{"id":4210,"date":"2020-08-13T06:49:20","date_gmt":"2020-08-13T06:49:20","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/?p=4210"},"modified":"2020-08-13T06:49:20","modified_gmt":"2020-08-13T06:49:20","slug":"escutar-para-reconciliar-a-voz-de-sara","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/escutar-para-reconciliar-a-voz-de-sara\/","title":{"rendered":"Escutar para reconciliar &#8211; a voz de Sara"},"content":{"rendered":"<div dir=\"auto\">Nasci em Angola, em Junho de 1975, em pleno conflito armado. Da fuga da minha fam\u00edlia para Portugal n\u00e3o me recordo, apenas sei que escapamos \u00e0 morte por sorte.<\/div>\n<div dir=\"auto\">\u00a0As primeiras mem\u00f3rias que tenho s\u00e3o dos meus quatro anos. Por essa altura, viv\u00edamos o meu pai, a minha m\u00e3e, eu e o meu irm\u00e3o num quarto de uma pens\u00e3o, em Ovar. Nesse quarto t\u00ednhamos todos os nossos pertences ( que n\u00e3o eram muitos). Foram tempos muito dif\u00edceis. Felizmente, em 1980, os meus pais arranjaram emprego em Lisboa e puderam, a muito custo, comprar uma casa na margem sul do Tejo. \u00c9 aqui, j\u00e1 com cinco anos, que tomo consci\u00eancia de que era de &#8221; cor&#8221;.<\/div>\n<div dir=\"auto\">Eu o meu irm\u00e3o estud\u00e1vamos num col\u00e9gio onde \u00e9ramos as \u00fanicas crian\u00e7as negras. Recordo -me perfeitamente de ouvir a minha professora dizer a outra: &#8211; a preta \u00e9 inteligente. Na altura n\u00e3o tive a no\u00e7\u00e3o do alcance do coment\u00e1rio. Depois come\u00e7aram os insultos dos colegas, que gozavam com o meu cabelo, a minha cor e me mandavam para a minha terra. E eu n\u00e3o percebia, para mim nunca tinha tido &#8220;cor&#8221;, era apenas eu. Depois disto comecei a assimilar que\u00a0 me viam como uma pessoa diferente apenas pelo meu tom de pele. Foram muitas as vezes que fui alvo de racismo e do que hoje chamam buliyng. No entanto, os meus pais sempre ensinaram, quer a mim, quer ao meu irm\u00e3o\u00a0 a termos orgulho da nossa cor e origem e aos poucos deixou de me incomodar.<\/div>\n<div dir=\"auto\">Hoje, com 45 anos, posso dizer que continuo a pensar em mim apenas como uma pessoa. Sou descendente de Portugueses, tanto do lado paterno como materno. Vivi sempre, porque j\u00e1 os meus pais assim viveram, mesmo antes da sua fuga para Portugal, no meio das duas culturas, sem nunca me sentir mais portuguesa ou mais angolana. E isto \u00e9 algo dif\u00edcil de explicar. Abra\u00e7o a cultura do pa\u00eds em que nasci, porque assim me foi incutido e estou perfeitamente integrada neste pa\u00eds que me acolheu.<\/div>\n<div dir=\"auto\">\u00a0Se me perguntarem se em Portugal h\u00e1 racismo, direi infelizmente que sim. Ainda somos olhados de lado, preteridos no que refere ao emprego e algumas vezes insultados. Existe racismo, ainda que encapuzado, pois existe a vergonha de o admitir.<\/div>\n<div dir=\"auto\">Dir\u00e3o que sou &#8220;sem terra&#8221;, eu direi que tenho o melhor dos dois mundos, sem sentir a necessidade de escolher.<\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<div dir=\"auto\">texto: Sara Lopes<\/div>\n<div dir=\"auto\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Luis David<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vivi sempre, porque j\u00e1 os meus pais assim viveram, mesmo antes da sua fuga para Portugal, no meio das duas culturas, sem nunca me sentir mais portuguesa ou mais angolana. E isto \u00e9 algo dif\u00edcil de explicar.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":4211,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[39,12,5,24],"tags":[],"class_list":["post-4210","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-campanhas","category-documentos","category-semana-nacional-de-migracoes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4210","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4210"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4210\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4215,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4210\/revisions\/4215"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4211"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4210"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4210"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4210"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}