{"id":41,"date":"2003-03-01T00:00:00","date_gmt":"2003-03-01T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2015-05-22T14:51:53","modified_gmt":"2015-05-22T14:51:53","slug":"migrantes-entre-barreiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/migrantes-entre-barreiras\/","title":{"rendered":"Migrantes entre barreiras"},"content":{"rendered":"<p>Existe na Igreja um punhado de crist\u00e3os constitu\u00eddo por alguns leigos, bispos, padres e religiosas que, desde a maci\u00e7a e desesperada chegada dos &#8220;refugiados ultramarinos&#8221; (Nota Pastoral da CEP, 1975), e vulgarmente designados de &#8220;retornados&#8221; e &#8220;deslocados&#8221;, se encontra responsavelmente, e sem preconceitos, comprometido com a mobilidade humana no pa\u00eds e fora dele. Com efeito, essa vaga imigrat\u00f3ria de propor\u00e7\u00f5es nunca vistas e na ordem das 800.000 pessoas, foi a primeira da nossa hist\u00f3ria e \u00e9 compar\u00e1vel somente ao &#8220;for\u00e7ado&#8221; \u00eaxodo emigrat\u00f3rio dos portugueses para o estrangeiro da d\u00e9cada anterior que se salda em perto de um milh\u00e3o de pessoas. A mobilidade sempre fez parte da nossa hist\u00f3ria secular. N\u00e3o nos auto-compreendemos sem ela!<br \/>\n2. Com a \u00faltima vaga, a terceira, a mais recente, iniciada em v\u00e9speras do Jubileu 2000, capitalizando at\u00e9 hoje um total de 200.000 imigrantes, o Pa\u00eds parece ter apanhado um grande susto. Inebriado e amedrontado com o seu novo &#8220;estilo de vida&#8221; onde os sinais de ostenta\u00e7\u00e3o de &#8220;sucesso&#8221; de uns ocultam sistematicamente a mis\u00e9ria de outros, e ainda contagiado inocente e perifericamente pela preocupante &#8220;xenofobia ao estrangeiro imigrante e refugiado&#8221; em voga nas na\u00e7\u00f5es ricas da Uni\u00e3o Europeia, o Pa\u00eds parece ter entrado, de novo, em desnorte civilizacional: mais de valores do que propriamente econ\u00f3mico.<br \/>\nOutrora devido ao trauma &#8220;p\u00f3s-colonial&#8221;, mas agora causado pelas consequ\u00eancias da ades\u00e3o \u00e0 Uni\u00e3o e aos sucessivos alargamentos geo-estrat\u00e9gicos passados e futuros.<br \/>\nNum curto espa\u00e7o de tempo, intensificam-se as chegadas, e a imigra\u00e7\u00e3o torna-se um fen\u00f3meno inevit\u00e1vel e impar\u00e1vel. Tal como aconteceu com a Emigra\u00e7\u00e3o, a Imigra\u00e7\u00e3o adquire tamb\u00e9m o &#8220;estatuto&#8221; de realidade estrutural e estruturante da nossa sociedade. Habituados ao lento processo da anterior vaga imigrat\u00f3ria, a segunda, maioritariamente africana e lus\u00f3fona, que sustentou as \u00faltimas duas d\u00e9cadas do mil\u00e9nio, sentimos diminuir o n\u00famero de crist\u00e3os fi\u00e9is \u00e0 viv\u00eancia da &#8220;caridade evang\u00e9lica&#8221; com os migrantes e para com os ainda olvidados refugiados. Incapazes de propor medidas adequadas de integra\u00e7\u00e3o social e eclesial, \u00edamo-nos habituando \u00e0 omiss\u00e3o, ao que se devia ter feito e n\u00e3o se fez.<br \/>\nMas o punhado de crist\u00e3os, juntamente com activistas dos direitos humanos, o ACIME, a OIM, Associa\u00e7\u00f5es de imigrantes e as Plataformas SCAL e CAPROL, conscientes dos seus deveres baptismais e c\u00edvicos, gritava teimosamente no deserto da indiferen\u00e7a pol\u00edtica, a dignidade humana e &#8220;acolhimento generoso&#8221; como quem vive de utopia&#8230;<br \/>\n\u00c9 vis\u00edvel como tamb\u00e9m no pr\u00f3prio seio da Igreja a imigra\u00e7\u00e3o permanece ainda um tema de dif\u00edcil consenso pois subsistem leituras diferentes, \u00e0s vezes contrapostas, da mesma realidade. Apesar de hoje se apresentar como um tema menos marginal a Imigra\u00e7\u00e3o exige, cada vez mais, por parte das Institui\u00e7\u00f5es da Igreja um urgente e aprofundado estudo sociol\u00f3gico e pastoral que consiga accionar um concertado plano pedag\u00f3gico nacional que favore\u00e7a uma &#8220;cultura do acolhimento e da comunica\u00e7\u00e3o&#8221; e o t\u00e3o almejado pelo Papa, di\u00e1logo intercultural e inter-religioso junto das comunidades crist\u00e3s: par\u00f3quias, congrega\u00e7\u00f5es e movimentos.