CARAVANA 95 - EDITORIAL

CARAVANA 95 - EDITORIAL

O GRITO, PARTICIPAÇÃO, ESPERANÇA

Estes são os temas principais do presente número da Caravana.

O grito dos ciganos nómadas no Alentejo ouvidos, escutados, percebidos, ecoados por alguém cujo coração é, simplesmente, humano. Não é que quem tem autoridade eleita, administrativa ou moral não seja humano, apenas anda distraído e a eficácia das soluções não está na sua descrição de funções, não está no seu coração. Quem ouvirá este grito dos ciganos nómadas compulsivos no Alentejo, que andam escorraçados de terra em terra porque não têm casa, nem um pedaço de terreno onde possam poisar, onde possam existir como cidadãos - cocidadãos nossos? Quem encontrará ou se interessará por encontrar, ou clamará até se encontrar uma solução, além do subscritor deste grito?

 

A União Europeia está interessada em resolver a situação de exclusão social das populações ciganas na Europa. Investiu fundos substanciais. Por proposta da eurodeputada cigana húngara Lívia Járóka, lançou o Quadro Europeu das Estratégias Nacionais para a Inclusão Social da População Cigana 2011-2020. Mas, como a efetiva inclusão das populações ciganas tarda, decidiu "auscultar as bases", ciganas e não só. Daí nasceram iniciativas de chamar a sociedade civil e ONGs ciganas e comprometidas com os ciganos no terreno, para saber que progressos existem ou não no esforço de inclusão social das populações ciganas que são a maior minoria da UE e por isso o elo mais importante para alcançar a coesão social, um dos três pilares constitutivos da própria UE.

 

A esperança que a muito interessante entrevista da Vice-presidente da AMUCIP (Associação para o Desenvolvimento das Mulheres Ciganas Portuguesas), Sónia Matos, revela, sobre a valia do associativismo cigano e os resultados que o apoio financeiro da UE através dos seus "focal points" nacionais, neste caso o ACM (Alto Comissariado para as Migrações) pode alcançar, é prenúncio de que, vagarosamente, por vezes, hesitantemente, algo está a mudar e pode mudar no apoio à inclusão das comunidades ciganas e à capacitação dos seus líderes. Assim rememos todos para o mesmo lado, envolvendo os próprios interessados, como Sónia tão bem preconiza, porque, afinal serão sempre eles os destinatários da evolução: porque não hão de ser  à partida os seus autores e atores?

Francisco Monteiro