{"id":69,"date":"2001-07-08T00:00:00","date_gmt":"2001-07-08T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2015-05-28T11:55:19","modified_gmt":"2015-05-28T11:55:19","slug":"o-acolhimento-nasce-de-um-olhar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/o-acolhimento-nasce-de-um-olhar\/","title":{"rendered":"O Acolhimento nasce de um olhar"},"content":{"rendered":"<p><strong>PRAZER DE ACOLHER<\/strong><\/p>\n<p>Cada um de n\u00f3s, eterno itinerante sedento de vida, j\u00e1 fez a maravilhosa experi\u00eancia de ser bem acolhido por algu\u00e9m \u2013 a pessoa amada, o amigo, um estranho \u2013 ou por um grupo ou institui\u00e7\u00e3o \u2013 a fam\u00edlia, a igreja, uma reparti\u00e7\u00e3o do Estado, o bairro.<br \/>\nHa, de facto, pessoas simples que nos surpreendem muito, mesmo muito, com o seu genu\u00edno e nobre modo de acolher nas suas vidas, na pr\u00f3pria casa. Assim, n\u00e3o ha mais motivo para algu\u00e9m se sentir estrangeiro! A comunica\u00e7\u00e3o torna-se natural: um porque acolhe e o outro porque \u00e9 acolhido, ambos porque confiam!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>DEVER DE ACOLHER<\/strong><\/p>\n<p>Os bispos portugueses, \u00e0\u00a0luz da miss\u00e3o libertadora da Igreja numa \u201csociedade em crise de civiliza\u00e7\u00e3o\u201d, decidiram finalmente, em palavra colegial, intervir no urgente debate p\u00fablico sobre a imigra\u00e7\u00e3o, com a Nota de 13 de Junho de 2001. Apelam \u00e0 boa pratica do acolhimento para com os imigrantes como caminho de integra\u00e7\u00e3o e testemunho de caridade.<br \/>\nNa Nota Pastoral, os bispos al\u00e9m de elogiar e enaltecer a ac\u00e7\u00e3o daquela minoria de gente que, desde a primeira hora tem estado ao lado dos imigrantes, e acolher algumas medidas positivos da recente legisla\u00e7\u00e3o do Governo, passam a apresentar as suas reais preocupa\u00e7\u00f5es quanto as dificuldades que os imigrantes est\u00e3o a atravessar relativamente ao &#8220;estatuto de perman\u00eancia&#8221;, ao \u201creagrupamento familiar\u201d e a falta de condi\u00e7\u00f5es para exercer os direitos proclamados e outros impedimentos que tem a ver com a regulariza\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o laboral, causada pela corrup\u00e7\u00e3o vigente no sector da economia portuguesa.<br \/>\nOs bispos querem, com a sua palavra e ac\u00e7\u00e3o, num Portugal e numa Europa em \u201cprocesso de acelera\u00e7\u00e3o migrat\u00f3ria\u201d, incentivar as comunidades crist\u00e3s a trabalharem na \u201cliberta\u00e7\u00e3o\u201d de imigrantes injusti\u00e7ados pela \u201cdepend\u00eancia esclavagista\u201d, ilegalidade for\u00e7ada e xenofobia atrav\u00e9s do acolhimento concreto, com estruturas id\u00f3neas e eficazes de favore\u00e7am a inser\u00e7\u00e3o.<br \/>\nSeguem alguns pressupostos para bem acolher na comunidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ASSUMIR AS TENS\u00d5ES DA SITUA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>Acolher os imigrantes com as tens\u00f5es e diversidade que habita a mobilidade humana.<br \/>\nA migra\u00e7\u00e3o \u00e9\u00a0um mundo muito complexo,\u00a0\u00e0s vezes demasiado intolerante, que exige conhecimento e estudo. E mundo cheio de hist\u00f3rias, muitas delas dif\u00edceis de narrar e outras mal contadas porque repletas de sofrimento familiar, indignidade e ilegalidade. Um fen\u00f3meno que exige distinto tratamento e diversidade no pr\u00f3prio acolher: os africanos que partilham connosco a l\u00edngua, as feridas da coloniza\u00e7\u00e3o, e que est\u00e3o melhor organizados em associa\u00e7\u00f5es, e testemunham um processo de integra\u00e7\u00e3o que j\u00e1 vai na segunda gera\u00e7\u00e3o; as \u201cminorias\u201d asi\u00e1ticas &#8211; chinesa, indiana, paquistanesa entre outras \u2013 que parecem quase invis\u00edveis e das quais conhecemos bem pouco, e de algumas apenas a gastronomia; os brasileiros e sul-americanos, por quem nutrimos uma grande simpatia, que multiplicam a sua presen\u00e7a entre n\u00f3s e s\u00e3o preferidos para a hotelaria e restaura\u00e7\u00e3o; e os muito falados europeus de leste \u2013 da Ucr\u00e2nia, Moldavos, Rom\u00e9nia, R\u00fassia e Bulg\u00e1ria \u2013 , rec\u00e9m-chegados desconhecem a l\u00edngua, ludibriados por redes e ag\u00eancias de recrutamento querem emancipar-se, e que alimentam as prementes necessidades de trabalho nas obras, desde o norte as ilhas do pais.