{"id":3961,"date":"2019-10-30T17:08:41","date_gmt":"2019-10-30T17:08:41","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/?p=3961"},"modified":"2019-10-30T17:08:41","modified_gmt":"2019-10-30T17:08:41","slug":"angels-unawares-nao-se-trata-apenas-de-migrantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/angels-unawares-nao-se-trata-apenas-de-migrantes\/","title":{"rendered":"Angels Unawares: N\u00e3o se trata apenas de migrantes"},"content":{"rendered":"<p>Por Ana Varela<\/p>\n<p>Artigo publicado no ponto SJ<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-content\/uploads\/MIGRANTE-REFUGIADO_capa-fb.jpg\">https:\/\/pontosj.pt\/opiniao\/angels-unawares-nao-se-trata-apenas-de-migrantes\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-content\/uploads\/MIGRANTE-REFUGIADO_capa-fb.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-3850 alignleft\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-content\/uploads\/MIGRANTE-REFUGIADO_capa-fb.jpg\" alt=\"\" width=\"576\" height=\"324\" srcset=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-content\/uploads\/MIGRANTE-REFUGIADO_capa-fb.jpg 1920w, https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-content\/uploads\/MIGRANTE-REFUGIADO_capa-fb-300x169.jpg 300w, https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-content\/uploads\/MIGRANTE-REFUGIADO_capa-fb-768x432.jpg 768w, https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-content\/uploads\/MIGRANTE-REFUGIADO_capa-fb-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-content\/uploads\/MIGRANTE-REFUGIADO_capa-fb-1080x608.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 576px) 100vw, 576px\" \/><\/a>No passado dia 29 de setembro, celebrou-se na Pra\u00e7a de S. Pedro a Santa Missa para o 105.\u00ba dia Mundial do Migrante e do Refugiado. Esta celebra\u00e7\u00e3o foi realizada em uni\u00e3o com os fi\u00e9is de todas as dioceses do mundo, para reafirmar a necessidade de que ningu\u00e9m seja exclu\u00eddo da sociedade, seja um cidad\u00e3o residente de longa dura\u00e7\u00e3o ou algu\u00e9m rec\u00e9m-chegado.<\/p>\n<p>Tive a alegria de estar presente, com a minha fam\u00edlia, junto de milhares de peregrinos de diferentes nacionalidades, que coloriram a Pra\u00e7a com a riqueza e o entusiasmo contagiante da diversidade. Senti-me tamb\u00e9m muito grata por esta oportunidade. Pois, sendo cat\u00f3lica e tendo o privil\u00e9gio de servir desde h\u00e1 v\u00e1rios anos migrantes e refugiados em Portugal, a participa\u00e7\u00e3o nesta celebra\u00e7\u00e3o teve ainda um significado mais profundo.<\/p>\n<p>Estava uma manh\u00e3 quente e clara, aguard\u00e1mos sob um sol intenso, num clima de festa e recolhimento, pr\u00f3prios das grandes celebra\u00e7\u00f5es presididas pelo Papa Francisco. Em redor, logo escut\u00e1mos o nosso idioma, peregrinos de Portugal e de pa\u00edses lus\u00f3fonos, junto de peregrinos que viajaram de muitos outros pa\u00edses para participar nesta celebra\u00e7\u00e3o e muitos imigrantes e refugiados residentes em It\u00e1lia. Aguard\u00e1vamos todos com grande expectativa, a\u00a0<a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/homilies\/2019\/documents\/papa-francesco_20190929_omelia-migranti.html\">homilia<\/a>\u00a0e a mensagem do Papa para este dia especial, que neste ano teve como tema: \u201c<a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/messages\/migration\/documents\/papa-francesco_20190527_world-migrants-day-2019.html\">N\u00e3o se trata apenas de migrantes<\/a>\u201d. Sab\u00edamos que ir\u00edamos, uma vez mais, ser interpelados pelas suas palavras e a\u00e7\u00f5es. Mas fomos surpreendidos tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>O Evangelho lido nesse dia foi a par\u00e1bola do rico e de L\u00e1zaro (Lc 16, 19-31): Um homem rico, muito ocupado em comprar roupas elegantes e em organizar espl\u00eandidos banquetes, n\u00e3o v\u00ea o pobre L\u00e1zaro coberto de chagas \u00e0 sua porta, que bem desejava saciar-se com o que ca\u00eda da sua mesa. Quando ambos faleceram, L\u00e1zaro foi consolado e o rico ficou em tormentos.