{"id":3986,"date":"2019-12-03T14:52:27","date_gmt":"2019-12-03T14:52:27","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/?p=3986"},"modified":"2019-12-03T14:55:00","modified_gmt":"2019-12-03T14:55:00","slug":"3986-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/3986-2\/","title":{"rendered":"O cami\u00e3o de Essex e as respostas da Igreja"},"content":{"rendered":"<p>Por M\u00e1rio Almeida, SMR<\/p>\n<p>J\u00e1 quase se desvaneceram as emo\u00e7\u00f5es que os meios de comunica\u00e7\u00e3o despertaram na nossa consci\u00eancia coletiva ap\u00f3s a descoberta de 39 pessoas mortas por sufocamento num cami\u00e3o encontrado num parque industrial da regi\u00e3o inglesa de Essex, n\u00e3o muito longe de Londres. Este n\u00e3o \u00e9, infelizmente, um caso raro num mundo em que o tr\u00e1fico de seres humanos se converteu numa atividade vulgar e quotidiana. At\u00e9 diante das nossas portas, ainda que sob formas quase invis\u00edveis ou que n\u00f3s pretendemos n\u00e3o ver. Apesar de ouvir falar bastante neste infernal com\u00e9rcio no trabalho que desenvolvo na\u00a0<a href=\"https:\/\/migrants-refugees.va\/pt\/\">Sec\u00e7\u00e3o Migrantes e Refugiados da Santa S\u00e9<\/a>, as palavras de certa Irm\u00e3, muito empenhada no combate ao tr\u00e1fico em Portugal, fizeram-me mossa quando as escutei h\u00e1 uns meses, precisamente no lan\u00e7amento de um livro sobre o tr\u00e1fico de pessoas: \u201cAqui mesmo nesta rua [era, naquele caso, a Cal\u00e7ada do Combro, em Lisboa], h\u00e1 certamente neste preciso momento, atr\u00e1s de alguma janela, algu\u00e9m que espera, transido\/a de medo, por n\u00e3o saber exatamente onde est\u00e1, para onde o\/a v\u00e3o levar, o que lhe v\u00e3o fazer\u2026 Mais uma das muitas v\u00edtimas do tr\u00e1fico que est\u00e1 a acontecer agora aqui na cidade de Lisboa, sem (quase) ningu\u00e9m ver, sem dele (quase) ningu\u00e9m se aperceber\u2026\u201d.<\/p>\n<p>O Papa Francisco atribui uma enorme import\u00e2ncia a este drama de milh\u00f5es de pessoas que s\u00e3o objeto de tr\u00e1fico e escravizadas de diversas formas no mundo contempor\u00e2neo. A este assunto tem regressado em in\u00fameras ocasi\u00f5es. As palavras de condena\u00e7\u00e3o que Francisco tem dirigido ao tr\u00e1fico de seres humanos s\u00e3o muito duras: este \u00e9 um \u201cflagelo atroz\u201d (03\/04\/2017), uma \u201cchaga aberrante\u201d (30\/07\/2017) e uma \u201cferida no corpo da humanidade contempor\u00e2nea\u201d (10\/04\/2014).<\/p>\n<p>Este \u00e9 tamb\u00e9m um fen\u00f3meno muito complexo, com formas muito variadas e em permanente muta\u00e7\u00e3o, tanto no que diz respeito \u00e0s suas v\u00edtimas, aos perpetradores, aos percursos e esquemas utilizados. Para dar apenas um exemplo, acabo de ler um relato da exist\u00eancia de um crescente n\u00famero de africanos \u2013 estamos habituados a pensar que s\u00e3o s\u00f3 os migrantes latinos a faz\u00ea-lo! \u2013\u00a0 que cruzam a Am\u00e9rica Latina \u00e0s m\u00e3os de traficantes e contrabandistas na esperan\u00e7a de chegar aos EUA; muitos simplesmente morrem de exaust\u00e3o pelo caminho, afogam-se a atravessar os in\u00fameros rios da regi\u00e3o ou acabam em centros de deten\u00e7\u00e3o desprovidos das m\u00ednimas condi\u00e7\u00f5es ou a viver nas ruas das cidades do estado mexicano de Chiapas.