<br \/>\n\u00c9\u00a0preciso investir no conhecimento da diversidade de situa\u00e7\u00f5es, mas a mesma meta: a conviv\u00eancia pac\u00edfica, integra\u00e7\u00e3o no trabalho, na sociedade e na igreja, preven\u00e7\u00e3o da xenofobia e racismo, corresponsabiliza\u00e7ao nos deveres e direitos.<br \/>\n<strong>A\u00a0IMIGRA\u00c7\u00c3O\u00a0COMO DOM E UMA\u00a0<\/strong><b>B\u00caN\u00c7\u00c3O<\/b><\/p>\n<p>Acolher os imigrantes como excelente dom para a universalidade e bem de renova\u00e7\u00e3o da fraternidade<br \/>\nS\u00e3o dom que tem de ser acolhido com justi\u00e7a e gratid\u00e3o. Por\u00e9m, em todos, h\u00e1 preconceitos a abater. Em n\u00f3s: n\u00e3o ver no imigrante apenas o pobre a acolher ou a desfrutar, bra\u00e7os de trabalho a usar para proveito nacional, mas o cidad\u00e3o embaixador a estimar, que \u00e9\u00a0portador de uma nova cultura, l\u00edngua, valores, dignidade e uma religiosidade \u00e0\u00a0escala ecum\u00e9nica que vem renovar e enriquecer o nosso modelo de estar no mundo. Uma pessoa que deixou a terra, porque anseia o mesmo que eu. S\u00e3o almas fortes, romances de amor, fam\u00edlias que querem dar o melhor aos filhos, s\u00e3o o sonho de uma casa pr\u00f3pria, a tr\u00e1gica luta contra a doen\u00e7a, o direito \u201croubado\u201d de estudar e de um trabalho e sal\u00e1rio justo. Urge criar na sociedade portuguesa uma consci\u00eancia nova em rela\u00e7\u00e3o \u00e0\u00a0migra\u00e7\u00e3o, no seu duplo movimento, entre as \u201cduas rotas\u201d.<br \/>\n<strong>ACOLHER PORQUE SOMOS ACOLHIDOS<\/strong><\/p>\n<p>Acolher os imigrantes aqui, com maior humanismo e justi\u00e7a do que fomos e somos acolhidos no estrangeiro.<br \/>\nTodos dizem que temos uma grande experi\u00eancia de povo emigrante, mas ao olhar para o modo como nos estamos movendo pol\u00edtica e eclesialmente com os imigrantes fico com a impress\u00e3o de que a secular experi\u00eancia tarda a tornar-se pol\u00edtica, sabedoria, pastoral, mentalidade?<br \/>\n\u00c9\u00a0preciso implementar um maior di\u00e1logo com as igrejas de origem para reciproca informa\u00e7\u00e3o, colabora\u00e7\u00e3o, acompanhamento espiritual, forma\u00e7\u00e3o por forma a combater as causas da imigra\u00e7\u00e3o e os intermedi\u00e1rios sem escr\u00fapulos. \u00c9\u00a0preciso formar nas comunidades crist\u00e3s, sacerdotes e leigos preparados, para acolher bem atrav\u00e9s de um leque de iniciativas pr\u00f3prias em defesa da fam\u00edlia, da sa\u00fade, da cultura, da l\u00edngua, da legalidade e das v\u00edtimas do tr\u00e1fico de pessoas.<br \/>\nQue nunca faltem aos imigrantes os capel\u00e3es, os meios adequados, os espa\u00e7os e hor\u00e1rios dignos para que possam reunir-se livremente, celebrar o Deus da Paz, entre-ajudarem-se na forma\u00e7\u00e3o da F\u00e9 e da cidadania.<br \/>\nAssim, fazendo descobriremos quanto os pobres nos podem evangelizar, quanto o Evangelho \u00e9\u00a0fermento de fraternidade e, ao sentirmo-nos acolhidos por quem \u201cperegrina\u201d, nas suas hist\u00f3rias, nos seus apartamentos, nas suas terras um dia, compreenderemos a beleza do acolher bem, em nome de Jesus Cristo!<\/p>\n<p>Rui Pedro<br \/>\nMilano, 8 de Julho de 2001<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Opini\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1677,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[5,22],"tags":[],"class_list":["post-69","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","category-orientacoes-pastorais"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=69"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1678,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69\/revisions\/1678"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1677"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=69"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=69"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=69"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}