{"id":48,"date":"2002-07-01T00:00:00","date_gmt":"2002-07-01T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2015-05-22T15:51:03","modified_gmt":"2015-05-22T15:51:03","slug":"uma-decada-que-transformou-portugal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/uma-decada-que-transformou-portugal\/","title":{"rendered":"Uma d\u00e9cada que transformou Portugal"},"content":{"rendered":"<p>Migra\u00e7\u00f5es &#8211; Uma d\u00e9cada que transformou Portugal<br \/>\nQuando em 1984 fui chamado para trabalhar, em Lisboa, na pastoral das migra\u00e7\u00f5es como director nacional da OCPM, toda a experi\u00eancia por mim adquirida e, em geral, a que possu\u00eda a Igreja em Portugal localizava-se na emigra\u00e7\u00e3o portuguesa no estrangeiro e suas consequ\u00eancias no nosso pa\u00eds.<br \/>\nO n\u00famero inacredit\u00e1vel de compatriotas no exterior do pa\u00eds, arrastando dificuldades e problemas, diferentes conforme o pa\u00eds onde se encontravam, mas comuns em gravidade e dura\u00e7\u00e3o, alimentava profundas preocupa\u00e7\u00f5es \u00e0 Igreja e desgastava o melhor da sua energia e dos seus meios. Separa\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, ilegalidades de estadia e trabalho, riscos de viagem, explora\u00e7\u00e3o dos passadores e dos empregadores, condi\u00e7\u00f5es desumanas de habita\u00e7\u00e3o, ignor\u00e2ncia das leis e das protec\u00e7\u00f5es legais a que tinham direito, rupturas ps\u00edquicas e morais resultantes de fortes tens\u00f5es nervosas, o atendimento espiritual a tantas comunidades de emigrantes, eram algumas das muitas necessidades a que a Igreja devia dar resposta ou promover respostas adequadas, sem o conseguir devidamente.<br \/>\nA OCPM aplicou-se com denodo, at\u00e9 ao in\u00edcio da d\u00e9cada de 90, na procura de agentes pastorais que servissem nas importantes comunidades de emigrantes, muitas insistentes e at\u00e9 agressivas na exig\u00eancia de sacerdotes. Tent\u00e1mos convencer os bispos desses pa\u00edses, dada a falta cr\u00f3nica de padres portugueses, a disponibilizar sacerdotes que viessem aprender a l\u00edngua e os nossos costumes durante curtas estadias em Portugal que serviriam de est\u00e1gio para depois poderem servir as nossas comunidades nos seus pa\u00edses. Entretanto, procur\u00e1vamos de v\u00e1rios modos, contactar essas comunidades portuguesas com visitas pastorais, presen\u00e7a nas festas de Nossa Senhora de F\u00e1tima, participa\u00e7\u00e3o nos jornais da emigra\u00e7\u00e3o portuguesa, programas de r\u00e1dio internacional, transmiss\u00e3o da missa dominical na RTP internacional, correspond\u00eancia intensa com emigrantes, etc. Este esfor\u00e7o era cada vez mais posto em causa por muitas pessoas, levantando d\u00favidas igualmente \u00e0 nossa Hierarquia sobre a sua utilidade e necessidade actual. A concess\u00e3o de mais padres, mesmo tempor\u00e1ria e limitadamente, foi cancelada ap\u00f3s os nossos bispos considerarem convictamente que os portugueses estavam definitivamente integrados nos v\u00e1rios pa\u00edses onde residiam, sem necessidade de mais ligames com a Igreja de origem. A continuidade da Obra de Migra\u00e7\u00f5es come\u00e7ava a n\u00e3o se justificar e a sua caducidade tornava-se evidente dada a nova mentalidade sobre o assunto.<br \/>\nEis, contudo, nesses mesmos anos 90, a emerg\u00eancia de um novo fen\u00f3meno migrat\u00f3rio com tra\u00e7os surpreendentes de crescimento r\u00e1pido e sinais de tr\u00e1gica urg\u00eancia: milhares de cidad\u00e3os africanos, dos pa\u00edses de l\u00edngua portuguesa procuram no nosso pa\u00eds paz e p\u00e3o. Os fluxos crescem, ningu\u00e9m aqui est\u00e1 preparado para os acolher. Essas ondas de imigra\u00e7\u00e3o diversificam de origem: v\u00eam agora do Brasil, de outros pa\u00edses africanos, do M\u00e9dio Oriente, da \u00c1sia. Incomodado este pa\u00eds pela clandestinidade de tanta gente, decidiu o governo um per\u00edodo extraordin\u00e1rio de legaliza\u00e7\u00e3o ao qual a OCPM prestou o seu melhor apoio, mas, no seu termo, deixou-nos um amargo sabor de fruto inacabado e ineficaz. Passados poucos anos um 2\u00ba per\u00edodo de legaliza\u00e7\u00e3o se apresenta, agora com uma participa\u00e7\u00e3o mais aberta dos pr\u00f3prios imigrantes e suas associa\u00e7\u00f5es, assim como da Igreja (por v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es e organiza\u00e7\u00f5es pastorais e de solidariedade social) e dos sindicatos. O esfor\u00e7o, levado ao seu extremo, foi extenuante. A sensa\u00e7\u00e3o final foi a de que, Portugal, uma vez atingido pela imigra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se libertar\u00e1 de clandestinos e ilegais pelo processo de per\u00edodos de legaliza\u00e7\u00e3o. A partir de ent\u00e3o, a imigra\u00e7\u00e3o faz parte da nossa paisagem.<br \/>\nOs problemas sociais trazidos pela imigra\u00e7\u00e3o foram crescendo em n\u00famero e gravidade. A OCPM n\u00e3o quis passar ao lado das situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia que surgiram. A Igreja apoiou e contribuiu com a sua ajuda. O Estado confiou na Obra de Migra\u00e7\u00f5es e esta organizou com associa\u00e7\u00f5es de imigrantes uma rede de pequenos apoios de v\u00e1ria ordem: satisfa\u00e7\u00e3o de necessidades prim\u00e1rias, esclarecimentos sobre direitos, forma\u00e7\u00e3o, acompanhamento de crian\u00e7as, procura de trabalho e habita\u00e7\u00e3o e, sobretudo, legaliza\u00e7\u00e3o de pessoas. O trabalho foi enorme e t\u00e3o exigente que se levantaram vozes de resist\u00eancia mesmo no seio da Igreja.<br \/>\nQuando em 2000 chegou a hora de passar o testemunho para o meu sucessor disse-lhe: &#8220;A Obra de Migra\u00e7\u00f5es n\u00e3o est\u00e1 prestes a desaparecer pois as migra\u00e7\u00f5es n\u00e3o tendem a diminuir. Recebes sim, uma &#8216;uma panela a ferver em total ebuli\u00e7\u00e3o&#8217;.&#8221;<br \/>\nPe. Manuel Soares<br \/>\nEx-Director da Obra Cat\u00f3lica Portuguesa de Migra\u00e7\u00f5es<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Palavra do Pe. Manuel Soares, ex-director nacional da OCPM<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-48","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-quem-somos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=48"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1620,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48\/revisions\/1620"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=48"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=48"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=48"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}