<\/p>\n<p>A ardente compaix\u00e3o do Papa para com as v\u00edtimas deste com\u00e9rcio e os seus repetidos apelos a um maior compromisso em favor delas por parte da Igreja levaram a Sec\u00e7\u00e3o Migrantes e Refugiados a encetar um processo de consultas com organiza\u00e7\u00f5es parceiras empenhadas nesta luta e representantes de Confer\u00eancias Episcopais de todo o mundo. \u00c9 esse o fundamento das\u00a0<a href=\"https:\/\/migrants-refugees.va\/pt\/trafico-de-seres-humanos-e-escravidao\/\">Orienta\u00e7\u00f5es Pastorais sobre o Tr\u00e1fico de Pessoas (OPTP)<\/a>, que pretendem ser uma resposta da Igreja Cat\u00f3lica a este drama e uma sua proposta para a reflex\u00e3o e a\u00e7\u00e3o de quantos se sentem interpelados.<\/p>\n<p>O prop\u00f3sito das OPTP \u00e9 triplo e visa proporcionar:<\/p>\n<ul>\n<li>uma leitura do tr\u00e1fico: por que \u00e9 que a perversidade do tr\u00e1fico de pessoas persiste no s\u00e9c. XXI? Como \u00e9 que ele pode permanecer t\u00e3o oculto?<\/li>\n<li>uma sua compreens\u00e3o: como \u00e9 que se processa este repugnante e mal\u00e9volo neg\u00f3cio do tr\u00e1fico de pessoas?<\/li>\n<li>e orienta\u00e7\u00f5es para a a\u00e7\u00e3o para uma muito necess\u00e1ria luta que perdurar\u00e1 por muito tempo: o que poder\u00e1 ser feito para mitigar e eliminar o tr\u00e1fico de pessoas? Como \u00e9 que isso poder\u00e1 ser melhor feito?<\/li>\n<\/ul>\n<p>Tendo em considera\u00e7\u00e3o as diversas \u00e1reas em que as v\u00edtimas do tr\u00e1fico de pessoas trabalham ou operam (agricultura, trabalho dom\u00e9stico, prostitui\u00e7\u00e3o e outras), os consumidores constituem uma enorme massa que parece estar em grande medida inconsciente da explora\u00e7\u00e3o a que s\u00e3o submetidas as pessoas que s\u00e3o traficadas, embora disfrutem dos benef\u00edcios e servi\u00e7os por elas prestados.<\/p>\n<p>As OPTP procuram analisar os factos cru\u00e9is e os desafios suscitados por este impiedoso fen\u00f3meno. Sugerem-se uma variedade de respostas, agrupadas em quatro cap\u00edtulos e dez sec\u00e7\u00f5es. Cito os t\u00edtulos apenas dos quatro cap\u00edtulos: \u201cEntender o tr\u00e1fico de pessoas: as causas\u201d, \u201cReconhecer o tr\u00e1fico de pessoas\u201d, \u201cAs din\u00e2micas do tr\u00e1fico de pessoas: um neg\u00f3cio repugnante e mal\u00e9volo\u201d e \u201cAs respostas ao tr\u00e1fico de pessoas: margem para melhorar\u201d. Tudo isto porque, como afirma o Papa Francisco, \u201ca Igreja Cat\u00f3lica pretende intervir em cada fase do tr\u00e1fico dos seres humanos: quer proteg\u00ea-los do engano e da sedu\u00e7\u00e3o; quer encontr\u00e1-los e libert\u00e1-los quando s\u00e3o transportados e reduzidos em escravid\u00e3o; quer assisti-los quando forem libertados\u201d (12\/02\/2018). E, de facto, n\u00e3o podemos ignorar o muito que \u00e9 j\u00e1 feito, n\u00e3o s\u00f3 por congrega\u00e7\u00f5es religiosas femininas (com especial destaque para a Rede Talitha Kum), mas tamb\u00e9m por par\u00f3quias, ONG e institui\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas para proporcionar a quem foi apanhado pelo tr\u00e1fico a oportunidade de estabelecer um primeiro contacto, buscar ajuda para escapar, encontrar acolhimento e seguran\u00e7a b\u00e1sica e poder dar os primeiros passos para a liberta\u00e7\u00e3o e reabilita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, no \u00e2mbito deste breve artigo, apresentar uma s\u00edntese, por mais sucinta, das referidas dez sec\u00e7\u00f5es. Refiro-me t\u00e3o s\u00f3 \u00e0 segunda delas, \u201co aspeto da procura\u201d, uma vez que questiona a responsabilidade de todos n\u00f3s, consumidores, como causa da exist\u00eancia do tr\u00e1fico: \u201cNo debate p\u00fablico, d\u00e1-se muita aten\u00e7\u00e3o aos traficantes que s\u00e3o respons\u00e1veis pelo fator da oferta do tr\u00e1fico de pessoas, embora poucos sejam presos e