<\/p>\n<p>Esta par\u00e1bola pode ser vista como uma met\u00e1fora do nosso tempo, que nos deveria convidar \u00e0 convers\u00e3o. O Papa referiu, com tristeza, que o mundo atual vai-se tornando, dia ap\u00f3s dia, mais elitista e cruel para com os exclu\u00eddos. Enquanto em alguns pa\u00edses se vive como o homem rico, numa cultura de descarte, com todas as comodidades e abund\u00e2ncia de bens e de alimentos, que se desperdi\u00e7am e acabam, n\u00e3o raras vezes, no lixo, noutros pa\u00edses de baixo rendimento, continuam milhares a viver na mis\u00e9ria e a morrer \u00e0 fome, como o pobre L\u00e1zaro da par\u00e1bola. Neste m\u00eas de Outubro, em que se assinala no dia 17 o Dia Mundial para a Erradica\u00e7\u00e3o da Pobreza, d\u00e1 que pensar que desde h\u00e1 muito conhecemos esta situa\u00e7\u00e3o de injusti\u00e7a e sabemos que \u00e9 poss\u00edvel erradicar a fome no mundo. Ali\u00e1s, \u201cErradicar a pobreza\u201d \u00e9 o objetivo n\u00famero um da Agenda para o Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (Agenda 2030) e \u201cErradicar a fome\u201d \u00e9 o segundo objetivo.<\/p>\n<p>Enquanto isso, continuam a perecer milhares de homens, mulheres e crian\u00e7as por falta de alimento e de subnutri\u00e7\u00e3o, em pa\u00edses mais pobres. Continuam ainda a abater-se guerras apenas sobre algumas regi\u00f5es do mundo, enquanto as armas para as fazer s\u00e3o produzidas e vendidas noutras regi\u00f5es, que depois erguem muros e pagam se preciso for para manter os refugiados bem longe da porta. Descartar ilustra ainda a ideia de explora\u00e7\u00e3o at\u00e9 ao limite de pessoas e de recursos naturais, para os colocar ao servi\u00e7o de uns poucos mercados, somando a emerg\u00eancia clim\u00e1tica \u00e0 emerg\u00eancia humanit\u00e1ria. N\u00e3o apenas o planeta est\u00e1 polu\u00eddo pelos excessos e despojos do descarte, mas o pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o. E \u00ab<em>quem sofre as consequ\u00eancias s\u00e3o sempre os pequenos, os pobres, os mais vulner\u00e1veis, a quem se impede de sentar-se \u00e0 mesa deixando-lhe as \u201cmigalhas\u201d do banquete<\/em>\u00bb (homilia do Papa Francisco, 29 de setembro).<\/p>\n<p>O Papa Francisco alertou uma vez mais para a \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o da indiferen\u00e7a\u201d e incapacidade de empatia, de compaix\u00e3o, de verter l\u00e1grimas e chorar perante o sofrimento dos nossos irm\u00e3os mais pobres e exclu\u00eddos. Os migrantes s\u00e3o uma oportunidade de convers\u00e3o, ajudam-nos a ler os \u201csinais dos tempos\u201d e estar atentos aos dramas de velhas e novas pobrezas. Ajudam-nos a libertar-nos do elitismo e da discrimina\u00e7\u00e3o de quem n\u00e3o pertence ao \u201cnosso grupo\u201d, da indiferen\u00e7a e da cultura do descarte.<\/p>\n<p>Esta par\u00e1bola pode ser vista como uma met\u00e1fora do nosso tempo, que nos deveria convidar \u00e0 convers\u00e3o. O Papa referiu, com tristeza, que o mundo atual vai-se tornando, dia ap\u00f3s dia, mais elitista e cruel para com os exclu\u00eddos.<\/p>\n<p>Assim, n\u00e3o se trata apenas de migrantes e refugiados, mas tamb\u00e9m de pessoas vulner\u00e1veis em geral. Trata-se de vencer os nossos medos, trata-se de caridade, trata-se da nossa humanidade, trata-se de n\u00e3o excluir ningu\u00e9m, trata-se de colocar os \u00faltimos em primeiro lugar, trata-se da pessoa toda e de todas as pessoas, trata-se de arrega\u00e7ar as mangas e empenhar-se seriamente na constru\u00e7\u00e3o de um mundo mais justo, onde todos possam ter acesso aos bens da terra, todos possam realizar-se como pessoas e como fam\u00edlias e onde a todos seja garantida a dignidade e os direitos fundamentais da pessoa humana.