{"id":787,"date":"2005-03-09T00:00:00","date_gmt":"2005-03-09T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2015-05-28T14:49:31","modified_gmt":"2015-05-28T14:49:31","slug":"linhas-fundamentais-da-accao-da-igreja-nas-migracoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/linhas-fundamentais-da-accao-da-igreja-nas-migracoes\/","title":{"rendered":"Linhas fundamentais da Ac\u00e7\u00e3o da Igreja nas Migra\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>Agrade\u00e7o aos organizadores desta manifesta\u00e7\u00e3o por me terem dado a possibilidade de tra\u00e7ar em grandes linhas, as numerosas interven\u00e7\u00f5es da Igreja em favor dos migrantes.<br \/>\nDe facto, o fen\u00f3meno da Mobilidade humana esteve constantemente no centro dos cuidados da Santa S\u00e9, com interven\u00e7\u00f5es que evidenciam quer a profundidade de leitura desta not\u00e1vel realidade social, quer a capacidade de propostas pastorais, em vista de uma plena aceita\u00e7\u00e3o do estrangeiro e do seu patrim\u00f3nio cultural e religioso.<br \/>\nDe uma inicial atitude alarmista, perante os numerosos perigos impl\u00edcitos, passou-se a ver tamb\u00e9m nestes, as potencialidades espirituais e culturais, segundo o plano divino da hist\u00f3ria, sem contudo desconhecer o custo humano da experi\u00eancia migrat\u00f3ria e as suas m\u00faltiplas incid\u00eancias sociais, econ\u00f3micas e pol\u00edticas.<br \/>\nAssim, depois da segunda guerra mundial, enquanto em algumas Na\u00e7\u00f5es eram encaminhadas v\u00e1rias iniciativas assistenciais e religiosas para os migrantes, sentia-se a necessidade de uma interven\u00e7\u00e3o particular da Santa S\u00e9, que relan\u00e7asse e organizasse o vasto e complexo campo da pastoral e da assist\u00eancia religiosa a este respeito.<br \/>\nA interven\u00e7\u00e3o concretizou-se na Constitui\u00e7\u00e3o \u201cExsul Fam\u00edlia\u201d, de Pio XII, em Agosto de 1952. Com este documento, o Papa tornou-se o promotor, sobretudo, de uma reestrutura\u00e7\u00e3o da assist\u00eancia aos migrantes das v\u00e1rias nacionalidades, estabelecendo uma disciplina comum e universal na Igreja cat\u00f3lica. Por este motivo a \u201cExsul Fam\u00edlia\u201d \u00e9 considerada a \u201cmagna charta\u201d do pensamento da Igreja sobre as migra\u00e7\u00f5es: e \u00e9, de facto, o primeiro documento oficial da Santa S\u00e9 que delineia, de modo global e sistem\u00e1tico, do ponto de vista hist\u00f3rico e can\u00f3nico, a pastoral para a assist\u00eancia espiritual dos migrantes.<br \/>\nNo plano dos princ\u00edpios, o Documento afirmava que a assist\u00eancia seria executada por sacerdotes da mesma l\u00edngua ou nacionalidade dos migrantes, adequadamente preparados e sob a autoridade do Ordin\u00e1rio do lugar.<br \/>\nEntre os instrumentos pastorais recomenda-se a erec\u00e7\u00e3o de par\u00f3quias nacionais e de \u201cmissio cum cura animarum\u201d, na qual \u201cos poderes\u201d do mission\u00e1rio resultam cumulativos aos do p\u00e1roco local. O problema \u00e9tnico tinha entrado ent\u00e3o na \u201cadministra\u00e7\u00e3o\u201d da Igreja universal, ainda que numa \u00f3ptica estritamente institucional. Introduziam-se substancialmente elementos de pluralismo na assist\u00eancia aos migrantes, contra a tend\u00eancia para uma imediata assimila\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica da pastoral praticada por muitos Episcopados de acolhimento dos migrantes.