<br \/>\n3. Temos a clara consci\u00eancia de que neste particular momento pol\u00edtico e social de &#8220;crise de valores&#8221; onde vai predominando alguma subtil demagogia de todos os quadrantes apoiada por uma nova &#8220;lei de imigra\u00e7\u00e3o&#8221; mais securit\u00e1ria e sancionat\u00f3ria que a anterior, restritiva dos direitos, violenta administrativamente, que ignora a situa\u00e7\u00e3o dos imigrantes &#8220;n\u00e3o autorizados&#8221; que est\u00e3o em Portugal, e deixa mais uma vez no limbo a situa\u00e7\u00e3o dos refugiados, n\u00e3o podemos deixar de ser a voz vulner\u00e1vel dos &#8220;n\u00e3o autorizados&#8221; que vivendo &#8220;oprimidos&#8221; no meio de n\u00f3s, trabalham mais que os outros e recebem menos; contribuem para a Seguran\u00e7a Social e permanecem desprotegidos; participam nas Associa\u00e7\u00f5es e nas nossas Igrejas com empenho; e esperam, como agora se diz, deste pa\u00eds &#8220;pequeno e sem condi\u00e7\u00f5es para acolher mais gente&#8221; e sem condi\u00e7\u00f5es para controlar a sua fronteira e modernizar a sua rede consular, a t\u00e3o proclama resposta humanista, generosa e de justa inclus\u00e3o.<br \/>\nConhecemo-los, a maioria \u00e9 gente de bem e de paz e acreditamos que muitos s\u00e3o precisos aqui para nos ajudar a atingir o progresso econ\u00f3mico, social, cient\u00edfico, religioso, democr\u00e1tico e civilizacional que sem eles n\u00e3o se conseguir\u00e1. Eles s\u00e3o um dom inestim\u00e1vel para a paz e progresso da democracia.<br \/>\n4. A nosso ver, os crist\u00e3os continuam, mais a n\u00edvel da ac\u00e7\u00e3o do que da reflex\u00e3o, a participar no complexo processo de acolhimento que as sucessivas categorias de deslocados, refugiados, imigrantes, doentes, reclusos e estudantes estrangeiros requerem da sociedade e \u00e0 Igreja. Entre os laicos \u00e9 cada vez mais frequente assistir ao elogio da Igreja como &#8220;pioneira&#8221; na resposta ao acolhimento! A verdade \u00e9 para ser dita! Com efeito, \u00e9 preciso ir mais al\u00e9m! A n\u00edvel da ac\u00e7\u00e3o social a resposta dos crist\u00e3os tem-se caracterizado muito pela dispers\u00e3o de recursos, caridade espont\u00e2nea e pouco organizada, um certo assistencialismo e paternalismo cultural. Fomos &#8220;pioneiros&#8221; no primeiro acolhimento: de emerg\u00eancia, imediato, de resposta ao que nos \u00e9 pedido, mas chegou a hora de tamb\u00e9m o ser na segunda fase do acolher.<br \/>\nEsta nova fase apresenta-se mais exigente pois pede uma leitura providencial da mobilidade \u00e0 luz dos direitos humanos, uma firme postura na den\u00fancia das ilegalidades e do tr\u00e1fico de pessoas, uma especializa\u00e7\u00e3o pastoral e t\u00e9cnica, requer forma\u00e7\u00e3o b\u00edblica e teol\u00f3gica s\u00f3lida, sustentem-se como uma espiritualidade laical e obriga a uma grande capacidade de di\u00e1logo com a laicidade, com a sociedade civil e outras religi\u00f5es.<br \/>\nPor fim, espera uma viv\u00eancia da f\u00e9 que faz dos migrantes e refugiados sujeitos, sinal dos tempos, e n\u00e3o objecto. Uma &#8220;caridade de proposta&#8221; que n\u00e3o responde apenas com o cora\u00e7\u00e3o a transbordar de &#8220;compaix\u00e3o&#8221; \u00e0s necessidades concretas das pessoas, mas que lhes aponta &#8220;caminhos de raz\u00e3o&#8221;, sendas de integra\u00e7\u00e3o, de pr\u00e1tica dos direitos e deveres, e que constr\u00f3i uma &#8220;sociedade integrada&#8221; que a todos integra, acolhe, promove e distribui universalmente bem-estar e partilha os bens necess\u00e1rios para que a ningu\u00e9m falte o p\u00e3o, a sa\u00fade, o sal\u00e1rio justo, a casa, os direitos, a paz e o carinho do Deus que &#8220;acampa&#8221; no meio de n\u00f3s.<br \/>\nEle quer ser amado e servido no pobre. Ele revela-nos que &#8220;h\u00e1 mais alegria no dar do que no receber&#8221; quando algu\u00e9m se compromete com os pobres. E, a caridade crist\u00e3 olha \u00e0 vulnerabilidade, n\u00e3o \u00e0 nacionalidade! Por isso, a caridade crist\u00e3 n\u00e3o pode ter fronteiras. \u00c9 chamada pelas obras, e n\u00e3o apenas por palavras, a derrubar no sil\u00eancio dos pequenos gestos generosos do dia a dia as barreiras que muitos, hoje, pretendem erguer impedindo assim a fraternidade.<br \/>\nRui Pedro<br \/>\nDirector da Obra Cat\u00f3lica Portuguesa de Migra\u00e7\u00f5es<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mensagem por ocasi\u00e3o da Semana Nacional da C\u00e1ritas 2003<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-41","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=41"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1605,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41\/revisions\/1605"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=41"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=41"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=41"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}