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a ora\u00e7\u00e3o do \u00c2ngelus, o Papa Francisco confiou ao amor materno de Maria, Nossa Senhora da Estrada \u2013 Nossa Senhora das in\u00fameras estradas dolorosas \u2013, os migrantes e os refugiados, juntamente com os habitantes das periferias do mundo e quantos se fazem seus companheiros de viagem. Depois, quis saudar a multid\u00e3o reunida para esta celebra\u00e7\u00e3o e percorreu no papam\u00f3vel a Pra\u00e7a de S\u00e3o Pedro. Era um momento muito aguardado por todos e sempre emocionante, ver o Papa de perto, saudar e ser aben\u00e7oado\/a por ele. Passou muito pr\u00f3ximo de n\u00f3s, com um sorriso no rosto. Seguidamente, desceu do papam\u00f3vel e avan\u00e7ou para um grande volume, coberto por um pano. Quando este foi retirado, revelou a escultura de uma barca, sobrelotada de pessoas migrantes e refugiadas em tamanho real, de diversas idades, contextos \u00e9tnicos e culturais e diferentes tempos hist\u00f3ricos. Nesta barca parece viajar a pr\u00f3pria humanidade. N\u00e3o h\u00e1 leme, mas existe esperan\u00e7a. De entre os migrantes, erguem-se duas asas \u2013 uma refer\u00eancia \u00e0 Carta aos Hebreus: \u00ab<em>N\u00e3o vos esque\u00e7ais da hospitalidade, pela qual alguns, sem o saberem, hospedaram anjos\u00bb<\/em>\u00a0(Heb 13,2).<\/p>\n<p>Confesso que fiquei maravilhada desde o primeiro momento em que vi a obra \u201cAngels Unawares\u201d surgir \u00e0 luz do dia. Soube depois que a escultura de bronze e argila, da autoria do escultor canadiano Timothy Schmalz, foi uma sugest\u00e3o do rec\u00e9m Cardeal Michael Czerny \u2013 cujo\u00a0<a href=\"https:\/\/pontosj.pt\/especial\/a-barca-do-cardeal-desaprender-e-reaprender-os-simbolos\/\">bras\u00e3o<\/a>\u00a0tem tamb\u00e9m o s\u00edmbolo de uma barca com migrantes e refugiados. Este forte simbolismo faz todo o sentido, pois o Mar Mediterr\u00e2neo \u00e9 atualmente a fronteira mais mort\u00edfera e perigosa do mundo. Nos \u00faltimos seis anos, mais de 14 mil pessoas, homens, mulheres e crian\u00e7as (catorze mil!) perderam a vida no Mediterr\u00e2neo. Neste ano, entre janeiro e outubro, mais de mil pessoas j\u00e1 perderam a vida a tentar chegar \u00e0 Europa, sendo que uma em cada 28 pessoas que tentou esta travessia morreu (<a href=\"https:\/\/missingmigrants.iom.int\/region\/mediterranean\">dados da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional das Migra\u00e7\u00f5es<\/a>). As condi\u00e7\u00f5es em que as travessias ocorrem est\u00e3o a piorar aumentando o risco. De acordo com o porta-voz da OIM, Leonard Doyle, que classificou esta situa\u00e7\u00e3o com \u201ccarnificina no mar\u201d, as mortes \u00abdevem-se, em certa medida, ao endurecimento das atitudes, o aumento das hostilidades com os migrantes, que fogem da viol\u00eancia e da pobreza\u00bb. O Papa explicou que foi seu desejo que a obra ficasse na Pra\u00e7a de S\u00e3o Pedro, para que recorde a todos o desafio evang\u00e9lico da hospitalidade.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio do seu pontificado (2013), com a viagem a Lampedusa, passando pelo desafio lan\u00e7ado ao acolhimento de uma fam\u00edlia de refugiados em cada comunidade crist\u00e3 (2015), at\u00e9 ao presente, o Papa Francisco tem sido consistente e at\u00e9 mesmo insistente na necessidade de acolhimento de migrantes e refugiados. N\u00e3o o faz decerto por teimosia, mas movido pela f\u00e9 e compaix\u00e3o de quem continua a ver o pobre L\u00e1zaro \u00e0s portas da Europa. Se quisermos salvar-nos, n\u00e3o podemos esquecer a nossa humanidade e quem somos, n\u00e3o podemos n\u00e3o chorar perante a dor e a injusti\u00e7a, n\u00e3o acolher e n\u00e3o amar os L\u00e1zaros deste mundo, tocando as suas feridas e saciando a sua fome. Somos chamados a restaurar a sua humanidade, junto com a nossa, sem excluir ningu\u00e9m, sem deixar ningu\u00e9m de fora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde 2014 mais de 14 mil pessoas perderam a vida no Mar Mediterr\u00e2neo, tentando chegar \u00e0 Europa. 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