<br \/>\n\u00c0 luz da hist\u00f3ria pode, com certeza, observar-se no documento algumas lacunas: assim, o empenhamento dos religiosos e das religiosas n\u00e3o aparece evidenciado na peculiaridade da sua contribui\u00e7\u00e3o e os leigos n\u00e3o t\u00eam particular relevo na parte normativa. Mas o maior limite est\u00e1 na norma que limita a \u201ccura pastoral\u201d espec\u00edfica para os migrantes somente at\u00e9 \u00e1 segunda gera\u00e7\u00e3o, dando, assim, por conclu\u00eddo, o processo de inser\u00e7\u00e3o eclesial.<br \/>\nEstas lacunas ser\u00e3o corrigidas por sucessivas interven\u00e7\u00f5es do Magist\u00e9rio eclesial. Assim, nos anos sessenta, a Igreja procurar\u00e1 dar resposta \u00e0s numerosas altera\u00e7\u00f5es que, em continuidade, rep\u00f5em o quadro complexo das migra\u00e7\u00f5es internacionais, ou seja o processo de integra\u00e7\u00e3o europeia, a estabiliza\u00e7\u00e3o dos fluxos migrat\u00f3rios intra-europeus, o surto e a difus\u00e3o da migra\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses do Terceiro Mundo, o aparecimento de algumas metas migrat\u00f3rias em alguns pa\u00edses de r\u00e1pida expans\u00e3o da \u00e1rea do petr\u00f3leo e da explos\u00e3o do fen\u00f4meno maci\u00e7o dos refugiados nas regi\u00f5es de tens\u00e3o internacional.<br \/>\nS\u00e3o estes, os anos que marcam a grande \u00e9poca do Conc\u00edlio, da renova\u00e7\u00e3o nas estruturas da Igreja e do seu renovado empenho de evangeliza\u00e7\u00e3o. A Igreja confronta-se com a nova realidade do mundo contempor\u00e2neo com um novo esp\u00edrito de colabora\u00e7\u00e3o, vendo nos fen\u00f3menos salientes do mundo os \u201csinais dos tempos\u201d, \u00e0 luz da Palavra de Deus e do Magist\u00e9rio.<br \/>\nAssim, tamb\u00e9m os problemas migrat\u00f3rios encontram no Conc\u00edlio a sua coloca\u00e7\u00e3o. Se insistir\u00e1 sobre a dignidade, os direitos do migrante e sobre a dimens\u00e3o cultural do fen\u00f3meno migrat\u00f3rio; se denunciar\u00e3o as causas das velhas e novas migra\u00e7\u00f5es e, isto \u00e9, o desenvolvimento desordenado da economia e certas op\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-econ\u00f3micas; se exprimir\u00e1 a convic\u00e7\u00e3o de que a Igreja, na sua catolicidade, poder\u00e1 tornar-se sinal e instrumento de novas ordens, tamb\u00e9m em favor dos migrantes.<br \/>\nO relan\u00e7amento conciliar levar\u00e1 ent\u00e3o a um empenhamento das Igrejas particulares, que, cada vez mais, debater\u00e3o o problema migrat\u00f3rio no seu interior, e preparar\u00e3o adequados meios de interven\u00e7\u00e3o, sentindo-se j\u00e1 primeiras respons\u00e1veis pelo fen\u00f3meno.\u00a0O Conc\u00edlio Vaticano II e os documentos sociais de Paulo VI j\u00e1 tinham pois, lan\u00e7ado as bases de uma actualiza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m da pastoral migrat\u00f3ria, em rela\u00e7\u00e3o aos temas fundamentais da Igreja, do desenvolvimento e da paz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Enquanto a n\u00edvel nacional surgiam e se consolidavam as v\u00e1rias Confer\u00eancias Episcopais e os organismos especializados para a migra\u00e7\u00e3o, era considerada oportuna, tamb\u00e9m a n\u00edvel central, uma reformula\u00e7\u00e3o de toda a mat\u00e9ria, coisa que se fez com o Moto Pr\u00f3prio \u201cPastoralis migratorum cura\u201d, de 1969. Os dois documentos referem-se \u00e0 complexa problem\u00e1tica da mobilidade contempor\u00e2nea. No processo de integra\u00e7\u00e3o na sociedade de acolhimento dever\u00e1 rejeitar-se uma assimila\u00e7\u00e3o passiva e uma integra\u00e7\u00e3o acr\u00edtica e danosa para o indiv\u00edduo e para o grupo \u00e9tnico. O imigrante dever\u00e1 ser respeitado como tal, com todas as suas formas expressivas, culturais, sociais e religiosas. A emigra\u00e7\u00e3o comporta direitos e deveres e o primeiro \u00e9 o direito de emigrar, ao qual corresponde o dever de contribuir lealmente, por parte do migrante, para o desenvolvimento do pa\u00eds de acolhimento.