ainda menos sejam condenados. Pouco se diz dos consumidores: o fator da procura, a que os traficantes continuam a dar resposta. Tendo em considera\u00e7\u00e3o as diversas \u00e1reas em que as v\u00edtimas do tr\u00e1fico de pessoas trabalham ou operam (agricultura, trabalho dom\u00e9stico, prostitui\u00e7\u00e3o e outras), os consumidores constituem uma enorme massa que parece estar em grande medida inconsciente da explora\u00e7\u00e3o a que s\u00e3o submetidas as pessoas que s\u00e3o traficadas, embora disfrutem dos benef\u00edcios e servi\u00e7os por elas prestados. Se h\u00e1 homens, mulheres e crian\u00e7as que s\u00e3o traficados, tal deve-se, em \u00faltima an\u00e1lise, ao facto de haver uma grande procura que torna a sua explora\u00e7\u00e3o rent\u00e1vel\u201d (OPTP, 20).<\/p>\n<p>N\u00e3o esque\u00e7amos ainda como as meninas e as mulheres s\u00e3o especialmente vulner\u00e1veis \u00e0s malhas tecidas pelo tr\u00e1fico de pessoas. O S\u00ednodo para a Amaz\u00f3nia, recentemente terminado, n\u00e3o deixou de recordar que a \u201cfeminiza\u00e7\u00e3o da migra\u00e7\u00e3o [\u2026] torna milhares de mulheres vulner\u00e1veis ao tr\u00e1fico humano, uma das piores formas de viol\u00eancia contra as mulheres e uma das mais perversas viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos\u201d (Documento Final, 13).<\/p>\n<p>O objetivo \u00faltimo das OPTP \u00e9 o de desmantelar e erradicar este empreendimento extremamente mal\u00e9volo e repugnante de engano, aprisionamento, dom\u00ednio e explora\u00e7\u00e3o. Afirma ainda o Papa Francisco que \u201cesta obra imensa, que exige coragem, paci\u00eancia e perseveran\u00e7a, tem necessidade de um esfor\u00e7o comum e global por parte de v\u00e1rios protagonistas que comp\u00f5em a sociedade\u201d (07\/05\/2018). Esperemos que este documento possa ajudar a Igreja a desempenhar o seu inestim\u00e1vel papel neste combate.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"8dFimepSgG\"><p><a href=\"https:\/\/pontosj.pt\/especial\/o-camiao-de-essex-e-as-respostas-da-igreja\/\">O cami\u00e3o de Essex e as respostas da Igreja<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"&#8220;O cami\u00e3o de Essex e as respostas da Igreja&#8221; &#8212; Ponto SJ\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"https:\/\/pontosj.pt\/especial\/o-camiao-de-essex-e-as-respostas-da-igreja\/embed\/#?secret=8dFimepSgG\" data-secret=\"8dFimepSgG\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Papa tem denunciado o drama do tr\u00e1fico de pessoas. Igreja lan\u00e7ou orienta\u00e7\u00f5es pastorais sobre este tema. E lembra: se h\u00e1 homens, mulheres e crian\u00e7as que s\u00e3o traficados, tal deve-se, em \u00faltima an\u00e1lise, ao facto de haver uma grande procura.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":3987,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[39,7,56],"tags":[],"class_list":["post-3986","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-recortes","category-trafico-de-seres-humanos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3986","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3986"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3986\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3989,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3986\/revisions\/3989"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3987"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3986"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3986"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3986"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}