendo de pessoas passou ent\u00e3o a acreditar, na sequ\u00eancia de uma corrente de pensamento que j\u00e1 emerge do s\u00e9culo XIX, que a escola, o conhecimento e a cultura se encarregariam de resolver a quest\u00e3o. Bastaria esperar pelo decurso do tempo e pela emerg\u00eancia das novas gera\u00e7\u00f5es que, progressivamente, mais escolarizadas teriam, necessariamente, uma abordagem e uma estar diferenciado e iminentemente inclusivo.<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/n1878996\">Racismo: \u201cAinda n\u00e3o fur\u00e1mos a barreira de vidro mas estamos a ir contra ela e vamos quebr\u00e1-la\u201d<\/a><\/strong><\/p>\n<p>Claro que importa acreditar na educa\u00e7\u00e3o e na escolariza\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancia de que essa seja, a solu\u00e7\u00e3o para os problemas do racismo e da xenofobia nas nossas sociedades. Ningu\u00e9m duvida que hoje, n\u00e3o s\u00f3 em Portugal, mas tamb\u00e9m na Europa, a popula\u00e7\u00e3o, principalmente a mais jovem, alcan\u00e7ou um grau de escolariza\u00e7\u00e3o muito superior relativamente \u00e0s gera\u00e7\u00f5es que a precederam.<\/p>\n<p>Mas esse facto determinou que tivesse diminu\u00eddo, por exemplo, o discurso de \u00f3dio ou a rea\u00e7\u00e3o perante a diferen\u00e7a racial ou \u00e9tnica? Diria que n\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio, parece ter-se refundado, em pleno s\u00e9culo XXI, um discurso de \u00f3dio ao diferente, com \u00f3bvio recrudescimento das sociedades xen\u00f3fobas e racistas.<\/p>\n<p>\u00c9 esta constata\u00e7\u00e3o que conduz \u00e0 conclus\u00e3o de que, relativamente a estas tem\u00e1ticas, bem como em rela\u00e7\u00e3o a outras, infelizmente a educa\u00e7\u00e3o, o conhecimento e a cultura n\u00e3o consubstanciam a magia do Santo Graal. Um grau de escolaridade mais elevado poder\u00e1 tornar as rea\u00e7\u00f5es mais subtis, menos prim\u00e1rias ou grosseiras, mas n\u00e3o tem a faculdade de as eliminar.<\/p>\n<p>Quantas e quantas vezes ouvimos, proferida pelas pessoas mais diversas e diferenciadas: n\u00e3o sou racista mas \u2026, sendo certo que ap\u00f3s a adversativa se segue um coment\u00e1rio que, seguramente, exemplifica ou demonstra um qualquer estere\u00f3tipo negativo que marcar\u00e1 a diferen\u00e7a entre \u201cn\u00f3s e os outros\u201d.<\/p>\n<p>In\u00fameras pessoas afirmar\u00e3o, sem hesitar \u2013 que o racismo \u00e9 est\u00fapido. No entanto, algumas dessas pessoas provavelmente n\u00e3o admitir\u00e3o, nem sequer perante si pr\u00f3prias, que a diferen\u00e7a os incomoda ou mesmo que lhes causa avers\u00e3o e lhes determina a rea\u00e7\u00f5es hostis.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 algu\u00e9m afirmou, o racismo \u00e9 o crime perfeito \u2013 quem o comete acha sempre que a culpa \u00e9 da v\u00edtima.<\/p>\n<p>Relativamente a estes fen\u00f3menos n\u00e3o h\u00e1 uma solu\u00e7\u00e3o ou a solu\u00e7\u00e3o. Existir\u00e3o, ao inv\u00e9s, in\u00fameros \u00e2ngulos que necessitam de ser abordados sendo que, entre estes, os mais prementes se prendem com a desigualdade e com a exclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Como intervir perante o medo da diferen\u00e7a? Como agir e o que fazer para a diferen\u00e7a n\u00e3o se transmute em desigualdade?<\/p>\n<p>Mais: como intervir na sociedade atual onde a coberto do anonimato potenciado pelas redes sociais floresce o sentimento anti-imigrante e onde grande parte dos males do mundo \u00e9 imputado a um outro que, por qualquer raz\u00e3o, nos seja dissemelhante?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Creio que uma das chaves \u2013 claro est\u00e1 que integrada numa mir\u00edade de outras \u2013 ser\u00e1 a da inclus\u00e3o. O receio, o medo e a hostilidade ser\u00e3o, creio, tanto menores, quanto mais o diferente nos seja pr\u00f3ximo, quanto mais convivermos, repartirmos, e estabelecermos cumplicidades com esses outros.<\/p>\n<p>Essa inclus\u00e3o apenas se alcan\u00e7ar\u00e1 se os que aparentemente n\u00e3o s\u00e3o iguais frequentarem as mesmas creches, o mesmo ensino pr\u00e9-escolar, as mesmas escolas, forem vizinhos ou colegas de trabalho. Se tiverem os mesmos est\u00edmulos.<\/p>\n<p>Esta ser\u00e1, creio, uma das vias que possibilitar\u00e1 que a diferen\u00e7a deixe de convulsionar ou inquietar e se converta em normalidade. Essa normalidade poder\u00e1 ent\u00e3o criar a oportunidade para, fazendo minhas as palavras do Papa Francisco, \u00abviver com a cultura do outro\u00bb e, ao viv\u00ea-la, a vermos e sentirmos como natural.<\/p>\n<p>Importa, todavia, que n\u00e3o tenhamos ilus\u00f5es: a estrada que importa percorrer \u00e9 imensa e, n\u00e3o raras vezes, o caminho parece infinito.\u00a0N\u00e3o obstante, acredito, firmemente, que um dia vir\u00e1 que todos concordar\u00e3o, sem reserva, com Gabriel Garc\u00eda Marquez\u200b: uma pessoa s\u00f3 tem direito de olhar outra de cima para baixo no momento de a ajudar a levantar-se.<\/p>\n<p>Temos de construir sobre bons valores partilhados e ver na diversidade, n\u00e3o uma amea\u00e7a, mas antes uma riqueza: Portugal n\u00e3o merece nem espera de n\u00f3s outra atitude.<\/p>\n<p>Termino felicitando mais a primeira Comiss\u00e3o por ter decidido iniciar um debate esclarecido sobre quest\u00f5es subalternizadas no pensamento e discurso institucionais. Nesta mat\u00e9ria o negacionismo, a persist\u00eancia na desvaloriza\u00e7\u00e3o do fen\u00f3meno conduz ao desastre e \u00e0 radicaliza\u00e7\u00e3o de posi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ministra da Justi\u00e7a falou nesta ter\u00e7a-feira na confer\u00eancia \u201cRacismo, Xenofobia e Discrimina\u00e7\u00e3o \u00c9tnico-Racial em Portugal\u201d, na Assembleia da Rep\u00fablica. Leia a vers\u00e3o escrita do discurso na \u00edntegra.<br \/>\n9 de Julho de 2019, 20:55<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":3812,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[39,5,7],"tags":[],"class_list":["post-3811","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-documentos","category-recortes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3811","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3811"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3811\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3813,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3811\/revisions\/3813"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3812"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3811"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3811"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3811"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}