<\/p>\n<p>Tal ensinamento ser\u00e1 retomado nas frequentes solicita\u00e7\u00f5es de Jo\u00e3o Paulo II (particularmente sens\u00edvel aos problemas religiosos e culturais dos migrantes) o qual, nas enc\u00edclicas e nos seus numerosos discursos lan\u00e7ou constantes apelos \u00e0 solidariedade humana e crist\u00e3 para com os migrantes.<br \/>\nCom base na colegialidade, em sentido largo, como aludimos acima, s\u00e3o enfim as Confer\u00eancias Episcopais das Na\u00e7\u00f5es particulares, as primeiras respons\u00e1veis pela coordena\u00e7\u00e3o da pastoral dos migrantes. Al\u00e9m disso, para o apelo \u00e0 participa\u00e7\u00e3o efetiva de todas as componentes eclesiais \u00e0 evangeliza\u00e7\u00e3o, segundo a voca\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria de cada um, s\u00e3o contudo os leigos, os religiosos e as Institui\u00e7\u00f5es eclesi\u00e1sticas antigas e os movimentos novos que, juntos, devem fazer frente aos problemas criados pelos fluxos de popula\u00e7\u00f5es provenientes de \u00e1reas cada vez mais distantes, no consequente confronto intercultural e inter-religioso.<br \/>\nO quadro dos intervenientes a favor dos migrantes enriquecia-se em 1970, de estruturas espec\u00edficas com a cria\u00e7\u00e3o, por parte de Paulo VI, da Comiss\u00e3o Pontif\u00edcia para a Pastoral das Migra\u00e7\u00f5es e do Turismo (transformada em 1989, no atual Conselho Pontif\u00edcio para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes) ao qual foram confiados importantes deveres de coordena\u00e7\u00e3o, anima\u00e7\u00e3o e est\u00edmulo, no que diz respeito, sobretudo, \u00e0s Confer\u00eancias Episcopais individuais. Tamb\u00e9m muitos S\u00ednodos diocesanos, referentes ao problema e \u00e1 pastoral migrat\u00f3ria, demonstram o crescimento de sensibilidade para a inser\u00e7\u00e3o dos migrantes na vida comunit\u00e1ria, civil e eclesial.<br \/>\nJo\u00e3o Paulo II, nas suas frequentes interven\u00e7\u00f5es sobre a problem\u00e1tica \u2013 humana, social e religiosa \u2013 da migra\u00e7\u00e3o, deu e continua a dar este fen\u00f3meno, hoje cada vez mais vis\u00edvel, uma particular marca pessoal, caracterizada pelo forte humanismo das suas enc\u00edclicas. A defesa dos direitos fundamentais da pessoa humana torna-se uma das vias privilegiadas atrav\u00e9s da qual tamb\u00e9m se exprime o an\u00fancio evang\u00e9lico. O patrim\u00f3nio cultural pr\u00f3prio de cada grupo \u00e9tnico assume assim um v\u00ednculo especial com a mensagem crist\u00e3, a fim de encarn\u00e1-lo. Portanto, a defesa da heran\u00e7a cultural de um povo \u00e9, de certo modo, protec\u00e7\u00e3o daquilo que o distingue na sua evolu\u00e7\u00e3o e caracteriza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, em estreita rela\u00e7\u00e3o entre f\u00e9, cultura e civilidade.