CARAVANA 96 - EDITORIAL

CARAVANA 96 - EDITORIAL

Pela conjuntura pandémica em que vivemos, este número da Caravana sai com um considerável atraso de que pedimos desculpa aos leitores. Talvez pelas grandes dificuldades que a pandemia causou a tão vastos segmentos da população mundial, sobretudo aos mais desprotegidos, não faltam temas nem causas que, de alguma forma, são refletidas nestas páginas. Queremos, no entanto, começar por referir uma iniciativa muito recente que, por isso, não está detalhada nestas páginas, e que consideramos muito significativa. No Governo atual foi criada a Secretaria de Estado para a Integração e as Migrações (SEIM) que tutela o Alto Comissariado para as Migrações (ACM). Em 22 de maio a SEIM decidiu consultar os parceiros do ACM com vista à elaboração da Lei Orgânica do organismo que sucederá ao ACM, sendo o pedido subscrito pela Presidente do Conselho Diretivo do ACM, Sónia Pereira, que assumiu este cargo em fevereiro último.  Sendo o ACM um organismo tão importante para as minorias étnicas, atribuímos a maior relevância ao facto de querer ouvir a sociedade civil ou os próprios “stakeholders”, no momento da revisão da sua estrutura orgânica.

 

A pandemia ocupa um espaço importante neste número, quer pela iniciativa que partiu de uma estrutura cigana de alertar as autoridades deste país para a situação crítica das populações ciganas face aos efeitos da pandemia, iniciativa essa cuja implementação contou com a colaboração de outra estrutura cigana e acabou por unir nada menos que um total de  nove organizações ciganas, quer pela evidente atitude de apreensão de comunidades ciganas de diversos quadrantes e pelas atitudes que tomaram e que se podem sintetizar na frase que ouvimos a mais do que um interlocutor cigano: “eu cumpro com as normas” (de confinamento). Tal significa que, ao contrário de opiniões fáceis e interesseiras de anticiganismo, em Portugal os ciganos se sentem portugueses e cidadãos como quaisquer outros, conscientes das suas obrigações cívicas.

 

Francisco Monteiro