<br \/>\n\u201cExsul Fam\u00edlia\u201d, \u201cGaudium et Spes\u201d, \u201cPastoralis Migratorum cura\u201d, e agora \u201cErga migrantes caritas Christi\u201d: a sucess\u00e3o das interven\u00e7\u00f5es do Magist\u00e9rio da Igreja \u00e9 impressionante. Em v\u00e1rios momentos a Igreja ofereceu ao mundo passos decisivos da sua Doutrina Social tais como: a centralidade da pessoa, a defesa dos direitos fundamentais do homem, a tutela e a valoriza\u00e7\u00e3o das minorias na sociedade civil e eclesial, o valor das culturas na obra de evangeliza\u00e7\u00e3o, a contribui\u00e7\u00e3o das migra\u00e7\u00f5es para a pacifica\u00e7\u00e3o universal, a dimens\u00e3o eclesial e mission\u00e1ria do fen\u00f3meno migrat\u00f3rio, a import\u00e2ncia do di\u00e1logo e do confronto no interior da sociedade civil, da comunidade eclesial e entre as diversas confiss\u00f5es e religi\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A Igreja est\u00e1 interessada e \u00e9\u00a0sol\u00edcita para com todas as categorias da mobilidade humana: al\u00e9m dos migrantes, econ\u00f3micos e pol\u00edticos, refiro-me aos refugiados, aos turistas e peregrinos, aos mar\u00edtimos, ao povo \u201crom\u201d e \u201csinti\u201d (ciganos), aos circenses e \u201cfeirantes\u201d e aos estudantes estrangeiros. Elas t\u00eam empreendido um confronto e um di\u00e1logo com o Isl\u00e3o, com migrantes mu\u00e7ulmanos e de outras confiss\u00f5es religiosas. No seu interior, tem \u201cdespertado\u201d os leigos crist\u00e3os, chamando-os a uma responsabilidade concreta de anima\u00e7\u00e3o nas suas comunidades em comunh\u00e3o profunda com os seus bispos e sacerdotes; tem criado estruturas pastorais para o servi\u00e7o religioso dos migrantes; tem elaborado novos modelos operativos, em vista de uma presen\u00e7a mais incisiva no territ\u00f3rio e na constru\u00e7\u00e3o de comunidades integradas; tem exposto, enfim, uma dimens\u00e3o universal e mission\u00e1ria \u00e0 ac\u00e7\u00e3o pastoral, no momento em que o pluralismo \u00e9tnico e cultural se est\u00e1 tornando tra\u00e7o caracter\u00edstico da sociedade hodierna.<br \/>\nPortanto, a Igreja, n\u00e3o olha somente para si mesma. Ela olha para o mundo inteiro, ela tem diante de si todos os homens e mulheres, de cada cor, ra\u00e7a, nacionalidade e religi\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com a nova Instru\u00e7\u00e3o \u201cErga migrantes caritas Christi\u201d, a comunidade eclesial toma cada vez mais consci\u00eancia da sua miss\u00e3o universal no mundo e na hist\u00f3ria, diante de Deus e dos homens, confiante que os migrantes ser\u00e3o finalmente instrumentos de unidade e de paz, num mundo cada vez mais unido, no bem, e solid\u00e1rio.<br \/>\n(Interven\u00e7\u00e3o do Cardeal Stephen Fumio Hamao, Presidente do Conselho Pontif\u00edcio para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes, na abertura da Peregrina\u00e7\u00e3o Internacional do Migrante e Refugiado a F\u00e1tima, 12 e 13 de Agosto de 2004, integrada na XXXII Semana Nacional de Migra\u00e7\u00f5es \u201cConsolidar a Paz para n\u00e3o ter que emigrar\u201d).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Card. Hamao na Peregrina\u00e7\u00e3o do Migrante a F\u00e1tima<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[5,22],"tags":[],"class_list":["post-787","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","category-orientacoes-pastorais"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/787","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=787"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/787\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1702,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/787\/revisions\/1702"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=787"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=787"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/ocpm\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=787"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}